sábado, 4 de julho de 2009

Inventação não tem fim


“(...) porém a parte mais rica do que o Bugre me deixou era coisa diferente, riqueza que só se guarda por meio de repartir porque história a gente esquece se não contar a ninguém” (O voo da guará vermelha, p. 59).

Já escrevi aqui, alguns posts abaixo, sobre os contos da escritora e contadora de “causos” Maria Valéria Rezende, a quem tive o prazer de ver e de ouvir, há duas semanas, no Abril Mundo, o evento organizado pelo Prolij. Naquela oportunidade, a autora viera para falar sobre literatura, sobre narrar, escrever e contar histórias. E também sobre seu romance O voo da guará vermelha (Objetiva, 2005).
Voltei ao livro durante esta semana, relendo alguns trechos destacados na primeira leitura que fiz. Trechos como este, por exemplo: Das fomes e vontades do corpo há muitos jeitos de se cuidar porque, desde sempre, quase todo viver é isso, mas agora, crescentemente, é uma fome de alma que aperreia Rosálio, lá dentro, fome de palavras, de sentimentos e de gentes, fome que é assim uma sozinhes inteira, um escuro no oco do peito, uma cegueira de olhos abertos e vendo tudo o que há para ver aqui (...). São as linhas que abrem o livro. São trechos lindamente ritmados. Frases que calam fundo: Quem tem saudade tem na vida uma riqueza.
A história entre Rosálio e Irene trata de necessidades afetivas e de suas possíveis superações. Ele, um pedreiro, carregador de livros e de um desejo, o de aprender a ler os livros que carrega. Ela, uma prostituta presa a um amor que deixa saudade, dor e culpa. Meio que ao acaso eles se encontram. E se completam. Com Irene, Rosálio aprende a ler da forma mais bela e digna que é aprender: ensinando. E Irene, com Rosálio, vive finalmente o tão sonhado amor. Rosálio, ao buscar a palavra, busca a sua consciência e, ao encontrar as letras com as quais pode ler o seu nome, sai do estado de cinza/inconsciência para a luz que se descortina num arco-íris de cores da consciência. Homem e mulher que se fazem um na linguagem e no texto. No corpo e na cama, na vida e na morte. Unem-se na e pela linguagem para não se deixarem esquecer do que e de quem são: o amor é como menino que não sabe fazer contas nem de perda nem de ganho, vive desacautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério.
A narrativa de O vôo da guará vermelha mistura elementos da cultura popular — especialmente da literatura de cordel e de oralidades — com textos clássicos tais como D. Quixote e As mil e uma noites. Os capítulos têm nomes de cores que remetem ao conteúdo da história (cinzento e encarnado; verde e negro; ocre e rosa). A descrição alterna passado e presente com encadeamento perfeito. Maria Valéria Rezende, de modo brilhante, apresenta um Brasil ainda desconhecido para muitos, visto somente pela televisão, onde, apesar das diversas agruras (analfabetismo, doenças e escravidão moderna) nascem histórias densas e humanas que nos fazem pensar a realidade de forma solidária, e que nos dão a esperança de possíveis e belos vôos de guarás vermelhas: (...) felicidade é coisa de muita delicadeza, que num sol forte demais murcha e perde a boniteza.
A leitura de O Vôo da Guará Vermelha também provoca algumas reflexões sobre a vocação da literatura brasileira, que é, no limite, a responsabilidade solidária diante de uma multidão de deserdados. Ou seja, “dar voz aos oprimidos”. E isto a autora faz brilhantemente. Um exemplo está em quando Irene diz a Rosálio: Ai, Rosálio, se eu soubesse, há muitos anos atrás, que um homem assim existia, capaz de fazer com a fala um mundo maior que o meu, um mundo cheio de histórias de sorrir e de chorar, que me tirasse das sombras do medo de me acabar sem mesmo ter começado a viver vida que preste, que fizesse o amarelho, o azul, o verde, o rosado expulsar a cor de cinza desta alma que eu carrego como uma barra de chumbo.
E, para não me alongar mais ainda neste escrito, ficam as últimas duas linhas e meias deste livro que merece muito mais do que duas leituras: (...), se a vida tem começo, eu penso que nunca finda e a história que já passou, deveras acontecida, a gente lembra inventando. Inventação não tem fim.

Í.ta**

Um comentário:

Í.ta** disse...
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