sábado, 19 de dezembro de 2009

um tempo

estamos, eu e o blog, iniciando um merecido período de férias.
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parei no trabalho e na facul.
e vou parar o blog também.
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há muito o que postar aqui, mas nesses dias de mudança de ano
não convém postar nada, não.
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quero mais é ficar de pernas pro ar. com livro na mão.
quero mais é curtir a família e os amigos. dar a devida
atenção a todos com quem, durante o ano, acabamos
não mantendo contato frequente.
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sendo assim, em meados de janeiro, mais para o final
daquele mês, o blog voltará à ativa. e minhas visitas
aos outros blogs, da mesma forma, ficam suspensas.
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afinal, férias são férias. descanso é descanso.
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como cantava o tim maia,
"o que eu quero é sossego".
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í.ta**

domingo, 13 de dezembro de 2009

personagens do rubens da cunha

rubens da cunha é poeta e cronista. mas também escreve prosa. uma prosa-poética carregada. do quê? de tudo um pouco.
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o que mais me encanta nos escritos do rubens são os personagens criados por ele.
nos poemas, nas crônicas, nas prosas.
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invejo os personagens do rubens.
há vida neles. há a vida como ela é mesmo, descrita pelo nelson rodrigues.
há a vida em seus buracos. em seus prazeres. em suas dores.
há vida sem medo.
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a última do rubens foi uma série, no seu blog, o casa de paragens.
a série "uma vida em 13 degraus".
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indico a leitura desta série. e do blog todo, por consequência.
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aqui, o blog.
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aqui, o perfil do rubens.
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í.ta**

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

continuação para o robinson crusoé

Este ano li com minha 7ª série o livro “As aventuras de Robinson Crusoé”, do Daniel Defoé. Claro que não li a edição completa, gigantesca. Li uma adaptada, organizada pelo Werner Zotz (não é a da foto, infelizmente).
A turma adorou a história. Acompanhou a cada aula o desenrolar da mesma, o naufrágio do Robinson, sua fase de adaptação à ilha e o desenrolar de seus quase trinta anos vivendo nela, construindo moradias e criando rebanhos.
Após a leitura, e a consequente conversa que desenvolvemos sobre a história, pedi-lhes para que escrevessem como se fossem o Robinson Crusoé, contando como foram os dez anos seguintes dele à saída da ilha, nos quais ele voltou para a Europa, constituiu família por lá, mas continuou visitando sua ilha periodicamente. Então, os alunos escreveram, em primeira pessoa, como se fossem o próprio Crusoé continuando a contar a história de sua vida, indo e vindo para/da ilha.
Gostei tanto tanto de duas histórias, de duas alunas, que pedi permissão a elas para colocá-las aqui no blog. São as que seguem.
São histórias não muito curtas, sim, mas que valem muito a leitura, por estarem tão bem escritas, tão criativas, e tão completas. As histórias que nos significam. As histórias que contamos para nos contarmos. Algo tão escrito neste blog.

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Memórias (Bárbara Duwe Lima)
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Reencontrei meu amigo Sexta-Feira, no meio de uma feira em Londres. Conversamos durante duas longas horas, contei a ele sobre minha família e o apresentei a meu sobrinho e lhe falei que pretendia voltar à ilha.
Ele me contou sobre sua noiva Channelle, e convidou a mim a e meu sobrinho para ir a festa de casamento que seria no fim de semana. Ele me contou como conheceu Channelle, e ouvir esse relato me fez lembrar de meus pais, e como eles gostavam de me contar, repetidas vezes, como se conheceram.
Ficamos hospedados em sua casa e dois dias depois fomos à cerimônia de casamento. Me senti desconfortável e deslocado ao conversar com nobres e ricos das redondezas. Foi quando percebi o tamanho da vontade que eu tinha de voltar à ilha, novamente lembre que Sexta-Feira não teria lua-de-mel e ofereci carona, para que Channelle conhecesse o local onde Sexta-Feira ‘renasceu’.
Partimos três dias depois, tivemos uma viagem tranquila, e senti que tudo daria certo. E a princípio deu. Chegamos lá no fim da tarde, Sexta-Feira e Channelle puderam contemplar o pôr-do-sol, abrigados em minha casa de campo.
Essa tranqüilidade durou os dois meses que ficamos lá. Sexta-Feira e Channelle tiveram que voltar. Senti uma onda de agonia me invadir só de pensar em partir. Estava muito acostumado com aquele paraíso para dar as costas para ele. Decidi ficar por mais um tempo, que acabou virando seis maravilhoso anos na paz e na tranqüilidade do melhor lugar do mundo.
A maneira como saí de lá foi a pior possível. Eu estava prestes a completar sete anos vivendo lá quando a ilha foi ‘invadida’ por habitantes londrinos. Em aproximadamente três anos, vi o paraíso, único e inacabável, se acabando e se tornando comum, assim como os outros. Me senti impotente, assistindo às cabanas, à casa de campo e ao castelo se tornarem simples casas, minha pequena horta virar um restaurante.
Fui embora. Não aguentei ver a minha criação virar a criação de outra pessoa. Depois de seis meses voltei para a ‘ilha’. Afinal, de que adiantava viver em Londres se agora o paraíso era igual a Londres?
Comprei uma pequena casinha, me ‘acostumei’ com aquela vida monótona, mas o menos fiquei com as lembranças de um paraíso que ainda vive na minha memória”.
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Minha ilha (Izabella Häfele Gularte)
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Depois de alguns anos em minha cidade natal, pensando no destino de meus amigos e de minha adorada ilha, decidi voltar e levar alguns habitantes, queria formar uma sociedade com as minhas definições de ideal.
Reuni algumas mulheres aventureiras e damas procurando um novo e diferente lar. Também vários homens conhecidos meus.
A viagem durou um longo e cansativo mês, mas quando chegamos, com uma porcentagem a menos de homens, pois demais mais atenção às mulheres, foi maravilhoso!
A ilha já tinha bastantes pessoas habitando-a, depois percebi que eram amigos de Sexta-Feira, legal! Mais gente para minha sociedade!
Desembarquei e vi Sexta-Feira me esperando com um enorme sorriso no rosto e os braços estendidos, esperando um abraço. Não sei como ele sabia que era eu no navio, mas estava lá todo alegre e satisfeito.
Dei um abraço apertado em meu amigo, enquanto meu ‘povo’ e o dele nos olhavam, pasmos com nossa intimidade.
Depois de um tempo conversando com Sexta-Feira, vi que ele tinha a mesma intenção que eu, formar uma cidade, com seus conceitos de sociedade ideal. Decidi, então, juntar-me a ele.
Passamos dias discutindo as formas de governo, as moradias, as leis. Mas chegamos a um acordo. O governador seria escolhido pelo povo e as leis e todas as decisões com relação à sociedade só seriam tomadas depois de consultar também o povo.
Após alguns meses, fizemos um congresso com o povo de nossa cidade (ainda sem nome) e decidimos parte das leis, então, era hora de decidir as moradias e institutos públicos.
Eu e Sexta-Feira queríamos uma biblioteca, também uma escola, para que todos pudessem ler e escrever. Então tive de voltar para a Europa, fui buscar livros e professores, junto com alguns aliados. Sexta-Feira ficou.
A viagem de volta pareceu ser mais longa ainda, com a ansiedade pela terra firme, mas quando chegamos, éramos todos os que partiram e em ótimo estado de saúde.
Passamos alguns anos na ‘sociedade moderna’, pesquisamos muito sobre formas de governo, leis e como se governa um povo. Também procuramos livros de ensino ou somente uma boa literatura para meu povo, e ótimos professores, capazes de dar ao meu povo o dom da leitura e da escrita.
Foi em um dos momentos em que estava remexendo uns livros que decidi fazer um diário com anotações importantes sobre o processo de desenvolvimento de minha pequena cidade.
Depois de muito estudo e procura, decidimos voltar a minha amada ilha. Partimos satisfeitos com o que conseguimos, mas quando chegamos, minha impressão da minha ilha não era muito satisfatória.
Estava tudo ao contrário do que Sexta-Feira e eu tínhamos planejado. Um revoltado do grupo de ‘amigos’ meus (homens da Europa) se rebelou, junto com muitos seguidores e conseguiu se tornar a nova grande autoridade de Fanópolis (nome dado por ele próprio).
Richard Rudolph só queria saber de toda a riqueza e poder pra si próprio. Ele apoiava o capitalismo e a inferiorização dos mais pobres.
Durante o tempo em que estive na ilha tentando mudar o governo de não-mais-tão-minha-ilha houveram muitos debates e lutas, mas os capitalista venceram todos, deixando o conceito meu e de Sexta-Feira, de sociedade ideal, de lado.
Decidi, então, que não adiantava mais ficar naquela ilha que não era mais minha e viver numa sociedade em que o povo é mal educado. Aliás, já tinha feito minha parte, grande maioria das pessoas de Fanópolis já sabia ler e escrever.
Então, parti com Sexta-Feira, deixando aquela ilha para trás, com um enorme sentimento de tristeza no coração.
Mas não foi só porque eu desisti da ilha que eu iria desistir da minha vida, minhas conquistas. Publiquei um livro com base no meu diário e foi um sucesso.
Anos se passaram, meu livro se tornou um clássico e, de novo por causa de meu instinto aventureiro, decidi levar minha obra ao meu antigo povo, para deixar pelo menos um pedaço de minha história naquela ilha, que já chamei de minha. Então fui, em busca de aventura e reconhecimento”.
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í.ta**

