quinta-feira, 26 de novembro de 2009

algo de literário em três filmes

agora, neste post, as palavras serão sobre filmes, não livros. mas filmes que tratam de livros, de literatura, de escritores, de histórias. e de amor, é claro, como tudo o que se é produzido culturalmente.
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há pouco mais de mês, assisti ao “coração de tinta”, filme do qual tinha ouvido falar há bastante tempo, mas, preguiçoso que sou, do qual nunca havia ido atrás. até que um dia, na locadora, achei-o e peguei-o. e, meses depois, assisti a ele novamente, pois estava nos canais de filmes da tv a cabo.
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um filme que trabalha muito com o imaginário, com o fantástico no texto literário, que explora muito a metalinguagem. um filme que provém de um livro, de uma narrativa escrita, a qual ainda não encontrei para ler. mas a narrativa áudio-visual proposta no filme, até onde me entendo por leitor e telespectador, é boa, é bem conduzida, é interessante. uma história em que os personagens dos livros lidos durante ela saltam destes livros e surgem como pessoas frente a quem os lia. e quem lia estes livros de onde pulavam personagens era “mo folchart”, o protagonista da história, um “língua de fogo” que percebe tarde demais que, ao ler histórias, os personagens saíam delas para o mundo dele (daí seu apelido já citado). é a partir daí que a história se desenvolve, com cada personagem querendo seus direitos: ou de voltar para as histórias, ou de trazer outros personagens, ou usar e abusar no mundo real. e, como não poderia deixar de ser, o drama da história acontece quando folchart, ao ler a história “o coração de tinta”, e ao ver os personagens daquele livro surgindo a sua frente, vê, ao mesmo tempo, sua esposa desaparecer, sem saber para onde ela foi, pressupondo que ela tenha trocado de lugar com os personagens.
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enfim, uma boa história, bem contada, com um quê de mistério bem encaixado, e que apresenta, ao meu ver, uma boa metáfora dos leitores que somos, ou podemos ser: leitores que dão vida aos personagens.
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se “o coração de tinta” eu já conhecia, ao menos de nome, “de encontro com o amor” eu não tinha conhecimento da existência. até que nice, minha-namorada-apaixonada-por-cinema, trouxe-o para casa num final de semana, garantindo a mim que eu gostaria bastante da história.
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e, de fato, gostei demais, de tudo no filme, com exceção da tradução do nome, que em inglês é “the shadow dancer”. ou seja, nada de encontro com o amor.
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mas tudo bem. é algo superável. eu gosto muito de filmes que tratam da literatura em suas histórias. ou de algo relacionado à literatura, enfim. e “de encontro com o amor” é um desses de que eu gosto por isso. gosto limitado o meu, eu sei, mas não tenho capacidade para avaliar um filme com critério cinematográficos, então contento-me com tal escolha.
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a história deste filme envolve um editor de livros aspirante a escritor, jeremy, que parte para uma difícil missão junto a um escritor consagrado, de quem ele é ídolo: weldon parish. um escritor que, após a morte de sua esposa, há bons 20 anos, resolve abandonar a literatura, não escrevendo mais nada, e despachando editores-chatos que lhe propõem fundos de dinheiro para que ele escreva um novo romance e, consequentemente, venda muito e dê lucros à editora.
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mas parish não tem mais paciência para isso tudo. e por esse motivo mesmo coloca jeremy em situações apertadas e embaraçosas nas insistentes tentativas que o editor lançava para trocar uma palavrinha só com o renomado escritor.
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a história se desenvolve. e não serei eu a contá-la neste breve escrito. se o escritor cede um pouco ou não, se o editor desiste ou não, se a filha do escritor influencia em algo, não mais me recordo para este momento. o que ficou a mim, da história do filme, foram frases, algumas frases. como a que parish lança a jeremy, quando este pergunta ao outro porque ele não escreve mais nada há tanto tempo, no que parish lhe responde: porque eu não tenho mais nada a dizer.
