segunda-feira, 24 de agosto de 2009

o presidente negro

encarei, durante a semana passada, “o presidente negro”, o único romance adulto do monteiro lobato, e encantei-me com a história e com a escrita dele. inclusive, durante a semana, nos corredores da univille, ao encontrar o eduardo, comentei com ele que estava lendo este livro, no que ele me disse que já o havia lido. e papeamos um pouco sobre o mesmo, sobre a escrita supercuidadosa do lobato, ele, que tanto criticava o uso excessivo e cego da norma culta da língua portuguesa perante seu uso cotidiano, não pecou no uso dela em nenhum momento. o cuidado com a colocação dos pronomes é excessivo no romance todo. vide exemplo de um trecho (não digo de qual parte do livro para não comprometer quem não o leu):
________“Isso é que é escrever bem. Refaça o primeiro capítulo com esse critério e traga-mo no próximo domingo. Serei franca como o fui na tentativa anterior, e se me parecer que de fato não tem as qualidades precisas, di-lo-ei francamente e não pensaremos mais nisso”.
_____há, de fato, uma linguagem muito sofisticada no romance todo. escrito em primeira pessoa, é a história de ayrton lobo (com y mesmo. um dos exemplos da idolatração do lobato pela cultura norteamericana, que ele tanto ressalta no livro), contada por ele mesmo. não toda a sua história de vida. um pedaço dela, digamos. é o momento em que ele conhece o cientista benson, e sua filha, jane, em nova friburgo, rj. e o que se desenvolve a partir disso é aquilo que tanto se fala deste livro de lobato, suas previsões sobre um futuro muito distante, mas que vemos acontecer nos nossos dias de hoje.
______o tal cientista benson criou uma máquina, o porviroscópio, capaz de ver o que acontecerá no futuro. um futuro distante, até o ano de 2228, em que haveria, então, o que temos hoje em dia: o choque provocado, pela vitória nas urnas, de um candidato que apenas metade da população norteamericana irá absorver; a eleição de um presidente da raça negra; a hegemonia asiática; a segregação entre brancos e negros; a guerra dos sexos; e experimentos científicos como os clones atuais. aí estão exemplos das previsões de lobato. tiros certeiros, percebemos.
____e um outro aspecto que é interessante de acompanhar no decorrer da história é a relação que se cria entre ayrton e o cientista e a filha do cientista. não vou dar detalhes do como ayrton os conhece, do que acontece em seguida. não seria legal. mas há um elo entre os três, ou somente entre dois deles, que guia a narrativa até o seu final, que prende o leitor, que se sente, então, cada vez mais curioso em saber se a coisa vai ou não (superenigmático isto, não? é proposital). esse outro elemento dá suporte ao leitor para aguentar a narrativa de duzentas páginas, pois há trechos em que as conversas sobre a visão futura do mundo são maçantes.
____
a meu ver, não chegam a ser duas histórias numa só. mas são mesmo dois fios condutores. um no plano do presente da narrativa, e outro num plano futuro. um dá suporte ao outro, o que torna a leitura do mesmo riquíssima e contagiante.
____
í.ta**

Um comentário:

Eduardo Silveira disse...

pois é, Ítalo..quanto ao uso correto da gramática, fica uma dúvida: como pode, justo o Lobato -tão crítico da norma - usá-la com perfeição!?

gostei de ver que vc não fez como a maioria faz: lê o livro sem enxergar seu contexto e a vida de Lobato, e assim... mete o pau nele, por conta do "preconceito" racial que a obra contém, ou melhor, reflexos de teorias eugênicas.

Vivo dizendo: a literatura não compromisso com nada!

Abraço!
=D