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

em defesa do romance, por mário vargas llosa

há mais de mês já, encontrei, em um dos blogs do eduardo (qual blog, agora não me recordo), este texto do mário vargas llosa. um texto longo, é verdade, mas muito interessante para pensarmos a literatura e sua importância para o ser humano.
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deixo aqui a frase que serve como "apresentação" do texto. aquilo que, em linguagem de texto de jornal, se não me engano é chamado de "lide". há o link para o texto completo, aqui.
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Incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo - um mundo sem literatura teria como traço principal o conformismo, a submissão dos seres humanos ao estabelecido. Seria um mundo animal.
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í.ta**

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

palomar, do xará calvino

durante a semana que passou, reli “palomar”, do italo calvino.
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um livro belíssimo, escrito com uma sutileza que convida o leitor a ler cada texto e, antes de seguir ao próximo, parar e pensar no que acabou de ler.
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“palomar” é isto, é um livro em que não se acelera. em que a leitura é ritmada, é cuidadosa como a escrita. em que um segundo de distração coloca em risco uma frase de rara beleza e ironia.
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palomar, este nome, “é o nome de um famoso observatório astronômico que durante muito tempo ostentou o maior telescópio do mundo. por intencional ironia, é também o nome do protagonista destes textos curtos de italo calvino, pois este senhor palomar é todo olhos, mas funciona quase sempre como se fosse um telescópio, mas para as coisas próximas do cotidiano”.
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é isto, bem isto. acompanhar o olhar de palomar, e principalmente as impressões e os dizeres e os pensares dos seus olhares é um exercício de aprender a olhar o que não se costuma olhar, e pensar no que não se costuma pensar, a não dizer o que se costuma dizer.
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fico impressionado com a organização dos textos deste livro. com o índice construído minuciosamente. o livro é dividido em três grandes partes: “As férias de Palomar” (1), “Palomar na cidade” (2), e “Os silêncios de Palomar” (3). são três “grandes temas”. e em cada uma dessas divisões há outras, ainda mais específicas: nas “férias de Palomar” há “Palomar na praia” (1.1), “Palomar no jardim” (1.2), e “Palomar contempla o céu” (1.3). na cidade, “Palomar no terraço” (2.1), “Palomar vai às compras” (2.2), e “Palomar contempla o céu” (2.3). e os silêncios de palomar têm “As viagens de Palomar” (3.1), “Palomar em sociedade” (3.2), e “As meditações de Palomar” (3.3). e cada um desses número quebrados contém três textos. ou seja, são 27 textos sobre o sr. palomar e seus olhares e impressões sobre o mundo.
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é encantadora a riqueza de detalhes nas descrições do que vê palomar: a contemplação dos movimentos de uma onda, os amor entre duas tartarugas ou a corrida das girafas.
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o sr. palomar gosta é do silêncio. gosta do ato de observar, de conjectuar, de pensar, mas não de dizer: “O senhor Palomar espera sempre que o silêncio contenha algo além daquilo que a linguagem pode expressar. Mas e se a linguagem fosse na verdade o ponto de chegada a que tende tudo o que existe? Ou se tudo o que existe fosse linguagem, já desde o princípio dos tempos? Neste ponto o senhor Palomar é tomado pela angústia”.
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de pensar coisas assim, principalmente: “’Não podemos conhecer nada exterior a nós se sairmos de nós mesmos’, pensa agora, ‘o universo é o espelho em que podemos contemplar só o que tivermos aprendido a conhecer em nós’”.
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pois o sr. palomar pensa, não diz nada, apenas observa, e leva o leitor a um pensar sem medidas, a um pensar muito provavelmente não pensado, a um estado de consciência ainda não atingido. a um silêncio ainda não experimentado.
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í.ta**

