segunda-feira, 31 de agosto de 2009

sem título

taí, só pra alegrar ainda mais
esse dia lindo que tá fazendo aqui
em jaraguá hoje :D

(foto gentilmente enviada pelo eduardo.
não sei de onde ele a conseguiu.
se a curiosidade bater, perguntem a ele).
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í.ta**

domingo, 30 de agosto de 2009

a mim

o pedro zambarda de araújo é um daqueles
amigos virtuais que nos dias de hoje
fazemos. é amigo com quem troco palavras
vez em quando. coisas pontuais.
pessoa inteligente ele. escreve pra caramba.
lê pra caramba. e sabe fazer bom uso do que
lê, do escreve, do que pensa.
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convidou-me, já há um tempo, para participar
de um blog que ele gerencia, o the blue writers.
é blog de poetas. não sou poeta. mesmo assim,
ele e os demais me aceitaram por lá.
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e domingo passado fez ele um poema
dedicado a mim.
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é o que segue.
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é o meu reconhecimento ao gesto do
pedro. à poesia dele, cuidadosa, inteligente,
bem feita.
_ _ _ _ _ _
"Biblioteca
____
Marco o texto, decoro a página, cerro os olhos
Ao imaginar a desventura, a ternura
Protagonizada, a cena transporta
Minha mente com meus anseios,
Transborda sentimento.
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Percorro as estantes de mofo,
As salas esterilizadas e modernas,
Descanso no registro abandonado,
Anestesio minha sede de invadir
Seu cérebro e colidir suas memórias.
____
Dedicado ao Ítalo Puccini, que tanto fala sobre leituras".
_ _ _ _ _
í.ta**

sábado, 29 de agosto de 2009

arrebentou

tava namorando há um tempo o livro “rasif, mar que arrebenta”, do marcelino freire. via muitas vezes o livro disponível lá no sesc, mas não o pegava. pelo contrário, emprestava-o aos leitores que passam por lá. e, de tanto ouvir falar bem dele, ontem resolvi encará-lo. e foi das surpresas mais maravilhosas!
____é um livro muito bonito, esteticamente falando. edição da record, 2008, de capa dura, e com gravuras muito bem feitas por manu maltez (já é possível perceber pela gravura da capa). não é um livro de se ler só pelas histórias que apresenta. é um livro de se sentir, de tocar e tocar, e correr as mãos por todos os espaços dele.
__a explicação do nome do livro vem logo nas primeiras páginas, depois da ficha de catalogação. diz assim: “recife. s.m. um ou mais rochedos no mar, à flor da água, ou perto da costa. do árabe rasif, terreno pavimentado com lajes, estrada pavimentada com rochedos. pernambuco. s.m. do tupi-guarani paranã-puca, que significa ‘onde o mar se arrebenta’”.
________“rasif” é um livro de contos. com uma linguagem bem trabalhada, cuidadosa, transgressora. são de contos que escancaram a vida em sua forma mais pura e cruel. assim mesmo, contraditoriamente: purismo e crueldade. que é a vida. em “rasif”, as personagens de marcelino freire não querem saber de oferendas falsas a falsos deuses/mitos, não querem saber da paz, “essa coisa de rico, que é bonita na televisão, e só, que causa a dor, e que não deixa”. elas querem saber dos homens-bomba e seus amores impossíveis, querem saber do que há de bonito no afeganistão, em bagdá, em mesquitas e na “al-quaida”. querem saber dos revólveres em mãos de crianças, e ainda trazidos pelo papai noel. e, como não poderia deixar de ser, as personagens dos contos desse livro buscam o amor, acima de tudo o amor, “amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca”. o que não significa que o encontram. muito pelo contrário. afinal, o amor também mata. e pode vir mascarada em um buquê de flores.
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í.ta**

de novo

o meu artigo "o medo que um livro ainda provoca",
publicado há um tempo no jornal "hoje", aqui
de jaraguá do sul, foi agora publicado no
jornal "anotícia", em circulação estadual, na
página 11 da edição de ontem, 28 de agosto.
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í.ta**

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

mais um na lista...

