segunda-feira, 10 de agosto de 2009

o medo que um livro ainda provoca

artigo publicado por mim no jornal "hoje", que circula em jaraguá e região, há três semanas. esqueci-me de colocá-lo aqui. agora foi. o título do artigo é o título do post.
_ _ _ _ _
_________________
Causou muita estranheza e revolta nos meios literários e educacionais, no mês passado, a retirada de mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza, o atual ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Mais estranheza e revolta ainda se deveu ao fato de que o Governo do Estado de Santa Catarina comprou mais de cem mil exemplares do livro citado e, depois de ter gasto um montante para este fim, retirou-os de circulação das escolas catarinenses. Tudo isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados, que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.
A literatura, assim como as outras formas de arte, nada mais é do que a representação da vida, de fatos vividos por todos nós, independentemente de sexo, raça ou credo. Não levar isso em conta é dar topada nos livros, é desaprender com eles ao abri-los. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso.
O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso levar isso em conta ao se escolher, por exemplo, um livro para se trabalhar em sala de aula. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou no cinema hollywodiano. Ela está, também, nos livros, e não somente nos de contos de fadas infantis ou nos best-sellers de fórmulas prontas. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol.
_____________
í.ta**

6 comentários:

Adri.n disse...

Belo artigo!
Contribuo com um questionamento (não que eu discorde do seu escrito) se é certo que os livros tem de ser visitados apesar de não serem "politicamente corretos" e que a escola deve considerá-los até porque é onde podemos questionar seu conteudo de forma crítica e inteligente(e nao falo de uma cena picante e/ou palavrao mas de contos como de Charles Bukowski)-Sim existem livros que inspiram pensamentos maus! - como faze-lo de modo que ao leitor em sala nao o leia da mesma forma que o leria sozinho e mais, como deixar claro que nao estamos legitimando certos comportamentos sem deixar de mostrar nosso encanto por eles?
É preciso ter cuidado com a forma que eles interpretam sim, mas é preciso discuti-los e e permitir aos alunos ama-los sim!
E então?!
O meio é sempre mais dificil que o sim ou o não...

Eduardo Silveira disse...

Ola, Ítalo. Venho para agradecer o elogio. E para retribuí-lo tbém: ótimo texto. E se o assunto é leitura, então, me encanta mais ainda.
Gostei muito tbém da discussão levantada nesse ultimo comentário. Me deu vontade de responder, mas a pergunta não foi pra mim, hahaha.
Só um ponto: eu acho que o leitor no ambiente escolar é o mesmo leitor que lê sozinho, em sua casa. Eu sei, o método é diferente, já que o primeiro tem um objetivo, uma didática por trás, enquanto o último representa uma leitura mais descompromissada. Mas o sujeito leitor é o mesmo onde quer que esteja.
Aí, Italo, embaralhei mais ainda. hehe

Esse episódio com o livro do Tezza é lamentável, mas não chega a surpreender, pois é fato conhecido que boa parcela da sociedade se esconde sob um falso moralismo repugnante.

Se fosse assim, os jovens não poderiam ler Hilda Hilst, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues... ou até obras clássicas que contém cenas de sexo como Macunaíma; O cortiço; ou Noite na taverna.

Livros que inspiram pensamentos maus? Sim! Porque o homem tem pensamentos maus. Ora É Bentinho, de Dom Casmurro, hesitando em matar seu filho (legítimo?) com veneno; ora é o pequeno Sérgio, protagonista de O ateneu, extasiado ao ver a cena de um homem morto, ensanguentado, no chão.

puxa vida, estou falando demais.
Pra ilustrar essa discussão, nada melhor que uma frase clássica, extraída do livro (ótima obra) O casamento, de Nelson Rodrigues.

"Se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém"

Ai, meu Deus, será q errei a citação?tomara q não.hehe

era isso
Abraço, Ita!
Eu apareço. ;)

Eduardo Silveira disse...

Voltei de novo, por uma constatação curiosa:
enquanto vc estava lá no Academia de escritores, eu estava aqui, no seu..haha
pois é, tempo pra escrever é pouco. Quem sofre é o corpo que dorme pouco. ;)
Ei...
acho q tirei o ritmo da discussão..
mas é preciso retomar.. há uma pergunta no ar dessa moça aqui em cima.... hehe
Essa discussão rende.
E é muito bom que renda!

Até!

Í.ta** disse...

pois bem, se há aqui uma conversa, que se dê continuidade a ela ^^

respondendo à sua pergunta, adri, eu acredito que é nesse momento que surge a figura do professor como um sujeito mediador do contato entre o aluno e o livro, fazendo esse "meio-de-campo" (tem hífen essa joça???), auxiliando o aluno no como ler determinado livro ou texto. eu acredito piamente que cabe ao professor, seja ele de literatura, de língua portuguesa, de ciências, de matemática, de artes, de qualquer disciplina (uma vez que a leitura se faz presente em todas elas), em primeiro lugar, colocar o aluno em contato com diferentes textos e pontos de vistas sobre determinados assuntos, e, em segundo lugar, orientar o aluno na leitura que este faz daqueles textos e afins. com o cuidado importantíssimo de não conduzir o aluno a uma possível interpretação correta de um texto ou de uma história. aí seria dar tiro no pé. é preciso abrir veredas no trabalho com a leitura junto aos alunos, e não estigmatizá-los em uma só opinião/ideia.

obrigado a vocês pelas visitas por aqui. e peles conversas estabelecidas.
e, eduardo, sinta-se à vontade para deixar seus registros por aqui.

Território Nenhum disse...

Olá Ítalo,
Parabens pelo artigo, muito bem fundamentado. Sou professor e também achei exagero o que se fez em torno do livro do Tezza. Também escrevium artigo em copnjunto com outra professora publicado em A Notícia: http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2530785.xml&template=4187.dwt&edition=12435&section=882

Abraço
ps: obrigado pela visita

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Parece mentira que isso ainda aconteça...


Belo artigo.


Abraço.