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ponto. não é preciso dizer mais nada, mesmo, depois de uma frase como esta. que me fez lembrar de um texto, escrito pelo alencar, professor de literatura e integrante do grupo de pesquisa do prolij, publicado no jornal “anotícia” há uns meses, no qual, pela fragilidade que minha memória permite, alencar citava raduan nassar para argumentar sobre a importância do escritor saber o momento certo de lançar algo novo, de se escancarar novamente (sim, porque publicar é se encancarar), de escrever para seus leitores; do quanto o silêncio de uma última obra é muito mais interessante aos leitores do que produções novas, porém repetitivas. o título do artigo do alencar era “os inimigos do silêncio”.
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e assistir a “de encontro com o amor” me fez pensar bastante nisso. observar atentamente cada frase do escritor parish: “um livro só pode ser escrito quando se tem algo a dizer”, “escrever vem da experiência. um grande escritor sabe quando não é mais um grande escritor” e “a vida é aproveitar o momento”, (uma frase meio auto-ajuda mesmo, mas que, no contexto do filme, explicada pelo escritor, torna-se impactante) levou-me a pensar na escrita para mim, na minha relação com este ato, de se sentar à frente da tela, da página em branco, do matutar frases e ideias, do rabiscar primeiras linhas. a significação do ato de escrever.
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ah, e onde entra o amor neste filme? não vou contar, não... eu encontrei um amor ali, o amor pela escrita. mas há outro, sim, mais escancarado.
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e, quando este texto sobre filmes e, por tabela, literatura, já estava quase no ponto, parei tudo para assistir ao “clube de leitura de jane austen”, um outro filme que contém elementos literários, no caso, as obras da autora inglesa jane austen.
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até hoje nunca li nada dela. pouquíssimo ouvi falar. sei de “razão e sensibilidade” e “orgulho e preconceito”, mas pelos filmes aos quais assisti, que são provenientes dos livros. e este filme me deixou, é claro, com a curiosidade de lê-la, de conhecer seus romances e, então, de entender melhor o filme. mas não sou do tipo que corre atrás de filmes e livros assim que sabe algo sobre eles. eu dou tempo ao tempo. deixo para chegar neles aos poucos, nos momentos em que me dá um estalo, ou nos momentos em que eles me caiem às mãos.
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como o nome do filme sugere, é um grupo de leitura. cinco mulheres e um homem. nem todos se conhecem quando o grupo inicia, mas todos enfrentam situações, até aquele momento, que se complementam ao estarem juntos. porém, sabemos, relacionar-se é das tarefas mais árduas, então que pequenos conflitos sempre acontecem durante os encontros do grupo. encontros estes que ocorrem uma vez ao mês.
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como são em seis pessoas, definiram seis livros da jane austen. todos leriam todos os livros, mas cada um ficaria responsável por um título, e a cada mês um título seria lido, e um encontro marcado, na casa daquele que ficara responsável pelo livro.
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a ideia do grupo de leitura me atrai muito. foi o que me levou a assistir a este filme. gosto de pensar num grupo de leitura em que os participantes se reúnam para ler, não só para conversar. não é o que acontece no filme, em que eles se reúnem para conversar sobre o que leram individualmente durante o mês. mas assim já está bom também, “louco” de bom.
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o filme é bem conduzido. cada personagem é apresentado aos poucos. cada vida é escancarada na medida em que cada livro é revelado. ou seja, os participantes do grupo de leitura vão percebendo o quanto suas vidas estão próximas das vidas dos personagens dos livros que eles estão lendo. ou seja, aquele limiar entre real e ficção. o que há em um e o que há em outro. aquela coisa do se comportar como vc mesmo, ou como o personagem se comportaria. temas recorrentes nas últimas postagens deste blog.
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não sou bom em esmiuçar as histórias que leio ou assisto. deixo lacunas consideráveis nelas. gosto de levantar ideias somente. e aqui ficam três filmes e três ideias. seus enredos e narrativas, em detalhes, cabe a cada um assistir e entender.
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í.ta**