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

algo de literário em três filmes

agora, neste post, as palavras serão sobre filmes, não livros. mas filmes que tratam de livros, de literatura, de escritores, de histórias. e de amor, é claro, como tudo o que se é produzido culturalmente.
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há pouco mais de mês, assisti ao “coração de tinta”, filme do qual tinha ouvido falar há bastante tempo, mas, preguiçoso que sou, do qual nunca havia ido atrás. até que um dia, na locadora, achei-o e peguei-o. e, meses depois, assisti a ele novamente, pois estava nos canais de filmes da tv a cabo.
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um filme que trabalha muito com o imaginário, com o fantástico no texto literário, que explora muito a metalinguagem. um filme que provém de um livro, de uma narrativa escrita, a qual ainda não encontrei para ler. mas a narrativa áudio-visual proposta no filme, até onde me entendo por leitor e telespectador, é boa, é bem conduzida, é interessante. uma história em que os personagens dos livros lidos durante ela saltam destes livros e surgem como pessoas frente a quem os lia. e quem lia estes livros de onde pulavam personagens era “mo folchart”, o protagonista da história, um “língua de fogo” que percebe tarde demais que, ao ler histórias, os personagens saíam delas para o mundo dele (daí seu apelido já citado). é a partir daí que a história se desenvolve, com cada personagem querendo seus direitos: ou de voltar para as histórias, ou de trazer outros personagens, ou usar e abusar no mundo real. e, como não poderia deixar de ser, o drama da história acontece quando folchart, ao ler a história “o coração de tinta”, e ao ver os personagens daquele livro surgindo a sua frente, vê, ao mesmo tempo, sua esposa desaparecer, sem saber para onde ela foi, pressupondo que ela tenha trocado de lugar com os personagens.
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enfim, uma boa história, bem contada, com um quê de mistério bem encaixado, e que apresenta, ao meu ver, uma boa metáfora dos leitores que somos, ou podemos ser: leitores que dão vida aos personagens.
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se “o coração de tinta” eu já conhecia, ao menos de nome, “de encontro com o amor” eu não tinha conhecimento da existência. até que nice, minha-namorada-apaixonada-por-cinema, trouxe-o para casa num final de semana, garantindo a mim que eu gostaria bastante da história.
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e, de fato, gostei demais, de tudo no filme, com exceção da tradução do nome, que em inglês é “the shadow dancer”. ou seja, nada de encontro com o amor.
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mas tudo bem. é algo superável. eu gosto muito de filmes que tratam da literatura em suas histórias. ou de algo relacionado à literatura, enfim. e “de encontro com o amor” é um desses de que eu gosto por isso. gosto limitado o meu, eu sei, mas não tenho capacidade para avaliar um filme com critério cinematográficos, então contento-me com tal escolha.
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a história deste filme envolve um editor de livros aspirante a escritor, jeremy, que parte para uma difícil missão junto a um escritor consagrado, de quem ele é ídolo: weldon parish. um escritor que, após a morte de sua esposa, há bons 20 anos, resolve abandonar a literatura, não escrevendo mais nada, e despachando editores-chatos que lhe propõem fundos de dinheiro para que ele escreva um novo romance e, consequentemente, venda muito e dê lucros à editora.
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mas parish não tem mais paciência para isso tudo. e por esse motivo mesmo coloca jeremy em situações apertadas e embaraçosas nas insistentes tentativas que o editor lançava para trocar uma palavrinha só com o renomado escritor.
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a história se desenvolve. e não serei eu a contá-la neste breve escrito. se o escritor cede um pouco ou não, se o editor desiste ou não, se a filha do escritor influencia em algo, não mais me recordo para este momento. o que ficou a mim, da história do filme, foram frases, algumas frases. como a que parish lança a jeremy, quando este pergunta ao outro porque ele não escreve mais nada há tanto tempo, no que parish lhe responde: porque eu não tenho mais nada a dizer.
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ponto. não é preciso dizer mais nada, mesmo, depois de uma frase como esta. que me fez lembrar de um texto, escrito pelo alencar, professor de literatura e integrante do grupo de pesquisa do prolij, publicado no jornal “anotícia” há uns meses, no qual, pela fragilidade que minha memória permite, alencar citava raduan nassar para argumentar sobre a importância do escritor saber o momento certo de lançar algo novo, de se escancarar novamente (sim, porque publicar é se encancarar), de escrever para seus leitores; do quanto o silêncio de uma última obra é muito mais interessante aos leitores do que produções novas, porém repetitivas. o título do artigo do alencar era “os inimigos do silêncio”.
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e assistir a “de encontro com o amor” me fez pensar bastante nisso. observar atentamente cada frase do escritor parish: “um livro só pode ser escrito quando se tem algo a dizer”, “escrever vem da experiência. um grande escritor sabe quando não é mais um grande escritor” e “a vida é aproveitar o momento”, (uma frase meio auto-ajuda mesmo, mas que, no contexto do filme, explicada pelo escritor, torna-se impactante) levou-me a pensar na escrita para mim, na minha relação com este ato, de se sentar à frente da tela, da página em branco, do matutar frases e ideias, do rabiscar primeiras linhas. a significação do ato de escrever.
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ah, e onde entra o amor neste filme? não vou contar, não... eu encontrei um amor ali, o amor pela escrita. mas há outro, sim, mais escancarado.
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e, quando este texto sobre filmes e, por tabela, literatura, já estava quase no ponto, parei tudo para assistir ao “clube de leitura de jane austen”, um outro filme que contém elementos literários, no caso, as obras da autora inglesa jane austen.
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até hoje nunca li nada dela. pouquíssimo ouvi falar. sei de “razão e sensibilidade” e “orgulho e preconceito”, mas pelos filmes aos quais assisti, que são provenientes dos livros. e este filme me deixou, é claro, com a curiosidade de lê-la, de conhecer seus romances e, então, de entender melhor o filme. mas não sou do tipo que corre atrás de filmes e livros assim que sabe algo sobre eles. eu dou tempo ao tempo. deixo para chegar neles aos poucos, nos momentos em que me dá um estalo, ou nos momentos em que eles me caiem às mãos.
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como o nome do filme sugere, é um grupo de leitura. cinco mulheres e um homem. nem todos se conhecem quando o grupo inicia, mas todos enfrentam situações, até aquele momento, que se complementam ao estarem juntos. porém, sabemos, relacionar-se é das tarefas mais árduas, então que pequenos conflitos sempre acontecem durante os encontros do grupo. encontros estes que ocorrem uma vez ao mês.
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como são em seis pessoas, definiram seis livros da jane austen. todos leriam todos os livros, mas cada um ficaria responsável por um título, e a cada mês um título seria lido, e um encontro marcado, na casa daquele que ficara responsável pelo livro.
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a ideia do grupo de leitura me atrai muito. foi o que me levou a assistir a este filme. gosto de pensar num grupo de leitura em que os participantes se reúnam para ler, não só para conversar. não é o que acontece no filme, em que eles se reúnem para conversar sobre o que leram individualmente durante o mês. mas assim já está bom também, “louco” de bom.
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o filme é bem conduzido. cada personagem é apresentado aos poucos. cada vida é escancarada na medida em que cada livro é revelado. ou seja, os participantes do grupo de leitura vão percebendo o quanto suas vidas estão próximas das vidas dos personagens dos livros que eles estão lendo. ou seja, aquele limiar entre real e ficção. o que há em um e o que há em outro. aquela coisa do se comportar como vc mesmo, ou como o personagem se comportaria. temas recorrentes nas últimas postagens deste blog.
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não sou bom em esmiuçar as histórias que leio ou assisto. deixo lacunas consideráveis nelas. gosto de levantar ideias somente. e aqui ficam três filmes e três ideias. seus enredos e narrativas, em detalhes, cabe a cada um assistir e entender.
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í.ta**

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

a vida são histórias

artigo publicado no jornal "hoje", que circula por jaraguá e região.
o título do post é o título do artigo.
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“Contar histórias multiplica a gente”. Este foi o tema do “Abril Mundo 2009”, evento organizado anualmente, desde 2005, pelo PROLIJ, Programa Institucional de Literatura Infantil e Juvenil, da Univille, com o desejo maior de colocar no centro da discussão, acadêmica e social, o que é e o que está sendo a Literatura Infantil e Juvenil, nacional e internacionalmente.
O tema do evento deste ano, que deu início a este texto, teve como objetivo colocar em discussão a milenar arte de contar histórias. Isto porque o ato de contar histórias faz parte da história da evolução do homem. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.
Sueli Cagneti, coordenadora do PROLIJ, no seu mais recente livro publicado, “Literatura Infantil e Juvenil: suas possibilidades de leitura em sala de aula” (Letras Brasileiras, Coleção Letra Viva, 2009), apresenta ao leitor algumas linhas que dão conta dessa representatividade da história na vida humana. Escreve ela assim: “A história é inerente ao homem. Temos necessidade de contar, contando-nos. Da mesma forma que, ao ouvir narrativas, nos ouvimos. Nada tão humano quanto a literatura para aproximar o homem do homem”.
Uma frase final que abraça todas as frases anteriores. A força da literatura reside nisso, na condição de ser humano que ela desperta nos sujeitos.
A narrativa é inerente ao ser humano. Queremos, sempre, contar histórias nossas, fazermo-nos ouvir perante os outros. Assim como queremos, sempre, ouvir histórias contadas por estes outros. A vida são histórias. Conhecer histórias é viver. Um cruzamento de histórias. Costuras de vida. Uma palavra é um entrelaçamento de letras. Uma história é um entrelaçamento de palavras. E sentires.
A literatura é apenas um dos meios que utilizamos para nos contarmos e para conhecermos mais a nós mesmos por intermédio de personagens aos quais, como leitores que somos, damos vida.
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í.ta**

