terça-feira, 29 de setembro de 2009

apaixonar-se é adiar a própria morte


escrevi sobre a morte.
e sobre a vida.
e sobre a paixão.
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escrevi sobre dois livros lindíssimos:
"a grande questão" e "o pato, a morte e a tulipa",
os dois do alemão Wolf Erlbruch, ganhador do prêmio
Hans Christian Andersen, em 2006, pelo conjunto da obra.
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o texto foi postado no blog do prolij,
então não o colocarei aqui.
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vale a passada lá.
pelo texto,
e pelo blog.
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hoje, eu mesmo
me indico.
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í.ta**

domingo, 27 de setembro de 2009

rumor da casa: dois poemas

"Instala-se no centro do vulcão
a nódoa, invisível, no teu corpo.
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A nódoa se alimenta de tuas mágoas
de palavras cruzadas, do silêncio
e cresce.
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A nódoa.
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Ela nasce
no surgimento da primeira estrela
e deixa o céu amargo toda a noite.
Finge um canto a Baco, fica sempre sóbria
e desmorona na primeira esquina.
Postula lucros, testa resultados
sorri em comerciais de margarina.
Diz geralmente o oposto do que sente.
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Castelo construído pela dor:
a nódoa é transparente".
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"Penetram-me
palavras
mais que todas
no pulso
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sons
sobre muros
de silêncio
e olho
______
sons
sobre o mundo
e dentro:
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dentro de mim
há o soco
do som".
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í.ta**

sábado, 26 de setembro de 2009

rumor da casa, telma scherer

conheci a telma schrer uma vez. na verdade, não a conheci. assisti a uma fala dela. uma fala maravilhosa, sobre poesia.
à época, não fui atrás do primeiro livro dela, não.
sabia agora do “rumor da casa” (2008), mas também não havia ido atrás.
leio-a em seu blog, isso sim.
e eis que hoje me deparei com dois exemplares desse "rumor" na biblio do sesc.
____coisa mais linda o livro. e os poemas, de uma fineza. certeiros.
depois escolho um pra colocar aqui.
fica, por ora, o texto da orelha do livro, que já é convidativo pra dedéu.
_________“Toda casa guarda seus mistérios. Nas paredes, nos tetos, nas frestas das madeiras. Há rumores escondidos em todos os cantos. 'Rumor da casa', segundo volume de poemas da gaúcha Telma Scherer, vem à tona seis anos após a estréia, com Desconjunto. Surge no contexto de um projeto que inclui performances e oficinas literárias. Cada verso foi experimentado no contato com o público. O conjunto passou, portanto, por um laboratório com a fala do outro. Na sala, uma mulher faz crochê. Essa vó Elza talvez seja mais casa do que mulher, dialogando com o poema de João Cabral que serve de epígrafe. É a figura que entrelaça todos os fios.
O livro inicia com a palavra ‘silêncio’ e conclui na palavra ‘som’. Há um trajeto em que se desnudam os cômodos interiores, evocando memórias e vozes silenciadas. Ouvem-se ressonâncias das vozes de Ana C., Sylvia Plath, Adélia Prado.
A casa é ainda o espaço onde se revela o próprio processo de escrita. Então que o crochê da vó Elza funciona como imagem possível do fazer literário. Enquanto ela tece as linhas, Telma tece a linguagem. É pelo lado de dentro que se pode conhecer o 'Rumor da casa'”.
________í.ta**

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

pauladas

ainda do livro "todo mundo devia escrever: a escrita como disciplina do pensamento".
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o georges picard fala/escreve com propriedade.
é direto.
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ouve/lê quem quer.
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e ganha-se com isso. ou não:
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"(...) o tédio geralmente reside naquele que o vivencia e não em sua suposta causa".
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"(...) não existem livros entediantes, mas apenas leitores incapazes de suficiente concentração".
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"É o cúmulo alguém querer fazer da própria preguiça um argumento racional!".
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pronto. sem mais, nem menos.
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í.ta**

