sexta-feira, 22 de maio de 2009

só esta noite. e assim em todas.


Não há portas para os territórios familiares da dor, não há como conter a violência dentro do ninho de uma pertença. Há apenas a dor, cintilando como um clarão no chumbo do céu, chuva de estrelas cadentes sem História nem mártires reconhecíveis. Porque há sempre uma noite mais escura do que a escuridão do mundo. Mesmo para quem, como eu, nunca soube escavar até ao fundo dessa gruta negra, trans-siberiana, húmida, universal, a que chamamos coração.
Este é o parágrafo final do último conto do livro Fica comigo esta noite, da portuguesa Inês Pedrosa. Não há preocupação em colocá-lo aqui pois a leitura dele não entrega o conto. Pelo contrário, este trecho representa muito do livro todo, dos doze contos que o compõe.
O livro me acompanhou durante toda esta semana. Reli-o algumas vezes. Alguns contos mais que os outros. São contos fortes, inquietantes. A escrita deles é cadenciada, cuidadosa, ritmada perfeitamente. Senti-me em transe em alguns momentos lendo-os.
Fica a sensação, ao leitor, de estar frente a frente com alguns personagens que necessitam falar sobre suas próprias vidas. Fica a sensação de cumplicidade ao leitor, de confiança ao ouvir algo que não cabe a ninguém mais saber, somente a ele, o leitor, escolhido cuidadosamente para ser o ouvinte.
Entretanto, é preciso, a este leitor, força para não fraquejar perante o que se ouve (lê). São segredos desconhecidos de todos, que escancaram fraquezas e frustrações insolúveis. Há o desvendar do corpo, a entrega barata (ou não), o ímpeto do desejo carnal. E há a dor da perda. De outros e de si mesmo. E, sim, há também um desejo de recomeçar. E um pedido de auxílio para isto. Aí entra o leitor, se assim quiser. Uma vez aceito o convite, é preciso sentir na mesma intensidade.
í.ta**

domingo, 17 de maio de 2009

herdando uma biblioteca


Acabei de fazer a leitura deste livro, "Herdando uma biblioteca", de Miguel Sanches Neto. Uma série de textos de cunho muito pessoal. Há, no livro, o retrato escancarado de um leitor. Um leitor sempre em formação. Há o início deste leitor, o como os livros se colocaram na vida dele. Há, também, o que e quem é este leitor nos dias de hoje, escritor renomado, crítico, e outras atribuições que a vida em volta dos livros lhe impõe.
São relatos, impressões, e opiniões que, para um leitor-em-formação-amante-de-livros, meu caso, fazem crescer ainda mais a vontade de estar rodeado por livros e por objetos de leitura. São relatos que inspiram a novos escritos, a descrições de momentos de leitura, como este. Cada livro merece um dizer, falando bem ou não. Cada livro merece o seu silêncio pós-leitura, um tempo para digerir o que acabou de se mastigar, e um registro, por menor que seja, incorporando-o, de fato, a si.
Não me vejo herdando alguma biblioteca, e sim construindo uma própria. Com livros bem selecionados, que me tocam de alguma forma, sem preocupações com classificações ou vendagens de revistas semanais ou semanários culturais. A construção de um leitor se dá pelo saber escolher o que ler. "Herdando uma biblioteca", para mim, foi uma boa escolha, sem dúvida.
Í.ta**