quinta-feira, 30 de julho de 2009

surpresas

a quinta-feira amanheceu ensolarada e quente. mas, no meio da tarde, o tempo virou, e à noite já chovia barbaridade. tanto que foi a primeira vez em que voltamos de táxi para o hotel. e assim o tempo ficou na sexta-feira, quando fomos somente pela manhã para o congresso, que se encerrava às 12h. depois, gastamos a tarde de sexta no maior shopping da américa do sul, o dom pedro, já que nosso ônibus de volta para joinville era somente às 19h. haja pernas! mas foi legal, bastante descontraído. fez-nos bem para dar aquela relaxada antes de encarar mais oito horas de viagem.
bom, mas sobre a quinta-feira, foi, para mim, o dia das surpresas. pela manhã foi horroroso. “caímos”, eu e leila, numa mesa redonda cujo título era “escrita, imagem, criação: diferir”. interessamo-nos pelo tema, mas, na prática, foi algo completamente fora do que imaginávamos. era um travesti do peru (ou de outro lugar?? Agora não lembro!) que lá estava para apresentar um vídeo que ele fizera, sobre três travestis, e um pouco de suas vidas. ok, apesar de ter boiado a maior parte do vídeo, tava tranqüilo, esperando o cara falar sobre o vídeo e a questão da escrita, da imagem e da criação. aí, foi dada a ele a oportunidade de falar, e, ao se pronunciar do microfone, ele simplesmente abriu a perguntas. ou seja, ficamos, de fato, a ver navios, sem explicação nenhuma do que aquilo significava!
cansamo-nos e de lá saímos. encontramos um laboratório de informática no prédio da educação, onde estávamos. e por ali gastamos nossa manhã, colocando as caixas de e-mail meio que em dia, e fuçando outras inutilidades básicas.
dali, rumamos para o centro de convenções, onde tivera uma mesa-redonda com a marisa lajolo e a regina zilbermann. não ficamos para esta mesa porque o tema era especificamente sobre os trinta anos do cole, e achávamos que não seria interessante. azar o nosso! mas, por fim, ainda consegui chegar na regina zilbermann e conhecê-la. ela foi de uma simpatia encantadora!
à tarde, as professoras rosana e taiza apresentaram suas pesquisas. eu e leila, como pupilos das duas, acompanhamos as apresentações. e aí que me surpreendi, muito positivamente, pois, por mais que as professoras já tivessem falado sobre suas pesquisas, eu não havia assimilado tão bem quanto fora ali, assistindo-as. a rosana falou sobre a pesquisa que vem fazendo com professores de ensino fundamental, suas práticas de leitura, e como lidam com a questão da alfabetização e do letramento no trabalho em sala de aula (aí focando a questão dos gêneros discursivos para se alcançar isto). e a taiza discorreu sobre todas as atividades que o proler realiza. olhamo-nos, eu, leila e rosana, e falamos: taiza, tu trabalha pra caramba! de fato, é coisa pra dedéu o que o proler faz: exibição de filmes, formação de escritores, mediação de leitura, contação de histórias, dentre outras.
no início da noite era a conferência internacional, no ginásio da unicamp. para lá nos dirigimos, protegendo-nos da chuva como dava.
e sentamo-nos nas arquibancadas do ginásio para ver um tal de xosé antonio neira cruz falar. não tínhamos ouvido falar dele em nenhuma outra oportunidade, e aí foi uma outra surpresa maravilhosa que tivemos. a fala desse escritor (que é da galícia, portanto, galeno) foi de emocionar. com o tema “leitura e memória” ele desenvolveu sua fala resgatando sua formação como leitor, as leituras que o marcaram, e o quanto elas influenciaram em sua formação como pessoa. tanto emocionou-nos que, ao término de sua fala, olhamo-nos com os olhos marejados. e sem palavras, claro.
corri para o estande da editora que vendia o último livro lançado por ele, chamado “o arminho dorme”, e comprei-o. naturalmente depois foi atrás do autógrafo. uma belíssima história, sobre a qual escreverei aqui em outro momento. comecei a lê-la naquela noite mesmo no hotel. e na viagem de volta a finalizei. assim como a fala dele, o final do livro é de marejar os olhos. e de silenciar o leitor. há momentos, sim, em que o melhor é apenas sentir, e não pensar. aquele fora um.