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

a vida são histórias

artigo publicado no jornal "hoje", que circula por jaraguá e região.
o título do post é o título do artigo.
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“Contar histórias multiplica a gente”. Este foi o tema do “Abril Mundo 2009”, evento organizado anualmente, desde 2005, pelo PROLIJ, Programa Institucional de Literatura Infantil e Juvenil, da Univille, com o desejo maior de colocar no centro da discussão, acadêmica e social, o que é e o que está sendo a Literatura Infantil e Juvenil, nacional e internacionalmente.
O tema do evento deste ano, que deu início a este texto, teve como objetivo colocar em discussão a milenar arte de contar histórias. Isto porque o ato de contar histórias faz parte da história da evolução do homem. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.
Sueli Cagneti, coordenadora do PROLIJ, no seu mais recente livro publicado, “Literatura Infantil e Juvenil: suas possibilidades de leitura em sala de aula” (Letras Brasileiras, Coleção Letra Viva, 2009), apresenta ao leitor algumas linhas que dão conta dessa representatividade da história na vida humana. Escreve ela assim: “A história é inerente ao homem. Temos necessidade de contar, contando-nos. Da mesma forma que, ao ouvir narrativas, nos ouvimos. Nada tão humano quanto a literatura para aproximar o homem do homem”.
Uma frase final que abraça todas as frases anteriores. A força da literatura reside nisso, na condição de ser humano que ela desperta nos sujeitos.
A narrativa é inerente ao ser humano. Queremos, sempre, contar histórias nossas, fazermo-nos ouvir perante os outros. Assim como queremos, sempre, ouvir histórias contadas por estes outros. A vida são histórias. Conhecer histórias é viver. Um cruzamento de histórias. Costuras de vida. Uma palavra é um entrelaçamento de letras. Uma história é um entrelaçamento de palavras. E sentires.
A literatura é apenas um dos meios que utilizamos para nos contarmos e para conhecermos mais a nós mesmos por intermédio de personagens aos quais, como leitores que somos, damos vida.
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í.ta**

sábado, 21 de novembro de 2009

o escrever, por rosane

rosane é amiga minha. foi orientadora de duas pesquisas que desenvolvi quando cursava letras na unerj, aqui em jaraguá. foi quem me colocou no meio de tantas e tantas obras sobre leitura. foi quem me levou a perceber que a leitura pode e deve ser pensada em diferentes contextos e práticas e sujeitos. e a rosane escreve também. escreve para si. mas criou um blog, há sete meses, onde vezemquando posta alguns escritos pra lá de interessantes. e é um texto dela que lanço aqui no blog nesta postagem. não pedi a ela para colocá-lo aqui, não. mas, uma vez que está no blog dela, ou seja, à disposição de todos, é porque é público, é porque é para ser lido. e este texto, em especial, deve ser lido mesmo, por muitos, por muitos que sobrevivem com a escrita. é um dos textos metalinguísticos mais completos que li até hoje. não pelo seu tamanho, mas pelo que ele apresenta de interrogações sobre o escrever. a começar pelo título já.
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"Quem escreve para continuar a viver?
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A coisa mais importante que eu realizo sozinha e que de certa forma me deslumbra é a capacidade de gostar de escrever. Agora, ler, também.
Quando eu tinha entre sete e dez anos ainda não sabia que me comunicaria comigo mesma escrevendo.
A adolescência me transformou numa pessoa um pouco estranha. Para dizer a verdade, não sei se eu me gostava ou se a forma como eu sentia as coisas era uma tortura.
A minha vida não tem nada de excepcional. Pelo contrário, sou tão comum como qualquer outro ser humano anônimo na multidão.Os anos de minha vida foram gastos, na maioria das vezes, sem um plano prévio. Eu não me dei o dever de lutar pelo que queria e isso me tornou neurótica e sem destaque em nada. Talvez eu tenha conseguido surpreender um pouco aos outros, mas muito pouco em comparação a milhares de pessoas que realizaram grandes feitos.
Parece-me que vivi sempre medianamente. Nem escandalosamente, nem miseravelmente.
Não conheci a tristeza profunda, o abandono, a fome, a hostilidade ou o descaso. Percebo que tive o mínimo em tudo para me descrever normal na convivência em sociedade. A única coisa que me difere e deferiu, num raio de dez quilômetros, talvez, foi a necessidade de recorrer vez ou outra, dependendo do que eu vivia, a escrever.
Reconheço que não me aperfeiçoei desde o meu primeiro caderno de escrever. Acho, até, que meu discurso hoje se assemelha por demais com o que eu tinha no começo de minha adolescência. Isto me perturba, até produzir raiva de mim mesma.
Os meus anos vividos foram gastos, muito bem disfarçados, em filhos, casamentos, casa, preocupações cotidianas com dinheiro e outros eventos de um mortal comum.
Volta e meia algo acontece e torno a escrever. Parei e recomecei tantas vezes. E de todos os pensamentos, um é recorrente: por que tenho necessidade de escrever?
Há alguma coisa nas pessoas que compõem minha família que denuncia essa aproximação com o escrever: Eliane escreve tudo que faz ou que tem de fazer, numa agenda. Do tanto que escreve, uma ou outra linha é pessoal. Minha mãe conseguiu escrever um pseudo-diário. Um pouco comportado demais num primeiro olhar.
Não sei o que é, mas sinto-me confortável quando penso o quanto me faz bem a existência desse veículo que é o papel, o lápis, a ideia e a minha necessidade registradora. Algo como um mundo que se torna mais elaborado porque escrevo.
Luto, reluto, entretanto, contra algo que diminui o respeito e a admiração por minhas próprias ideias: é a má vontade de transcrever meus diários e torná-los uma possibilidade de ser lida. E logo eu me pergunto: quem há de querer ler-me? O que um leitor encontraria no que escrevo? Por que não creio na atitude desinteressada e interessada do ser humano em ler o que o outro faz, fez e que pode transformar uma vida?
* Este texto data de 01/11/2007. "
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í.ta**