sábado, 21 de novembro de 2009

o escrever, por rosane

rosane é amiga minha. foi orientadora de duas pesquisas que desenvolvi quando cursava letras na unerj, aqui em jaraguá. foi quem me colocou no meio de tantas e tantas obras sobre leitura. foi quem me levou a perceber que a leitura pode e deve ser pensada em diferentes contextos e práticas e sujeitos. e a rosane escreve também. escreve para si. mas criou um blog, há sete meses, onde vezemquando posta alguns escritos pra lá de interessantes. e é um texto dela que lanço aqui no blog nesta postagem. não pedi a ela para colocá-lo aqui, não. mas, uma vez que está no blog dela, ou seja, à disposição de todos, é porque é público, é porque é para ser lido. e este texto, em especial, deve ser lido mesmo, por muitos, por muitos que sobrevivem com a escrita. é um dos textos metalinguísticos mais completos que li até hoje. não pelo seu tamanho, mas pelo que ele apresenta de interrogações sobre o escrever. a começar pelo título já.
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"Quem escreve para continuar a viver?
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A coisa mais importante que eu realizo sozinha e que de certa forma me deslumbra é a capacidade de gostar de escrever. Agora, ler, também.
Quando eu tinha entre sete e dez anos ainda não sabia que me comunicaria comigo mesma escrevendo.
A adolescência me transformou numa pessoa um pouco estranha. Para dizer a verdade, não sei se eu me gostava ou se a forma como eu sentia as coisas era uma tortura.
A minha vida não tem nada de excepcional. Pelo contrário, sou tão comum como qualquer outro ser humano anônimo na multidão.Os anos de minha vida foram gastos, na maioria das vezes, sem um plano prévio. Eu não me dei o dever de lutar pelo que queria e isso me tornou neurótica e sem destaque em nada. Talvez eu tenha conseguido surpreender um pouco aos outros, mas muito pouco em comparação a milhares de pessoas que realizaram grandes feitos.
Parece-me que vivi sempre medianamente. Nem escandalosamente, nem miseravelmente.
Não conheci a tristeza profunda, o abandono, a fome, a hostilidade ou o descaso. Percebo que tive o mínimo em tudo para me descrever normal na convivência em sociedade. A única coisa que me difere e deferiu, num raio de dez quilômetros, talvez, foi a necessidade de recorrer vez ou outra, dependendo do que eu vivia, a escrever.
Reconheço que não me aperfeiçoei desde o meu primeiro caderno de escrever. Acho, até, que meu discurso hoje se assemelha por demais com o que eu tinha no começo de minha adolescência. Isto me perturba, até produzir raiva de mim mesma.
Os meus anos vividos foram gastos, muito bem disfarçados, em filhos, casamentos, casa, preocupações cotidianas com dinheiro e outros eventos de um mortal comum.
Volta e meia algo acontece e torno a escrever. Parei e recomecei tantas vezes. E de todos os pensamentos, um é recorrente: por que tenho necessidade de escrever?
Há alguma coisa nas pessoas que compõem minha família que denuncia essa aproximação com o escrever: Eliane escreve tudo que faz ou que tem de fazer, numa agenda. Do tanto que escreve, uma ou outra linha é pessoal. Minha mãe conseguiu escrever um pseudo-diário. Um pouco comportado demais num primeiro olhar.
Não sei o que é, mas sinto-me confortável quando penso o quanto me faz bem a existência desse veículo que é o papel, o lápis, a ideia e a minha necessidade registradora. Algo como um mundo que se torna mais elaborado porque escrevo.
Luto, reluto, entretanto, contra algo que diminui o respeito e a admiração por minhas próprias ideias: é a má vontade de transcrever meus diários e torná-los uma possibilidade de ser lida. E logo eu me pergunto: quem há de querer ler-me? O que um leitor encontraria no que escrevo? Por que não creio na atitude desinteressada e interessada do ser humano em ler o que o outro faz, fez e que pode transformar uma vida?
* Este texto data de 01/11/2007. "
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í.ta**

terça-feira, 17 de novembro de 2009

pedindo licença: ana beatriz barbosa

costumo escrever aqui sobre livros que leio. livros literários, quase sempre. ou sempre. mas agora eu faço um post com algumas linhas sobre dois livros não-literários dos quais gosto muito. um que li já se vão dois anos, e outro que li semana passada.
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refiro-me a dois livros da ana beatriz barbosa silva. muito provável que quem esteja lendo isto já tenho ouvido falar desta psiquiatra-escritora, ou do seu último livro, o “mentes perigosas: o psicopata mora ao lado”, livro lançado no ano passado.
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a ana beatriz barbosa silva é, então, autora dos livros “mentes inquietas: entendendo melhor o mundo das pessoas distraídas, impulsivas e hiperativas” e “mentes perigosas”. dois livros muitíssimo bem escritos, em que o leitor é conduzido por uma escrita que flui sem dificuldades, mas que nem por isso se torna uma leitura boba ou desinteressante.
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pelo contrário. os dois livros abordam temáticas interessantíssimas sobre a nossa condição humana, sobre a nossa individualidade e principalmente sobre o conviver em sociedade.
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“mentes inquietas” aborda a questão do dda, o distúrbio do déficit de atenção, que muitas pessoas têm mas nem sonham. são características, por exemplo, de uma pessoa com dda, distração, esquecimento, desorganização, agitação e impulsividade. mas também, criativas, inovadoras e ousadas. neste livro, a autora ana beatriz desmistifica a crença errônea de que pessoas com dda sejam mental e socialmente incapazes de algo. pelo contrário, ela deixa claro que pessoas assim apresentam características comportamentais marcantes, e que são dotadas de uma capacidade incrível.
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já “mentes perigosas” apresenta um assunto um pouco mais preocupante: a psicopatia. também escrito como se fosse uma conversa numa sala de estar, o livro aborda com profundidade e com exemplos marcantes as características de uma pessoa psicopata, que está longe de ser aquela pessoa violenta com aparência de assassina, quando sim são indivíduos encontrados em todos os segmentos sociais, que possuem uma capacidade incrível de se disfarçar e se camuflar, aparentando ser o que não são: “Neste livro você vai saber um pouco mais sobre esse intrigante universo e aprender a reconhecer aqueles que vivem entre nós, se parecem fisicamente conosco, mas definitivamente não são como nós”.
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o que me levou a ler “mentes inquietas” foi uma disciplina da pós em psicopedagogia. e um trabalho que eu fiz para essa disciplina. gostei demais do livro, da escrita que seduz, da temática bem abordada. e foram essas características que me fizeram ler “mentes perigosas”, mesmo não sendo fã da temática abordada. são dois livros que conquistam o leitor pela maneira como são escritos.
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í.ta**

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

as narrativas de galera: fôlego

dediquei-me a ler os livros do autor gaúcho daniel galera. não foi agora, não. já se vão umas três semanas. mas foram três livros numa semana só mesmo. livros de leitura pra lá de envolventes. livros de narrativas pra lá de bem escritas.
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daniel galera é autor novo, de apenas trinta anos. tem quatro livros publicados: “dentes guardados” (2001), “até o dia em que o cão morreu” (2003), “mãos de cavalo” (2006), e “cordilheira” (2008). este último, inclusive, ganhou terceiro lugar no jabuti 2009. dos quatro, li três, muitíssimo bem escritos.
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o que mais me impressiona na escrita do galera é a condução da narrativa. é o domínio da mesma. a segurança com que ele conduz os romances. a descrição impecável de cenas e personagens.
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“até o dia em que o cão morreu” foi também filmado. por beto brant e renato ciasca, sob o nome de “cão sem dono”. foi, para mim, o menos envolvente dos livros que li dele, e o mais porra-louca. não chega a ser um livro catártico. é uma novela, eu diria. a escrita é cuidadosa. a seqüência de ações, idem. o final, de certa forma, surpreende um pouco. mas não muito. talvez nisso resida um detalhe das histórias deste autor. uma certa previsibilidade. mas de forma alguma isso torna sua leitura enfadonha. justamente porque a condução se dá pela forma narrativa em si, pelo modo como tais histórias são apresentadas ao leitor. em “até o dia em que o cão morreu” não há como não se aproximar do personagem de mais ou menos vinte e cinco anos, cujo nome não é apresentado ao leitor, que gasta os dias olhando a cidade pela janela, bebendo cerveja e caminhando pela vizinhança. não há como não seguir seus passos (ou a falta dos mesmos), o cão que o acompanha, a relação que ele estabelece (ou tenta) com marcela. não há como não visualizar a porto alegre descrita ali.
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e em “mãos de cavalo” essa mesma porto alegre é novamente descrita. com minuciosidade. mas são outros lugares da mesma porto alegre. são, também, outros olhares. é o olhar de hermano, principalmente. mas de bonobo, de naiara, de morsa, de adri. a densidade da narrativa de “mãos de cavalo” é impressionante. o tempo se alterna entre o passado e o presente do personagem. o tempo revive lembranças e explica fatos. mas não cura feridas. não alivia o sentimento de culpa de hermano. a história se mantém em um vai e vem até o final. o leitor balança nesse vai e vem. por ora é preferível parar. mas não há como não continuar. a aproximidade que se tinha antes com o personagem de “até o dia em que o cão morreu” se tem agora com hermano.encantei-me por demais com este livro. até hoje não me sai da cabeça as noites em que, antes de dormir, eu “entrava” na história de uma forma muito intensa, tamanha a força da narrativa.
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e é essa aproximidade que se terá, depois, com a escritora anita, personagem em “cordilheira”. romance de lançamento da coleção “amores expressos”, que traz histórias de amor ambientadas em diversas cidades do mundo, este livro mais recente do autor gaúcho apresenta ao leitor uma narrativa mais descontraída que “mãos de cavalo”, mais linear na condição de tempo, porém mais envolvente e embaralhada no que diz respeito às ações dos personagens. personagens no mínimo estranhos para anita. argentinos de hábitos bizarros que seguem o lema de viver não suas vidas, mas a vida dos personagens dos livros que eles mesmos escreveram. um pensar sobre vida e arte, seus limites e conseqüências (ver texto no post abaixo). uma história sobre perdas e recomeços. uma história com um final em aberto.
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a escrita de daniel galera pede mais que uma leitura atenta. exige uma re-leitura. sua prosa rica em detalhes, as descrições minuciosas de cenas e atmosferas, e seus personagens apresentados aos leitores convidam a um não-desgrudar-se tão cedo. envolvem e cativam, não pelo que há de bonito, mas pelo que há de verdadeiro em cada um, em cada cena. pelo silêncio que se estabelece.
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í.ta**

