quinta-feira, 16 de julho de 2009

leituras IV

“Muito embora a menina observasse tudo ao redor, ela não viu aquela pedra firmemente enfiada no meio do caminho (pedra de que, justamente por isso, ela não se esqueceria) e caiu ralando os joelhos e os cotovelos, derrubou o cabelo sobre o rosto para mastigá-lo junto à terra que estalava também entre seus dentes. Mas a pequena, jogado ao topo daquele morro, levantou o rosto e se assustou com a quantidade de árvores e pássaros, com as pedras que, paradas aos cantos, acumulavam-se em montes. Transtornada em perceber as tantas coisas que existiam indiferentes a ela, não sentia os joelhos ou os cotovelos arderem, tampouco o gosto de terra na boca: estava perplexa com o tamanho do mundo prestes a lhe engolir”. (pp. 16-17)

“(são seus dedos
pensei
seus dedos
mas não disse
pois pouco faria contra eles, antes para não perder a dor que me arrepiava o corpo numa aflição estridente)
e não por acaso, meus pêlos permaneciam como que soerguidos pelo frio, desatentos eles também ao calor daquela pele a rastejar sobre mim. Alheio às penumbras reveladas no quarto onde tudo era sombra, confundia meus olhos naqueles olhos para perceber pupulas diminutas como os dedos que dedicadamente me furavam a pele, forçando demais alguns pontos e por isso dando-me a impressão de terem alcançado talvez um osso ou mesmo o limite oposto do meu corpo, abrindo pequenos orifícios no colchão
(nesses momentos em que sentia meu sangue brotar numa gota ou duas
você deveria saber
nesses momentos travava-me a garganta
eu deveria ter dito
a língua desorientada misturava palavras que jamais escapariam, pois nada ameaçaria o gozo repentino de me descobrir constantemente ameçado)
e me fincava exclamações no céu da boca, pois caso escapassem se confundiriam com palavras, quase gritos” (pp. 93-94)

“Pedrar. Uma pedra. Um tijolo bruto primeiro. E depois outro. Também bruto. Quase acaso desfeito em cimento. Atrito. De contrários: duas pedras as mãos duras que trazem tijolos. E prontos, uns sobre os outros, os tijolos e as mãos. Por entre, cimento. E areia. E suor. Concreto. Empilham-se. Num quebra-cabeça indeciso que sai do chão. Tijolo e mão. Pedrando. Pedregulho. Pretérito da parede, tijolo. E depois outro. Para tanto, uma pedra à mão”. (p. 109)
Autor: Maurício de Almeida.
Livro: Beijando dentes
Ano: 2008
Editora: Record.
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Í.ta**

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