não costumo ler revistas semanais. não tenho saco para elas. quando no meu ensino médio, eu até assinava a “veja”, e dava conta de ler mais a “época” e a “istoé”. enjoei-me. porém, sempre que posso, folheio-as, passo os olhos por elas, para quem sabe garimpar algo que preste, uma vez que tenho acesso a elas lá na biblio do sesc.
______e hoje folheei a “época”. e costumo dar mais atenção às partes finais dessas revistas, onde têm aquelas resenhas de livros, filmes, músicas, e afins. tudo coisa encomendada, percebe-se. tudo coisa comercial. tudo farinha do mesmo saco. tudo marketing. haja saco!
_________aí, vendo o índice da revista, tinha lá a foto de um escritor, um tal de david wroblewski, e uma frase dele, em aspas: “contos não podem mudar a vida de ninguém”.
_________pronto. era só o que me faltava, pensei. fui direto para a página 201 (percebem a quantidade de páginas que essas revistas têm? como se tudo aquilo fosse conteúdo que prestasse! metade das páginas é só de propagandas). e lá nessa página, quase ao final da revista, tomei conhecimento do mais novo fenômeno literário no mundo, esse tal ali de sobrenome difícil. lançou agora o primeiro livro, pela editora intrínseca, com 528 páginas, ao preço de 39,90. preciso dizer que é mais um bestseller para a lista dos mais vendidos que aparecem nessas mesmas revistas? só pela quantidade de páginas e preço assim tabelado já dá para saber. para bom entendedor... ah, e ainda o cara é apadrinhado pelo stephen king, recebeu maravilhosas críticas dos jornais americanos, e o livro dele já chegará ao brasil com o status de “clássico moderno da literatura”. gente, dai-me forças!
______aí fui ler a matéria sobre o cara, e a pequena entrevista que ele deu, na qual há aquela afirmação dele: “Você não ouve dizer ‘aquele conto mudou a minha vida’. Mas já ouviu que muitos romances transformaram a vida de várias pessoas”. e mais acima ele ainda disse: “Mas a razão pela qual amamos romances é porque vivemos com eles por dias e dias, e não há como transformá-los em pequenos textos para a internet”.
____eu ando colérico com algumas coisas relacionadas a essa coisa da importância de ler, do que ler, do tal hábito da leitura. ora hábito! se é hábito é porque é algo mecânico, que se faz sem muito pensar, e tudo o que a leitura não pode ser é isso. ando colérico com fenômenos de vendas, desde os tradicionais paulos coelhos aos recentes stephenie meyers, que conseguem atrair milhões de leitores com uma série de livros repetitivos, que vão moldando as pobres cabecinhas, e as levando a acreditar que só aquilo é bom e que presta. e agora, pra variar, surge outro. e se não fosse esse outro, seria um outro qualquer. qualquer mesmo, porque são pessoas nem aí pra nada, que ganham destaque com livros de fórmulas superprontas.
_______aí eu ainda tenho que me deparar com uma declaração dessas, de que os contos não transformam a vida de ninguém, não marcam a ninguém. ora, só se esse cara não lê ou não sabe ler contos. ou só lê romances com receita pronta como os que ele escreve, coisas como daniele stell e sidney sheldon! eu não posso concordar que contos como os do dalton trevisan, por exemplo, não marquem a vida das pessoas. e os do machado, então, os do guimarães, aquelas coisas mais bem feitas do mundo? os contos do marçal aquino, para voltar à literatura contemporânea. do luiz vilela. do hemingway, para citar estrangeiros.
_________o desabafo já tá muito grande aqui. e eu ainda tô remoendo muita coisa para escrever sobre literatura de massa. deixa eu só “argonizar” minhas ideias. antes, acho que preciso mesmo deixar de folhear coisas assim. ou não, ou é bom, para manter acessa a chama da cólera (inclusive, recentemente me debrucei no raduan nassar, naquela belezura de “um copo de cólera” e de “lavoura arcaica”. ah, mas o raduan não deve marcar a vida das pessoas que nem esse escritor aí, então deixa pra lá).
____ó, céus!
_______í.ta**

o presidente negro

encarei, durante a semana passada, “o presidente negro”, o único romance adulto do monteiro lobato, e encantei-me com a história e com a escrita dele. inclusive, durante a semana, nos corredores da univille, ao encontrar o eduardo, comentei com ele que estava lendo este livro, no que ele me disse que já o havia lido. e papeamos um pouco sobre o mesmo, sobre a escrita supercuidadosa do lobato, ele, que tanto criticava o uso excessivo e cego da norma culta da língua portuguesa perante seu uso cotidiano, não pecou no uso dela em nenhum momento. o cuidado com a colocação dos pronomes é excessivo no romance todo. vide exemplo de um trecho (não digo de qual parte do livro para não comprometer quem não o leu):
________“Isso é que é escrever bem. Refaça o primeiro capítulo com esse critério e traga-mo no próximo domingo. Serei franca como o fui na tentativa anterior, e se me parecer que de fato não tem as qualidades precisas, di-lo-ei francamente e não pensaremos mais nisso”.
_____há, de fato, uma linguagem muito sofisticada no romance todo. escrito em primeira pessoa, é a história de ayrton lobo (com y mesmo. um dos exemplos da idolatração do lobato pela cultura norteamericana, que ele tanto ressalta no livro), contada por ele mesmo. não toda a sua história de vida. um pedaço dela, digamos. é o momento em que ele conhece o cientista benson, e sua filha, jane, em nova friburgo, rj. e o que se desenvolve a partir disso é aquilo que tanto se fala deste livro de lobato, suas previsões sobre um futuro muito distante, mas que vemos acontecer nos nossos dias de hoje.
______o tal cientista benson criou uma máquina, o porviroscópio, capaz de ver o que acontecerá no futuro. um futuro distante, até o ano de 2228, em que haveria, então, o que temos hoje em dia: o choque provocado, pela vitória nas urnas, de um candidato que apenas metade da população norteamericana irá absorver; a eleição de um presidente da raça negra; a hegemonia asiática; a segregação entre brancos e negros; a guerra dos sexos; e experimentos científicos como os clones atuais. aí estão exemplos das previsões de lobato. tiros certeiros, percebemos.
____e um outro aspecto que é interessante de acompanhar no decorrer da história é a relação que se cria entre ayrton e o cientista e a filha do cientista. não vou dar detalhes do como ayrton os conhece, do que acontece em seguida. não seria legal. mas há um elo entre os três, ou somente entre dois deles, que guia a narrativa até o seu final, que prende o leitor, que se sente, então, cada vez mais curioso em saber se a coisa vai ou não (superenigmático isto, não? é proposital). esse outro elemento dá suporte ao leitor para aguentar a narrativa de duzentas páginas, pois há trechos em que as conversas sobre a visão futura do mundo são maçantes.
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a meu ver, não chegam a ser duas histórias numa só. mas são mesmo dois fios condutores. um no plano do presente da narrativa, e outro num plano futuro. um dá suporte ao outro, o que torna a leitura do mesmo riquíssima e contagiante.
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í.ta**