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

gabriel gómez

o gabriel gómez é escritor nascido na argentina e morador de rio do sul/sc.
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é pessoa das mais finas, inteligentes e educadas que conheço.
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é escritor inovador e corajoso.
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agora criou um blog, que tá bonito pra chuchu.
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recomendo.
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tem até resenhas minhas dos dois livros que ele já lançou,
"a culpa é do livro" e "borges e outras ficções".
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os links:
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blog do gabriel
resenha minha sobre o livro "a culpa é do livro"
resenha minha sobre o livro "borges e outras ficções
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í.ta**

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

abrindo aspas

estou lendo "todo mundo devia escrever: a escrita como disciplina do pensamento", do georges picard.
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um livro que ao mesmo tempo perturba e encoraja.
um livro que exige do leitor.
um livro para ser lido aos poucos. para ser re-lido com cuidado.
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um livro no qual, dentre tantos outros dizeres importantes
sobre a escrita e a literatura, encontrei esta preciosidade aqui, ó:
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"Talvez só venhamos a nos tornar verdadeiramente escritores a partir do momento em que sejamos menos tentados pela perfeição do que pela vontade de assumir, com plena consciência, nossas imperfeições. Elas, então, se transformam em fontes de inquietude e de riqueza - e não importa que daí venha a surgir uma obra pouco intensa, desde que ela seja singular" (pp. 70-71).
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í.ta**

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

sobre contar histórias e galinhas


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“O segredo do poder da história é a compreensão essencial de que o importante não é o que acontece na história. O que vale é o que acontece dentro de nós, que a ouvimos. Na verdade, o personagem não existe a não ser em nossa invenção. Fomos nós que manifestamos todos os personagens e mesmo a paisagem, a partir de nosso interior, como um discípulo materializa a energia de uma divindade dentro de si durante a prática e a oração”. ("Através do terror da história", Laura Simms, no livro "Baús e chaves da narração de histórias", editora do SESC/SC, 2006, p. 64)
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esse trechinho, que aqui tem pretensão de epígrafe, me remeteu a duas histórias recentes que li e reli. duas histórias sobre galinhas. duas histórias que convidam o leitor a, não só ouvi-las, mas também a recriá-las.
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eu já tinha escrito aqui sobre o livro “As frangas”, do caio fernando abreu. na verdade, havia copiado aqui um trechinho do livro. e agora copio outro, bem pequenininho, que diz assim: “Acho que a melhor história sobre galinhas que eu conheço chama-se A vida íntima de Laura. Laura era uma galinha, claro. Lendo esse livro você vai descobrir que as galinhas também têm uma vida íntima. Quem contou a história de Laura foi uma grande escritora, a Clarice Lispector. Ela entendia muito de galinhas. De gente também”.
____aí, eis que me deparei com “A vida íntima de Laura”. não tive recusar a leitura. a vida da galinha Laura é contada tão lindamente pela clarice! é como se ela, a autora, conversasse com o leitor.
______ela começa explicando o que é vida íntima, e pede ao leitor para que faça o favor de gostar de Laura. aí, clarice conta algumas coisas sobre Laura, como por exemplo: é casada com o galo luís, tem o pescoço mais feio do mundo, é burrinha, tem pensamentozinhos e sentimentozinhos, não gosta de pessoa alguma, “na maioria das vezes tem o mesmo sentimento que deve ter uma caixa de sapatos”, e é a galinha que mais bota ovos. ah, ela ainda se torna mãe na história.
______e a história de laura termina assim: “Acabou-se aqui a história de Laura e de suas aventuras. Afinal de contas, Laura tem uma vidinha muito gostosa. Se você conhece alguma história de galinha, quero saber. Ou invente uma bem boazinha e me conte. Laura é bem vivinha”.
_________e foi daí que o caio fernando abreu resolveu inventar a sua história sobre galinhas: “Foi por isso que resolvi escrever esta história. Eu gostava muito da Clarice e queria agradar um pouco a ela”. e na história do caio, ao invés de uma só galinha, ele fala sobre oito franguinhas, que é como ele chamas as galinhas. as franguinhas são a ulla, a gabi, as três irmãs (maria rosa, maria rita, e maria ruth), a otília, a juçara, e a blondie. são aquelas franguinhas de se colocar em geladeiras, de porcelana, sabe? todas franguinhas que o caio ganhou de pessoas próximas. e ele conta essa história da mesma forma que a clarice conta a da laura, conversando com o leitor, como se tivesse contando assim, na frente de quem tá lendo e ouvindo. ó um trechinho pra mostrar: “(...) eu não inventei quase nada da Ulla, da Gabi, da Maria Rosa, Maria Rita e Maria Ruth, da Otília, da Juçara, da Blondie. Elas existem mesmo, são bem como eu disse. Estão em cima da geladeira aqui de casa pra quem quiser ver. Vem tomar um guaraná comigo que eu te mostro”.
________________e o caio também encerra a história convidando o leitor-ouvinte a contar uma história, seja de franguinhas, ou não: “Se você quiser, invente uma história e mande para mim. Se for história de franga, melhor ainda. Prometo ler pra elas ouvirem. (...) A coisa que uma pessoa mais precisa na vida é gostar das outras pessoas e ser gostada, também. Aí, pra ser gostado, a gente escreve histórias. Você gostou dessa? Daí está tudo certo, porque então você gostou de mim e eu gostei de você também”.
_______tá feito o convite. da clarice, do caio, e meu. mas eu ainda não contei minha história, não. preciso pensar numa.
________í.ta**