í.ta**

quarta-feira, 29 de julho de 2009

até mais tarde

na quarta-feira, terceiro dia de congresso, assistimos a uma das melhores falas! a do ignácio de loyola brandão. um cara super bem-humorado, que, ao contrário de todos os outros que por lá estiveram palestrando, não se apoiou em nenhum texto previamente escrito. foi falando o que lhe vinha à mente, de modo muito muito dinâmico e sensível, interagindo com a plateia e tornado aquele primeiro horário da manhã leve e descontraído. o ginásio tava cheíssimo! ficamos longe uma barbaridade, na arquibancada mais superior que lá havia.
loyola relembrou inúmeras situações vividas por ele quando aluno. citou colegas e professoras, atividades e leituras, e foi discorrendo a respeito do ato de ensinar, da delicadeza contida nessa relação entre professor e aluno. também, como quem não quer nada, deixou sementinhas nas cabeças dos presentes quando falou do que é a literatura, do encantamento contido nos textos literários, da imaginação que não se pode, de maneira nenhuma, podar das crianças, e de como, para se escrever, é preciso prestar atenção nas pessoas com as quais convivemos; na vida que pulsa ao nosso redor. foi mesmo uma lavada na alma a fala dele. saímos do ginásio da unicamp levíssimos! até tentamos, eu e leila, autógrafo dele, mas a fila era grande por demais, e toda tumultuada. o máximo que conseguimos foi meter o carão ao lado dele, sem que ele prestasse atenção em nós, e sacarmos uma foto.
no restante da manhã, tentamos assistir à mesa redonda com a marisa lajolo e a regina zilbermann, mas fizeram num lugar pequeno demais para a importância destas duas autoras e estudiosas da leitura no país. quando lá chegamos, as pessoas transbordavam pela porta. sem brincadeira. era gente apinhada até onde mais não se podia. restou-nos, então, acompanhar outra mesa redonda, não menos importante, chamada “retratos da leitura no brasil”, em que um dos participantes, o galeno amorim, do mec, apresentou alguns dados bastante interessantes sobre as práticas de leitura de nós, brasileiros, que podem ser conferidos aqui.
durante a tarde, circulamos por novos espaços na unicamp. fomos, por exemplo, aos blocos do iel (instituto de estudos da linguagem), e ao bloco de economia. pra variar, um longíssimo do outro. e assistimos a algumas comunicações horrorosas, super mal apresentadas, das quais saímos nos perguntando o que aquelas pessoas faziam ali. é dose se perguntar isso, mas tem muita gente mal preparada apresentando pesquisas ainda mais mal elaboradas.
ainda, pra tornar mais inútil o dia (com exceção do período da manhã, vá lá), a conferência internacional da noite tava uma chatice! era um outro espanhol, mas terrivelmente difícil de se entender! ficamos quase uma hora boiando, à procura de um mínimo de entendimento do que o sujeito falava. desistimos. pelo nosso bem.
rosana e leila voltaram ao hotel, então, um pouco mais cedo. eu e taiza ainda ficamos na unicamp, no bloco da educação, para o encontro da roda de pesquisadores da alb, da qual a taiza faz parte. e, para nossa maior decepção, não teve encontro nenhum. quem rodou fomos nós! ninguém apareceu, e ficamos a ver navios. mais trinta minutos até um circular aparecer, e enfim rumamos para o hotel. com a boa lembrança somente do ignácio de loyola brandão. e com a expectativa de um melhor dia na quinta-feira.
í.ta**

terça-feira, 28 de julho de 2009

o dia da apresentação

por conseqüência do frio que enfrentamos na volta do congresso, no dia anterior, agasalhamo-nos um bocado para ir na terça-feira. azar o nosso! esquentou, e ficamos cheio dos agasalhos, pra cima e pra baixo pelas ruas da unicamp. foi o primeiro dia de comunicações, e foi quando começamos a andar, andar, andar, porque na unicamp nada fica perto de nada.
pela manhã havia uma palestra com uma professora-pesquisadora da espanha. tentei acompanhar, mas me tava difícil demais de entender o que ela falava. aproveitei aquele tempo para novamente vasculhar os livros nos estandes, e fui anotando tudo o que encontrava de interessante. não tinha objetivo de comprar nenhum livro, por questões financeiras, e por já ter em casa o suficiente para dar conta de ler. então fui anotando-os, para futuramente adquiri-los, se ainda necessidade e gosto houvessem.
pela manhã ainda, assisti à mesa redonda “leitura, escola, história”, com a presença do francês jean hébrard, e da maria rita de almeida toledo. achei que não teve nada de mesa-redonda aquilo! cada um falou sobre um tema diferente que estava pesquisando. ou seja, em comum, nada. mesmo assim foi interessante o que cada um deles falou sobre o tema, mesmo que não tornando aquilo uma conversa. e, ao final, consegui chegar perto do francês que eu já tanto lera, conseguindo um autógrafo e uma foto.
à tarde era minha apresentação, na sala 16 do bloco da faculdade de educação. o título da minha atual pesquisa é “a leitura literária no espaço escolar”, em que proponho a realização de círculos de leitura (leitura de textos literários) com turmas de ensino médio em algumas escolas. era no horário das 16h às 17h. então, no horário anterior, das 14h às 15h, fui com leila para assistir a outras comunicações em outros espaços, mas demos o azar de entrar numa sala em que, das cinco apresentações previstas, só duas aconteceram. ou seja, pouco vimos.
fiquei tranqüilo para a minha apresentação. minha orientadora, a prof. taiza, tava presente também, e pedi a leila para fazer algumas fotos. dito e feito. e a comunicação foi super tranqüila! sendo muito elogiada ao final, com as pessoas presentes me fazendo muitas perguntas sobre a pesquisa, sobre as leituras feitas, e me incentivando a persistir nela.
ao final do dia ainda assistimos à fala do inglês peter burke, com o tema “reflexões sobre a história da leitura”. ele falou um português mais claro ainda do que o francês hébrard. bem mais pausado, mas bem mais claro também. e discorreu muitíssimo bem sobre a história da leitura, fazendo um apanhado maravilhoso, e também tocando no ponto das diferentes práticas de leitura. ah, e ele também citou o alberto manguel, o crítico-literário que eu mais leio :)
na volta ao hotel comecei a ler “cartas a um sedutor”, da hilda hilst. lógico que dormi com o livro na cara e a luz acessa. às duas da manhã me acordei, no susto. e aí, sim, descobri o quanto eram coerentes as reclamações das professoras a respeito da barulheira no bar embaixo do hotel. não um barulho de conversa. eram músicas altas, gente cantando mais alto ainda tais músicas, e uma troca de gentilezas verbais e físicas de arrepiar. depois, na manhã seguinte, ainda fiquei sabendo que houvera batida policial no dito bar durante aquela madrugada. mas aí eu já ia longe no meu sono...