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A vida por meio de histórias. Ou o que há de real e de ficção no que lemos e vivemos

O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver.
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A leitura literária é uma forma de leitura existente. É a leitura em que a liberdade e o prazer são ilimitados (ao menos deveriam ser). Porém, é uma modalidade de leitura, o que significa que há outras formas de leitura, formas estas que até desfrutam de maior trânsito social: jornais, revistas, textos na internet.
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Cada leitura tem uma história própria. Cada texto tem também sua história própria. Assim como cada leitor constrói sua história de leitura. É Lajolo quem afirma que “Cada leitor, na individualidade de sua vida, vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que, ao longo da história de um texto, este foi acumulando”.
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É por isso que não concebo a leitura como uma atividade inocente. Compartilho da opinião de Lajolo, e também da de Alberto Manguel, crítico literário, para quem “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”. Não há como ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. Uma leitura leva à outra. Uma leitura não só de livros, mas também uma leitura de vida. Vivemos nos relacionando. Vivemos nos lendo a aos outros também. Influenciamos e somos influenciados. Nossas histórias, lidas e vividas, embrenham-se em nossa formação de sujeitos e cidadãos que somos.
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Recentemente pude ler dois romances que me fizeram pensar bastante nesse cruzamento de vidas e de histórias. Duas narrativas nas quais vidas se cruzam e se completam, nas quais vamos, como leitores que somos, embrenhando-nos por entre personagens e histórias de vida, mesmo que tudo aquilo não passe de uma ficção bem construída, de uma narrativa que nos envolve, que nos perturba e/ou encanta, e que nos deixa, às vezes, reticentes quanto a nossas próprias vidas e histórias.
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“Rimas da vida e da morte” (Companhia das Letras, 2008), do israelense Amós Oz é o primeiro dos livros que li. Um livro em que o personagem principal torna personagens de livros as pessoas com as quais ele tem contato. Dá “vida” a elas. Cria histórias, em sua própria mente, mesmo sem conhecê-las, somente a partir do momento em que as vê. Um personagem que transita entre a realidade em que vive (que para nós é a ficção que lemos) e a ficção que cria a partir dessa realidade (que para nós se torna uma ficção dentro de outra ficção).
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Em sentido próximo, a história de “Cordilheira”, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2008), também apresenta uma reflexão sobre os limites não definidos entre realidade e ficção quando o personagem argentino Holden cita um escritor guatemalteco que radicalizou ao decidir viver como se fosse os personagens que criava. E a personagem principal deste livro de Galera, a Anita, ao se relacionar com Holden e seus amigos, descobre que há pessoas, sim, que levam suas vidas como se fossem a de seus personagens, dos personagens que eles mesmos criam nos livros que escrevem, o que nos leva a se perguntar se não existem também, aqui nesta “vida real”, pessoas que vivem como personagens de livros que escreveram ou que leram.
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Se é que cabe ainda se discutir isto, estas duas narrativas propõem um pensar a respeito do limiar entre realidade e ficção. O Victor da Rosa, por exemplo, escreveu a mim, certa vez, após uma pergunta minha a ele sobre este assunto, dizendo que, para ele, a dicotomia ficção/real está caindo, e que um terceiro gênero indeciso se abre aí, o qual dá muita liberdade pra criação. Essas duas narrativas são exemplos disso, creio.
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Diz o Ferreira Gullar que a arte existe porque a vida não basta. Gosto disto. Mas, como diz meu amigo Guilherme, e se fosse a vida existe porque a arte não basta? Ou seja, não há segurança para afirmarmos os limites da criação literária. E além do mais, não se pode esquecer que é característica do texto literário a falta de limites e a liberdade de criação e de interpretação.
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Volto ao Manguel para encerrar este texto-mais-de-dúvidas-do-que-de-certezas-e-cheio-de-vazios. No seu último livro, “A cidade das palavras” (Companhia das letras, 2008), ele se pergunta se as histórias são capazes de mudar quem somos e o mundo em que vivemos. Eu acredito que sim. E acredito porque senti – e continuo sentindo – o quanto as histórias que já li mudaram meu eu, mudaram minha forma de pensar, sentir, e de agir no mundo. E o próprio Manguel apresenta uma resposta à pergunta que faz: “As histórias podem alimentar nossa mente, levando-nos talvez não ao conhecimento de quem somos, mas ao menos à consciência de que existimos – uma consciência essencial, que se desenvolve pelo confronto com a voz alheia”.
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Talvez assim nos aconteça, de fato, com quem se torna aquele “último leitor” descrito por Piglia em “O último leitor” (Companhia das letras, 2006). O leitor “extremo, sempre apaixonado e compulsivo; viciado, que não consegue deixar de ler, insone, sempre desperto”, para quem a leitura é uma forma de vida, para quem a literatura dá um nome e uma história, “retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica”. Somos, estes sujeitos-leitores, os últimos leitores, aqueles em busca do sentido experiência perdida, que dão à literatura uma utilidade que ela não comporta. Que dão ao livro o que não se cabe nele. Que dão à vida uma história que não é dela só dela. Que dão à história uma nova vida.
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í.ta**

terça-feira, 10 de novembro de 2009

a literatura catarinense

artigo publicado hoje no jornal "hoje", que circula por jaraguá e região.
o título do artigo é o título do post.
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Desde o dia 30 de outubro está acontecendo, em Porto Alegre, a 55ª Feira do Livro. Uma das maiores feiras do livro do país conta, nesta edição, com a participação de 170 autores e ilustradores de literatura infantil e juvenil. E, para os adultos, acontecem 38 oficinas e 173 mesas redondas dividindo a atenção com quase 200 expositores-livreiros.
Este ano a feira tem como país homenageado a França, integrando a programação do Ano da França no Brasil. E, como Estado convidado, Santa Catarina.
Dessa forma, a Fundação Catarinense de Cultura convidou, para participar da Feira do Livro de Porto Alegre, alguns escritores catarinenses que têm se destacado, estadual e nacionalmente, não só por suas produções literárias, mas pela disseminação da literatura produzida no Estado.
Fazem parte deste grupo, entre outros, os escritores Marco Vasques, Cristiano Moreira, Fábio Brüggemann, Dennis Radünz e Carlos Henrique Schroeder, que por lá estão autografando seus livros e conversando sobre a literatura catarinense em diferentes momentos da feira. Um fato que orgulha a nós, catarinenses, sem dúvida, pela abrangência que a literatura produzida por aqui tem alcançado. Uma literatura com nomes já consagrados, como Salim Miguel e Cristovão Tezza, que prima pela qualidade estética e narrativa, e que, ano após ano, põe em evidência nacional novos autores e suas obras.
E para nós, de Jaraguá do Sul, a satisfação não se deve somente ao destaque literário do Estado, mas, em particular, ao fato de termos um autor, senão oriundo daqui, que nesta cidade produz e dissemina a literatura, que é o Carlos Henrique Schroeder, organizador das últimas edições da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, responsável pela formação e pelo lançamento de novos autores jaraguaenses que, por que não acreditar, daqui alguns anos poderão representar o Estado em outras feiras do livro espalhadas pelo país.
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í.ta**