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

disseminar a prática da leitura

artigo publicado por mim, hoje, no jornal "hoje",
que circula em jaraguá e região.
o título do post é o título do artigo.
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Por gostar tanto de ler, envolvo-me com alguns projetos relacionados à prática da leitura, à sua possível disseminação, ao estudo do que as pessoas costumam ler, dos motivos que as levam a buscar determinadas leituras, da frequência com que há o contato com algum material de leitura. E faço esse movimento com o objetivo, mesmo, de propor algumas reflexões acerca desse ato tão comentado, dito tão importante para as pessoas, mas tão pouco praticado e demonstrado.
O Carlos Henrique Schroeder, escritor e editor aqui de Jaraguá do Sul, nas oficinas e cursos de formação de escritores, sempre bate na tecla de que as pessoas devem criar cenas de leitura: andar com os livros que andam lendo, com as revistas e os jornais que tanto folheiam, à mostra. Escancará-los mesmo. Mostrar-se através do que se está lendo. E eu concordo com ele. Para que a prática da leitura se dissemine é preciso colocarmos a cara a tapa, fazer circular obras e materiais de leitura, chamar a atenção dos demais para isso.
Escrevi nesse espaço, no artigo anterior, que a leitura deve se tornar uma prática consciente realizada pelo sujeito, e não um hábito, e não algo mecanizado. E, para que isso aconteça, são necessárias as tais cenas de leitura ditas pelo Carlos. E é aí que retomo a ideia de grupos de leitura, a realização de círculos de leitura. Por exemplo: como sou bolsista-pesquisador pela Univille, onde estudo Letras, desenvolvo uma atual pesquisa em que minha proposta é a de realizar Círculos de leitura com alunos do Ensino Médio de algumas escolas, com o objetivo principal de disseminar essa prática do ato de ler, de tornar a leitura algo mais presente no dia-a-dia das pessoas, sejam alunos, sejam professores, sejam trabalhadores que forem.
Creio ser necessária essa disseminação da prática da leitura, esse pensá-la para além do livro, para além daquela situação de isolamento. A leitura é conversa, é interação, entre leitor e texto, entre leitor e leitores.