terça-feira, 17 de novembro de 2009

pedindo licença: ana beatriz barbosa

costumo escrever aqui sobre livros que leio. livros literários, quase sempre. ou sempre. mas agora eu faço um post com algumas linhas sobre dois livros não-literários dos quais gosto muito. um que li já se vão dois anos, e outro que li semana passada.
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refiro-me a dois livros da ana beatriz barbosa silva. muito provável que quem esteja lendo isto já tenho ouvido falar desta psiquiatra-escritora, ou do seu último livro, o “mentes perigosas: o psicopata mora ao lado”, livro lançado no ano passado.
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a ana beatriz barbosa silva é, então, autora dos livros “mentes inquietas: entendendo melhor o mundo das pessoas distraídas, impulsivas e hiperativas” e “mentes perigosas”. dois livros muitíssimo bem escritos, em que o leitor é conduzido por uma escrita que flui sem dificuldades, mas que nem por isso se torna uma leitura boba ou desinteressante.
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pelo contrário. os dois livros abordam temáticas interessantíssimas sobre a nossa condição humana, sobre a nossa individualidade e principalmente sobre o conviver em sociedade.
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“mentes inquietas” aborda a questão do dda, o distúrbio do déficit de atenção, que muitas pessoas têm mas nem sonham. são características, por exemplo, de uma pessoa com dda, distração, esquecimento, desorganização, agitação e impulsividade. mas também, criativas, inovadoras e ousadas. neste livro, a autora ana beatriz desmistifica a crença errônea de que pessoas com dda sejam mental e socialmente incapazes de algo. pelo contrário, ela deixa claro que pessoas assim apresentam características comportamentais marcantes, e que são dotadas de uma capacidade incrível.
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já “mentes perigosas” apresenta um assunto um pouco mais preocupante: a psicopatia. também escrito como se fosse uma conversa numa sala de estar, o livro aborda com profundidade e com exemplos marcantes as características de uma pessoa psicopata, que está longe de ser aquela pessoa violenta com aparência de assassina, quando sim são indivíduos encontrados em todos os segmentos sociais, que possuem uma capacidade incrível de se disfarçar e se camuflar, aparentando ser o que não são: “Neste livro você vai saber um pouco mais sobre esse intrigante universo e aprender a reconhecer aqueles que vivem entre nós, se parecem fisicamente conosco, mas definitivamente não são como nós”.
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o que me levou a ler “mentes inquietas” foi uma disciplina da pós em psicopedagogia. e um trabalho que eu fiz para essa disciplina. gostei demais do livro, da escrita que seduz, da temática bem abordada. e foram essas características que me fizeram ler “mentes perigosas”, mesmo não sendo fã da temática abordada. são dois livros que conquistam o leitor pela maneira como são escritos.
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í.ta**