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

uma leitura que encanta

“O bordado encantado”, de Edmir Perrotti, é um livro para ser lido da frente para trás e de trás para frente. É um livro para ser lido em voz alta. Mais do que isso, é um livro para ser contado.
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A história de “O bordado encantado” é um pedacinho da vida de cada um dos leitores que podem ter se deparado com ela. É uma história com final feliz, mas de um pontual suspense no seu decorrer. É uma história de contos de fadas mesmo, que resgata a tradição dos contos mais clássicos.
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É a história de uma viúva muito pobre e de seus três filhos. E do bordado também. Um bordado que muda a vida dessa mulher bordadeira e de seus filhos. Um bordado que mostra a todos os personagens, e aos leitores também, a delicadeza que se torna necessária para bordar a vida, seus encantos e seus riscos.
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A narrativa, com ilustrações cuidadosas de Helena Alexandrino, recupera características dos contos maravilhosos: “a velha mãe pobre, os três filhos, a bondade do mais novo, o elemento mágico que desencadeia a mudança ("o tecido que balançava ao vento numa barraca próxima"), a busca mal sucedida encetada pelos dois filhos mais velhos e o sucesso do terceiro, após enfrentar diversas provas. E ainda o encontro com as fadas no castelo da montanha e, principalmente, a paixão entre o jovem e a fada de vermelho, que culmina em final feliz”.
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É esse, basicamente, o enredo, escrito em um tom muito suave e encantador. Não é o leitor quem conduz a história, e sim a história quem conduz o leitor, que se vê fisgado pelo sumiço do bordado, pelas buscas dos três filhos, pela tristeza da viúva, e pelos rumos que a história acaba tomando.
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“O bordado encantado” é livro vencedor do Prêmio Jabuti 1998. E eu escrevi lá no começo que é livro para ser lido de trás para frente também. E assim é pela beleza que contém o escrito de apresentação do autor, na última página do livro: “Contudo, agora que terminei o trabalho, sinto-me de mãos vazias. Se a tradição oral me forneceu o belo argumento, minha condição não permite que eu sinta o fôlego, o olhar, a presença do leitor, sua aprovação ou rejeição imediata. Conto à distância! Quem sabe um dia, por essas razões difíceis de prever, a gente não acabe se encontrando por aí. Seria muito bom ouvi-lo contar uma história – a de sua leitura do ‘Bordado’. Minha atual apreensão talvez se acalmasse um pouco. Afinal, além de encantar, os contos também sempre confortaram”.
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E este é um conto escrito de maneira confortante para o leitor. É um conto que convida a virar as páginas, a voltar nelas, a torcer pelos personagens. Mais do que isso. É um conto que alimenta o desejo de leitura. Contos assim marcam profundamente as histórias de leitores que somos.
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í.ta**

terça-feira, 3 de novembro de 2009

nem sempre há uma identificação com uma história

há uns meses, li dois livros da portuga inês pedrosa: “fica comigo esta noite”, livro de contos (escrevi sobre) e “nas tuas mãos”, um romance muitíssimo bem desenvolvido (também escrevi sobre).
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então, depois dessas duas leituras, e por ter me apaixonado pela escrita dela e pelos livros, fui atrás de outros livros dessa autora. e comprei “a instrução dos amantes” e “fazes-me falta”.
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esperei. resolvi esperar para lê-los. para lê-la novamente. agora é que voltei a ela. gosto de pensar e de sentir a leitura como isto, como um deixar o tempo guiar também, como pensar cada livro em um determinado momento.
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não sei se fiz bem ou não. creio que sim. acontece que a leitura que fiz de “a instrução dos amantes” não foi das melhores, não. li-o com calma, pouco a pouco, quase que capítulo a capítulo, pausando sempre entre essas divisórias no romance. durei uma semana com o livro, e não o entendi patavinas! eis o fato. a história de cláudia, de ricardo, de dinis e de isabel. e ainda dos personagens paralelos, cada qual com sua história própria sendo desvendada, não me levou a nada. não me fez sair do lugar.
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não foi por falta de voltar páginas, não. fiz isso, sim. muitas vezes. mas não deu. cheguei ao final da história sem compreendê-la, sem conseguir dizer algo sobre ela. e, o que mais me chamou a atenção, foi que a narrativa que eu tanto havia gostado nos outros dois livros, neste ela se repetiu, e eu não gostei nada, nada disso.
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e eu vim, antes de ler este livro da inês pedrosa, de leituras muito descritivas e intimistas, tal qual “a instrução dos amantes”. li daniel galera ao cubo. três romances dele. li e estou lendo joão cabral de melo neto. li e estou lendo italo calvino. tudo antes de encarar os amantes e suas instruções. mas não deu.
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enfim. guardei o livro. precisava deixá-lo ali guardado. em outro momento voltarei a ele, creio. antes, vou encarar, ainda não sei bem se já, ou se esperarei um pouco, o “fazes-me falta”.
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ah, e durante tudo isso estive lendo e relendo o “como um romance”, do daniel pennac. e algo de que mais gostei nesse muito bem escrito livro dele foi dos “direitos do leitor” prescritos por ele. direitos como o de não-ler, de pular páginas, de interromper a leitura no meio do caminho, de reler, de ler qualquer coisa, de calar. e, acrescento, de não gostar do que se lê, ou de não se identificar numa primeira leitura. mas de se permitir tentar novamente. ou não. cada leitor constroi sua história de leituras. é preciso se respeitar isto. assim como é preciso pensar a leitura como direitos do leitor.
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í.ta**

domingo, 1 de novembro de 2009

finalizando maringá

foram quatro dias por lá.
quatro bons dias.
quatro dias de sol maravilhoso, de vento refrescante.
quatro dias de estudo, de leituras, de apresentações, de escrita,
e de passeios.
quatro dias acompanhado de oito estudantes e de um motora super gente fina.
quatro dias num bom hotel, bem aconchegado.
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o congresso poderia ter sido melhor organizado. as apresentações de um mesmo tema (literatura, por exemplo), poderiam ter sido colocadas em horários diferentes. não pude assistir a muita coisa sobre o que gosto, não. migrei para "áreas próximas". ainda assim valeu à pena.
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a universidade (cesumar) é super nova. 19 anos. é muito grande, bem estruturada, conta com quase 50 cursos. bem arejada, bem espaçosa, boa biblioteca.
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a cidade, como já escrevi aqui, é maravilhosa. lindíssima. organizada, agradável de se estar e ficar. já me senti convidado a voltar para lá, a passeio mesmo, ou a estudo.
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ficam três fotos de lá. duas da catedral. bonita pra dedéu por dentro. e, por fora, um amplo parque, tão arborizado quanto a cidade em si.
e a outra foto é uma vista de um dos estacionamentos da universidade. é verde pra tudo que é lado por aquela cidade, não falei?




