quinta-feira, 29 de outubro de 2009

em maringá: três

passear
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tiramos a tarde de folga hoje. iremos mais à noite para o congresso novamente. alguns estudantes dos que vieram conosco na van apresentarão hoje à noite. os demais, que já apresentaram (nos quais me incluo), assistiremos a apresentações que nos interessem por lá.
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então agora à tarde fui bater perna por essas ruas super arborizadas de maringá.
vou deixar para ir à catedral e a outros pontos turísticos amanhã pela manhã.
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hoje andei a esmo por aqui, por quadras nos arredores do hotel.
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saí para almoçar ao meio-dia. sozinho mesmo. cada um crio um roteiro próprio. acho bem melhor assim. ninguém fica esperando por ninguém, e cada um vai atrás daquilo que lhe interessa.
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eu, por exemplo, achei um restaurante bom e barato. pronto, bastou-me.
e, quase ao lado, um sebus. pronto, perigo na certa!
mas dessa vez me controlei. só olhei as coisas por ali. olhei, olhei, olhei. empilhei alguns livros e dvds na mão, mas na hora de ir embora deixei tudo lá. já tenho dívidas o suficiente, e livros pra dar conta, idem.
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e dali do sebus, que ainda é numa rua ao lado do hotel, fui me metendo por ruas e avenidas. sem me preocupar com o caminho da volta. fui entrando em lojinhas, em coisas diferentes, em vielas. atravessando avenidas, passando de uma calçada a outra. coisa mais boa de se fazer!
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fui parar em um shopping. em um parque. um centro comercial. em várias lojas. em ruas com nomes de cidades, estados, e gente famosa. e fui pedindo informação. simples assim.
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as pessoas aqui são fechadas. sérias. poucos sorrisos. povo paranaense mesmo. mas são gentis quando solicitadas. pelo menos comigo foram ao darem muitas informações de lugares e de ruas.
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gastei, é claro. tô levando lembrancinhas pra nice, pra família e pra amigos. coisa boa também de se fazer. vale o esforço, vale o passeio. as melhores coisas da vida não servem pra nada mesmo, tem-se de aproveitar, então.
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agora à noite, congresso. depois, algum restaurante/barzinho pra jantar.
amanhã, passeio e congresso.
depois, volta pra casa. ufa!
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ítalo.

em maringá: dois

a cidade de maringá é uma daquelas cidades projetadas, cuidadas, feitas sob certo controle.
é bonita, é arborizada pra caramba, é limpa.
o oposto de campinas, onde estive em julho.
é um prazer caminhar por aqui, seja de dia, seja de noite.
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o congresso, VI epcc (encontro internacional de produção científica cesumar) é bastante abrangente. tem coisa pra tudo quanto é área do conhecimento. o que não significa que seja tão interessante assim, não. afinal, não é possível abraçar o mundo. e, sendo assim, é lamentável eu não ter conseguido acompanhar as apresentações orais relacionadas a letras pelo fato de essas apresentações terem ocorrido no mesmo horário da minha apresentação.
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a apresentação, em si, foi boa. foi tranquila, foi segura, foi interessante a quem tava assistindo. fizeram perguntas, colocações. enfim, houve uma boa interação.
porém, a desorganização do evento foi enorme no momento da minha apresentação.
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inscrevi-me para apresentar como "grupo de discussão". mas acabei apresentando como "comunicação oral". porém, preparei-me para um grupo de discussão. ou seja, uma fala diferente, com um enfoque diferente, com um tempo calculado diferente. e na hora tive que me virar para apresentar como sendo uma comunicação oral: falar dez minutos, e mais cinco de perguntas. e o mediador da minha sessão, um arrogante de um professor da cesumar, quis transferir a responsabilidade para mim. neguei. deixei claro meu descontentamento com essa mudança, por não ter sido avisado de que a apresentação seria com retro-projetor ou data-show.
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apresentei somente de forma oral. falei sobre minha pesquisa. falei com propriedade, com segurança, com clareza. ao contrário de três apresentações que ocorreram na mesma sessão da minha. três apresentações com uso do tal do retro-projetor. três apresentações horrorosas!
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mas também houve boas apresentações nessa sessão. todas sem uso de nenhum recurso. só no gogó. bem faladas, bem explicadas, bem contextualizadas. e as conversas oriundas dessas apresentações, da mesma forma boas e interessantes.
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dos males o menor. mas ficou muito forte o sentimento, da minha parte, de descontentamento com tal desorganização.
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e, como as apresentações relacionadas a letras, leitura e literatura já foram todas hoje, amanhã aproveitarei bem meu tempo no congresso para estudar, para escrever, e para, quem sabe, assistir a algumas comunicações da área de jornalismo.
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no mais, é aproveitar esse clima maravilhoso que faz em maringá. andar, andar, andar.
assim que voltar a jaraguá postarei umas fotos aqui. merece, tamanha beleza.
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ítalo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

