terça-feira, 14 de julho de 2009

leituras II


“Então, de novo em casa, entre tomar nova pílula para dormir ou fazer alguma outra coisa, optou pela segunda hipótese, pois lembrou-se de que agora poderia voltar a procurar a letra de câmbio perdida. O pouco que entendia era que aquele papel representava dinheiro. Há dois dias procurara minuciosamente pela casa toda, e até pela cozinha, mas em vão. Agora lhe ocorria: e por que não embaixo da cama? Talvez. Então ajoelhou-se no chão. Mas logo cansou-se de só estar apoiada nos joelhos e apoiou-se também nas duas mãos.
Então percebeu que estava de quatro.
Assim ficou um tempo, talvez meditativa, talvez não. Quem sabe, a Sra. Xavier estivesse cansada de ser um ente humano. Estava sendo uma cadela de quatro. Sem nobreza nenhuma. Perdida a altivez última. De quatro, um pouco pensativa talvez. Mas embaixo da cama só havia poeira” (p. 15)

“Um diálogo que ela fazia consigo mesma:
- Está fazendo alguma coisa?
- Estou sim: estou sendo triste.
- Não se incomoda de ficar sozinha?
- Não, eu penso.
Às vezes não pensava. Às vezes a pessoa ficava sendo. Não precisava fazer. Ser já era um fazer. Podia-se ser devagar ou um pouco depressa”. (pp. 26-27)

“Só posso escrever se estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo”. (p. 92)

Autora: Clarice Lispector
Livro: Onde estivestes de noite
Ano: 1999
Editora: Rocco.
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Í.ta**

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