í.ta**

segunda-feira, 27 de julho de 2009

chegando

a viagem a campinas foi super tranquila. li um romance, “a maldição do macho”, do nelson de oliveira, e no restante do tempo dormi. cheguei à cidade às 6h30, e comecei a me perder. perder-me foi uma característica minha durante os cinco dias de congresso. ainda bem que eu tinha pessoas (rosana, taiza e leila) com um gps muitíssimo bom para aquela imensão da unicamp. andei feito barata tonta na rodoviária de campinas. prof. rosana havia me dito que era facinho chegar ao hotel, bastava dobrar uma direita (ou esquerda?) e já se estava lá. o que ela não sabia, nem tinha como e por que saber, era que a rodoviária era nova, novíssima. perto da antiga, é verdade, mas um pouquinho mais distante do hotel onde ficaríamos. sendo assim, após sair e entrar duas, três vezes da rodoviária, resolvi pegar um táxi. a contragosto o taxista me levou ao hotel, de fato, duas ruas abaixo. (!)
a ida ao primeiro dia de congresso não foi de busão para mim e para a prof. taiza. foi de carona com uma ex-aluna dela, a elen, e o marido da elen, muito gentis e simpáticos conosco. sobrou para a prof. rosana e para a leila irem de busão. numa boa.
ao chegar à unicamp, óbvio, fiquei embasbacado com o tamanho daquilo tudo! porém, não fosse pelo sentimento de “primeira vez lá”, a manhã teria sido muito monótona, pois as aberturas de congressos costumam ser assim mesmo, um monte de gente falando um monte de sei-lá-o-que-sem-muita-importância. o legal foi a bandinha da foto, animando o pessoal ao final das falas-sem-sentido.
almoçamos num lugar super próximo ao ginásio-onde-tudo-acontecia. lugar em que almoçaríamos nos outros dias também. e a tarde e a noite não foram muito diferentes da manhã, não. até teve uma conferência no começo da tarde, com o adalberto müller, da uff, que falou sobre um monte de coisa ao mesmo tempo, mas basicamente sobre o tema principal do cole, o transver o mundo, dito pelo manoel de barros. e o adalberto, a meu ver, apresentou algumas práticas de leitura muito interessantes, e chegou ao final da fala propondo um pensar sobre o limiar entre ficção e realidade na literatura. resumindo, adorei! entusiasmado, fui lá pedir-lhe um autógrafo.
depois da fala do adalberto chegou o momento das homenagens a algumas "personalidades das letras e das palavras". uma ideia super bacana, mas tãããooo looonga! o resultado, claro, para mim, passada toda a euforia inicial, só poderia ser este da foto, captado pela leila sem minha permissão (eu faria o mesmo que ela, afinal, desde quando alguém dormindo tem voz para algo?).
aproveitamos alguns instantes de máxima monotonia, ou de intervalos entre os discursos, para vislumbrarmos livros nos estandes presentes no congresso. muitos livros possíveis de serem encontrados em dez em cada dez livrarias, é verdade, mas também nos deparamos com algumas raridades de bom tom, que muito nos interessaram. e, numa dessas idas e vindas pelos estandes, deparei-me com o escritor bartolomeu campos de queiroz. como para esses momentos não sou nenhum pouco tímido, aproximei-me dele, apresentei-me, e pedi-lhe um autógrafo e uma foto. dito e feito.
depois, o bartolomeu estava na mesa dos homenageados do cole. ele, mais o affonso romano de sant’anna, e outros dois homenageados in memoriam, o elias josé e o haquira osakabe. as homenagens duraram um bocado! mais uma vez um monte de gente falando um monte de coisa sem serventia. tudo poderia ter sido mais condensado, e, assim, melhor aproveitado (a prof. taiza bem comentou que, ao invés daquela enrolação toda no período da manhã, por exemplo, seria muito mais proveitoso uma palestra bem feita por algum escritor ou pesquisador, ou quem quer que fosse, sobre algum tema relacionado ao congresso). voltando às homenagens, assim que elas finalmente acabaram, eu, leila e taiza fomos em direção ao affonso romano de sant’anna. a prof. taiza por já conhecê-lo, para lhe dar um abraço. eu e leila para conhecê-lo, e tietar com pedidos de autógrafos e fotos.
por fim, fechando o primeiro dia de congresso, assistimos à fala do francês jean hébrard. falou um português audível, foi bom. já não me lembro com detalhes sobre o que falou, mas algo relacionado à leitura e à história, temas recorrente de suas pesquisas e escritos. e, claro, relacionando ao tema-mor do congresso, o verso do manoel de barros, “é preciso transver o mundo”. também apresentou muitas cenas de leitura, de difernetes maneiras de sermos leitor. eu adorei, pois isto é algo recorente em minhas pesquisa! :)
voltamos ao hotel de busão. já era noite e sentimos um frio enorme! como ventava! e geladíssimo ainda por cima! mas, sobrevivemos, claro! chegamos ao hotel e recorremos a duas deliciosas pizzas, comidas a mão mesmo, na falta de talheres e pratos (na verdade, não pedimos. quebramos a cara, pois um outro grupo de pessoas, que também voltara do cole um pouco mais tarde, para o mesmo hotel em que estávamos, também pediu pizza, e comeu, podemos dizer, de modo mais civilizado do que nós) ¬ ¬.