a leitura em grupo

artigo publicado por mim no jornal "hoje", que circula em jaraguá e região.
não sei se publicaram hoje, ou se publicarão amanhã.
não estou lá pra ver. não há edição on-line.
o título do artigo é o título do post.
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Finalizei, na semana passada, um Círculo de leitura com alunos do Ensino Médio de uma escola particular da cidade. Um Círculo iniciado há dois meses, com o qual foi possível ter seis encontros quinzenais, cada um com mais ou menos uma hora e meia de duração, em que realizamos leituras de alguns textos literários. Um Círculo cuja proposta era a de nos reunirmos para ler. Somente. Ler e conversar sobre o que foi lido. Ler em voz alta, ler em grupo. Porque a leitura também pode ser um movimento de interação, de conversa, de ler-junto.
A ideia de desenvolver um Círculo de leitura me acompanha há bastante tempo. Tentei reunindo pessoas próximas a mim, participando de outros grupos, mas sem efetivar o movimento. Até que me foi possível colocar essa ideia em prática desenvolvendo uma pesquisa de iniciação científica pela universidade na qual estudo.
O meu objetivo em fazer um movimento como esse é o de despertar a sensibilidade crítica dos estudantes para o texto literário. É o de colocá-los em contato com o texto literário, com a literatura, apresentando-lhes alguns textos escolhidos a dedo, e proporcionando a eles um pensar mais cuidadoso sobre o que é, ou pode ser, a literatura: o que significa ler um texto literário? De que forma ele mexe com o leitor? O que é, ou pode ser, ser leitor, de fato? Como nos assumimos e nos posicionamos como leitores?
E o gratificante não é somente o ato de ler em conjunto, de fazer a leitura circular pelo ambiente, de senti-la não só com os olhos, mas também com os ouvidos. O gratificante é perceber o quanto as pessoas se reconhecem no texto literário, o quanto elas passam a se conhecer de outra forma em função desse contato diferenciado com a literatura. O gratificante é se deparar com dizeres assim dos estudantes envolvidos com o Círculo: “O Círculo de leitura transformou-me em um novo tipo de leitor”. Objetivo alcançado, então.
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í.ta**

em maringá: um

cheguei em maringá.
chegamos em maringá.
um grupo de oito estudantes, provenientes da univille.
participaremos do "cesumar", um congresso que vai acontecer por aqui,
no qual cada um de nós apresentará suas pesquisas.
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paisagem bonita na viagem até aqui. foram oito horas. paramos algumas vezes.
passamos por vááárias cidadezinhas. vimos
verde, verde, verde. campos, campos, campos. coisa bonita, bonita mesmo.
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maringá é bonita também. muito verde também.
árvores grandes nas ruas. sombreiros gigantes.
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hotel é bom também. internet, tv a cabo, enfim...
agora é descansar e mais à frente ir pro congresso.
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vou jogar aqui uns dizeres sobre o congresso durante a semana.
sobre minha apresentação lá, e sobre o que mais eu conseguir
acompanhar.
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ítalo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

