terça-feira, 20 de outubro de 2009

mais poesia. mais carpinejar.


caiu-me às mãos outro livro de poemas do carpinejar. uma antologia chamada “caixa de sapatos”.
_____deparei-me, ali, com mais poemas muitos bem construídos, tanto no que diz respeito à forma, quanto ao ritmo que eles apresentam aos leitores. sem contar a delicadeza indelicada do carpinejar. a suavidade ácida dele. vale muito a leitura.
______foi-me difícil escolher versos e poemas para deixar aqui. foram muito. ficam alguns poucos, apesar de longos. valem uma leitura atenta.
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"A noite urinava
nas paredes
do quarto.
_____
Desfiei um maço
de jasmim
na jarra
e esvaziei o hálito.
____
A vida amou a morte
mais do que havia para morrer.
____
Na beira da cama,
o sândalo dos pés
convidava-me
a renunciar às sandálias
e debulhar a palha noturna.
__
Apaguei os pensamentos
na espuma da pele.
____
Abandonar o paraíso,
a única forma
de não esquecê-lo"
_ _ _ _ _
“Só na velhice conheci o brio
de viver com vagar.
O rosto não tem mais residência, move-se a cada
sorvo das sombras.
_
Há mais terra debaixo da pele que a terra onde piso.
Atravessei o século e ainda não me percorri.
_
Qual a senha que transporto?
Serei contrabando de Deus, que vai quieto dentro,
receoso de se pronunciar?
-
Condiciono os amores a uma expectativa.
Mas é justamente ela que me impede de ser real.
__
Tornei-me o diário de uma viagem cancelada.
__
Escapa o ponto da veia. Não disponho de mapa
que me centralize, guia que indique meu paradeiro.
Minha atualidade é ter fome,
não evoluímos perante o alimento.
__Nivelamos a cura ao veneno,
o tempo discrimina sua natureza.
O que chega atrasado ou adiantado, envenena.
O que é pontual, cura.
__Nossas fachadas carecem de uma segunda mão.
Os moradores ancestrais e os novos
estão sobrepostos, misturados, na cor das paredes.
__Descender valerá o sacrifício se nos inventarmos.
__A feição cumpre um dever ou é minha maneira
de concordar com a imperfeição?
Será que a ambição não me permite ser o que sou?
Ou realmente, distraído com o que levo,
não leio os sinais, os mínimos indícios
de uma vida maior que a lealdade aos costumes?
__Não sei absorver a mensagem da troca de guarda
entre a coruja e o melro. Muito menos traduzir
o que sente o cão quando percebe que a ave lacerada
não tinha ossos a compensar o esforço.
__Será a fidelidade uma forma de trair?
O amor afiança a fortuna no hálito,
desterrado é pelo hábito.
__Como retomar o instante que consenti, não mais
participando do mundo
para que as coisas corressem a esmo?
__Ao conversar com minha filha, às vezes me dói
a responsabilidade de conduzir sua inocência.
Se ela soubesse o desaviso da encruzilhada,
que aceitei uma trilha ao léu, entrei numa rua,
no casamento, pela ideia de seguir o fluxo.
__Não me empurrem mais, não vou por onde não sei.
Deixa-me pensar o corpo, deixa o corpo me pensar”.
_ _ _ _ _
“Atendi o pedido dos pais
de não conversar com estranhos
e deixei de me escutar”.
_ _ _ _ _
“A morte me perturba,
terei o sofrimento
de não corrigi-la
antes de ser publicada.
__Apagado em laje fria,
quem trocará a minha roupa de cama?
__Acordarei impessoal,
desprovido do alarme das pálpebras?
Até quando serei o que compreendo?”.
_ _ _ _ _
“Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras
_na estante.
Mudava os títulos
de endereço
_em tua biblioteca
e rastreava, ensandecido,
aquele morto encadernado
_que ressuscitou
quando havias enterrado
a leitura,
_aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova
aberta na coleção.
_Sou também um livro
que levantou
dos teus olhos deitados.
_Em tudo o que riscavas,
queria um testamento.
Assim recolhia os insetos
_de tua matança,
o alfabeto abatido
nas margens.
_Folheava os textos,
contornando as pedras
de tuas anotações.
_Retraído,
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.
_Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade
_e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,
_premeditando
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,
_visceral,
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,
_cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,
_um oceano
na fruta branca.
Pretendias impressionar
_o futuro com a precocidade.
A mãe remava
em tua devastação,
_percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino,
uma agulha cerzindo
_a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,
_descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde
_para a ceia.
Preparava o jantar
com as sobras do almoço.
__Lia o que lias,
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz”.
_ _ _ _ _
“O que o fogo já leu de cartas. É o derradeiro confidente.
Recolhe os rascunhos, o que escondemos no fojo.
Desfia os amantes, os desafetos, os crimes.
_A sina do fogo é soprar cinzas. Nossa sina é sobrar nas cinzas.
Sou capaz de aniquilar um amor
para ver o que repousa em seu fundo.
_O mundo é alheio, nos portamos como visitas.
Cresce a vergonha de minhas dúvidas.
__Experimento a agressividade nos pequenos gestos,
espanco o cigarro até apagar. Meu bem-estar
é estar de bem com toda a gente
e isso é impossível.
Nem em minha família fui unânime”.
_ _ _ _ _
í.ta**

7 comentários:

Atriz disse...

Carpinejar é tudo de bom!!!!

parece que estou vendo-o declamar seus poemas tão belos e soltos!

bj! Gisele

Eduardo Silveira disse...

tbém acho. muito bom.
eu sigo ele no twitter (@CARPINEJAR), e volta e meia ele solta uns versos/pérolas
como esse:

"a bengala é um guarda-chuva aposentado"

:P

Nydia Bonetti disse...

carpinejar é mesmo maravilhoso. diria, raro...

Maeles Geisler disse...

Parabéns
me emocionei ao ler os poemas.

Abraços
Maeles

Rubens da Cunha disse...

gosto dele, mas prefiro o pai, mais poeta e menos marketeiro...
:))

ps.
antes dele e depois do pai, prefiro a mãe :)

Adri.n disse...

Mais uma, ou talvez duas, ou um pouco mais de palavras do poeta, porque merecemos:

" É fácil perguntar; difícil é ouvir a resposta, sem se mexer até o final."

" Não me poupo nenhum sofrimento, muito menos a alegria do sofrimento".

"A loucura é quando não basta a liberdade para ser livre".

Em agradecimento as suas visitas(do leitor e do poeta) lá no meu tempo...

Anônimo disse...

Il semble que vous soyez un expert dans ce domaine, vos remarques sont tres interessantes, merci.

- Daniel