sábado, 18 de julho de 2009

leituras V

momentaneamente, fechando a série "leituras".
vou a campinas, passar a semana toda lá, no COLE, o maior congresso de leitura do país,
inclusive apresentando minha atual pesquisa, "a leitura literária no espaço escolar".
levo na bagagem alguns romances e contos, e outros teóricos.
na volta, colocarei aqui os devidos registros do evento e da viagem, ou da viagem e do evento.

í.ta**
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“Mergulho II

Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: “Ou você aprende ou morre”. Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.
Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.
Na terceira noite, o navio afundou”. (p. 69)

“’Se eu fosse uma personagem de romance antigo’, pensava, ‘agora jogaria a xícara, ou melhor, a taça no chão’. O autor certamente saberia tirar algum efeito: a) dos cacos espalhados pelo assoalho, talvez um último raio de sol brincando na coroa de flores da pastora; b) ou então faria com que ela olhasse fixamente para um quadro na parede: em algum lugar, numa praia deserta e distante, uma onda batia forte contra um rochedo, espalhando espuma em todas as direções; c) ou faria com que o marquês, devia haver um marquês qualquer naquela ou nesta história, entrasse de repente para possuí-la sobre tapetes persas, jogando as inúmeras saias sobre a baixela de prata; d) ou que enchesse sôfrega a seringa, procurando a veia, enquanto um rock tocasse na vitrola; e) ou apenas gritasse muito alto, durante muito tempo, até ficar rouca e muda, sem ninguém ouvir. Qualquer coisa, a marquesa pediu, encolhendo-se contra a última parede da gaiola, qualquer coisa aqui, agora – antes do ponto final”. (pp. 43-44 – do conto “Divagações de uma Marquesa”)

Autor: Caio Fernando Abreu
Livro: Pedras de calcutá
Ano: 2007
Editora: Agir.

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