um texto-história para uma história-poema

A vida é costura
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Uma palavra é um entrelaçamento de letras. Uma história é um entrelaçamento de palavras. E sentires.
_____A vida é por um fio. Sempre.
____Às vezes, um entrelaçamento de fios. Mais das vezes, embaralhados.
____Viver é desfiar palavras.
____João sabe disso.
____Que João?
____O “João por um fio”, criado pelo Roger Mello.
____João tem uma história própria. Este João. Uma história dele. Sobre ele. Uma história que ele deixou compartilhar conosco, seus leitores.
____Conhecer histórias é viver também. Um cruzamento de histórias. Costuras de vida.
____A história deste João começa assim:
______João se pergunta, ao dormir: “Agora sou só eu comigo?”.
_____Pode ser, respondemos. Como pode não ser.
_____João sonha quando dorme. O que significa que nem sempre seja ele com ele somente. E há os leitores, claro, que o acompanham enquanto ele dorme.
____Os leitores a quem cabem algumas perguntas de respostas-não-prontas:
____“Onde é que se esconde a noite que beija João?”
“Quem tem medo de um gigante chamado João? Ou quando é que o gigante dorme?”
“Se João cai no sono, com que paisagens ele sonha?”
“E se o medo derrama, João é que abre a torneira?”
“Que rede segura um peixe maior que a gente?”
“De que tamanho é o furo na colcha que cobre João?”
“Como se para um furo que não para?”
____De repente, eis que, num susto, João acorda, e se preocupa: “Quem desfiou minha colcha?”.
_____Nós, leitores, sabemos quem foi. Ou como foi que a colcha se desfiou. Mas não podemos falar a João. Não podemos porque ele precisa descobrir o desenrolar da sua colcha. Ele precisa sentir como isso aconteceu. Ele precisa aprender a costurá-la novamente.
____E João mostra saber disso: “No meio do vazio viu palavras espalhadas no chão”.
_____Então, ele resolve costurar palavras “como retalhos numa colcha”. E, ainda mais. “Enquanto costura, João inventa uma cantiga de ninar”.
_____Faz mais do que imaginávamos. Surpreende-nos.
_____E a nós, que acompanhamos João assim de perto, fica a pergunta: “De que tamanho é a colcha de palavras que cobre João?”.
____Mas não nos fica somente esta pergunta. Por trás dela há outra, que João espertamente nos deixa:
______De que tamanho é a colcha de palavras que nos cobre?
_____E, para respondê-la, cabe-nos fazer como João: ao sonhar, desfiar a colcha que nos cobre, abri-la, explorá-la. Expormo-nos. E, depois, costurarmos palavras que nos cobrirão novamente.
_____A vida são ciclos, mostra-nos João.
____A vida é um se despir para se conhecer.
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í.ta**

terça-feira, 20 de outubro de 2009

mais poesia. mais carpinejar.


