quarta-feira, 1 de julho de 2009

borges e outras ficções


O escritor argentino Gabriel Gómez, autor de A culpa é do livro (Design Editora, 2008), surge novamente no cenário editorial. Após um livro de contos construído em torno do objeto livro, da relação que podemos estabelecer junto a este elemento de subversão, Gómez brinda o leitor com Borges e outra ficções (Design Editora, 2009), um livro tão ou mais experimental do que o seu primeiro.
O tom do livro é de conversa, de troca com o leitor, de confidências. Os textos intitulados “Cartas e diários”, que vão do um ao dez, são os maiores exemplos dessas revelações pessoais. Assim como no primeiro livro, Gómez deixa claras as referências literárias que o acompanham: Cortázar, Borges, Clarice, Sabino, Caio F. Abreu, Kafka, Sábato, entre outros autores. São características dos textos de Gómez estas referências, que dão um tom mesmo de confidências trocadas com o leitor, como por exemplo também acontece no texto “Autografados e abandonados”, em que o autor, além de discorrer sobre livros autografados pelos autores e abandonados pelos leitores, apresenta como exemplo um livro autografado pelo escritor Bioy Casares a uma outra pessoa (possivelmente uma mulher), e que acabou por parar nas mãos de Gómez.
Há neste novo livro de Gabriel novamente a lida com a palavra, o cuidado com a escolha delas, como se pode observar nos poemas “Disfarce”, “Como sola”, e “Baba”: Acordo com a baba de um poema num canto da boca / Parece seguir-me, implacável. / Ainda na vigília, cai lento, arrastado, / espera que o revele / em palavras que nem sempre alcança.
Não se pode dizer que o novo livro de Gómez seja um livro de contos, ou de crônicas, ou de ensaios, ou de poemas. É, sim, um livro com um pouco de tudo isso, bem distribuídos entre as páginas. Daí ser um livro em que o autor experimenta os textos, transitando bem por entre os gêneros literários citados, levando o leitor a diferentes veredas literárias. E, como nos diz Gómez em um texto deste novo livro, independentemente dos caminhos e dos gêneros, “A leitura permanecerá como uma forma de angústia e felicidade”. Sim. Sim e que bom. Que bom também que podemos nos deparar com algo diferente e bem feito como este Borges e outras ficções.


Í.ta**

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