quarta-feira, 15 de julho de 2009

leituras III


não são contos. é uma novela. arrebatadora.
“(...) e foi aí que deu o estalo nela “tive um insight” ela disse c’uns ares de heureca, “acho que matei o quebra-cabeça, descobri finalmente qual é a verdadeira ‘ocupação’ desse nosso biscateiro, aliás, só agora entendo por que tanta recusa em falar do teu ‘trabalho’, por que tanto mistério, só agora é que atino com o quê das tuas transas, já que todas as pistas do teu caráter me levam a concluir que você não passa dum vigarista, dum salafra, dum falsário” e logo ela arrebitou o achado “não um falsário graduado...” e eu confesso que de novo me tremeram as pernas, vi o Bingo, naquele preciso instante, cortar numa carreira elétrica o espaço entre mim e ela, esticando – com seu pêlo negro e brilhante – mais um fio na atmosfera, e foi na cola dele que estiquei inda mais a corda dos meus nervos, contornando com cuidado a suspeita de falsário, que eu não soube de resto se era jocosa ou sisuda, ou se, sendo uma coisa, vinha prudentemente misturada com a outra, eu só sei que dei a volta por cima, soneguei mexer no mérito, não permitindo que ela sopesasse a gravidade da suposta descoberta, deixei num passe de prestidigitador, na maçã do seu insight “me sinto hoje desobrigado, é certo que teria preferido o fardo do compromisso ao fardo da liberdade; não tive escolha, fui escolhido, e, se de um lado me revelaram o destino, o destino de outro se encarregou de me revelar: não respondo absolutamente por nada, já não sou dono dos meus próprios passos, transito por sinal numa senda larga, tudo o que faço, eu já disse, é pôr um olho no policial da esquina, o outro nas orgias da clandestinidade” “não posso descuidar que ele logo decola com o verbo... corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida; não me venha pois com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você bizarramente batiza de ‘história’; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um – essa questãozinha que vive te fundindo a cuca – o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co’a mão amiga dos assassinos”.

Autor: Raduan Nassar
Livro: Um copo de cólera
pp. 56-58.
Ano: 1992
Editora: Companhia das Letras.
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Í.ta**

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