domingo, 23 de agosto de 2009

bandeira

li os “50 poemas escolhidos pelo autor”, do manoel bandeira. éÉ uma edição lindíssima, feita pela cosacnaify, que costuma mesmo fazer edições muito bem trabalhadas. o bandeira é clássico. e ainda mais um livro com os 50 melhor poemas, escolhidos por ele, fica mais clássico ainda. portanto, apenas reli muito do que eu já havia lido espalhado por aí. poemas como “Os sapos”, “Vou-me embora pra Pasárgada”, “Lua nova”, “O último poema”, e “Momento num café” estão ali.
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e foi muito bom, foi gostosa a leitura. os poemas apresentam muito das onomatopeias utilizadas por ele. muito da crítica ácida das palavras bem escolhidas. e para lê-lo é preciso ter conhecimento do período histórico e literário no qual ele produziu tais poemas. há muito daquela época em seus escritos. não é possível lê-lo e compreendê-lo sem tal contextualização.
_____e essa edição fica ainda mais rica com o cd que ela traz. um cd com vinte e nove poemas lidos pelo manoel bandeira. são lindíssimos! vale à pena ter um livro desses, tamanha beleza e cuidado.
_____deixo aqui um dois que eu acho lindíssimos e tão simples e tocantes.
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“O último poema
_________Assim eu quereria o meu último poeam
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionistas
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação” (p. 35).
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“Irene no céu
___________Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
____Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”. (p. 31)
_________í.ta**

sábado, 22 de agosto de 2009

um pouco sobre a adélia prado





















foi-me difícil ler “bagagem”, da adélia. acho que me falta muita leitura para acompanhar a escrita dela. amei alguns versos, até alguns poemas inteiros. mas não compreendi mais da metade de tudo. percebi a presença de elementos sagrados, principalmente o nome de deus, referências a escritores consagrados como drummond e guimarães rosa, e também o amor, presente em quase todos os poemas. de resto, nada mais percebi. Mas senti algumas belezuras, como estas:
_______“Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou”.
____Do poema “Com licença poética”, p. 9
_ _ _ _ _
“Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer”.
___Trecho do poema “Resumo”, p. 13.
_ _ _ _ _
Poema “Antes do nome”, p. 20
__“Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror”.
_ _ _ _ _
“Ensinamento
____Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
[quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo”.
_p. 118
_ _ _ _ _
depois, encarei “quero minha mãe”, uma narrativa dela. achei encantadoramente linda. e forte. e a história de olímpia, uma mulher que, aos 60 anos, intui que está chegando a hora da morte. e que começa, então, a descrever como sentiu os primeiros sintomas, de onde poderia vir a iminência da morte. uma narrativa de forte caráter psicológico. densa. escrita em textos curtos. fragmentos de uma personagem. fica aqui um trechinho, que é justamente o da contracapa:
____“Tinhas vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado”.
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agora, vou encarar o "50 poemas escolhidos pelo autor", do bandeira.
___
í.ta**

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

o soco segundo

a aula de hoje à noite demorou para começar.
ainda bem que eu sempre ando com um livro a mais do que planejo ler.
sempre contando com uma sobre de tempo que me permita
tal extravagância.
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e hoje deu certo.
aí, após ter lido o livro da angélica,
eu me debrucei sobre o
"tratado geral das grandezas do ínfimo",
do manoel de barros.
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e parei de respirar por alguns segundos, sim.
______________
_ _ _ _ _
primeiro que na orelha do livro, escrita pela ana miranda,
ela já prenuncia: "Você sentirá as inexplicáveis explicações
que desexplicam o absurdo de ser, ou de se desachar que é".
_______
que coisa mais maravilhosa, não?!
__________
aí, fui para os versos do manoel.
e o encanto foi ainda maior:
(e eu coloco aqui só os curtinhos,
para não cansar. há poemas inteirinhos
de uma beleza só).
__________
_ _ _ _ _
"Porque os passarinhos precisam antes de belos ser
eternos",
do poema "de passarinhos", p. 13.
__________
"Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas)",
do poema "poema", p. 19.
_________
"Tributo a J. G. Rosa
____
Passarinho parou de cantar.
Essa é apenas uma informação.
Passarinho desapareceu de cantar.
Esse é um verso de J. G. Rosa.
Desapareceu de cantar é uma graça verbal.
Poesia é uma graça verbal", p. 23.
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"Há um comportamento de eternidade nos caramujos",
do poema "os caramujos", p. 31.
____________
"Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras",
do poema "sobre importâncias", p. 35.
__________
"Como não voltar para onde a invenção está virgem?",
do poema "ascensão", p. 41.
_____
"O dia estava
em condições de boca
para as borboletas",
p. 57.
________
"Palavras
Gosto de brincar com elas.
Tenho preguiça de ser sério",
p. 59.
_________
"Poeta
é uma pessoa
que reverdece nele mesmo",
p. 60.
_________
estes três últimos são da segunda parte do livro,
"O livro de Bernardo",
com poeminhas assim curtinhos,
de três versos.
______
por enquanto, então, é só.
amanhã, se tempo tiver,
engato "bagagem", da
adélia.
_____
tudo ao seu tempo.
_______
í.ta**