í.ta**

sábado, 25 de julho de 2009

sobre campinas

cheguei hoje de madrugada de campinas.
estivemos lá (eu, prof. taiza, prof. rosana, e leila) desde segunda, 20, participando do 17. congresso de leitura, o cole, que é, por sinal, o maior congresso de leitura do país.
eu, taiza e rosana apresentamos pesquisas nossas, ou recortes delas. leila foi de "penetra",
mas também aproveitou muito.
à medida do (im)possível escreverei aqui sobre os dias de congresso.
neste momento ficam algumas palavras sobre a cidade de campinas.
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ficamos em um hotel pertíssimo da rodoviária. por sinal, uma rodoviária nova, muito, muito bonita. mas a cidade em si, ao contrário da rodoviária, é terrivelmente feia. suja ao extremo. não teve uma rua pela qual passamos que não estava repleta de sujeiras ou com os prédios e construções pixados. sem contar os chamados moradores de rua, vestidos em trapos medonhos, com expressões medonhas, marginalizados completamente. em baixo do hotel em que ficamos, por exemplo, nas duas esquinas eram dois bares, dos mais ralés possíveis, nos quais, durante vinte e quatro horas ininterruptas, havia desses maltrapilhos fazendo suas devidas badernas. dormir foi um grande de um problema. a mim nem tanto, devido ao sono de pedra que tenho. tudo o que é grande demais torna-se, por consequência, difícil demais de se controlar. foi a impressão-de-morador-de-cidade-não-tão-grande com a qual fiquei.
em todos os dias em que circulamos pela cidade (trajeto de sempre: hotel para unicamp, unicamp para hotel) eu cantava, ora baixinho, ora apenas em pensamento, alguns versos da música "milagres, miséria", da adriana calcanhotto: "Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/Índio mulato preto branco/Miséria é miséria em qualquer canto/Todos sabem usar os dentes/Riquezas são diferentes/Ninguém sabe falar esperanto/Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/Miséria é miséria em qualquer canto/A morte não causa mais espanto/O sol não causa mais espanto/Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/Cores raças castas crenças/Riquezas são diferentes".
e, ao contrário da cidade em si, a impressão que eu trouxe das pessoas que moram em campinas foi a melhor possível! comentávamos entre nós, todos os dias, a gentileza com que as pessoas nos atendiam e conversavam conosco. a começar no hotel, pelos atendentes de lá, que logo cedo nos recebiam com entusiasmados "bom dia" e atendiam a nossos singelos pedidos de quarto e alimentação. e, não diferente, nos ônibus, durante o longo trajeto de quase uma hora até a unicamp (e de quase uma hora, obviamente, de volta ao hotel), tivemos o prazer de conversar com cobradores (as) superatenciosos (as), que não só nos davam as indicações que pedíamos, como puxavam conversa, perguntando-nos de onde vínhamos, como era onde morávamos, por que razão estávamos na cidade, onde estávamos, dentre diversos outros assuntos. e assim também foi com os três taxistas nas únicas três oportunidades em que nos demos ao luxo de nos locomovermos de táxi por aquela enorme cidade com seu mais de milhão e meio de habitantes.
segundo essas pessoas simpáticas nos disseram, quando faz frio, faz frio pra valer por lá. e sentimos isso na pele na segunda e na sexta. parece-me, também, que campinas não é uma cidade em que chove muito, é mais seca, mas não deixamos de pegar um dia inteiro de chuva, no caso, o último dia de congresso, a sexta-feira, em que aproveitamos a tarde livre para bater perna pelo maior shopping da américa latina, o dom pedro, localizado mais ou menos próximo à unicamp (não tão próximo, porque nada pode ser próximo daquela instituição gigante!).
volto de lá "abestalhado" com o tamanho da cidade (e sua consequente sujeira) e da unicamp, em especial. encantado com as pessoas de lá com quem tivemos o prazer de conversar. com o sonho de um dia poder estudar lá. com o objetivo de participar de outros congressos por lá. e com o desejo ainda maior de não ter trazido de lá a gripe famosa (!!!).
í.ta**

quinta-feira, 23 de julho de 2009

três anos


hoje, exatamente, hoje, 23 de julho de 2009, este blog completa três anos de existência.
esta é a postagem de número 173.
acompanhar os escritos aqui lançados é uma forma de conferir o quanto mudamos e nem sempre percebemos.
parabéns a mim, ítalo.
e o muito obrigado aos meus três ou nove leitores :)
í.ta**

sábado, 18 de julho de 2009

leituras (uma a mais)

A série leituras havia terminado momentaneamente, escrevi no post abaixo. Porém, li hoje pela manhã uma historinha lindíssima do Caio Fernando Abreu, chamada As frangas. Ao contrário da maioria de seus contos, nos quais o autor disseca o “viver que é sofrer da vida”, nesta novela transborda a vida em toda sua singeleza e esperança. Ficam aqui as linhas finais, de uma delicadeza contagiante.