* Professor de Literatura e Estagiário de biblioteca.

domingo, 13 de setembro de 2009

os versinhos deixados pela rê

costumo trocar muitos e-mails com a regina carvalho, a regininha, ‘fessora de jornalismo aposentada da ufsc, cronista, escritora, e gente da maior humildade e sabedoria.
_______são assuntos diversos. quer dizer, nem tão diversos assim. quase sempre sobre leituras e escritos que damos conta. costumamos dividir nossas produções, nossas leituras, um enviar para o outro, dando a cara a tapa, e sendo sinceros nos retornos. coisa mais boa de se fazer! e também agora temos um livro pra sair, escrito em parceria. um livro didático de crônicas, somente com cronistas catarinenses (que ou nasceram aqui, ou moram e produzem aqui no estado), em que selecionamos três crônicas de cada cronista (são 31 cronistas ao total. é isso, rê?), fazemos as análises dos textos como crônicas que são, e propomos algumas atividades didáticas de leitura, escrita e reflexão. ficou lindim, como diz ela. tá pra sair, após tantas reviravoltas com editoras e editais. aguardamos e confiamos, pois agora.
___________e a regininha sempre assina seus e-mails com alguns versos de alguns escritores, compositores, coisas assim. e agora é que tenho prestado mais atenção a esses versinhos. são sempre diferentes. vem sempre dois só, no máximo três. coisas mais lindas! coisas que só poderiam vir da rê.
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garimpei alguns desses versinhos, pra mostrar a belezura deles. e, como ela tá na fase de escrita do livro sobre o joão bosco, há muitos dele.
tão aí, ó:
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"Se o tédio me assaltar
Palavra me socorre".
(Os Bosco, João e Chico)
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"A vida é longe
não conheço outro atalho".
(Os Bosco, João e Chico)
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"O amor só é bom se doer".
(Baden/Vinicius)
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"Não vou pro céu, mas já não vivo no chão
Eu moro dentro da casca do meu violão".
(JB/Aldir Blanc)
________"Tenho vontade de esquecer de mim
E nesse instante me apagar
No branco sal do mar".
(Os Bosco, João e Chico)
__________"Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor".(Paulinho da Viola - Para um amor no Recife)
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í.ta**

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

cinco marias

li "cinco marias", do carpinejar.
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quero ler mais coisas dele. gostei por demais desse "cinco marias".
poemas, em sua maioria, curtos. fortes. secos. diretos.
socos no leitor.
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gosto disso.
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há outros deles lá no sesc. de crônicas também.
um dia encaro.
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ficam alguns exemplos do que há em "cinco marias",
para quem ler se deliciar:
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“A honestidade é antipática.
As pessoas que são justas,
discretas, comportadas,
netos ao colo, casos arquivados,
não rendem literatura.
A impureza emociona”.
______“As confidências ofendem.
O casal esgota cedo a estranheza.
Busca se destruir perfeitamente.
A traição é uma intimidade
mais estável que o casamento”.
_____“(...)
A vida com erros de ortografia
tem mais sentido.
Ninguém ama com bons modos”.
______“(...)

Não conferir palavras no dicionário.
A linguagem se contenta
com as pontadas do parto”.
_____“Na infância, vive-se a medida natural.
Depois, o desequilíbrio.
Ou sobra ou falta amor”.
___“Quando discutíamos,
o pai dizia:
- Nada a declarar.
______E minha vida segue
sendo a declaração do nada”.
_______“Suspendo os afazares,
compelida a desabotoar a blusa
e esvaziar o leitor
dos não-nascidos”.
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í.ta**