sobre como ler e escrever em um ônibus em movimento

título longo, mas fazer o quê, se aqui escrevo justamente sobre o que ali prenunciei.
_______ia eu hoje para a univille, de ônibus, daqueles circular mesmo, pois havia passado o dia em joinville, na casa do pai. e ia eu lá no fundo do ônibus, sentadinho, com meu livro à mão, o "rilke shake", da angélica freitas, sobre o qual tem alguma coisa no post abaixo.
______
e, como é possível perceber lendo o tal post abaixo, encantei-me com vários dos versos do livro da angélica. e me vi numa situação complicada. tinha a lapiseira à mão, junto com o livro, mas eita dificuldade que encontrei em sublinhar um ou outro verso, ou em destacar um trecho, ou em escrever algo no livro, registrar algum sentido.
______
daí que me dei conta do quanto é difícil escrever com um ônibus em movimento. vixe!
lembro-me de que outras vezes já tentei isto, e, claro, também sem sucesso. restou-me, então,
segurar o dedo na página em que queria marcar algo e, a cada sinaleiro ou parada do ônibus, eu rápido fazia a sinalização que queria no livro, e podia continuar a leitura. contar com a memória
para registrar depois é que eu não iria. ela, a memória, vive a me trair. daí que vivo a escrever, pois é o meio que encontro para não deixar passar muito do que vivo.
________
fica aqui, então, um poeminha da angélica, que achei lindíssimo, e que muito combina comigo.
muito mesmo.
diz assim, ó:
_______
_____
"Entro na livraria do bobo.
não tenho dinheiro
e tampouco tenho talento para o crime.
____
desfilam ante meus olhos
títulos maravilhosos
moribundos de tanto estar
nas prateleiras.
_______
roube-nos, dizem eles.
não agüentamos mais ficar aqui
na livraria do bobo.
______
quem acreditaria
nesta versão dos fatos?
ajudem-me, maragatos
nesta hora afanérrima
de uma libertadora paupérrima
de livros.
________
retumba meu coração. retumba
mais que a bateria do salgueiro.
treme o corpo por inteiro
e as mãos já suam em bicas.
________
ganho a rua, as mãos vazias
e os livros gritam: maricas".
p. 8
_________
í.ta**

o primeiro soco

eu sabia que iria me deparar com belezuras assustadoras
na leva de livros
que trouxe do sesc dessa vez.
____
aqui vai a primeira,
da angélica freitas, do livro
"rilke shake" (2007)
________
_ _ _ _ _
"e a noite é uma gata
que engole até a cabeça",
do poema "sashimi", p. 22.
_____
_ _ _ _ _
"tantos têm
tão pouca paciência",
de um poema sem título, p. 40.
______
_ _ _ _ _
"versus eu
____
lá embaixo um samba que não me chama
pois não conhece o meu nome",
p. 43.
_______
_ _ _ _ _
"treze de outubro
______
escrever um poema sem calor em são paulo
um poema sem ação: sem carros, sem avenida paulista
_______
quando eu morava na augusta, escrevia poemas sobre a
[augusta
a augusta não me deixava dormir
___
(escrever um poema em que se durma na augusta
e sobretudo, escrever um poema sobre dormir
_____
sem você.) está é a primavera fajuta da delicadeza
(não consigo terminar este poema)".
p. 52
_______
_ _ _ _ _
"digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses",
de um poema sem título,
p. 54.______

_______

í.ta**

terça-feira, 18 de agosto de 2009

a vida por meio de histórias

segue artigo publicado por mim, hoje, no jornal "hoje", que circula em jaraguá e região.
o título do artigo é o título do post.
_______
"No último texto que escrevi neste espaço, fiz referência ao tema do 17° COLE – Congresso de Leitura do País –, a necessidade de “transver o mundo”, citada pelo poeta Manoel de Barros nos versos “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo”. E essa necessidade pressupõe uma tomada de consciência de que o ato de ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver.
Diante disso, a leitura literária é, sublinhe-se, uma modalidade de leitura existente, o que significa que há outras formas de leitura, formas estas que, não é arriscado afirmar, desfrutam de maior trânsito social, como, por exemplo, a leitura dinâmica de imagens, de jornais, e de revistas, as quais fazemos quase que diariamente.
Como estudante de Letras e professor de Literatura, a leitura do texto literário faz parte do meu dia-a-dia, e o como trabalhar esse texto literário em sala de aula é um pensar que me acompanha da mesma forma diariamente. Sendo assim, como pesquisador que me tornei nesses anos de estudos acadêmicos, venho desenvolvendo pesquisas com o intuito de investigar possibilidades de o professor explorar o texto literário em sala de aula junto aos alunos.
Fui, então, ao 17° COLE, em Campinas, apresentar os dados parciais da minha atual pesquisa, “A leitura literária no espaço escolar”, na qual proponho a realização de Círculos de Leitura com alunos do Ensino Médio, círculos estes nos quais trabalho com diferentes leituras de diferentes textos literários, contemporâneos e clássicos, justamente com o objetivo de, juntos, explorarmos a construção de sentidos junto a esse tipo de texto, no qual a imaginação ultrapassa fronteiras, contribuindo para a liberdade de interpretação e de respeito pelas diferenças.
Aqui em Jaraguá do Sul, esta semana, iniciarei os Círculos de Leitura com alguns alunos do primeiro ano do Ensino Médio de um determinado colégio. E todo esse movimento acontece devido a duas crenças que tenho: a primeira, de que é na interação leitor-texto que a literatura merece ser discutida em sala de aula. Mais ainda, de que ensinar literatura significa mediar com o aluno o desenvolvimento da sua capacidade em transformar informação em conhecimento, envolvendo compreensão, interpretação e reconstrução do texto. E a segunda, a de que é a partir das histórias que lemos que podemos nos constituir como sujeito, que podemos transver essa realidade na qual vivemos.
O historiador e crítico literário Alberto Manguel, certa vez lançou a indagação “se as histórias são capazes de mudar quem somos e o mundo em que vivemos”. Eu acredito que sim. E acredito porque senti – e continuo sentindo – o quanto as histórias que já li mudaram meu eu, mudaram minha forma de pensar, de sentir, e de agir no mundo. E é também pensando nisso que me arrisco em propor pesquisas e atividades de reflexão como a citada neste texto. E o próprio Manguel apresentou uma resposta à pergunta que fez, a qual encerra este escrito: “As histórias podem alimentar nossa mente, levando-nos talvez não ao conhecimento de quem somos, mas ao menos à consciência de que existimos – uma consciência essencial, que se desenvolve pelo confronto com a voz alheia”.
________í.ta**