caiu-me às mãos outro livro de poemas do carpinejar. uma antologia chamada “caixa de sapatos”.
_____deparei-me, ali, com mais poemas muitos bem construídos, tanto no que diz respeito à forma, quanto ao ritmo que eles apresentam aos leitores. sem contar a delicadeza indelicada do carpinejar. a suavidade ácida dele. vale muito a leitura.
______foi-me difícil escolher versos e poemas para deixar aqui. foram muito. ficam alguns poucos, apesar de longos. valem uma leitura atenta.
_ _ _ _ _
"A noite urinava
nas paredes
do quarto.
_____
Desfiei um maço
de jasmim
na jarra
e esvaziei o hálito.
____
A vida amou a morte
mais do que havia para morrer.
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Na beira da cama,
o sândalo dos pés
convidava-me
a renunciar às sandálias
e debulhar a palha noturna.
__
Apaguei os pensamentos
na espuma da pele.
____
Abandonar o paraíso,
a única forma
de não esquecê-lo"
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“Só na velhice conheci o brio
de viver com vagar.
O rosto não tem mais residência, move-se a cada
sorvo das sombras.
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Há mais terra debaixo da pele que a terra onde piso.
Atravessei o século e ainda não me percorri.
_
Qual a senha que transporto?
Serei contrabando de Deus, que vai quieto dentro,
receoso de se pronunciar?
-
Condiciono os amores a uma expectativa.
Mas é justamente ela que me impede de ser real.
__
Tornei-me o diário de uma viagem cancelada.
__
Escapa o ponto da veia. Não disponho de mapa
que me centralize, guia que indique meu paradeiro.
Minha atualidade é ter fome,
não evoluímos perante o alimento.
__Nivelamos a cura ao veneno,
o tempo discrimina sua natureza.
O que chega atrasado ou adiantado, envenena.
O que é pontual, cura.
__Nossas fachadas carecem de uma segunda mão.
Os moradores ancestrais e os novos
estão sobrepostos, misturados, na cor das paredes.
__Descender valerá o sacrifício se nos inventarmos.
__A feição cumpre um dever ou é minha maneira
de concordar com a imperfeição?
Será que a ambição não me permite ser o que sou?
Ou realmente, distraído com o que levo,
não leio os sinais, os mínimos indícios
de uma vida maior que a lealdade aos costumes?
__Não sei absorver a mensagem da troca de guarda
entre a coruja e o melro. Muito menos traduzir
o que sente o cão quando percebe que a ave lacerada
não tinha ossos a compensar o esforço.
__Será a fidelidade uma forma de trair?
O amor afiança a fortuna no hálito,
desterrado é pelo hábito.
__Como retomar o instante que consenti, não mais
participando do mundo
para que as coisas corressem a esmo?
__Ao conversar com minha filha, às vezes me dói
a responsabilidade de conduzir sua inocência.
Se ela soubesse o desaviso da encruzilhada,
que aceitei uma trilha ao léu, entrei numa rua,
no casamento, pela ideia de seguir o fluxo.
__Não me empurrem mais, não vou por onde não sei.
Deixa-me pensar o corpo, deixa o corpo me pensar”.
_ _ _ _ _
“Atendi o pedido dos pais
de não conversar com estranhos
e deixei de me escutar”.
_ _ _ _ _
“A morte me perturba,
terei o sofrimento
de não corrigi-la
antes de ser publicada.
__Apagado em laje fria,
quem trocará a minha roupa de cama?
__Acordarei impessoal,
desprovido do alarme das pálpebras?
Até quando serei o que compreendo?”.
_ _ _ _ _
“Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras
_na estante.
Mudava os títulos
de endereço
_em tua biblioteca
e rastreava, ensandecido,
aquele morto encadernado
_que ressuscitou
quando havias enterrado
a leitura,
_aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova
aberta na coleção.
_Sou também um livro
que levantou
dos teus olhos deitados.
_Em tudo o que riscavas,
queria um testamento.
Assim recolhia os insetos
_de tua matança,
o alfabeto abatido
nas margens.
_Folheava os textos,
contornando as pedras
de tuas anotações.
_Retraído,
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.
_Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade
_e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,
_premeditando
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,
_visceral,
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,
_cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,
_um oceano
na fruta branca.
Pretendias impressionar
_o futuro com a precocidade.
A mãe remava
em tua devastação,
_percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino,
uma agulha cerzindo
_a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,
_descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde
_para a ceia.
Preparava o jantar
com as sobras do almoço.
__Lia o que lias,
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz”.
_ _ _ _ _
“O que o fogo já leu de cartas. É o derradeiro confidente.
Recolhe os rascunhos, o que escondemos no fojo.
Desfia os amantes, os desafetos, os crimes.
_A sina do fogo é soprar cinzas. Nossa sina é sobrar nas cinzas.
Sou capaz de aniquilar um amor
para ver o que repousa em seu fundo.
_O mundo é alheio, nos portamos como visitas.
Cresce a vergonha de minhas dúvidas.
__Experimento a agressividade nos pequenos gestos,
espanco o cigarro até apagar. Meu bem-estar
é estar de bem com toda a gente
e isso é impossível.
Nem em minha família fui unânime”.
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í.ta**