“É que vezenquando dá uma saudade na gente dessas coisas. São todas coisas simples. Meio bobas, muito bonitas. Que nem as frangas.
Mas tudo bem. A gente sempre pode inventar. Inventar é uma das melhores coisas que tem no mundo. A Otília ainda não descobriu, mas a coisa mais chique do mundo é inventar. Que nem a Clarice, que inventou a história da Laura.
Só que eu não inventei quase nada da Ulla, da Gabi, da Maria Rosa, Maria Rita e Maria Ruth, da Otília, da Juçara, da Blondie. Elas existem mesmo, são bem como eu disse. Estão em cima da geladeira aqui de casa para quem quiser ver. Vem tomar um guaraná comigo que eu te mostro.
Se você quiser, invente uma história e mande para mim. Se for história de franga, melhor ainda. Prometo ler pra elas ouvirem. E, se você não tem um pátio enorme nem um galinheiro de verdade, também pode inventar um em cima da geladeira ou em qualquer outro cantinho. Eu gosto muito quando acordo de manhã e vou fazer café na cozinha. Aí as oito frangas cacarejam e repetem assim, oito vezes, uma cada uma:
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
- Bom dia!
Não é que dá certo? Quase sempre, o dia é bom mesmo. Principalmente quando eu invento sem parar.
Pois não estou falando o tempo todo que franga, além de ser um bicho bom de ter por perto, dá sorte? Se elas não existissem, eu nem tinha escrito esta história. E acho que escrever uma história é uma coisa muito boa. O coração da gente fica mais quentinho e a gente gosta mais das pessoas.
A coisa que uma pessoa mais precisa na vida é gostar das outras pessoas e ser gostada, também. Aí, pra ser gostado, a gente escreve histórias. Você gostou desta? Daí está tudo certo, porque então você gostou de mim e eu gostei de você também.
Qualquer dia conto outra, combinado?”(pp. 51.52).

Autor: Caio Fernando Abreu
Livro: As frangas
Ano: 2001
Editora: Globo.
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Í.ta**

leituras V

momentaneamente, fechando a série "leituras".
vou a campinas, passar a semana toda lá, no COLE, o maior congresso de leitura do país,
inclusive apresentando minha atual pesquisa, "a leitura literária no espaço escolar".
levo na bagagem alguns romances e contos, e outros teóricos.
na volta, colocarei aqui os devidos registros do evento e da viagem, ou da viagem e do evento.

í.ta**
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“Mergulho II

Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: “Ou você aprende ou morre”. Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.
Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.
Na terceira noite, o navio afundou”. (p. 69)

“’Se eu fosse uma personagem de romance antigo’, pensava, ‘agora jogaria a xícara, ou melhor, a taça no chão’. O autor certamente saberia tirar algum efeito: a) dos cacos espalhados pelo assoalho, talvez um último raio de sol brincando na coroa de flores da pastora; b) ou então faria com que ela olhasse fixamente para um quadro na parede: em algum lugar, numa praia deserta e distante, uma onda batia forte contra um rochedo, espalhando espuma em todas as direções; c) ou faria com que o marquês, devia haver um marquês qualquer naquela ou nesta história, entrasse de repente para possuí-la sobre tapetes persas, jogando as inúmeras saias sobre a baixela de prata; d) ou que enchesse sôfrega a seringa, procurando a veia, enquanto um rock tocasse na vitrola; e) ou apenas gritasse muito alto, durante muito tempo, até ficar rouca e muda, sem ninguém ouvir. Qualquer coisa, a marquesa pediu, encolhendo-se contra a última parede da gaiola, qualquer coisa aqui, agora – antes do ponto final”. (pp. 43-44 – do conto “Divagações de uma Marquesa”)

Autor: Caio Fernando Abreu
Livro: Pedras de calcutá
Ano: 2007
Editora: Agir.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

leituras IV

“Muito embora a menina observasse tudo ao redor, ela não viu aquela pedra firmemente enfiada no meio do caminho (pedra de que, justamente por isso, ela não se esqueceria) e caiu ralando os joelhos e os cotovelos, derrubou o cabelo sobre o rosto para mastigá-lo junto à terra que estalava também entre seus dentes. Mas a pequena, jogado ao topo daquele morro, levantou o rosto e se assustou com a quantidade de árvores e pássaros, com as pedras que, paradas aos cantos, acumulavam-se em montes. Transtornada em perceber as tantas coisas que existiam indiferentes a ela, não sentia os joelhos ou os cotovelos arderem, tampouco o gosto de terra na boca: estava perplexa com o tamanho do mundo prestes a lhe engolir”. (pp. 16-17)

“(são seus dedos
pensei
seus dedos
mas não disse
pois pouco faria contra eles, antes para não perder a dor que me arrepiava o corpo numa aflição estridente)
e não por acaso, meus pêlos permaneciam como que soerguidos pelo frio, desatentos eles também ao calor daquela pele a rastejar sobre mim. Alheio às penumbras reveladas no quarto onde tudo era sombra, confundia meus olhos naqueles olhos para perceber pupulas diminutas como os dedos que dedicadamente me furavam a pele, forçando demais alguns pontos e por isso dando-me a impressão de terem alcançado talvez um osso ou mesmo o limite oposto do meu corpo, abrindo pequenos orifícios no colchão
(nesses momentos em que sentia meu sangue brotar numa gota ou duas
você deveria saber
nesses momentos travava-me a garganta
eu deveria ter dito
a língua desorientada misturava palavras que jamais escapariam, pois nada ameaçaria o gozo repentino de me descobrir constantemente ameçado)
e me fincava exclamações no céu da boca, pois caso escapassem se confundiriam com palavras, quase gritos” (pp. 93-94)