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

sobre cartas e livros

são duas palavrinhas das quais gosto muito. na verdade, pelo que elas significam, e não propriamente pela palavra (estrutura) em si. nesse último caso gosto, por exemplo, de noite e de nuvem. mas isso não vem ao caso agora. o que vem mesmo são as cartas e os livros. os objetos. recebi, na sexta, carta e livro da lorreine beatrice. e, na segunda, carta e livros do enzo potel. na verdade, na verdade, antes que eles me corrijam, não foram bem cartas, naquele sentido original, em que, num papel, conta-se um pouco de alguma coisa. não. mas os livros vieram pelo correio, em envelopes daqueles mais tradicionais, sabe, simplinhos, bonitinhos, o que para mim já significam cartas. abri-os como sendo cartas. e lá constavam os livros.
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da lorreine ganhei o “hai-kais em setembro”, um projeto chamado “palavras azuis”, organizado pela terezinha manezak, e feito pela editora “nova letra”, de blumenau. hai-kais de doze autores (todos de blumenau, pressuponho, pois no livro não há dados sobre eles, algo do que senti falta), incluindo a lorreine, que já tem livros publicados, como “aprendiz”, “relicário” (amo esse título, e o livro também é lindo), e outros infantis. ela não fez dedicatória no livro, que é bem pequeninho. escreveu num papel, que veio junto, bem assim: “oi, ítalo! Segue seu livro de hai-kais, conforme prometido. Abraço, lorreine beatrice, jul. 2009”. e a lorreine é dona de palavras assim também para mim: “para ítalo, que acredita na força das palavras – em cartas, contos e poemas – e na leveza delas”, palavras estas que estão como dedicatória de seu livro “relicário”.
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com a lorreine tenho uma experiência de troca de cartas e livros muito legal. desde dois mil e um, acho, ou dois. bem no comecinho do século mesmo. à época trocávamos muitas cartas. sempre falando sobre leituras, escritas, e coisas da vida que acompanham adolescentes (temos idades próximas, um ano de diferença, acho).
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são hai-kais muito bonitos os do livro, que inspiram imagens lindíssimas, como esta, por exemplo, “em primeiras e rés / o beija-flor maneiroso / na conquista da flor”, escrito pela débora novaes de castro. e tem outros mais, tão singelos, bonitos e inspiradores quanto: “o rio leva o galho / passeando de carona / vai um passarinho”, do tchello d’barros. e tem um da lorreine também, que é assim: "Gaivota rendeira / tricota horizonte azul / pausa no entardecer”.
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o enzo, pelo contrário, eu não conheço pessoalmente. tenho contato com ele via e-mail e blog, através do rubens da cunha. mas me parece ser, o enzo, um sujeito super bacana, parafraseando o caetano (gostas, enzo?). um cara espirituoso pra caramba, com quem trocar e-mails é rir gostosamente da vida.
___________a forma como chegaram os dois livros do enzo foi peculiar, como me parece ser ele. tava eu aqui na minha, em casa, segunda à tarde, chovendo fraquinho, sabe, uma delícia para estar... na cama, claro. pois não para mim. tava eu na mesa da copa, sentado numa cadeira super comum, no beiral da janela, para pegar a claridade lá de fora e não acender a lâmpada (ítalo também é conscientização ambiental). ah, sim, e eu tava lendo meus teóricos, sublinhando horrores meu livro, e já encucando futuros textos sobre a pesquisa que tô fazendo.
aí, eis que alguém, lá fora, óbvio, me toca o interfone. digo, a bosta do interfone. reconheço sua utilidade, mas assusta pra diacho aquele treco. que horror! dei um pulo da cadeira e, não fosse a casa toda aberta, janelas e portas, nem atenderia, só de raiva. mas sorte a minha que a casa estava assim aberta, pois era a vizinha, super atenciosa, que viera me informar que algumas correspondências estavam molhadas lá na caixinha de correio.
agradeci à vizinha, e corri à caixinha de correio. de fato, duas correspondências um pouco molhadas. uma era carta de banco pra minha mãe (!), e outra eram os dois livros do enzo, em envelope um pouquinho maior. por que o carteiro não tocou o interfone, me deu outro susto, e me entregou o envelope com os livros em mãos, ao invés de deixá-lo mal colocado lá fora, não sei. sorte minha de ter vizinha atenciosa como essa. pois, então, peguei os dois livros, consegui secá-los rapidamente, e feliz fiquei com isso.
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sobre os livros, em primeiro lugar, amei as duas dedicatórias feitas pelo enzo. no “afeganistão”, primeiro livro dele, de 2005, ele escreveu assim: “ítalo, o começo de tudo. com carinho, enzo”, e assinou. no “cura”, o segundo livro, de 2007, tá assim “ítalo! o fim do começo! enzo”, e outra assinatura.
_________o enzo escreve poemas. maravilhosos poemas! de uma força muito própria, e encantadora. “afeganistão” é divido em três capítulos: 1º “feliz na ignorância!”, onde me deparei com poemas como “amélia”, que diz assim: “A Amélia pensou em tudo: / no potinho de pimenta do reino, / sal, canela e açúcar, / nos lixinhos da cozinha, / do escritório e do quarto de visitas... / - uma árvore da fortuna aqui, / um lírio da paz ali, / e as xícaras em fila indiana - / ... no sítio que podiam comprar / com o dinheiro da aposentadoria dos dois. / A Amélia pensou em tudo, / só não pensou que ia embora”. um soco. a vida. e também encontrei ali algo lindo como este verso, a ocupar toda uma folha: “eu gosto quando minha mãe se arruma, porque ela se arruma por dentro”. pronto, não é preciso mais nada.
depois, no 2º capítulo, chamado “Sim, então ISSO é Deus?”, há versos assim: “Afeganistão / / Afeganistão significa ‘o resto das coisas’. / o lugar em que Deus concentrou / tudo o que não coube nos outros / lugares do mundo. / / Já meu nome traduz-se ‘vida sem propósito’. / Ser com alguns talentos inaproveitáveis, / metido, e que mata todos os próprios sonhos, / porque não tem coragem de se matar”. para mim, são os versos que significam este livro e este autor. há, também, algo daquilo que um dia se fora: “Cadeira / / Sinto-me um galho morto / na beira de uma floresta seca, / cheio de liquens, / nu e inútil. / Eu, que outrora sustentei ninhos...”.
e, por fim, no 3º capítulo, intitulado “Novas e Cândidas”, há uma realidade, nua e crua: “Ontem de madrugada dois mendigos / dormiam na calçada da Só Colchões”. “Banho-Maria / / Nada de deixar certas pessoas em banho-maria, / atrasa meu almoço, gasta meu gás / e ocupa uma boca do fogão. / O que é bom dá pra comer gelado”.
________“Cura” é um livro belíssimo. não me refiro somente aos versos. há um cuidado de imagens e um tipo de papel que o torna ainda mais gostoso de lê-lo. é, como diz no texto de apresentação do livro, escrito pela ryana gabech, o que não mima, não cuida, e não adocica. e, apenas, o que remove as amarras e couraças do mundo.
“Cura” é também dividido em três capítulos: “cenários místicos”, “a morte”, e “o reencontro”. tem um sumário impecavelmente bem trabalhado. e versos ardidos assim, ó: “O índio é lindo / da cor da nossa terra / joga o índio no chão / que a gente pisa nele”. e assim também: “Orgulho / / Não há troca. / É uma exposição mútua / de tendas túmulos / presas / sal pérolas / sonhos secos / princípios. / / Pronto. / Eu não te mudei. / Você não me mudou. / Negócio fechado”.
há, claro, a morte: “A sete palmos / / Todos nós temos certas dores / que brilham durante a vida. / Uma fiel dor de estômago. / Uma perna que sempre paralisa. / Um câncer. / São todos os sentimentos / que para nosso próprio bem / fingimos que esquecemos / achamos que perdoamos / mas que crescem silenciosamente / dentro de nós. / Até que um dia / nos matam”. e, novamente, o soco da vida: “Amigo é uma veste, / uma moda de espírito. / E o futuro da moda / é a nudez”.
e aí é preciso parar. ou continuar? fiquei sem saber. precisei respirar antes. e voltei para levar mais: “Entreguei minha Vida / nas mãos de Deus / e ele estava fazendo as unhas”.
pronto, estava nocauteado. pois levantei-me, e li tudo de novo.
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aqui ficaram, então, alguns resquícios disso tudo. a quem se interessar, basta entrar em contato com os dois, e receber deles singelas e fortes cartas assim. aos poucos me recupero, claro. é necessário.