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

uma conversa, poesia

uma conversa não precisa acontecer para se concordar ou discordar, simplesmente.
uma conversa acontece para que se faça ouvir algo. para que se faça sentir algo.
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manoel ricardo de lima mandou e-mail com uma pequena entrevista-conversa, por escrito, que o escritor carlos augusto lima fez com ele.
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lanço aqui a conversa. ou as falas. ou somente nada.
é sobre a poesia. e a vida. eu acho.
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é para ser lida. ou não.
mas não é para ser concordada ou discordada.
isso não.
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Uma conversa: poesia número 7
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Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com o desequilíbrio. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Poeta é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas.
Com esta conversa poesia, a de número 7, encerro cá um ciclo, um estiramento de papo com alguns bons poetas de cá, ou de cá ao longe, este melhor lugar de ficar. Sete conversas que me deixaram feliz, escolhas certeiras, precisas, inteligentes. Que outras venham, de outra forma, outros lugares do saber e conhecer. Ou que seja apenas silêncio, quem sabe.
Para este último papo, convido Manoel Ricardo de Lima, que nasceu no Piauí, mas é cearense, e anda nos longes de uma ilha, fincando lastros, conexões, conversas das mais variadas, que esticam o dedo de prosa para além da literatura (por ela mesma), e prefere criar um território de saber, contemporâneo, sem mesmo a ideia de território, como você vai ler e verá. Manoel é uma das vozes críticas mais contundentes e espertas da literatura contemporânea brasileira. Voz aguda, diversa, filosófica, de mil referências e saberes atuais que tanto o empolgam. Entre tantas e outras coisas, Manoel Ricardo foi articulista deste jornal, é doutor em Literatura e Textualidades Contemporâneas, pensando Joaquim Cardozo, pela UFSC, e retomou a escrita do poema no seu mais recente livro "Quando todos os acidentes acontecem" (Editora 7 Letras, 2009). Com vocês, Manoel. Que esteja presente.
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1) Por que escrever poesia, essa insistência?
Ontem assisti a um documentário simples, O equilibrista, sobre o cara que andou entre as torres do WTC, Philippe Petit, não pelo filme, nada pelo filme, mas pelo ato poético, este ato que não tem porquê. 45 minutos num cabo, pra lá e pra cá, entre os terraços das torres, solto no tempo e com um imenso sorriso aliviado no rosto. Então é óbvio que Petit se irrite com a pergunta que todos lhe fazem: "mas por que você fez isso?", e se irrita porque defende o gesto de uma vida mais perto do perigo, uma vida que possa provocar uma rebelião. Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com isso, com o desequilíbrio do corpo lançado sobre um fio de vida alegre. Poesia, acredito, é lançamento. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Esta insistência passa um pouco por aí, por uma certa ética para o fanciullo, para a imaginação, para o amor, para o acidente que é o amor (descontrole, fúria, rasgo, acesso, distração, comum etc, e o que mais você quiser incluir aí, acho que cabe). E este ato não tem a ver com a palavra, apenas, isto me parece pobre e muito cristão, mas tem a ver com os modos de uso dos corpos com a vida, das operações do corpo e seus gestos políticos mais tensos. Quando escrevo, escrevo assim, como uma responsabilidade para nada, como "um território de luta", uma recusa e um lance com uma história aberta. E tenho tido cada vez mais vontade de escrever pra nada, num caráter insustentável do sentido.
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2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?
Poeta é o que está expulso, Carlos, mas é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas. E estas mesmas coisas, me parece, de fato, todas elas, sem exceção, não tem mais saber histórico, não tem história, mas apenas um ajuste de emergência para o progresso. Uma história pré-fabricada, a que chamamos de poder, é a lei única e definitiva. O que nos sobra, a angústia? Esta pergunta é a marca feita com água a partir de uns versos de Alexandre Barbalho, "só o que me salva é a / angústia"; versos que vem como afirmativa, inclusive. A questão para o poeta agora, imagino, ainda pode ser retomar a utopia como um campo desejante, um campo para o desejo. Sempre com uma imprecisão interrogativa: como furar o campo da necessidade, que é o da política, com um poema, para armar um estado de utopia? Eu insisto nisso do poema porque preciso de um sonho, Carlos, ao menos um. Fazer a flor que posso ou tocar com a ponta do meu nariz num ponto furo de alguma ou qualquer imagem do mundo.
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3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado?
Se eu começar a pensar em Fortaleza só como este lugar que tem nome de forte, posso começar a me sentir como Julio Cesar Chaves e desferir uns ganchos de esquerda, quase sem desperdício. Você deve lembrar que em 1990 Chaves ficou mais célebre ainda depois de derrubar Meldrick Taylor no último round, quando perdia por pontos, e mandou a frase: "Luta se ganha no ringue, não enquanto se discute." A frase é boba, de efeito, mas aponta pro chão, aponta pra onde o ato se constrói, pra onde é a queda, pra onde não tem porquê. Eu abandonei a discussão, Carlos, tenho me enchido de cansaço porque ela anda simplista, fora de prumo, atrás de significados e sem impertinência, e aí tanto faz se em Fortaleza ou em qualquer outro canto. Mas não abro mão de minha postura, do meu lugar político como poeta, por isso tenho a impressão de que não larguei o chão enquanto faço um pouco de silêncio e ando mais devagar, mas é só um pouco.
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í.ta**

