quinta-feira, 2 de julho de 2009

Vamos com calma

Recebi da Regina Carvalho, e reproduzo aqui.
Tomara que seja publicado no DC, como ela disse ter mandado para lá...
É necessário.
Mais um caso de livros sendo banidos é demais.
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Na década de 1970, mães católicas do bairro de Santana em São Paulo, fizeram movimento contra a programação da rede Globo de TV, especialmente as novelas.Argumentavam elas que os programas “pregavam” imoralidades como sexo fora do casamento, mães se prostituindo, coisas desse tipo. Por causa de tais cruzadas moralistas cunhou-se a expressão “senhoras de Santana” para esse tipo de manifestação, expressão bastante pejorativa, na verdade, partindo do princípio de que seja pura hipocrisia.
Pois lamento informar que não vejo assim. O que existe por trás é o desejo de moldar o mundo a suas crenças, desejo que dirige todo e qualquer pensamento utópico. E sonhar utopias compõe o imaginário de qualquer cidadão saudável, não conformado com o que esteja a seu redor. É saudável,mas não é muito inteligente: primeiro,porque parece se pautar na ignorância do que seja o ser humano;segundo,porque pretende estender crenças que são parciais para um todo que delas não compartilha.
As pessoas têm todo o direito de pensar o que pensam, não estou questionando isso. Só que desejar que todos pensem do mesmo jeito é inaceitável, autoritário,perigoso. Cientistas e artistas têm estado sempre à frente de seu tempo, e por isso também sempre incompreendidos, perseguidos,difamados, queimados em fogueiras, indexados pela ignorância.
E, em pleno século XXI, assistir a um recrudescimento dessa onda moralista,ainda por cima com aceitação da máquina oficial ou da mídia é de apavorar qualquer um que esteja um pouco mais esclarecido.
Explico: primeiro se recolhem, em nosso estado, exemplares do livro do Cristovão Tezza, disponibilizado para alunos de nível médio, maduros o suficiente para enfrentar seus poucos palavrões e pouquíssimas cenas de sexo – que não fazem parte significativa da obra de um escritor mais que renomado. Que alguns pais protestem, acho aceitável; que a Secretaria da Educação se submeta a isso, porém, é assustador e vergonhoso.
Agora é no Paraná: campanha para que se retirem das bibliotecas livros de Will Eissner e Dalton Trevisan, este o maior escritor paranaense de todos os tempos... Diferentemente das novelas da TV, que passam longe da vida real, mesmo mostrando adultério, prostituição,sexo antes do casamento, homossexualismo, os livros do Dalton são certeiros no retrato que fazem da sociedade que o rodeia. Se ela não se aceita assim, que trate de mudar. E o inaceitável é que a tal cruzada parece contar com apoio da Gazeta do Povo...
Da mesma forma como os livros estão quietinhos nas suas estantes, guardando em suas páginas a arte mais duradoura que existe - e só as abre quem quiser! – a TV,como dizia Stalislaw Ponte Preta,pode ser a máquina de fazer doido,mas tem uma qualidade:um botão de desligar. Com um controle remoto, é fácil fazer isso, ou apenas mudar de canal... Não vejo novelas, acho-as insuportáveis, tenho coisa melhor pra fazer na vida. Nem por isso penso que devam ser tiradas do ar. Mas quem as acompanha,me desculpem,é porque gosta do que vê. E depois vem reclamar? Façam-me o favor!

Regina Carvalho é Escritora, professora aposentada da UFSC. Escreve nos blogs: http://cronicasdaregina.blogspot.com e http://portaodapraiablogspotcom.blogspot.com
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Í.ta**

Um comentário:

Rubens da Cunha disse...

sempre alarmante esse tipo de censura. mas acho que pela gritaria vai acontecer cada vez menos... obrigado pela visita ao casa de Paragens