terça-feira, 9 de junho de 2009

em maio

"Outra carta

Eu não sei se por esse vento frio entrando pela janela.
Ou quem sabe por esse vento frio entrando pela janela.
Ou mesmo por esse aconchego de meias e lãs.
E esse vento frio entrando pela janela.
Ou por qualquer que seja o que for eu quero te contar:
Todos os passos que dei um a um,
E todas as coisas que passaram,
E tudo que foi se misturando ao que eu era.
Pra você ir sabendo o que sou
posso cantar cada música que ouvi.
E cada livro, cada bula de remédio, cada rosto.
Cada tostão emprestado, cada choro.
Os avisos e as ruas, os andaimes, as manchetes,
os incêndios, os sinais.
Todas as manhãs. Todos os dias santos.
Tudo que me atravessou eu quero te contar.
O corpo que ganhei nesses anos.
Os fios e as falhas, a voz, o avesso, o tempero e a calma.
Quero te contar o silêncio alcançado à custa de guerras.
E as terras que plantei. E os temporais.
Os temporais e os nós na garganta.
É maio e eu morro de vergonha de falar de amor.
Mas esse vinho quem sabe veio aos verbos mostrar
que eu preciso de sua boca, seu cabelo, seu cheiro e sua mão.
Eu não sou só verso.
Sou um corpo em lençóis de pele a te vestir como luva.
Meu corpo a te vestir como luva.
Embriagada de vento e vinho penso na morte.
E no seu pau duro".

Viviane Mosé,
"Toda palavra",
p. 87,
2006,
Ed. Record.
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Í.ta**

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