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

a leitura como mediação

artigo publicado por mim, hoje, no jornal "hoje", que circula por jaraguá do sul e região.
o título do post é o título do artigo.
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A leitura como mediação___Ítalo Puccini*_____É do Daniel Pennac, escritor francês, estudioso das práticas de leitura e do que significa, ou pode significar, o ato de ler, a afirmação de que “O verbo ler não suporta o imperativo”. É com essa frase que ele inicia seu livro “Como um romance”, um livro de ensaios sobre a leitura e suas (im)possibilidades, escrito de uma forma muito íntima e segura, cativante para o leitor.
Em toda a primeira parte do livro, chamada de “Nascimento do alquimista”, Pennac discorre sobre a formação do sujeito-leitor, deixando claro que o contato inicial com a leitura ocorre primeiramente na forma da leitura ouvida, no momento da contação de uma história.
E é aí que faz sentido a afirmação inicial de Pennac. O contato inicial de um sujeito com a prática da leitura não pode comportar o imperativo: leia. Ao contrário. Esse contato precisa ser mediado e cuidado com atenção por alguém que já tenha afinidade com tal prática. A leitura deve significar segurança ao sujeito que a está conhecendo, uma vez que se encontra na voz dessa pessoa mediadora a entonação que demarca o real e o ficcional no que é lido, preparando, dessa forma, um leitor que será capaz de uma leitura “entrelinhas”, que é a verdadeira leitura.
É de se perguntar o que será que acontece para que uma criança que antes pedia a alguém para lhe contar determinadas histórias, e que buscava desvendar mistérios de personagens e cenários, ao aprender a ler e ao se ver diante de obrigações de leituras, torna inverso seu sentimento por aquele ato? E aí o autor francês propõe pensares que levam a refletir sobre tal situação: talvez porque ela não tenha aprendido o ato em si, mas somente o gesto do ato. Talvez porque a leitura tenha, de fato, se tornado dogmática: é necessário ler, e pronto. Ou seja, talvez porque esta criança tenha sido abandonada quando mais precisava de alguém para auxiliá-la a compreender por que aquele ato, outrora encantador, tornou-se obrigatório e enfadonho.
___
* Escritor e professor de Literatura
_ _ _ _ _
í.ta**