í.ta**

a biblio do sesc (parte dela)




















eis duas fotos de uma parte da biblioteca do sesc, onde trabalho.
prometo da próxima vez tirar fotos de melhor qualidade. com o celular, foi isso que deu para fazer.
é a estante da qual mais gosto, onde mais tem literatura brasileira.
apreciem.

í.ta**

sábado, 15 de agosto de 2009

mais livros na biblioteca

hoje, finalmente, voltei ao trabalho. depois de uma semana de férias forçadas, devido ao meu estado gripal (comum, alerte-se), fiquei recluso por uma semana. sem dar aulas, sem lidar na biblioteca. hoje voltei à labuta, na biblioteca.
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essa semana que passou chegaram livros novos por lá. queria muito ter ido. uma das coisas de que mais gosto, lá, é de quando chegam livros novos. abrir as caixas, tirar os livros, um a um, deixá-los amontoados em um canto. abrir outra caixas, tirar outros livros, um a um... e assim sucessivamente. depois, por fim, guardá-los. e, para não ficar feito barata tonta, divido-os de acordo com a numeração e com o lugar em que estão, e aí sim me locomovo por entre as estante, uma de cada vez, levando os novos hóspedes. (falando nisso, preciso tirar uma foto das prateleiras de lá e postá-la aqui. tá bonito que só aquele espaço!)
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mas, como essa semana fiquei ausente, a ju, a biblioteca-chefe de lá (porque eu sou o estagiário, ou escraviário, se preferirem), é quem guardou os livros. porém, como ela é muito bondosa comigo (e falo sério aqui), deixou uma boa pilha para eu me divertir lá. e foi o que comecei a fazer hoje. e, claro, não terminei tudo. fiz bem devagarinho, deixando uma boa metade para segunda-feira, quando para lá volto. afinal, é preciso sentir prazer em trabalhar.
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como não poderia deixar de ser, enquanto fazia a triagem dos livros, ia colocando alguns de lado, que muito me apeteciam. quando vi, tinha quinze já. e isso era um grande problema, sem dúvida, pois, se ali estavam, era porque eu tinha grande interesse em pegá-los para ler. então, fiz nova triagem, dessa vez por gosto muito próprio, e por uma questão de momento: o que eu realmente conseguiria ler nos próximos dias. fiquei com nove à minha frente. era preciso escolher novamente. e lá fui eu.
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fiquei com cinco. trouxe-os para casa. trabalhar numa biblioteca é legal, também, por isso. enquanto os usuários "comuns" podem levar até dois por vez, eu me dou o direito de ter sete em minha lista. êta vida besta, meu deus!
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são eles os dito cujos (para saber mais, basta clicar sobre os links):
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com exceção do "quero minha mãe", todos os outros são poemas. ou seja, se da última vez em que chegaram livros eu trouxe para casa somente livros de contos, agora optei pelos de poemas.
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comprometo-me a, à medida que for lendo os benditos, deixar pequenos registros sobre eles aqui no blog.
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que assim seja.
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que sejam bem-vindos todos eles.
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í.ta**