“Pedrar. Uma pedra. Um tijolo bruto primeiro. E depois outro. Também bruto. Quase acaso desfeito em cimento. Atrito. De contrários: duas pedras as mãos duras que trazem tijolos. E prontos, uns sobre os outros, os tijolos e as mãos. Por entre, cimento. E areia. E suor. Concreto. Empilham-se. Num quebra-cabeça indeciso que sai do chão. Tijolo e mão. Pedrando. Pedregulho. Pretérito da parede, tijolo. E depois outro. Para tanto, uma pedra à mão”. (p. 109)
Autor: Maurício de Almeida.
Livro: Beijando dentes
Ano: 2008
Editora: Record.
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Í.ta**

quarta-feira, 15 de julho de 2009

leituras III


não são contos. é uma novela. arrebatadora.
“(...) e foi aí que deu o estalo nela “tive um insight” ela disse c’uns ares de heureca, “acho que matei o quebra-cabeça, descobri finalmente qual é a verdadeira ‘ocupação’ desse nosso biscateiro, aliás, só agora entendo por que tanta recusa em falar do teu ‘trabalho’, por que tanto mistério, só agora é que atino com o quê das tuas transas, já que todas as pistas do teu caráter me levam a concluir que você não passa dum vigarista, dum salafra, dum falsário” e logo ela arrebitou o achado “não um falsário graduado...” e eu confesso que de novo me tremeram as pernas, vi o Bingo, naquele preciso instante, cortar numa carreira elétrica o espaço entre mim e ela, esticando – com seu pêlo negro e brilhante – mais um fio na atmosfera, e foi na cola dele que estiquei inda mais a corda dos meus nervos, contornando com cuidado a suspeita de falsário, que eu não soube de resto se era jocosa ou sisuda, ou se, sendo uma coisa, vinha prudentemente misturada com a outra, eu só sei que dei a volta por cima, soneguei mexer no mérito, não permitindo que ela sopesasse a gravidade da suposta descoberta, deixei num passe de prestidigitador, na maçã do seu insight “me sinto hoje desobrigado, é certo que teria preferido o fardo do compromisso ao fardo da liberdade; não tive escolha, fui escolhido, e, se de um lado me revelaram o destino, o destino de outro se encarregou de me revelar: não respondo absolutamente por nada, já não sou dono dos meus próprios passos, transito por sinal numa senda larga, tudo o que faço, eu já disse, é pôr um olho no policial da esquina, o outro nas orgias da clandestinidade” “não posso descuidar que ele logo decola com o verbo... corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida; não me venha pois com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você bizarramente batiza de ‘história’; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um – essa questãozinha que vive te fundindo a cuca – o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co’a mão amiga dos assassinos”.

Autor: Raduan Nassar
Livro: Um copo de cólera
pp. 56-58.
Ano: 1992
Editora: Companhia das Letras.
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Í.ta**

terça-feira, 14 de julho de 2009

leituras II


“Então, de novo em casa, entre tomar nova pílula para dormir ou fazer alguma outra coisa, optou pela segunda hipótese, pois lembrou-se de que agora poderia voltar a procurar a letra de câmbio perdida. O pouco que entendia era que aquele papel representava dinheiro. Há dois dias procurara minuciosamente pela casa toda, e até pela cozinha, mas em vão. Agora lhe ocorria: e por que não embaixo da cama? Talvez. Então ajoelhou-se no chão. Mas logo cansou-se de só estar apoiada nos joelhos e apoiou-se também nas duas mãos.
Então percebeu que estava de quatro.
Assim ficou um tempo, talvez meditativa, talvez não. Quem sabe, a Sra. Xavier estivesse cansada de ser um ente humano. Estava sendo uma cadela de quatro. Sem nobreza nenhuma. Perdida a altivez última. De quatro, um pouco pensativa talvez. Mas embaixo da cama só havia poeira” (p. 15)

“Um diálogo que ela fazia consigo mesma:
- Está fazendo alguma coisa?
- Estou sim: estou sendo triste.
- Não se incomoda de ficar sozinha?
- Não, eu penso.
Às vezes não pensava. Às vezes a pessoa ficava sendo. Não precisava fazer. Ser já era um fazer. Podia-se ser devagar ou um pouco depressa”. (pp. 26-27)

“Só posso escrever se estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo”. (p. 92)

Autora: Clarice Lispector
Livro: Onde estivestes de noite
Ano: 1999
Editora: Rocco.
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Í.ta**

segunda-feira, 13 de julho de 2009

leituras I

durante esta semana postarei aqui trechos de livros (de contos, em sua maioria) que tenho lido.
chegaram livros novos na biblioteca do sesc, onde trabalho.
não consegui me segurar e agarrei alguns muitos por um tempo.
ficam aqui detalhes deles.
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“Um bom conto é pico certeiro na veia”. (p. 9)

“ A tipinha de dois anos que passou a tarde com a avó:
- Pai, pai.
- Sim, filhinha.
- Xópi... compra... cartão...
A mesma pessoinha voltando da outra avó:
- Pai, pai.
- O que, filhinha?
- O Senhor é convosco”. (p. 10)

“A menina ao pai divorciado:
- Pai. Me diga, pai.
- Sim, filhinha.
- Você já tem namorada?
- Não. Ainda não.
- Sabe, pai...
- O que é?
- ... a minha mãe está livre”. (p. 15)

“Ao ler a traição de Capitolina, geme a santíssima Carolina:
- Ai, Machadinho. Que dirão as minhas amigas no chá das cinco?” (p. 76).