sábado, 10 de outubro de 2009

poetas e poemas



a
a
a
a
a
a
a
a
a







li dois livrinhos de poemas de dois autores dos quais não havia lido nada: wilson bueno e antonio cicero.
_________
do wilson bueno li o livro “pequeno tratado de brinquedos”, da coleção catatau, da editora iluminuras. um livro repleto de tankans. (tankam é um estilo de escrita japonesa. dizem que o tankam é o pai do kaihai, uma vez que este são os três primeiros versos daquele. o tankam, então, é composto por cinco versos, três na primeira estrofe, e dois na segunda. e, assim como o haikai, explora a construção de imagens nos poucos versos, e exige esforço do leitor numa possível construção de sentidos para os versos-imagéticos).
_____
achei alguns tankans difíceis de compreender. outros mais acessíveis. mas isso vai da bagagem leitora do leitor. percebi que a minha ainda não é compatível com o cara, não. aliás, com nenhum dos dois autores.
______
mesmo assim, pesquei algumas coisinhas muito, muito bem feitas, olha só:
_ _ _ _ _
“indiscrição
________
lua na vidraça
espia dentro do quarto
o corpo da moça
__________
o corpo dentro do corpo
o quarto dentro do quarto”
_ _ _ _ _
“vigília
________
anda a noite longa
daqui até o alvorecer
uma lua tonta
_________
depois fica só um som
no algodão dessa manhã”
_ _ _ _ _
“modigliani
__________
quantos homens longos
moram num homem apenas?
- só o homem e um poema
_______
sob paletós derrotados
os dúbios cabides choram”
_________
_ _ _ _ _e do antonio cícero eu li o livro “a cidade e os livros”. peguei-o pelo título mesmo. e são poemas muitíssimo bem escritos. de uma construção formal e poética primorosa. e também repleto de significâncias (neologismo proposital):
________
começa com um poeminha de epígrafe, escrito por rose ausländer, que diz assim:
_ _ _ _ _
“Espaço
______
Ainda há espaço
para um poema
_________Ainda é o poema
um espaço
__________
Onde se pode
respirar".
_ _ _ _ _ _e daí, do cícero, encontrei coisas belas assim:
___“lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm”,
(do poema homônimo ao livro).
_ _ _ _ _
“Merde de Poete
________Quem gosta de poesia ‘visceral’,
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda”.
__________
______í.ta**

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

da hilda hilst

para esse momento de seca e esgotamento mental (vem de esgoto mesmo),
dois poeminhas da hilda:
_ _ _ _ _
“Devo continuar a te dizer palavras
Se a poesia apodrece
Entre as ruínas da Casa que é a tua alma?
Ai, Luz que permanece no meu corpo e cara:
Como foi que desaprendi de ser humana?” (p. 57)
______“Empoçada de instantes, cresce a noite
Descosendo as falas. Um poema entre-muros
Quer nascer, de carne jubilosa
E longo corpo escuro. Pergunto-me
Se a perfeição não seria o não dizer
E deixar aquietadas as palavras
Nos noturnos desvãos. Um poema pulsante
____Ainda que imperfeito quer nascer” (p. 60)
_ _ _ _ _
“XVII
_____As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro da tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.
_____As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutras, de ironia as tuas
Só através da minha vida vão viver” (p. 58).
_ _ _ _ _
os dois do livro “do desejo”, 2004, editora globo.
_____
í.ta**

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

o livro é. apenas. o amor é. também.