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

as narrativas de galera: fôlego

dediquei-me a ler os livros do autor gaúcho daniel galera. não foi agora, não. já se vão umas três semanas. mas foram três livros numa semana só mesmo. livros de leitura pra lá de envolventes. livros de narrativas pra lá de bem escritas.
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daniel galera é autor novo, de apenas trinta anos. tem quatro livros publicados: “dentes guardados” (2001), “até o dia em que o cão morreu” (2003), “mãos de cavalo” (2006), e “cordilheira” (2008). este último, inclusive, ganhou terceiro lugar no jabuti 2009. dos quatro, li três, muitíssimo bem escritos.
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o que mais me impressiona na escrita do galera é a condução da narrativa. é o domínio da mesma. a segurança com que ele conduz os romances. a descrição impecável de cenas e personagens.
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“até o dia em que o cão morreu” foi também filmado. por beto brant e renato ciasca, sob o nome de “cão sem dono”. foi, para mim, o menos envolvente dos livros que li dele, e o mais porra-louca. não chega a ser um livro catártico. é uma novela, eu diria. a escrita é cuidadosa. a seqüência de ações, idem. o final, de certa forma, surpreende um pouco. mas não muito. talvez nisso resida um detalhe das histórias deste autor. uma certa previsibilidade. mas de forma alguma isso torna sua leitura enfadonha. justamente porque a condução se dá pela forma narrativa em si, pelo modo como tais histórias são apresentadas ao leitor. em “até o dia em que o cão morreu” não há como não se aproximar do personagem de mais ou menos vinte e cinco anos, cujo nome não é apresentado ao leitor, que gasta os dias olhando a cidade pela janela, bebendo cerveja e caminhando pela vizinhança. não há como não seguir seus passos (ou a falta dos mesmos), o cão que o acompanha, a relação que ele estabelece (ou tenta) com marcela. não há como não visualizar a porto alegre descrita ali.
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e em “mãos de cavalo” essa mesma porto alegre é novamente descrita. com minuciosidade. mas são outros lugares da mesma porto alegre. são, também, outros olhares. é o olhar de hermano, principalmente. mas de bonobo, de naiara, de morsa, de adri. a densidade da narrativa de “mãos de cavalo” é impressionante. o tempo se alterna entre o passado e o presente do personagem. o tempo revive lembranças e explica fatos. mas não cura feridas. não alivia o sentimento de culpa de hermano. a história se mantém em um vai e vem até o final. o leitor balança nesse vai e vem. por ora é preferível parar. mas não há como não continuar. a aproximidade que se tinha antes com o personagem de “até o dia em que o cão morreu” se tem agora com hermano.encantei-me por demais com este livro. até hoje não me sai da cabeça as noites em que, antes de dormir, eu “entrava” na história de uma forma muito intensa, tamanha a força da narrativa.
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e é essa aproximidade que se terá, depois, com a escritora anita, personagem em “cordilheira”. romance de lançamento da coleção “amores expressos”, que traz histórias de amor ambientadas em diversas cidades do mundo, este livro mais recente do autor gaúcho apresenta ao leitor uma narrativa mais descontraída que “mãos de cavalo”, mais linear na condição de tempo, porém mais envolvente e embaralhada no que diz respeito às ações dos personagens. personagens no mínimo estranhos para anita. argentinos de hábitos bizarros que seguem o lema de viver não suas vidas, mas a vida dos personagens dos livros que eles mesmos escreveram. um pensar sobre vida e arte, seus limites e conseqüências (ver texto no post abaixo). uma história sobre perdas e recomeços. uma história com um final em aberto.
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a escrita de daniel galera pede mais que uma leitura atenta. exige uma re-leitura. sua prosa rica em detalhes, as descrições minuciosas de cenas e atmosferas, e seus personagens apresentados aos leitores convidam a um não-desgrudar-se tão cedo. envolvem e cativam, não pelo que há de bonito, mas pelo que há de verdadeiro em cada um, em cada cena. pelo silêncio que se estabelece.
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í.ta**

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A vida por meio de histórias. Ou o que há de real e de ficção no que lemos e vivemos