“Todinha nua, orgulhosa:
- Na cama em que me deito não cabe outra mulher” (p. 179)

“Maria, como é que você dobrou o João, esse flagelo das mulheres?”
- Não dobrei o João – eu dobrei os joelhos” (p. 229).

Autor: Dalton Trevisan
Livro: Pico na veia
Ano: 2002
Editora: Record.
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Í.ta**

sábado, 4 de julho de 2009

Inventação não tem fim


“(...) porém a parte mais rica do que o Bugre me deixou era coisa diferente, riqueza que só se guarda por meio de repartir porque história a gente esquece se não contar a ninguém” (O voo da guará vermelha, p. 59).

Já escrevi aqui, alguns posts abaixo, sobre os contos da escritora e contadora de “causos” Maria Valéria Rezende, a quem tive o prazer de ver e de ouvir, há duas semanas, no Abril Mundo, o evento organizado pelo Prolij. Naquela oportunidade, a autora viera para falar sobre literatura, sobre narrar, escrever e contar histórias. E também sobre seu romance O voo da guará vermelha (Objetiva, 2005).
Voltei ao livro durante esta semana, relendo alguns trechos destacados na primeira leitura que fiz. Trechos como este, por exemplo: Das fomes e vontades do corpo há muitos jeitos de se cuidar porque, desde sempre, quase todo viver é isso, mas agora, crescentemente, é uma fome de alma que aperreia Rosálio, lá dentro, fome de palavras, de sentimentos e de gentes, fome que é assim uma sozinhes inteira, um escuro no oco do peito, uma cegueira de olhos abertos e vendo tudo o que há para ver aqui (...). São as linhas que abrem o livro. São trechos lindamente ritmados. Frases que calam fundo: Quem tem saudade tem na vida uma riqueza.
A história entre Rosálio e Irene trata de necessidades afetivas e de suas possíveis superações. Ele, um pedreiro, carregador de livros e de um desejo, o de aprender a ler os livros que carrega. Ela, uma prostituta presa a um amor que deixa saudade, dor e culpa. Meio que ao acaso eles se encontram. E se completam. Com Irene, Rosálio aprende a ler da forma mais bela e digna que é aprender: ensinando. E Irene, com Rosálio, vive finalmente o tão sonhado amor. Rosálio, ao buscar a palavra, busca a sua consciência e, ao encontrar as letras com as quais pode ler o seu nome, sai do estado de cinza/inconsciência para a luz que se descortina num arco-íris de cores da consciência. Homem e mulher que se fazem um na linguagem e no texto. No corpo e na cama, na vida e na morte. Unem-se na e pela linguagem para não se deixarem esquecer do que e de quem são: o amor é como menino que não sabe fazer contas nem de perda nem de ganho, vive desacautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério.
A narrativa de O vôo da guará vermelha mistura elementos da cultura popular — especialmente da literatura de cordel e de oralidades — com textos clássicos tais como D. Quixote e As mil e uma noites. Os capítulos têm nomes de cores que remetem ao conteúdo da história (cinzento e encarnado; verde e negro; ocre e rosa). A descrição alterna passado e presente com encadeamento perfeito. Maria Valéria Rezende, de modo brilhante, apresenta um Brasil ainda desconhecido para muitos, visto somente pela televisão, onde, apesar das diversas agruras (analfabetismo, doenças e escravidão moderna) nascem histórias densas e humanas que nos fazem pensar a realidade de forma solidária, e que nos dão a esperança de possíveis e belos vôos de guarás vermelhas: (...) felicidade é coisa de muita delicadeza, que num sol forte demais murcha e perde a boniteza.
A leitura de O Vôo da Guará Vermelha também provoca algumas reflexões sobre a vocação da literatura brasileira, que é, no limite, a responsabilidade solidária diante de uma multidão de deserdados. Ou seja, “dar voz aos oprimidos”. E isto a autora faz brilhantemente. Um exemplo está em quando Irene diz a Rosálio: Ai, Rosálio, se eu soubesse, há muitos anos atrás, que um homem assim existia, capaz de fazer com a fala um mundo maior que o meu, um mundo cheio de histórias de sorrir e de chorar, que me tirasse das sombras do medo de me acabar sem mesmo ter começado a viver vida que preste, que fizesse o amarelho, o azul, o verde, o rosado expulsar a cor de cinza desta alma que eu carrego como uma barra de chumbo.
E, para não me alongar mais ainda neste escrito, ficam as últimas duas linhas e meias deste livro que merece muito mais do que duas leituras: (...), se a vida tem começo, eu penso que nunca finda e a história que já passou, deveras acontecida, a gente lembra inventando. Inventação não tem fim.