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

o contar histórias: de novo

encontrei este dizer do mario vargas llosa no livro "pensar a leitura: complexidade", organizado pela eliana yunes. encontrei-o no texto maravilhoso do francisco gregório filho, de nome "práticas leitoras (de cor... coração): algumas vivências de um contador de histórias", p. 150. segue:
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"Como para as sociedades, para o indivíduo também (o contar histórias) é uma atividade primordial, uma necessidade da existência, uma maneira de suportar a vida. Por que o homem necessita de contar e contar-se histórias? Talvez porque (...) dessa forma lute contra a morte e os fracassos, adquira uma certa ilusão de permanência e desagravo: é uma maneira de recuperar, dentro de um sistema que a memória estrutura com a ajuda da fantasia, esse passado que quando era experiência vivida tinha a aparência do caos. O conto, a ficção gozam daquilo que a vida vivida - em sua vertiginosa complexidade e imprevisibilidade - sempre carece: uma ordem, uma coerência, uma perspectiva, um tempo fechado que permite determinar a hierarquia das coisas e dos fatos, o valor das pessoas, os efeitos e as causas, os vínculos entre as ações. Para conhecer o que somos, como indivíduos e como povos, não temos outro recurso senão sair de nós mesmos e, ajudados pela memória e pela imaginação, projetar-nos nessas 'ficções' que fazem do que somos algo paradoxalmente igual e diferente de nós. A ficção é homem 'completo', em sua verdade e sua mentira confundidas. (...) Inventar não é, quase sempre, outra coisa que tomar-se certa desforra da vida que nos custa a viver, aperfeiçoando-a ou envilecendo-a de acordo com nossos apetites e nossos rancores; é refazer a experiência, retificar a estórial real na direção que nossos desejos frustrados, nossos sonhos esfarrapados, nossa alegria ou nossa cólera reclamam".
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í.ta**

terça-feira, 11 de agosto de 2009

surpresa

voltei há pouco do postinho de saúde que tem aqui perto de casa. gripei-me no domingo. gripe comum mesmo, com febre baixa e escassa, coriza, e agora tosse. já tô medicado para os próximos dias. rumo à cura!
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o fato é que: lá no postinho, durante a uma hora em que por lá fiquei, despretenciosamente relendo alguns contos do joão gilberto noll, meus olhos brilharam ao encontrar dois livros. isso mesmo, dois livros.
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já começa por aí: encontrar dois livros num postinho miudinho de saúde. dois livros que, quero acreditar nisso, estavam sendo lidos pelas pessoas que lá trabalham. eu não acho nada comum encontrar um livro de literatura em postinhos de saúde. aliás, eu acho tão incomum quanto encontrar um vascaíno-de-segunda no meio da torcida do flamengo. dois livros, então, num mesmo posto, achei o máximo! para um viciado em leitura como eu, que lê onde dá e onde não dá, foi o suficiente para abrir um sorriso besta. lembrei-me muito das leituras que fiz do manguel e do chartier, nas quais eles apresentavam, fazendo referência às diferentes práticas de leitura do texto escrito, os diferentes lugares de leitura com os quais podemos nos deparar, e que influenciam nas leituras que fazemos.
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ainda por cima, eram dois livros que, de uma forma ou de outra, marcaram-me muito, muito. o primeiro que vi era um best-seller, "a menina que roubava livros", que, quando eu o li, há dois anos, amei. encantei-me pela relação da menina com o livro, e com a morte. e o outro era um espírita, "quando chega a hora", o primeiro livro que eu li de um fôlego só, há longínquos sete anos. é o único livro espírita do qual não me desfiz até hoje. depois dele li um catatau de livros desse estilo. aprofundei-me legal nessa doutrina. agora não mais. em nenhuma. mas este livro ficou. e me marca até hoje. diz o ditado que a primeira vez a gente não esquece, não é..
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pois é, foi isso. depois de me deparar com os livros, de lembrar das leituras que deles eu fiz, dos momentos em que tive eles em minhas mãos... depois dessa nostalgia, voltei-me à realidade, ao postinho, ao meu estado gripal, e às conversas que aconteciam entre os outros pacientes naquele ambiente: "é, a vida tem altos e baixos", dizia uma lá, enquanto a outra dava detalhes do dia em que atendeu a uma ligação de uma outra mulher no celular do marido, e do barraco que fizera, em casa, e na rua.
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tentei me concentrar novamente no noll, mas não deu...
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coisas da vida, eu diria.
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í.ta**