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

o carteiro e o poeta

li “o carteiro e o poeta” nessa semana. estava com o livro há algum tempo, mas sempre escolhia outra coisa para ler. até que o peguei. em algumas sentadas, foi-se.
e que ótimo livro! muitíssimo bem escrito. um cuidado grandioso com as palavras, um uso preciso de elementos gramaticais, e uma veia irônica que tornam sua leitura ainda mais gostosa. é um livro que, por tudo isso, exige do leitor uma certa bagagem de leitura, um certo ritmo. lê-lo de maneira muito pausada, creio eu, torna-o cansativo. e sem atenção, pouca coisa se consegue. a beleza do livro está nas entrelinhas dele.
deixo aqui um trecho. um capítulo só. na íntegra, que mostra um pouco do que comentei sobre o livro. há capítulos assim curtos. há outros maiores também. é a história de mario jiménez, morador de província no chile, que se torna um carteiro que entrega toneladas de cartas, diariamente, para um único cliente, o poeta pablo neruda. os dois se tornam amigos. neruda ensina a mario o que são metáforas. mario se apaixona por beatriz gonzáles. tenta conquistá-la com metáforas. e aí a história segue... há, como pano de fundo, o período em que salvador allende governou o chile.
vale muito a leitura!
______“Quando o pescador viu entrar na estalagem Pablo Neruda acompanhado de um jovem anônimo, que, mais do que carregar uma bolsa de couro, parecia estar aferrado a ela, decidiu alertar à nova estalajadeira sobre a parcialmente distinta afluência.
- Procuram lugar?
Os recém-chegados ocuparam dois assentos diante do balcão e viram cruzar por todo seu comprimento uma garota de uns dezessete anos com um cabelo castanho encaracolado e desfeito pela brisa, uns olhos marrons tristes e firmes, redondos como ameixas, um pescoço que deslizava até uns seios maliciosamente oprimidos por uma camiseta branca dois números menos que o necessário, dois mamilos, embora cobertos, perturbadores e uma cintura daquelas que se agarra para dançar tango até que a madrugada e o vinho se acabem. Houve um breve lapso de tempo, o bastante para que a menina deixasse o balcão e ingressasse no tablado da sala, antes que aparecesse aquela parte do corpo que lhe sustentava os atributos. Ou seja, o setor básico da cintura, que se abria num par de quadris embriagadores, temperados por uma minissaia que era uma chamada de atenção para as penas, que depois de deslizarem pelos joelhos acobreados concluíam como uma lenta dança num par de pés descalços, agrestes e circulares, e, a partir daí, a pele exigia o retorno minucioso sobre cada segmento até alcançar esses olhos cafés que souberam mudar de melancolia à malícia enquanto estiveram sobre a mesa dos freqüentadores.
- O rei do totó – disse Beatriz Gonzáles, apoiando o mindinho sobre o encerrado da mesa. – Que desejam?
Mario manteve seu olhar nos olhos dela e durante meio minuto tentou fazer com que o cérebro o dotasse com as informações mínimas para sobreviver ao trauma que o oprimia: quem sou, onde estou, como se respira, como se fala?
Embora a garota tenha repetido “Que deseja?”, tamborilando com todo o elenco de seus frágeis dedos sobre a mesa, Mario Jiménes só pôde atinar em aperfeiçoar seu silêncio. E, então, Beatriz Gonzáles dirigiu o imperativo olhar para seu acompanhante e emitiu, com uma voz modulada por essa língua que fulgurava entre os abundantes dentes, uma pergunta que, em outras circunstância, Neruda teria considerado rotineia:
- E o que deseja o senhor?
- O mesmo que ele – respondeu o poeta.” (pp. 36-37).
_____Livro: O carteiro e o poeta
Autor: Antonio Skármeta
Edição: Record.
Ano: 2007 (publicação original, 1985)
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í.ta**