Í.ta**

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Vamos com calma

Recebi da Regina Carvalho, e reproduzo aqui.
Tomara que seja publicado no DC, como ela disse ter mandado para lá...
É necessário.
Mais um caso de livros sendo banidos é demais.
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Na década de 1970, mães católicas do bairro de Santana em São Paulo, fizeram movimento contra a programação da rede Globo de TV, especialmente as novelas.Argumentavam elas que os programas “pregavam” imoralidades como sexo fora do casamento, mães se prostituindo, coisas desse tipo. Por causa de tais cruzadas moralistas cunhou-se a expressão “senhoras de Santana” para esse tipo de manifestação, expressão bastante pejorativa, na verdade, partindo do princípio de que seja pura hipocrisia.
Pois lamento informar que não vejo assim. O que existe por trás é o desejo de moldar o mundo a suas crenças, desejo que dirige todo e qualquer pensamento utópico. E sonhar utopias compõe o imaginário de qualquer cidadão saudável, não conformado com o que esteja a seu redor. É saudável,mas não é muito inteligente: primeiro,porque parece se pautar na ignorância do que seja o ser humano;segundo,porque pretende estender crenças que são parciais para um todo que delas não compartilha.
As pessoas têm todo o direito de pensar o que pensam, não estou questionando isso. Só que desejar que todos pensem do mesmo jeito é inaceitável, autoritário,perigoso. Cientistas e artistas têm estado sempre à frente de seu tempo, e por isso também sempre incompreendidos, perseguidos,difamados, queimados em fogueiras, indexados pela ignorância.
E, em pleno século XXI, assistir a um recrudescimento dessa onda moralista,ainda por cima com aceitação da máquina oficial ou da mídia é de apavorar qualquer um que esteja um pouco mais esclarecido.
Explico: primeiro se recolhem, em nosso estado, exemplares do livro do Cristovão Tezza, disponibilizado para alunos de nível médio, maduros o suficiente para enfrentar seus poucos palavrões e pouquíssimas cenas de sexo – que não fazem parte significativa da obra de um escritor mais que renomado. Que alguns pais protestem, acho aceitável; que a Secretaria da Educação se submeta a isso, porém, é assustador e vergonhoso.
Agora é no Paraná: campanha para que se retirem das bibliotecas livros de Will Eissner e Dalton Trevisan, este o maior escritor paranaense de todos os tempos... Diferentemente das novelas da TV, que passam longe da vida real, mesmo mostrando adultério, prostituição,sexo antes do casamento, homossexualismo, os livros do Dalton são certeiros no retrato que fazem da sociedade que o rodeia. Se ela não se aceita assim, que trate de mudar. E o inaceitável é que a tal cruzada parece contar com apoio da Gazeta do Povo...
Da mesma forma como os livros estão quietinhos nas suas estantes, guardando em suas páginas a arte mais duradoura que existe - e só as abre quem quiser! – a TV,como dizia Stalislaw Ponte Preta,pode ser a máquina de fazer doido,mas tem uma qualidade:um botão de desligar. Com um controle remoto, é fácil fazer isso, ou apenas mudar de canal... Não vejo novelas, acho-as insuportáveis, tenho coisa melhor pra fazer na vida. Nem por isso penso que devam ser tiradas do ar. Mas quem as acompanha,me desculpem,é porque gosta do que vê. E depois vem reclamar? Façam-me o favor!

Regina Carvalho é Escritora, professora aposentada da UFSC. Escreve nos blogs: http://cronicasdaregina.blogspot.com e http://portaodapraiablogspotcom.blogspot.com
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Í.ta**

quarta-feira, 1 de julho de 2009

borges e outras ficções


O escritor argentino Gabriel Gómez, autor de A culpa é do livro (Design Editora, 2008), surge novamente no cenário editorial. Após um livro de contos construído em torno do objeto livro, da relação que podemos estabelecer junto a este elemento de subversão, Gómez brinda o leitor com Borges e outra ficções (Design Editora, 2009), um livro tão ou mais experimental do que o seu primeiro.
O tom do livro é de conversa, de troca com o leitor, de confidências. Os textos intitulados “Cartas e diários”, que vão do um ao dez, são os maiores exemplos dessas revelações pessoais. Assim como no primeiro livro, Gómez deixa claras as referências literárias que o acompanham: Cortázar, Borges, Clarice, Sabino, Caio F. Abreu, Kafka, Sábato, entre outros autores. São características dos textos de Gómez estas referências, que dão um tom mesmo de confidências trocadas com o leitor, como por exemplo também acontece no texto “Autografados e abandonados”, em que o autor, além de discorrer sobre livros autografados pelos autores e abandonados pelos leitores, apresenta como exemplo um livro autografado pelo escritor Bioy Casares a uma outra pessoa (possivelmente uma mulher), e que acabou por parar nas mãos de Gómez.
Há neste novo livro de Gabriel novamente a lida com a palavra, o cuidado com a escolha delas, como se pode observar nos poemas “Disfarce”, “Como sola”, e “Baba”: Acordo com a baba de um poema num canto da boca / Parece seguir-me, implacável. / Ainda na vigília, cai lento, arrastado, / espera que o revele / em palavras que nem sempre alcança.
Não se pode dizer que o novo livro de Gómez seja um livro de contos, ou de crônicas, ou de ensaios, ou de poemas. É, sim, um livro com um pouco de tudo isso, bem distribuídos entre as páginas. Daí ser um livro em que o autor experimenta os textos, transitando bem por entre os gêneros literários citados, levando o leitor a diferentes veredas literárias. E, como nos diz Gómez em um texto deste novo livro, independentemente dos caminhos e dos gêneros, “A leitura permanecerá como uma forma de angústia e felicidade”. Sim. Sim e que bom. Que bom também que podemos nos deparar com algo diferente e bem feito como este Borges e outras ficções.


Í.ta**