quarta-feira, 9 de setembro de 2009

o carteiro e o poeta

li “o carteiro e o poeta” nessa semana. estava com o livro há algum tempo, mas sempre escolhia outra coisa para ler. até que o peguei. em algumas sentadas, foi-se.
e que ótimo livro! muitíssimo bem escrito. um cuidado grandioso com as palavras, um uso preciso de elementos gramaticais, e uma veia irônica que tornam sua leitura ainda mais gostosa. é um livro que, por tudo isso, exige do leitor uma certa bagagem de leitura, um certo ritmo. lê-lo de maneira muito pausada, creio eu, torna-o cansativo. e sem atenção, pouca coisa se consegue. a beleza do livro está nas entrelinhas dele.
deixo aqui um trecho. um capítulo só. na íntegra, que mostra um pouco do que comentei sobre o livro. há capítulos assim curtos. há outros maiores também. é a história de mario jiménez, morador de província no chile, que se torna um carteiro que entrega toneladas de cartas, diariamente, para um único cliente, o poeta pablo neruda. os dois se tornam amigos. neruda ensina a mario o que são metáforas. mario se apaixona por beatriz gonzáles. tenta conquistá-la com metáforas. e aí a história segue... há, como pano de fundo, o período em que salvador allende governou o chile.
vale muito a leitura!
______“Quando o pescador viu entrar na estalagem Pablo Neruda acompanhado de um jovem anônimo, que, mais do que carregar uma bolsa de couro, parecia estar aferrado a ela, decidiu alertar à nova estalajadeira sobre a parcialmente distinta afluência.
- Procuram lugar?
Os recém-chegados ocuparam dois assentos diante do balcão e viram cruzar por todo seu comprimento uma garota de uns dezessete anos com um cabelo castanho encaracolado e desfeito pela brisa, uns olhos marrons tristes e firmes, redondos como ameixas, um pescoço que deslizava até uns seios maliciosamente oprimidos por uma camiseta branca dois números menos que o necessário, dois mamilos, embora cobertos, perturbadores e uma cintura daquelas que se agarra para dançar tango até que a madrugada e o vinho se acabem. Houve um breve lapso de tempo, o bastante para que a menina deixasse o balcão e ingressasse no tablado da sala, antes que aparecesse aquela parte do corpo que lhe sustentava os atributos. Ou seja, o setor básico da cintura, que se abria num par de quadris embriagadores, temperados por uma minissaia que era uma chamada de atenção para as penas, que depois de deslizarem pelos joelhos acobreados concluíam como uma lenta dança num par de pés descalços, agrestes e circulares, e, a partir daí, a pele exigia o retorno minucioso sobre cada segmento até alcançar esses olhos cafés que souberam mudar de melancolia à malícia enquanto estiveram sobre a mesa dos freqüentadores.
- O rei do totó – disse Beatriz Gonzáles, apoiando o mindinho sobre o encerrado da mesa. – Que desejam?
Mario manteve seu olhar nos olhos dela e durante meio minuto tentou fazer com que o cérebro o dotasse com as informações mínimas para sobreviver ao trauma que o oprimia: quem sou, onde estou, como se respira, como se fala?
Embora a garota tenha repetido “Que deseja?”, tamborilando com todo o elenco de seus frágeis dedos sobre a mesa, Mario Jiménes só pôde atinar em aperfeiçoar seu silêncio. E, então, Beatriz Gonzáles dirigiu o imperativo olhar para seu acompanhante e emitiu, com uma voz modulada por essa língua que fulgurava entre os abundantes dentes, uma pergunta que, em outras circunstância, Neruda teria considerado rotineia:
- E o que deseja o senhor?
- O mesmo que ele – respondeu o poeta.” (pp. 36-37).
_____Livro: O carteiro e o poeta
Autor: Antonio Skármeta
Edição: Record.
Ano: 2007 (publicação original, 1985)
_____
í.ta**

5 comentários:

Anônimo disse...

nunca li o livro. Assisti ao filme e me apaixonei. é lindo! real e severo, duro....

vc ja viu?

aaah, mas pra quê, se o livro é melhor, ne? rsss

beijo, Gisele

Simplesmente Outono disse...

Vi você no blog de uma amiga, a Gisele. Curiosidade à flor da pele e cá estou. Voltarei.
Permita esta estação deixar-lhe algumas folhas secas.
Eu, Simplesmente Outono.

Elaine Lemos disse...

Este aperitivo abriu-me o apetite. Vontade de comer esse livro!

Um beijo.

Mary disse...

li esse livro há muito tempo atrás... mas o filme está mais vivo na minha memória, pois sempre o revejo. muito bonito :)

* Felicidade Clandestina disse...

Não consigo encontrar este livro...

já viu o filme?
tão belo.