segunda-feira, 22 de junho de 2009

Contar histórias multiplica a gente II

“Como Jó e o autor do Livro de Jó bem sabiam, as histórias concentram nosso saber e lhe dão forma narrativa, de modo que, por obra das nuanças do tom, do estilo e da peripécia, tentemos não esquecer o que aprendemos. As histórias são nossa memória, as bibliotecas são os depósitos dessa memória, e a leitura é o ofício por meio do qual podemos recriar essa memória, recitando-a e glosando-a, traduzindo-a para nossa própria experiência, permitindo-nos construir sobre os alicerces do que as gerações passadas quiseram preservar. (...) Ler é uma operação de memória por meio da qual das histórias nos permitem desfrutar da experiência passada e alheia como se fosse a nossa própria.
As histórias podem alimentar nossa mente, levando-nos talvez não ao conhecimento de quem somos, mas ao menos à consciência de que existimos – uma consciência essencial, que se desenvolve pelo confronto com a voz alheia. Se ser é ser percebido, (...), então saber que existimos supõe o reconhecimento dos outros que percebemos e que nos percebem. Poucos métodos são mais adequados a essa tarefa de percepção mútua do que a narração de histórias”.

Autor: Alberto Manguel
Livro: A cidade das palavras
Ano: 2008
pp. 18-19
Editora: Companhia das letras.
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