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

mais de marcelino freire






















no momento em que fui guardar “rasif, mar que arrebenta”, do marcelino freire, na estante da biblio do sesc, encontrei outros dois livros dele, também de contos. Foi um movimento só, colocar lá “rasif”, e tirar de lá “angu de sangue” e “baléralé”.
______outros dois livros com contos fortes, escritos com precisão, com coragem, com sensibilidade cruel. "angu de sangue" apresenta caroços sociais dos mais reais (perdoem-me a frase cacófona), com uma linguagem que explora os limites do gênero. Ora são diálogos indiretos e ferventes, ora é uma conversa truncada, repleta de vazios, de incompletude; como a vida.
_______escreveu assim o marcelo mirisola, na orelha do livro: “Taí. O ‘estar fudido’ é o único destino honesto que um autor pode desejar aos seus personagens e leitores”. e é preciso aceitar essa oferenda. como é preciso sentir o que vem por aí ao se deparar com a epígrafe do livro. cortantes palavras do ariano suassuna: “Eu precisaria de alguém / que me ouvisse. Mas que / me ouvisse sentindo cada / palavra como um tiro ou / uma facada. Cada palavra / e seu significado / sangrento”. angu de sangue é bom para ouvi-las.
_______já “baléralé” é um livro em que nos contos são exploradas questões como a individualidade das personagens: confusões mentais, estados emocionais, opções sexuais (êta frase horrível! de novo!).
se em “angu de sangue” é perceptível uma denúncia social através de personagens escancarados ao leitor, em “baléralé” os contos exploram muito mais as identidades sexuais das personagens. há cenas fortes de sexo, intimidadoras, que podem assustar algum leitor mais desavisado. e a força da escrita do marcelino freire fica ainda mais evidente neste livro. não há um desgaste no trato com as palavras. os contos são em sua maioria curtos, precisos, sem mais nem menos. chegam e socam o leitor. simples e cortantes.
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í.ta**

domingo, 6 de setembro de 2009

trecho

tava lendo a revista "literatura: conhecimento prático", número 25.
uma matéria sobre o marcos rey, grande escritor nacional. instiguei-me a ler mais coisas dele.
____e encontrei lá um trecho maravilhoso, lindíssimo, escrito por ele em uma carta à sua esposa, palma bevilacqua.
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deixo aqui este trecho, em que há um cuidado com as palavras, coisa mais linda!
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"Por favor, não leia esta carta às pressas. Leia devagar e, de preferência, na cama. Verá que, em cada frase, mesmo nas mais breve e nas mais frias, há um romântico oculto. Uma pessoa que só não se demarra, como Casimiro de Abreu ou Álvares de Azevedo, porque receia o lugar-comum. Aceito o desafio de não escrever uma só frase que outros poderiam ter lhe escrito. Você me sugere coisas novas, frases de tinta fresca, talvez porque o amor para mim seja uma novidade. De novo o medo de ser derramado, groselhoso; contenho-me. Vejo-a, olhando-me com seus olhos cheios de censura, com ar de quem não acredita. Há uma vírgula mal colocada na frase anterior, mas colocar vírgulas é como dar nó na gravata, às vezes a gente não acerta. Ah, Palma, a gente faz com a vida o que quiser, se tivermos uma tesoura e papéis para recortar, improvisando castelos. Venha, venha comigo. A vida começa amanhã. Partamos para a aventura".
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í.ta**

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

sobre o joão e os sete gigantes mortais


e sobre a daiane também!
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não a conheço pessoalmente. aliás, acho que nem de vista me lembro dela.
sei que ela é namorada do eduardo (é, né?).
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e o que importa mesmo é que ela escreveu um baita
texto sobre o livro "joão e os sete gigantes mortais", do Sam Swope.
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é um texto muitíssimo bem escrito.
à altura do livro, que é maravilhoso também.
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li esse livro com minha sexta série nesse ano. eles amaram!
acabei nunca escrevendo nada sobre ele.
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então, uso e abuso do excelente texto da daiane
para que os leitores deste blog possam conhecer
tanto o livro, quanto os escritos dela.
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o texto tá no blog dela e no blog do prolij.
boa leitura!
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í.ta**

