sábado, 21 de novembro de 2009

o escrever, por rosane

rosane é amiga minha. foi orientadora de duas pesquisas que desenvolvi quando cursava letras na unerj, aqui em jaraguá. foi quem me colocou no meio de tantas e tantas obras sobre leitura. foi quem me levou a perceber que a leitura pode e deve ser pensada em diferentes contextos e práticas e sujeitos. e a rosane escreve também. escreve para si. mas criou um blog, há sete meses, onde vezemquando posta alguns escritos pra lá de interessantes. e é um texto dela que lanço aqui no blog nesta postagem. não pedi a ela para colocá-lo aqui, não. mas, uma vez que está no blog dela, ou seja, à disposição de todos, é porque é público, é porque é para ser lido. e este texto, em especial, deve ser lido mesmo, por muitos, por muitos que sobrevivem com a escrita. é um dos textos metalinguísticos mais completos que li até hoje. não pelo seu tamanho, mas pelo que ele apresenta de interrogações sobre o escrever. a começar pelo título já.
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"Quem escreve para continuar a viver?
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A coisa mais importante que eu realizo sozinha e que de certa forma me deslumbra é a capacidade de gostar de escrever. Agora, ler, também.
Quando eu tinha entre sete e dez anos ainda não sabia que me comunicaria comigo mesma escrevendo.
A adolescência me transformou numa pessoa um pouco estranha. Para dizer a verdade, não sei se eu me gostava ou se a forma como eu sentia as coisas era uma tortura.
A minha vida não tem nada de excepcional. Pelo contrário, sou tão comum como qualquer outro ser humano anônimo na multidão.Os anos de minha vida foram gastos, na maioria das vezes, sem um plano prévio. Eu não me dei o dever de lutar pelo que queria e isso me tornou neurótica e sem destaque em nada. Talvez eu tenha conseguido surpreender um pouco aos outros, mas muito pouco em comparação a milhares de pessoas que realizaram grandes feitos.
Parece-me que vivi sempre medianamente. Nem escandalosamente, nem miseravelmente.
Não conheci a tristeza profunda, o abandono, a fome, a hostilidade ou o descaso. Percebo que tive o mínimo em tudo para me descrever normal na convivência em sociedade. A única coisa que me difere e deferiu, num raio de dez quilômetros, talvez, foi a necessidade de recorrer vez ou outra, dependendo do que eu vivia, a escrever.
Reconheço que não me aperfeiçoei desde o meu primeiro caderno de escrever. Acho, até, que meu discurso hoje se assemelha por demais com o que eu tinha no começo de minha adolescência. Isto me perturba, até produzir raiva de mim mesma.
Os meus anos vividos foram gastos, muito bem disfarçados, em filhos, casamentos, casa, preocupações cotidianas com dinheiro e outros eventos de um mortal comum.
Volta e meia algo acontece e torno a escrever. Parei e recomecei tantas vezes. E de todos os pensamentos, um é recorrente: por que tenho necessidade de escrever?
Há alguma coisa nas pessoas que compõem minha família que denuncia essa aproximação com o escrever: Eliane escreve tudo que faz ou que tem de fazer, numa agenda. Do tanto que escreve, uma ou outra linha é pessoal. Minha mãe conseguiu escrever um pseudo-diário. Um pouco comportado demais num primeiro olhar.
Não sei o que é, mas sinto-me confortável quando penso o quanto me faz bem a existência desse veículo que é o papel, o lápis, a ideia e a minha necessidade registradora. Algo como um mundo que se torna mais elaborado porque escrevo.
Luto, reluto, entretanto, contra algo que diminui o respeito e a admiração por minhas próprias ideias: é a má vontade de transcrever meus diários e torná-los uma possibilidade de ser lida. E logo eu me pergunto: quem há de querer ler-me? O que um leitor encontraria no que escrevo? Por que não creio na atitude desinteressada e interessada do ser humano em ler o que o outro faz, fez e que pode transformar uma vida?
* Este texto data de 01/11/2007. "
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í.ta**

6 comentários:

Simplesmente Outono disse...

Saudade dos teus olhos sobre minhas letras. Sem dúvida um grande prazer.
Com carinho.
Simplesmente Outono.

Camila. disse...

Bien, é a segunda vez que leio o que D. Rosane escreveu aí no texto.
Me emociono por saber que é ela. Que é dela.
E que está aqui.
E calma, já vou atualizar!
Vou fazer o meu vestibular...desejem-me (tu e Nicinha) sorte! Por favor!
Beijo, aura de anjo!

Simplesmente Outono disse...

É sempre bom quando te vejo por lá assim como gosto muito de estar aqui.
Com carinho, Simplesmente Outono.

Eduardo Silveira disse...

sua amiga rosana certamente teria leitores se transcrevesse seus diários, pois escreve muito bem.
Nem todos escrevem tão bem, é verdade. Nem todos são lidos por muitos.
No entanto, acho que todos aqueles que tem dentro de si, uma inquietação, um olhar diferente sobre o mundo e as pessoas deveria escrever e compartilhar.
A inquietação é um sentimento que une autor e leitor, ambos possuem esse sentimento.
Nada melhor do que escrever, dizer o que pensa, e no que não pensa.
Sempre haverá algum inquieto que se identificará

abraço, ítalo!

:)

Eduardo Silveira disse...

Rosane, Rosane!
(falha nossa!)

:P

Linda Simões disse...

Ítalo,


Muito bom texto,Rosane deveria escrever e escrever...

Ler e escrever é uma verdadeira catarse,sempre.


beijinhos pra ti