sábado, 22 de agosto de 2009

um pouco sobre a adélia prado





















foi-me difícil ler “bagagem”, da adélia. acho que me falta muita leitura para acompanhar a escrita dela. amei alguns versos, até alguns poemas inteiros. mas não compreendi mais da metade de tudo. percebi a presença de elementos sagrados, principalmente o nome de deus, referências a escritores consagrados como drummond e guimarães rosa, e também o amor, presente em quase todos os poemas. de resto, nada mais percebi. Mas senti algumas belezuras, como estas:
_______“Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou”.
____Do poema “Com licença poética”, p. 9
_ _ _ _ _
“Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer”.
___Trecho do poema “Resumo”, p. 13.
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Poema “Antes do nome”, p. 20
__“Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror”.
_ _ _ _ _
“Ensinamento
____Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
[quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo”.
_p. 118
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depois, encarei “quero minha mãe”, uma narrativa dela. achei encantadoramente linda. e forte. e a história de olímpia, uma mulher que, aos 60 anos, intui que está chegando a hora da morte. e que começa, então, a descrever como sentiu os primeiros sintomas, de onde poderia vir a iminência da morte. uma narrativa de forte caráter psicológico. densa. escrita em textos curtos. fragmentos de uma personagem. fica aqui um trechinho, que é justamente o da contracapa:
____“Tinhas vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado”.
___
agora, vou encarar o "50 poemas escolhidos pelo autor", do bandeira.
___
í.ta**

5 comentários:

Eduardo Silveira disse...

velho, deixa eu compartilhar uma experiência contigo: para o vestibukar da Univille, em 2007, li o Bagagem, da Adélia. Como vc, não entendi quase nada! Além disso, a religiosidade presente em quase todos os poemas me aborreceu. Resumindo: finji que li e entendi. Então parti pra outras leituras e mais tarde - uns 9 meses - voltei ao Bagagem para uma releitura. Dessa vez, foi bem diferente: passei a ver como a poesia dela era límpida, maravilhosa. Hoje sou fã.
Li alguns de seus livros. Das prosas, tenho "Solte os cachorros", mas a leitura deste ainda aguarda sua vez na fila! haha

Bem, o que concluo disso. Sei lá, acho que a Adélia tem um estilo único: quem escreve de forma semelhante a ela? Ninguém! Talvez por isso estranhemos a príncipio.
Mas uma releitura, que recomendo, ajudará bastante, creio.

Outra coisa que eu acho curiosa é que seus poemas tem um jeito de prosa (não tem?), ela vai falando do seu cotidiano... dava pra chamar de crônica, crônica poética. :P

Não sou religioso, e gosto muito de sua poesia. apesar da temática, o mais importante é o cuidado que ela tem com a linguagem...o resultado é lindo.
Alguns de meus poemas preferidos são dela. (agora pouco tentei achar no google um poema maravilhoso chamado Meditação de um rei no meio de sua tropa, para aqui postar - não deu, fica pra próxima)

Mas é isso, esse teu post me deu vontade de lê-la de novo. Boa pedida!

Até!

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Ótimo sítio. Bom gosto e limpeza na medida certa (ao menos para os meus olhos). Aparecerei mais vezes por aqui. Um abraço, Eduardo.

Anônimo disse...

Adélia é sempre boa! Incrivelmente inteligente e simples. Dois ingredientes essenciais pra se escrever bem. Conheço algumas poesias dela, mas nunca li um livro inteiro.
Tem uma entrevista com ela, no sempre um papo, que está excelente. dá pra baixar na net.

bj, Gisele

Camila F. disse...

Gostei do blog...Li alguns poemas da Adélia só.E na sexta fui na biblioteca do sesc aqui na minha cidade e quase peguei um livro dela.Mas como só podia pegar dois e tenho que ler Macunaima pra daqui a duas semanas, acabei pegando ele e Cem anos de solidão que queria ler. Assisti a entrevista dela no sempre um papo...Muito bom!
Vou voltar aqui mais vezes.Até!
Camila

Rubens da Cunha disse...

a escrita de Adélia é linda, mas ela dialoga melhor com quem fez a primeira comunhão e confessou seus pecados a um padre e carrega algumas sombras católicas sobre o peito, como é meu caso.
sempre tive muito tesão em escritores fortemente ligados ao catolicismo, como Adelia, hilda, Jorge de Lima, Murilo Mendes, enfim... não é uma necessidade ser católico para ler Adélia, mas apenas um, digamos, facilitador das coisas.