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

cores e passarinhos

na quarta passada, no prolij, a sueli cagneti leu o livro “para criar passarinhos”, do bartolomeu campos de queirós. é edição nova do livro, feita pela global, agora em 2009, com ilustrações do guto lacaz. coisa mais linda do mundo o livro! de um cuidado extremo, belíssimo!
___é um livro de cores e passarinhos. cores vivas, que causam no leitor uma sensação boa, gostosa, alegre. e o texto do bartolomeu é também cheio de vida. há coisas assim lá, ó: “Para bem criar passarinhos é necessário ter o corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta”.
_________as páginas duplas do livro são compostas, no lado esquerdo, pelo texto, e no lado direito, por figuras geométricas. pequenininhas, em grande quantidade. mas em cada conjunto de figuras geométricas há uma só com um detalhezinho de diferença para as demais. tive que tirar foto disso pra deixar mais claro, tamanha beleza! cada página dupla é de uma cor.
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e os textos, ao lado esquerdo, começam sempre assim “Para bem criar passarinho”, e seguem com um dizer do que é preciso ter para criá-los, e do como fazer isso. ó um exemplo: “Para bem criar passarinho é essencial possuir um arco-íris, ilusão de água e sol, rabiscando no céu para passarinho pousar depois da chuva. E isso se faz possível colhendo nas nuvens as sete cores, ao entardecer”.
_______o livro é de uma delicadeza só. apresenta ao leitor o contato com o nada, com aquilo que não tem um porquê de ser, com algo sem utilidade. lembrou-me muito os livros do maneca, o manoel de barros. quer ver só (pra quem já leu bastante o manoel, há de perceber o mesmo, creio): “Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo ou estrela cadente. É importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens, infinito adentro”.
________para ler o bartolomeu não é preciso saber criar passarinho. é possível aprender, sim, a fazer isso, mas não é imprescindível que se saiba. é necesssário, sim, sentir a leveza do voo das palavras, buscá-las pelos arredores de cada esconderijo, explorar o que elas contém de mais singelo e secreto.
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í.ta**

terça-feira, 1 de setembro de 2009

para além do hábito de ler

publiquei artigo, hoje, no jornal "hoje",
que circula em jaraguá do sul e região.
o título do artigo é o título do post.
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Para além do hábito de ler
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É sabido que o ato de ler comporta diversas práticas em nosso dia-a-dia. Lemos desde imagens e frases em outdoors, passando por gestos e expressões, até chegarmos à leitura do texto escrito, estando este em jornais, em revistas, na internet, e em livros, para citar os exemplos mais disseminados.
Tenho lido muitos textos, e até ouvido muitas opiniões, a respeito do ato de ler e da importância da leitura para o ser humano, os quais ressaltam o quanto devemos criar o hábito da leitura em nossas vidas. Contudo, proponho um repensar a leitura como um hábito, inclusive na ampliação de sua recorrência.
Quando tornamos alguma ação um hábito, significa que passamos a repeti-la com certa frequência, de algum modo até de forma mecânica. O que significa que a ação que se torna um hábito também passa a ser executada como costume, como repetição, como algo rotineiro, da qual pouco se exige um pensar mais atencioso ou elaborado. A leitura como um hábito se configura num ato quase que impensado pelo sujeito, um ato que não exige dele muita atenção, que ele continua realizando sem construir seus próprios sentidos para o que lê, sem ir além do texto.
Diante disso, reafirmo a necessidade de pensar a leitura tão somente como hábito, outrossim como uma prática consciente, imbricada às ações que realizamos diariamente. Pensar a leitura com esse olhar é ir além do que ela oferece. É transgredi-la. É isso o que o ato de ler nos exige. E dentro dessa possibilidade de transgressão está a prática, por exemplo, da leitura em grupos, dos círculos de leitura, que propõem uma leitura compartilhada, uma ação de ler também com os ouvidos, uma criação de sentidos em conjunto com outros leitores. Já temos exemplos de círculos de leitura acontecendo em Jaraguá do Sul. Em livrarias, em escolas. Eu mesmo tenho realizado um círculo com alunos de ensino médio de uma escola particular da cidade. E é de ações assim que precisamos para avançar nos sentidos que podemos construir junto aos objetos simbólicos que lemos.
__í.ta**