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í.ta**

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

em maringá: três

passear
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tiramos a tarde de folga hoje. iremos mais à noite para o congresso novamente. alguns estudantes dos que vieram conosco na van apresentarão hoje à noite. os demais, que já apresentaram (nos quais me incluo), assistiremos a apresentações que nos interessem por lá.
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então agora à tarde fui bater perna por essas ruas super arborizadas de maringá.
vou deixar para ir à catedral e a outros pontos turísticos amanhã pela manhã.
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hoje andei a esmo por aqui, por quadras nos arredores do hotel.
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saí para almoçar ao meio-dia. sozinho mesmo. cada um crio um roteiro próprio. acho bem melhor assim. ninguém fica esperando por ninguém, e cada um vai atrás daquilo que lhe interessa.
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eu, por exemplo, achei um restaurante bom e barato. pronto, bastou-me.
e, quase ao lado, um sebus. pronto, perigo na certa!
mas dessa vez me controlei. só olhei as coisas por ali. olhei, olhei, olhei. empilhei alguns livros e dvds na mão, mas na hora de ir embora deixei tudo lá. já tenho dívidas o suficiente, e livros pra dar conta, idem.
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e dali do sebus, que ainda é numa rua ao lado do hotel, fui me metendo por ruas e avenidas. sem me preocupar com o caminho da volta. fui entrando em lojinhas, em coisas diferentes, em vielas. atravessando avenidas, passando de uma calçada a outra. coisa mais boa de se fazer!
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fui parar em um shopping. em um parque. um centro comercial. em várias lojas. em ruas com nomes de cidades, estados, e gente famosa. e fui pedindo informação. simples assim.
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as pessoas aqui são fechadas. sérias. poucos sorrisos. povo paranaense mesmo. mas são gentis quando solicitadas. pelo menos comigo foram ao darem muitas informações de lugares e de ruas.
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gastei, é claro. tô levando lembrancinhas pra nice, pra família e pra amigos. coisa boa também de se fazer. vale o esforço, vale o passeio. as melhores coisas da vida não servem pra nada mesmo, tem-se de aproveitar, então.
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agora à noite, congresso. depois, algum restaurante/barzinho pra jantar.
amanhã, passeio e congresso.
depois, volta pra casa. ufa!
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ítalo.

em maringá: dois

a cidade de maringá é uma daquelas cidades projetadas, cuidadas, feitas sob certo controle.
é bonita, é arborizada pra caramba, é limpa.
o oposto de campinas, onde estive em julho.
é um prazer caminhar por aqui, seja de dia, seja de noite.
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o congresso, VI epcc (encontro internacional de produção científica cesumar) é bastante abrangente. tem coisa pra tudo quanto é área do conhecimento. o que não significa que seja tão interessante assim, não. afinal, não é possível abraçar o mundo. e, sendo assim, é lamentável eu não ter conseguido acompanhar as apresentações orais relacionadas a letras pelo fato de essas apresentações terem ocorrido no mesmo horário da minha apresentação.
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a apresentação, em si, foi boa. foi tranquila, foi segura, foi interessante a quem tava assistindo. fizeram perguntas, colocações. enfim, houve uma boa interação.
porém, a desorganização do evento foi enorme no momento da minha apresentação.
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inscrevi-me para apresentar como "grupo de discussão". mas acabei apresentando como "comunicação oral". porém, preparei-me para um grupo de discussão. ou seja, uma fala diferente, com um enfoque diferente, com um tempo calculado diferente. e na hora tive que me virar para apresentar como sendo uma comunicação oral: falar dez minutos, e mais cinco de perguntas. e o mediador da minha sessão, um arrogante de um professor da cesumar, quis transferir a responsabilidade para mim. neguei. deixei claro meu descontentamento com essa mudança, por não ter sido avisado de que a apresentação seria com retro-projetor ou data-show.
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apresentei somente de forma oral. falei sobre minha pesquisa. falei com propriedade, com segurança, com clareza. ao contrário de três apresentações que ocorreram na mesma sessão da minha. três apresentações com uso do tal do retro-projetor. três apresentações horrorosas!
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mas também houve boas apresentações nessa sessão. todas sem uso de nenhum recurso. só no gogó. bem faladas, bem explicadas, bem contextualizadas. e as conversas oriundas dessas apresentações, da mesma forma boas e interessantes.
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dos males o menor. mas ficou muito forte o sentimento, da minha parte, de descontentamento com tal desorganização.
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e, como as apresentações relacionadas a letras, leitura e literatura já foram todas hoje, amanhã aproveitarei bem meu tempo no congresso para estudar, para escrever, e para, quem sabe, assistir a algumas comunicações da área de jornalismo.
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no mais, é aproveitar esse clima maravilhoso que faz em maringá. andar, andar, andar.
assim que voltar a jaraguá postarei umas fotos aqui. merece, tamanha beleza.
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ítalo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

a leitura em grupo

artigo publicado por mim no jornal "hoje", que circula em jaraguá e região.
não sei se publicaram hoje, ou se publicarão amanhã.
não estou lá pra ver. não há edição on-line.
o título do artigo é o título do post.
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Finalizei, na semana passada, um Círculo de leitura com alunos do Ensino Médio de uma escola particular da cidade. Um Círculo iniciado há dois meses, com o qual foi possível ter seis encontros quinzenais, cada um com mais ou menos uma hora e meia de duração, em que realizamos leituras de alguns textos literários. Um Círculo cuja proposta era a de nos reunirmos para ler. Somente. Ler e conversar sobre o que foi lido. Ler em voz alta, ler em grupo. Porque a leitura também pode ser um movimento de interação, de conversa, de ler-junto.
A ideia de desenvolver um Círculo de leitura me acompanha há bastante tempo. Tentei reunindo pessoas próximas a mim, participando de outros grupos, mas sem efetivar o movimento. Até que me foi possível colocar essa ideia em prática desenvolvendo uma pesquisa de iniciação científica pela universidade na qual estudo.
O meu objetivo em fazer um movimento como esse é o de despertar a sensibilidade crítica dos estudantes para o texto literário. É o de colocá-los em contato com o texto literário, com a literatura, apresentando-lhes alguns textos escolhidos a dedo, e proporcionando a eles um pensar mais cuidadoso sobre o que é, ou pode ser, a literatura: o que significa ler um texto literário? De que forma ele mexe com o leitor? O que é, ou pode ser, ser leitor, de fato? Como nos assumimos e nos posicionamos como leitores?
E o gratificante não é somente o ato de ler em conjunto, de fazer a leitura circular pelo ambiente, de senti-la não só com os olhos, mas também com os ouvidos. O gratificante é perceber o quanto as pessoas se reconhecem no texto literário, o quanto elas passam a se conhecer de outra forma em função desse contato diferenciado com a literatura. O gratificante é se deparar com dizeres assim dos estudantes envolvidos com o Círculo: “O Círculo de leitura transformou-me em um novo tipo de leitor”. Objetivo alcançado, então.
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í.ta**

em maringá: um

cheguei em maringá.
chegamos em maringá.
um grupo de oito estudantes, provenientes da univille.
participaremos do "cesumar", um congresso que vai acontecer por aqui,
no qual cada um de nós apresentará suas pesquisas.
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paisagem bonita na viagem até aqui. foram oito horas. paramos algumas vezes.
passamos por vááárias cidadezinhas. vimos
verde, verde, verde. campos, campos, campos. coisa bonita, bonita mesmo.
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maringá é bonita também. muito verde também.
árvores grandes nas ruas. sombreiros gigantes.
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hotel é bom também. internet, tv a cabo, enfim...
agora é descansar e mais à frente ir pro congresso.
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vou jogar aqui uns dizeres sobre o congresso durante a semana.
sobre minha apresentação lá, e sobre o que mais eu conseguir
acompanhar.
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ítalo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