O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver.
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A leitura literária é uma forma de leitura existente. É a leitura em que a liberdade e o prazer são ilimitados (ao menos deveriam ser). Porém, é uma modalidade de leitura, o que significa que há outras formas de leitura, formas estas que até desfrutam de maior trânsito social: jornais, revistas, textos na internet.
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Cada leitura tem uma história própria. Cada texto tem também sua história própria. Assim como cada leitor constrói sua história de leitura. É Lajolo quem afirma que “Cada leitor, na individualidade de sua vida, vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que, ao longo da história de um texto, este foi acumulando”.
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É por isso que não concebo a leitura como uma atividade inocente. Compartilho da opinião de Lajolo, e também da de Alberto Manguel, crítico literário, para quem “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”. Não há como ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. Uma leitura leva à outra. Uma leitura não só de livros, mas também uma leitura de vida. Vivemos nos relacionando. Vivemos nos lendo a aos outros também. Influenciamos e somos influenciados. Nossas histórias, lidas e vividas, embrenham-se em nossa formação de sujeitos e cidadãos que somos.
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Recentemente pude ler dois romances que me fizeram pensar bastante nesse cruzamento de vidas e de histórias. Duas narrativas nas quais vidas se cruzam e se completam, nas quais vamos, como leitores que somos, embrenhando-nos por entre personagens e histórias de vida, mesmo que tudo aquilo não passe de uma ficção bem construída, de uma narrativa que nos envolve, que nos perturba e/ou encanta, e que nos deixa, às vezes, reticentes quanto a nossas próprias vidas e histórias.
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“Rimas da vida e da morte” (Companhia das Letras, 2008), do israelense Amós Oz é o primeiro dos livros que li. Um livro em que o personagem principal torna personagens de livros as pessoas com as quais ele tem contato. Dá “vida” a elas. Cria histórias, em sua própria mente, mesmo sem conhecê-las, somente a partir do momento em que as vê. Um personagem que transita entre a realidade em que vive (que para nós é a ficção que lemos) e a ficção que cria a partir dessa realidade (que para nós se torna uma ficção dentro de outra ficção).
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Em sentido próximo, a história de “Cordilheira”, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2008), também apresenta uma reflexão sobre os limites não definidos entre realidade e ficção quando o personagem argentino Holden cita um escritor guatemalteco que radicalizou ao decidir viver como se fosse os personagens que criava. E a personagem principal deste livro de Galera, a Anita, ao se relacionar com Holden e seus amigos, descobre que há pessoas, sim, que levam suas vidas como se fossem a de seus personagens, dos personagens que eles mesmos criam nos livros que escrevem, o que nos leva a se perguntar se não existem também, aqui nesta “vida real”, pessoas que vivem como personagens de livros que escreveram ou que leram.
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Se é que cabe ainda se discutir isto, estas duas narrativas propõem um pensar a respeito do limiar entre realidade e ficção. O Victor da Rosa, por exemplo, escreveu a mim, certa vez, após uma pergunta minha a ele sobre este assunto, dizendo que, para ele, a dicotomia ficção/real está caindo, e que um terceiro gênero indeciso se abre aí, o qual dá muita liberdade pra criação. Essas duas narrativas são exemplos disso, creio.
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Diz o Ferreira Gullar que a arte existe porque a vida não basta. Gosto disto. Mas, como diz meu amigo Guilherme, e se fosse a vida existe porque a arte não basta? Ou seja, não há segurança para afirmarmos os limites da criação literária. E além do mais, não se pode esquecer que é característica do texto literário a falta de limites e a liberdade de criação e de interpretação.
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Volto ao Manguel para encerrar este texto-mais-de-dúvidas-do-que-de-certezas-e-cheio-de-vazios. No seu último livro, “A cidade das palavras” (Companhia das letras, 2008), ele se pergunta se as histórias são capazes de mudar quem somos e o mundo em que vivemos. Eu acredito que sim. E acredito porque senti – e continuo sentindo – o quanto as histórias que já li mudaram meu eu, mudaram minha forma de pensar, sentir, e de agir no mundo. E o próprio Manguel apresenta uma resposta à pergunta que faz: “As histórias podem alimentar nossa mente, levando-nos talvez não ao conhecimento de quem somos, mas ao menos à consciência de que existimos – uma consciência essencial, que se desenvolve pelo confronto com a voz alheia”.
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Talvez assim nos aconteça, de fato, com quem se torna aquele “último leitor” descrito por Piglia em “O último leitor” (Companhia das letras, 2006). O leitor “extremo, sempre apaixonado e compulsivo; viciado, que não consegue deixar de ler, insone, sempre desperto”, para quem a leitura é uma forma de vida, para quem a literatura dá um nome e uma história, “retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica”. Somos, estes sujeitos-leitores, os últimos leitores, aqueles em busca do sentido experiência perdida, que dão à literatura uma utilidade que ela não comporta. Que dão ao livro o que não se cabe nele. Que dão à vida uma história que não é dela só dela. Que dão à história uma nova vida.
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í.ta**

