sábado, 18 de julho de 2009

leituras (uma a mais)

A série leituras havia terminado momentaneamente, escrevi no post abaixo. Porém, li hoje pela manhã uma historinha lindíssima do Caio Fernando Abreu, chamada As frangas. Ao contrário da maioria de seus contos, nos quais o autor disseca o “viver que é sofrer da vida”, nesta novela transborda a vida em toda sua singeleza e esperança. Ficam aqui as linhas finais, de uma delicadeza contagiante.


“É que vezenquando dá uma saudade na gente dessas coisas. São todas coisas simples. Meio bobas, muito bonitas. Que nem as frangas.
Mas tudo bem. A gente sempre pode inventar. Inventar é uma das melhores coisas que tem no mundo. A Otília ainda não descobriu, mas a coisa mais chique do mundo é inventar. Que nem a Clarice, que inventou a história da Laura.
Só que eu não inventei quase nada da Ulla, da Gabi, da Maria Rosa, Maria Rita e Maria Ruth, da Otília, da Juçara, da Blondie. Elas existem mesmo, são bem como eu disse. Estão em cima da geladeira aqui de casa para quem quiser ver. Vem tomar um guaraná comigo que eu te mostro.
Se você quiser, invente uma história e mande para mim. Se for história de franga, melhor ainda. Prometo ler pra elas ouvirem. E, se você não tem um pátio enorme nem um galinheiro de verdade, também pode inventar um em cima da geladeira ou em qualquer outro cantinho. Eu gosto muito quando acordo de manhã e vou fazer café na cozinha. Aí as oito frangas cacarejam e repetem assim, oito vezes, uma cada uma:
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
Não é que dá certo? Quase sempre, o dia é bom mesmo. Principalmente quando eu invento sem parar.
Pois não estou falando o tempo todo que franga, além de ser um bicho bom de ter por perto, dá sorte? Se elas não existissem, eu nem tinha escrito esta história. E acho que escrever uma história é uma coisa muito boa. O coração da gente fica mais quentinho e a gente gosta mais das pessoas.
A coisa que uma pessoa mais precisa na vida é gostar das outras pessoas e ser gostada, também. Aí, pra ser gostado, a gente escreve histórias. Você gostou desta? Daí está tudo certo, porque então você gostou de mim e eu gostei de você também.
Qualquer dia conto outra, combinado?”(pp. 51.52).

Autor: Caio Fernando Abreu
Livro: As frangas
Ano: 2001
Editora: Globo.
_ _ _ _ _ _ _ _ _
Í.ta**

2 comentários:

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Show de bola!

O Caio é foda!

Ana Carolina disse...

Também gosto muito. Do Caio e deste blog.
Ana Carolina Carvalho