sexta-feira, 19 de junho de 2009

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres


Voltei à Clarice semana passada. Para lê-la faço assim. Leio um aqui outro acolá. Desestrutura-me a escrita de Clarice. Encarei, então, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um livro que começa com uma vírgula (o significado de que há algo antes disso, antes da história, antes do livro, antes da personagens, antes de tudo) e termina com um dois pontos (há algo a ser completado, pelo livro, pelos personagens, pelo leitor, por tudo).

Há uma frase de Clarice antes do começo da história: “Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu”. Uma frase que muito representa Clarice e sua escrita. Uma frase que já prepara o leitor para o que virá adiante. Uma aprendizagem. Com dor, com angústia, com prazer.

Conheci, então, a história entre Loreley (Lóri) e Ulisses. Narrado em terceira pessoa, o livro apresenta como vivenciar uma forma de amor. Lóri é de família de posses, de origem agrária. Vive no Rio de Janeiro, separada da família, sozinha, trabalhando como professora primária. Para manter um padrão de vida acima das possibilidades de uma professora, Lóri recebe mesada do pai. Ulisses é professor universitário de filosofia. Aos poucos se percebe que Lóri está "aprendendo a amar", ou a "ter prazer", com Ulisses. São vários os momentos narrativos em que isto fica explícito: ela está sendo "preparada para a liberdade por Ulisses", "Ulisses determinará quando ela estará pronta para dormir com ele".

A aprendizagem do título é o caminho que percorre Lóri enquanto dura a narrativa. Caminho este que será finalizado quando Lóri estiver "pronta" para dormir com Ulisses. Significa, com Ulisses, aprender ou descobrir o prazer para além do meramente sexual: algo como um amor total, pleno. A busca de Lóri era também por um aprendizado de se tornar um ser humano. Uma aprendizagem para além dos limites do compreensível: “A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”. “(...) queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia”.

“Mas sua busca não era fácil. Sua dificuldade era ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível”. E, para ajudá-la nessa busca, ali estava Ulisses, com seus dizeres: “Aprende-se quando já não se tem como guia forte a natureza de si próprio. Lóri, Lóri, ouça: pode-se aprender tudo, inclusive a amar! E o mais estranho, Lóri, pode-se aprender a ter alegria!”; “(...), viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci. (...) O óbvio, Lóri, é a verdade mais difícil de se enxergar”.

Esta é a travessia do livro, a trajetória a ser percorrida pela personagem. Uma trajetória densa, na qual o leitor entra sem saber para aonde irá. Uma trajetória que se torna uma aprendizagem, um conhecer-se mais a si mesmo. Acompanhar Lóri, ouvir as frases filosóficas de Ulisses, exige uma entrega, pois “(...) não é mesmo com bons sentimentos que se faz literatura: a vida também não. Mas há algo que não é bom sentimento. É uma delicadeza de vida que inclusive exige a maior coragem para aceitá-la”.
í.ta**

Um comentário:

huga katia disse...

Amo Clarice, mais não tive a oportunidade de le-la ainda! seu blog e´muito gostoso de ler! bj