domingo, 5 de abril de 2009

palavras dos outros

Receita de eternidade, por Apolinário Ternes*
Em homenagem à Feira do Livro que se desenrola no Centro de Joinville, cabem duas palavras sobre este objeto de transcendência absoluta, capaz de produzir acontecimentos inimagináveis na vida de cada um de nós. Bibliotecas formidáveis já foram escritas sobre o livro. Bibliotecas históricas, desde a de Alexandria, guardam a memória dos homens em diferentes cantos do planeta.
Bibliotecas existem por aí, de apaixonados por livros, de instituições, de municípios e de países que continuam monumentos à cultura. As bibliotecas, de fato, são templos especiais, hospedarias da imaginação do homem, e, como escreveu Jorge Luís Borges em poema célebre, “se o paraíso existe, ele tem a forma de biblioteca”.
Desde tempos imemoriais tenho sido refém dos livros. Amo-os acima de tudo e nele me sinto cidadão do mundo, habitante de milênios, com irrepreensível certeza de que, amanhã, quando cansar e envelhecer o físico que me sustenta, a mente continuará hóspede de alguma biblioteca em algum lugar do mundo.
Só imagino a eternidade ou o paraíso, ao lado de centenas de estantes com livros seculares e livros contemporâneos, todos a indicar que a vida é bela e eterna porque a memória do tempo estará sempre à disposição.
Sobre livros e bibliotecas, reli recentemente, de Alberto Manguel – amante de livros à moda antiga – seu grandioso “A Biblioteca à Noite” (Companhia das Letras, 2006). Ele escreve sobre as bibliotecas do mundo, enquanto retira de caixas livros que irão formar sua biblioteca pessoal, num celeiro medieval no interior da França. Escreve sobre autores de todos os tempos e sobre bibliotecas de todos os lugares.
Mais do que delicioso, uma homenagem permanente à inteligência. Morro de inveja de não repetir Manguel, e, claro, gostaria de visitá-lo na França, para conhecer a geografia de sua mente a partir da leitura das lombadas de seus livros.
Dos livros, aos quais sempre dediquei horas de boa companhia e cumplicidade, sempre guardei reverência e carinho. Ainda terei tempo (e dinheiro) para empreender roteiro pessoal de visita às mais belas e mais imponentes bibliotecas do mundo.
Enquanto o projeto não se realiza, continuo rezando pela cartilha de Montaigne, relendo Yu Tang e desbravando o melhor que se possa selecionar de ensaios sobre quase tudo de que as livrarias sempre estão cheias. O livro é tão importante e transcendental que, na hora da morte, quando refiz os caminhos de Dante na “Divina Comédia”, consegui adiar meu encontro com a eternidade porque me agarrei à memória de um livro.
Antes de partir, naquele último segundo de negociação com a Velha Senhora, foi invencível em mim a necessidade de reler o “Livro Tibetano do Viver e do Morrer” (Rinpoche, Editora Talento). Negociamos um tempo, o cosmo e eu, para que a releitura se fizesse, e o aprendizado da boa morte se realize em mim, como se ensina naquele sagrado livro. Não tenho pressa na releitura, mas não esqueço um dia sequer de me preparar para ela. Lendo livros e escrevendo outros.
Nada enriquece mais o espírito e nos amplia a autonomia da vida, do que um bom livro. O difícil é encontrá-los, num mundo atulhado de subliteratura. Livros existem sobre livros e bibliotecas, nenhum, contudo, mostra o caminho correto da leitura. Trata-se de aprendizado individual, talvez o mais saboroso da vida. É preciso, acima de tudo, estar convencido da sacralidade do livro, de sua atemporalidade e da transcendência de suas páginas.
Tudo isso exige disciplina, persistência e gosto. Só então teremos cultura, como Manguel ou Borges, para imaginar o paraíso como uma biblioteca. E o livro como o grande deus. Somos assim, os homens, colocamos no plano divino tudo o que nos atiça a mente e nos espicaça a alma. Se o livro não lhe desperta curiosidade, esqueça-o. Ele continuará sendo um objeto qualquer, que guarda coisa nenhuma.
Mas se o livro mexe com seus neurônios, aproveite, pode ser a chance de multiplicar sua vida, com a própria essência da eternidade. Sempre ao alcance de um gesto e de uma decisão. É a melhor receita de eternidade, segundo iniciados.
*HISTORIADOR E JORNALISTA
publicado no jornal anotícia de 05 de abril de 2009 link

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