reli o livro “as mãos”, do manoel ricardo de lima.
já havia lido esse livro anos atrás.
encontrei-o na biblio do sesc. peguei-o. li-o.
_______gosto desse livro. gosto da narrativa – intimista, a meu ver – criada pelo manoel. da narrativa que, segundo consta na orelha do livro, tem pretensão de ser de amor, mas que nem por isso seja: “Este livro é só uma história de amor, como acredito que seja qualquer história de amor: uma alegria, uma impossibilidade, um gesto, um confinamento, uma delicadeza”.
______é um livro dividido em cinco capítulos: um, dois, três, quatro, um. começa onde termina. termina onde começa. como o amor, não? ou melhor, sem começo e sem fim. não é para ser entendido. como o amor. “este livro é somente”, ainda consta na orelha. começa com “um confinamento de tempo, tudo é dentro de casa. Entre paredes”. termina com “é que Lá fora, custa-me dizer, não existe mais”. é onde vírgulas e pontos se perdem.
_________deixo aqui um trechinho. aquele que eu mais releio. não sei o porquê. nem há necessidade de se saber. apenas é. como o livro.
__________“Apanhava as mãos, soltas, enrijecia os músculos do antebraço, erguia os ombros a cada tom mais alto, ou mais baixo, tanto fazia, creio, era sincero vê-La dar ordem ao piano, cantar: dizia a Ela, das mãos. Dizia do aperto, da frouxidão de existir, da possibilidade de terminar a canção, daquele fim de passeio ao piano, do preenchimento da casa, e me dava. Sem diminuir o nariz, para frente, cheirava o ar, fundo, olhava sério, sorria e me repetia a frase que um dia disse, eu, sem querer, em caminhada pelo parque, em dispersão sobre música poesia e água corrente, sobre a forma que Ela delineava o piano e sobre a atenção que me engolia estar ao lado, estivesse onde, fazendo o que fosse, parava tudo para ouvi-La, vê-La: Perto não se fica a quem não se conhece as mãos. Sorri, tímido, mas sorri com alegria que nem longe agora imagino descrever, nem conseguiria. Tudo está, parece-me, desapercebido” (p. 17)
________ah, e reler esse livro me fez voltar a ouvir nei lisboa.
____í.ta**

escrever é dar a cara a tapa

publiquei artigo, na quarta-feira, no jornal "hoje", que circula por jaraguá e região.
o título do artigo é o título do post.
é sobre o escrever.
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Escrever deveria ser sempre um incômodo.
Incomodar, segundo o Novo Dicionário Aurélio, significa, entre outras coisas, causar incômodo a, importunar, desgostar, irritar.
Escrever deveria ser tudo isso, pois.
Estar incomodado é estar “levemente indisposto, constrangido”, ainda segundo o dicionário. E todo texto deveria incomodar. Incomodar o escritor e o leitor. Deixá-los indispostos, constrangidos diante do que se escreve e do que se lê.
Uma das finalidades de todo e qualquer texto, literário ou não, deveria ser esta. Já afirmara o crítico Umberto Eco, em seus “Seis passeios pelo bosque da ficção”, que “o texto é uma máquina preguiçosa que espera muita colaboração da parte do leitor”.
E essa colaboração nem sempre deve significar um ato de concordância. Contudo, não significa que deva se tornar rígida e excessivamente discordante.
Um texto cumpre com sua finalidade quando propõe um algo a mais para quem o lê. E para quem o escreve também.
Um algo a mais que reflita num pensar mais elaborado, que signifique um repensar determinado ponto de vista, ou que jogue luz sobre alguns caminhos de compreensão ainda não alcançados.
Se hoje escrevo, é por ler tantas e tantas coisas maravilhosas (e quantas ainda por ler!).
Se hoje escrevo, é porque desenvolvi em mim a pretensão de achar que através de minhas palavras as pessoas também poderiam se sentir tocadas, seja se encontrando em meus rabiscos, seja desenvolvendo uma antipatia pelos mesmos (e consequentemente por mim).
Se hoje escrevo, isso se deve ao trabalho de penso inserido nessa prática. Algo que me alimenta como sujeito. Algo em que acredito que possa alimentar a outros da mesma forma.
Se hoje escrevo é também por acreditar que esse ato possa ser contagioso.Escrevo porque dói, e porque essa dor é minha fuga. Escrevo para me contradizer e porque ainda não encontrei melhor forma de solidão.
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í.ta**