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

o medo que um livro ainda provoca

artigo publicado por mim no jornal "hoje", que circula em jaraguá e região, há três semanas. esqueci-me de colocá-lo aqui. agora foi. o título do artigo é o título do post.
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Causou muita estranheza e revolta nos meios literários e educacionais, no mês passado, a retirada de mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza, o atual ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Mais estranheza e revolta ainda se deveu ao fato de que o Governo do Estado de Santa Catarina comprou mais de cem mil exemplares do livro citado e, depois de ter gasto um montante para este fim, retirou-os de circulação das escolas catarinenses. Tudo isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados, que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.
A literatura, assim como as outras formas de arte, nada mais é do que a representação da vida, de fatos vividos por todos nós, independentemente de sexo, raça ou credo. Não levar isso em conta é dar topada nos livros, é desaprender com eles ao abri-los. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso.
O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso levar isso em conta ao se escolher, por exemplo, um livro para se trabalhar em sala de aula. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou no cinema hollywodiano. Ela está, também, nos livros, e não somente nos de contos de fadas infantis ou nos best-sellers de fórmulas prontas. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol.
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í.ta**

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

o desejo de transver

artigo publicado por mim no jornal "hoje", que circula em jaraguá do sul e região. publicado na última terça-feira, 04.08. o título do artigo é o título deste post.
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"Há duas semanas, estive presente no 17º Congresso de Leitura do País, o COLE, realizado na Unicamp, em Campinas. Congresso este que reúne o que há de mais atual em atividades de disseminação da leitura Brasil afora, e em pesquisas sobre a leitura em si e suas diferentes práticas. E, dentre tantos escritores e estudiosos da leitura no país que por lá estiveram, e aos quais tive o prazer de ver, ouvir, e até conhecer, um me chamou muito a atenção, tanto por sua fala, quanto por sua simpatia no trato com o público. Foi o Ignácio de Loyola Brandão, o autor de livros como “Não verás país nenhum”, “O homem que odiava segunda-feira” e “O menino que vendia palavras”.
A fala do Ignácio foi de uma descontração impressionante. Ele demonstrava se sentir em casa, como se estivesse sentado num confortável sofá batendo papo conosco, os ouvintes mais que atentos. Para isso, ele não se utilizou de nenhum texto previamente preparado para o congresso. Falava o que lhe vinha à mente, circulando pelo espaço destinado aos conferencistas e contando “causos” de sua vida de leitor e de escritor. Mas causos pra lá de interessantes, com um tom humorístico elevado, dos quais transbordava sabedoria. Uma sabedoria da vida, não dos livros de auto-ajuda encomendados. Uma sabedoria do dia-a-dia, encontrada nas pessoas com as quais aprendemos a (con)viver e nos registros escritos com os quais nos deparamos.
Tive o prazer de conhecer um pouquinho da formação do Ignácio de Loyola leitor (e, consequentemente, escritor). De alguns fatos pitorescos que marcaram a vida daquele sujeito que aprendeu, e assim disse, que para escrever é preciso, antes de mais nada, estar atento à vida que pulsa ao nosso redor: aos espaços pelos quais circulamos, ao tempo pelo qual somos consumidos, e às pessoas com as quais esbarramos, dia sim, outro também.
O tema do COLE vinha dos versos do Manoel de Barros: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo”. E isso o atento escritor Ignácio de Loyola Brandão soube dizer. E me chamou muita atenção a simplicidade deste escritor em afirmar que a literatura está ao nosso alcance mais do que imaginamos, aqui ao nosso lado, e que, para fazer uso dela, é preciso um punhado de imaginação, de criação, de olhar para além daquilo que vemos. E também que, por mais que não queiramos dela fazer uso, a única coisa que não podemos fazer é podar dos demais – e principalmente das crianças – essa imaginação com a qual é possível transformar, e consequentemente transver, o mundo em que vivemos".
í.ta**

domingo, 2 de agosto de 2009

o que trouxe de lá

"fez que foi, não foi, mas acabou indo". diz um ditado do futebol para quando o jogador aplica um determinado drible no adversário, em que aquele engana este da direção para a qual irá com a bola. e diz um jogador de futebol também assim: "a bola foi fondo, foi fondo, foi fondo, e iu". tá, mas sobre isto, não tenho nem o que falar.
o fato é: no cole havia uma espécie de "feira do livro", com livros de tudo quanto é tipo, especialmente os voltados para a questão da leitura (ou seja, os mais teóricos). mas havia também muita coisa de literatura (tá certo que muito desses últimos best-sellers e outras inutilidades literárias).
mas o fato, mesmo, sobre o qual quero aqui escrever, é que, desde o primeiro dia em que circulei por aqueles livros, fui anotando num bloquinho aqueles que mais me interessavam. mas dizia a mim mesmo que ali não compraria nenhum. que os anotaria para em outra oportunidade, já melhor financeiramente, adquiri-los. e assim fui até o último dia de congresso, a sexta-feira, em que resolvi dar uma última olhada nos livros. aí a casa caiu. não teve jeito. eram ofertas maravilhosas, que eu não encontraria depois quando quisesse novamente aqueles livros. resultado um: caí em tentação. resultado dois: tô endividado.
e aqui estão os benditos que trouxe de lá: (clicando sobre eles, é possível saber um pouco mais)
* o arminho dorme, do xosé antonio neira cruz. este eu já li. é maravilhosamente bem escrito. apresenta uma contextualização história importantíssima. a história se passa no século xvi, no seio de uma família italiana riquíssima. e é a história sobre uma personagem em especial, a bia, abreviação de bianca. o crescimento dessa menina, as mudanças pelas quais ela passou, e o que o seu futuro lhe guardava: um amor, e uma outra coisa. nem sempre ambos andam juntos.
* pensar a leitura: complexidade, organizado pela eliana yunes.
* leitura, literatura e escola: sobre a formação do gosto, da maria do rosário mortatti magnani.
* mediação de leitura: discussões e alternativas para a formação de leitores, organizado por fabiano dos santos, josé castilho marques neto, e tania m. k. rösing.
pronto, era isto.
sintam-se à vontade para comentar estas referências.
í.ta**