terça-feira, 10 de novembro de 2009

a literatura catarinense

artigo publicado hoje no jornal "hoje", que circula por jaraguá e região.
o título do artigo é o título do post.
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Desde o dia 30 de outubro está acontecendo, em Porto Alegre, a 55ª Feira do Livro. Uma das maiores feiras do livro do país conta, nesta edição, com a participação de 170 autores e ilustradores de literatura infantil e juvenil. E, para os adultos, acontecem 38 oficinas e 173 mesas redondas dividindo a atenção com quase 200 expositores-livreiros.
Este ano a feira tem como país homenageado a França, integrando a programação do Ano da França no Brasil. E, como Estado convidado, Santa Catarina.
Dessa forma, a Fundação Catarinense de Cultura convidou, para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, alguns escritores catarinenses que têm se destacado, estadual e nacionalmente, não só por suas produções literárias, mas pela disseminação da literatura produzida no Estado.
Fazem parte deste grupo, entre outros, os escritores Marco Vasques, Cristiano Moreira, Fábio Brüggemann, Dennis Radünz e Carlos Henrique Schroeder, que por lá estão autografando seus livros e conversando sobre a literatura catarinense em diferentes momentos da feira. Um fato que orgulha a nós, catarinenses, sem dúvida, pela abrangência que a literatura produzida por aqui tem alcançado. Uma literatura com nomes já consagrados, como Salim Miguel e Cristovão Tezza, que prima pela qualidade estética e narrativa, e que, ano após ano, põe em evidência nacional novos autores e suas obras.
E para nós, de Jaraguá do Sul, a satisfação não se deve somente ao destaque literário do Estado, mas, em particular, ao fato de termos um autor, senão oriundo daqui, que nesta cidade produz e dissemina a literatura, que é o Carlos Henrique Schroeder, organizador das últimas edições da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, responsável pela formação e pelo lançamento de novos autores jaraguaenses que, por que não acreditar, daqui alguns anos poderão representar o Estado em outras feiras do livro espalhadas pelo país.
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í.ta**

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

uma leitura que encanta

“O bordado encantado”, de Edmir Perrotti, é um livro para ser lido da frente para trás e de trás para frente. É um livro para ser lido em voz alta. Mais do que isso, é um livro para ser contado.
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A história de “O bordado encantado” é um pedacinho da vida de cada um dos leitores que podem ter se deparado com ela. É uma história com final feliz, mas de um pontual suspense no seu decorrer. É uma história de contos de fadas mesmo, que resgata a tradição dos contos mais clássicos.
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É a história de uma viúva muito pobre e de seus três filhos. E do bordado também. Um bordado que muda a vida dessa mulher bordadeira e de seus filhos. Um bordado que mostra a todos os personagens, e aos leitores também, a delicadeza que se torna necessária para bordar a vida, seus encantos e seus riscos.
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A narrativa, com ilustrações cuidadosas de Helena Alexandrino, recupera características dos contos maravilhosos: “a velha mãe pobre, os três filhos, a bondade do mais novo, o elemento mágico que desencadeia a mudança ("o tecido que balançava ao vento numa barraca próxima"), a busca mal sucedida encetada pelos dois filhos mais velhos e o sucesso do terceiro, após enfrentar diversas provas. E ainda o encontro com as fadas no castelo da montanha e, principalmente, a paixão entre o jovem e a fada de vermelho, que culmina em final feliz”.
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É esse, basicamente, o enredo, escrito em um tom muito suave e encantador. Não é o leitor quem conduz a história, e sim a história quem conduz o leitor, que se vê fisgado pelo sumiço do bordado, pelas buscas dos três filhos, pela tristeza da viúva, e pelos rumos que a história acaba tomando.
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“O bordado encantado” é livro vencedor do Prêmio Jabuti 1998. E eu escrevi lá no começo que é livro para ser lido de trás para frente também. E assim é pela beleza que contém o escrito de apresentação do autor, na última página do livro: “Contudo, agora que terminei o trabalho, sinto-me de mãos vazias. Se a tradição oral me forneceu o belo argumento, minha condição não permite que eu sinta o fôlego, o olhar, a presença do leitor, sua aprovação ou rejeição imediata. Conto à distância! Quem sabe um dia, por essas razões difíceis de prever, a gente não acabe se encontrando por aí. Seria muito bom ouvi-lo contar uma história – a de sua leitura do ‘Bordado’. Minha atual apreensão talvez se acalmasse um pouco. Afinal, além de encantar, os contos também sempre confortaram”.
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E este é um conto escrito de maneira confortante para o leitor. É um conto que convida a virar as páginas, a voltar nelas, a torcer pelos personagens. Mais do que isso. É um conto que alimenta o desejo de leitura. Contos assim marcam profundamente as histórias de leitores que somos.
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í.ta**

