quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O livro: por mim, e segundo alguns outros...

Um livro traz sua própria história ao leitor (MANGUEL, 1997, p. 30).

O ato de ler pode comportar diferentes práticas, da livresca à visual, sem deixar de passar pela verbal. Entretanto, a forma de ler mais divulgada e reconhecida por todas as pessoas é a livresca – o ato de ler um livro, de tê-lo em mãos, de folheá-lo, comprá-lo, guardá-lo em bibliotecas particulares ou adquiri-lo por empréstimo em bibliotecas públicas.
De maneira alguma essa visão de leitura focada nos livros deve ser vista como algo negativo, ou até mesmo supérfluo. De fato, talvez sem nenhum exagero, todas as pessoas iniciam suas leituras – o ato em si de ler e suas concepções desse mesmo ato – a partir da leitura de um livro, seja ele infantil ou não. Realmente, são os livros que abrem as portas da consciência das pessoas para o mundo, para si mesmas, levando-as a adquirirem a noção de quem são e de onde estão. Como bem expôs Pennac (2004, p. 12)¹, “a virtude paradoxal da leitura é de nos abstrair do mundo para nele encontrar algum sentido”.
Mindlin, relevando o objeto livro em si, bem apresenta o prazer que ele – o livro – proporciona a quem dele faz uso. O prazer principal, segundo Mindlin, porém pouco percebido (sentido) pelas pessoas, apesar de óbvio, é o da leitura em si, através da qual o contato com o mundo exterior abre ao leitor horizontes ilimitados. Conforme afirmou ele (2004, p. 16), “o livro informa, distrai, enriquece o espírito, põe a imaginação em movimento, provoca tanto reflexão como emoção, é, enfim, um grande companheiro”. Companheiro ideal, segundo o autor, pois não cria problemas a quem o tem como “dono”, já que não se ofende quando por algum outro motivo é deixado de lado ou esquecido, e sim se mostra sempre à disposição, a qualquer hora do dia ou da noite, ao desejo do leitor. Contudo, lendo como que estranhando essas afirmações, é imprescindível alertar o quanto pode parecer absurda a comparação do livro, um objeto, a um ser humano, um ser com vontade própria. É sabível que são categorias de outras composições que aqui são dadas de consumo similar. Não se pode pedir para outro ser humano se comportar como o livro, que anos nos espera na estante. Mas metaforicamente a relação dele – livro – com seu dono – ser humano – acaba bem retratada da forma como está sendo exposta.
Manguel (1997, p. 242) também considera que a ligação entre o livro e seu leitor é única, diferente de qualquer outra entre algum objeto e seus usuários. Isso em função de que “os livros infligem a seus leitores um simbolismo muito mais complexo do que o de um mero utensílio. A simples posse de livros implica uma posição social e uma certa riqueza intelectual”. Segundo Francis Bacon (2004, p. 45)¹, os livros é que são os verdadeiros amigos do humano, pois eles jamais bajulam ou dissimulam. Para Chalámov, na vida de qualquer pessoa há um livro com uma importância ímpar, como lembrança única de algum momento vivido. De acordo com ele (2004, p. 100), os livros também seriam como pessoas, podendo tanto decepcionar quanto envolver. Indiferença ou paixão.
Em sua relação com os livros, Manguel lembra dos livros que com ele guarda já há tanto tempo, daqueles que de repente acaba se desfazendo e dias depois percebe que eram eles os quais precisava novamente, dos seus modos de ser leitor que um dia já fora, registrados em antigos livros, lidos há décadas, repletos de rabiscos, papéis soltos, frases de momento. Conforme as palavras do autor (1997, p. 270), referente ao ato de ter que se desfazer de livros seus em algumas situações de sua vida, “sei que algo morre quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a eles com uma nostalgia pesarosa”.
Ainda segundo Manguel (1997, p. 23), relembrando seus primeiros contatos com a leitura – e principalmente com os livros – a prática da leitura iniciou nele a partir dos livros, objeto no qual ele disse ter encontrado o universo. Como seu pai era diplomata, Manguel viajava bastante com ele, e eram os livros que davam ao autor a sensação de sempre ter um lar, apesar de dormir diversas noites em lugares diferentes. Segundo ele (1997, pp. 24-25), “os livros davam-me um lar permanente, e um lar que eu podia habitar exatamente como queria, a qualquer momento, por mais estranho que fosse o quarto em que tivesse de dormir. (...) Cada livro era um mundo em si mesmo e nele eu me refugiava”. Para o autor (1997, p. 25), “o mundo que se revelava no livro e o próprio livro jamais poderiam ser, de forma alguma, separados”.
Para Milton (2004, p. 61), os livros continham uma “espécie de vida em potência tão prolífica quanto a da alma que os engendrou”. Eles seriam, de acordo com o poeta (2004, p. 61), tão vivos e fecundos quanto os dentes de dragão da fábula, e preservariam, “como num frasco, o mais puro e eficaz extrato do intelecto que os produziu”. Segundo Milton (2004, p. 61), matar um homem talvez fosse melhor do que matar um livro, pois o homem é feito à imagem de Deus, é uma criatura racional, e o livro seria a própria razão, a imagem de Deus como no olho, “o precioso sangue do espírito superior, conservado e guardado com vistas a uma vida para além da vida”.
E, segundo Costa (2006, p. 72), “Diferentemente dos colecionadores de sapatos, de latas de alumínio, de botões e miçangas, (...) quem deposita no livro seu amor e sua crença reconhece nele a possibilidade da interlocução, da companhia, da diferença, da contradição, da aprendizagem”. A autora (2006, p. 70) ainda apresenta um texto de Lygia Bojunga sobre a transformação do leitor, texto no qual o livro, enquanto objeto, primeiramente toma a forma de parede e de teto, e, na seqüência, já na maturidade, vira casa, “o abrigo definitivo do espírito, do pensamento, da natureza do leitor porque propicia a troca, que, segundo a escritora, ‘é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no / livro, mais ele me dava’”. Livros, sozinhos, não fazem ruídos. Acumulam pó. Livros são exigentes. Para movê-los, para extrair deles algum som possível, exige-se grande esforço. Ser leitor é colocar-se à disposição deste esforço.
í.ta**