terça-feira, 3 de novembro de 2009

nem sempre há uma identificação com uma história

há uns meses, li dois livros da portuga inês pedrosa: “fica comigo esta noite”, livro de contos (escrevi sobre) e “nas tuas mãos”, um romance muitíssimo bem desenvolvido (também escrevi sobre).
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então, depois dessas duas leituras, e por ter me apaixonado pela escrita dela e pelos livros, fui atrás de outros livros dessa autora. e comprei “a instrução dos amantes” e “fazes-me falta”.
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esperei. resolvi esperar para lê-los. para lê-la novamente. agora é que voltei a ela. gosto de pensar e de sentir a leitura como isto, como um deixar o tempo guiar também, como pensar cada livro em um determinado momento.
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não sei se fiz bem ou não. creio que sim. acontece que a leitura que fiz de “a instrução dos amantes” não foi das melhores, não. li-o com calma, pouco a pouco, quase que capítulo a capítulo, pausando sempre entre essas divisórias no romance. durei uma semana com o livro, e não o entendi patavinas! eis o fato. a história de cláudia, de ricardo, de dinis e de isabel. e ainda dos personagens paralelos, cada qual com sua história própria sendo desvendada, não me levou a nada. não me fez sair do lugar.
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não foi por falta de voltar páginas, não. fiz isso, sim. muitas vezes. mas não deu. cheguei ao final da história sem compreendê-la, sem conseguir dizer algo sobre ela. e, o que mais me chamou a atenção, foi que a narrativa que eu tanto havia gostado nos outros dois livros, neste ela se repetiu, e eu não gostei nada, nada disso.
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e eu vim, antes de ler este livro da inês pedrosa, de leituras muito descritivas e intimistas, tal qual “a instrução dos amantes”. li daniel galera ao cubo. três romances dele. li e estou lendo joão cabral de melo neto. li e estou lendo italo calvino. tudo antes de encarar os amantes e suas instruções. mas não deu.
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enfim. guardei o livro. precisava deixá-lo ali guardado. em outro momento voltarei a ele, creio. antes, vou encarar, ainda não sei bem se já, ou se esperarei um pouco, o “fazes-me falta”.
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ah, e durante tudo isso estive lendo e relendo o “como um romance”, do daniel pennac. e algo de que mais gostei nesse muito bem escrito livro dele foi dos “direitos do leitor” prescritos por ele. direitos como o de não-ler, de pular páginas, de interromper a leitura no meio do caminho, de reler, de ler qualquer coisa, de calar. e, acrescento, de não gostar do que se lê, ou de não se identificar numa primeira leitura. mas de se permitir tentar novamente. ou não. cada leitor constroi sua história de leituras. é preciso se respeitar isto. assim como é preciso pensar a leitura como direitos do leitor.
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í.ta**

domingo, 1 de novembro de 2009

finalizando maringá

foram quatro dias por lá.
quatro bons dias.
quatro dias de sol maravilhoso, de vento refrescante.
quatro dias de estudo, de leituras, de apresentações, de escrita,
e de passeios.
quatro dias acompanhado de oito estudantes e de um motora super gente fina.
quatro dias num bom hotel, bem aconchegado.
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o congresso poderia ter sido melhor organizado. as apresentações de um mesmo tema (literatura, por exemplo), poderiam ter sido colocadas em horários diferentes. não pude assistir a muita coisa sobre o que gosto, não. migrei para "áreas próximas". ainda assim valeu à pena.
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a universidade (cesumar) é super nova. 19 anos. é muito grande, bem estruturada, conta com quase 50 cursos. bem arejada, bem espaçosa, boa biblioteca.
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a cidade, como já escrevi aqui, é maravilhosa. lindíssima. organizada, agradável de se estar e ficar. já me senti convidado a voltar para lá, a passeio mesmo, ou a estudo.
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ficam três fotos de lá. duas da catedral. bonita pra dedéu por dentro. e, por fora, um amplo parque, tão arborizado quanto a cidade em si.
e a outra foto é uma vista de um dos estacionamentos da universidade. é verde pra tudo que é lado por aquela cidade, não falei?




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í.ta**