um texto-história para uma história-poema

A vida é costura
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Uma palavra é um entrelaçamento de letras. Uma história é um entrelaçamento de palavras. E sentires.
_____A vida é por um fio. Sempre.
____Às vezes, um entrelaçamento de fios. Mais das vezes, embaralhados.
____Viver é desfiar palavras.
____João sabe disso.
____Que João?
____O “João por um fio”, criado pelo Roger Mello.
____João tem uma história própria. Este João. Uma história dele. Sobre ele. Uma história que ele deixou compartilhar conosco, seus leitores.
____Conhecer histórias é viver também. Um cruzamento de histórias. Costuras de vida.
____A história deste João começa assim:
______João se pergunta, ao dormir: “Agora sou só eu comigo?”.
_____Pode ser, respondemos. Como pode não ser.
_____João sonha quando dorme. O que significa que nem sempre seja ele com ele somente. E há os leitores, claro, que o acompanham enquanto ele dorme.
____Os leitores a quem cabem algumas perguntas de respostas-não-prontas:
____“Onde é que se esconde a noite que beija João?”
“Quem tem medo de um gigante chamado João? Ou quando é que o gigante dorme?”
“Se João cai no sono, com que paisagens ele sonha?”
“E se o medo derrama, João é que abre a torneira?”
“Que rede segura um peixe maior que a gente?”
“De que tamanho é o furo na colcha que cobre João?”
“Como se para um furo que não para?”
____De repente, eis que, num susto, João acorda, e se preocupa: “Quem desfiou minha colcha?”.
_____Nós, leitores, sabemos quem foi. Ou como foi que a colcha se desfiou. Mas não podemos falar a João. Não podemos porque ele precisa descobrir o desenrolar da sua colcha. Ele precisa sentir como isso aconteceu. Ele precisa aprender a costurá-la novamente.
____E João mostra saber disso: “No meio do vazio viu palavras espalhadas no chão”.
_____Então, ele resolve costurar palavras “como retalhos numa colcha”. E, ainda mais. “Enquanto costura, João inventa uma cantiga de ninar”.
_____Faz mais do que imaginávamos. Surpreende-nos.
_____E a nós, que acompanhamos João assim de perto, fica a pergunta: “De que tamanho é a colcha de palavras que cobre João?”.
____Mas não nos fica somente esta pergunta. Por trás dela há outra, que João espertamente nos deixa:
______De que tamanho é a colcha de palavras que nos cobre?
_____E, para respondê-la, cabe-nos fazer como João: ao sonhar, desfiar a colcha que nos cobre, abri-la, explorá-la. Expormo-nos. E, depois, costurarmos palavras que nos cobrirão novamente.
_____A vida são ciclos, mostra-nos João.
____A vida é um se despir para se conhecer.
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í.ta**

terça-feira, 20 de outubro de 2009

mais poesia. mais carpinejar.


caiu-me às mãos outro livro de poemas do carpinejar. uma antologia chamada “caixa de sapatos”.
_____deparei-me, ali, com mais poemas muitos bem construídos, tanto no que diz respeito à forma, quanto ao ritmo que eles apresentam aos leitores. sem contar a delicadeza indelicada do carpinejar. a suavidade ácida dele. vale muito a leitura.
______foi-me difícil escolher versos e poemas para deixar aqui. foram muito. ficam alguns poucos, apesar de longos. valem uma leitura atenta.
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"A noite urinava
nas paredes
do quarto.
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Desfiei um maço
de jasmim
na jarra
e esvaziei o hálito.
____
A vida amou a morte
mais do que havia para morrer.
____
Na beira da cama,
o sândalo dos pés
convidava-me
a renunciar às sandálias
e debulhar a palha noturna.
__
Apaguei os pensamentos
na espuma da pele.
____
Abandonar o paraíso,
a única forma
de não esquecê-lo"
_ _ _ _ _
“Só na velhice conheci o brio
de viver com vagar.
O rosto não tem mais residência, move-se a cada
sorvo das sombras.
_
Há mais terra debaixo da pele que a terra onde piso.
Atravessei o século e ainda não me percorri.
_
Qual a senha que transporto?
Serei contrabando de Deus, que vai quieto dentro,
receoso de se pronunciar?
-
Condiciono os amores a uma expectativa.
Mas é justamente ela que me impede de ser real.
__
Tornei-me o diário de uma viagem cancelada.
__
Escapa o ponto da veia. Não disponho de mapa
que me centralize, guia que indique meu paradeiro.
Minha atualidade é ter fome,
não evoluímos perante o alimento.
__Nivelamos a cura ao veneno,
o tempo discrimina sua natureza.
O que chega atrasado ou adiantado, envenena.
O que é pontual, cura.
__Nossas fachadas carecem de uma segunda mão.
Os moradores ancestrais e os novos
estão sobrepostos, misturados, na cor das paredes.
__Descender valerá o sacrifício se nos inventarmos.
__A feição cumpre um dever ou é minha maneira
de concordar com a imperfeição?
Será que a ambição não me permite ser o que sou?
Ou realmente, distraído com o que levo,
não leio os sinais, os mínimos indícios
de uma vida maior que a lealdade aos costumes?
__Não sei absorver a mensagem da troca de guarda
entre a coruja e o melro. Muito menos traduzir
o que sente o cão quando percebe que a ave lacerada
não tinha ossos a compensar o esforço.
__Será a fidelidade uma forma de trair?
O amor afiança a fortuna no hálito,
desterrado é pelo hábito.
__Como retomar o instante que consenti, não mais
participando do mundo
para que as coisas corressem a esmo?
__Ao conversar com minha filha, às vezes me dói
a responsabilidade de conduzir sua inocência.
Se ela soubesse o desaviso da encruzilhada,
que aceitei uma trilha ao léu, entrei numa rua,
no casamento, pela ideia de seguir o fluxo.
__Não me empurrem mais, não vou por onde não sei.
Deixa-me pensar o corpo, deixa o corpo me pensar”.
_ _ _ _ _
“Atendi o pedido dos pais
de não conversar com estranhos
e deixei de me escutar”.
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“A morte me perturba,
terei o sofrimento
de não corrigi-la
antes de ser publicada.
__Apagado em laje fria,
quem trocará a minha roupa de cama?
__Acordarei impessoal,
desprovido do alarme das pálpebras?
Até quando serei o que compreendo?”.
_ _ _ _ _
“Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras
_na estante.
Mudava os títulos
de endereço
_em tua biblioteca
e rastreava, ensandecido,
aquele morto encadernado
_que ressuscitou
quando havias enterrado
a leitura,
_aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova
aberta na coleção.
_Sou também um livro
que levantou
dos teus olhos deitados.
_Em tudo o que riscavas,
queria um testamento.
Assim recolhia os insetos
_de tua matança,
o alfabeto abatido
nas margens.
_Folheava os textos,
contornando as pedras
de tuas anotações.
_Retraído,
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.
_Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade
_e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,
_premeditando
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,
_visceral,
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,
_cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,
_um oceano
na fruta branca.
Pretendias impressionar
_o futuro com a precocidade.
A mãe remava
em tua devastação,
_percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino,
uma agulha cerzindo
_a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,
_descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde
_para a ceia.
Preparava o jantar
com as sobras do almoço.
__Lia o que lias,
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz”.
_ _ _ _ _
“O que o fogo já leu de cartas. É o derradeiro confidente.
Recolhe os rascunhos, o que escondemos no fojo.
Desfia os amantes, os desafetos, os crimes.
_A sina do fogo é soprar cinzas. Nossa sina é sobrar nas cinzas.
Sou capaz de aniquilar um amor
para ver o que repousa em seu fundo.
_O mundo é alheio, nos portamos como visitas.
Cresce a vergonha de minhas dúvidas.
__Experimento a agressividade nos pequenos gestos,
espanco o cigarro até apagar. Meu bem-estar
é estar de bem com toda a gente
e isso é impossível.
Nem em minha família fui unânime”.
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í.ta**

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

uma conversa, poesia

uma conversa não precisa acontecer para se concordar ou discordar, simplesmente.
uma conversa acontece para que se faça ouvir algo. para que se faça sentir algo.
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manoel ricardo de lima mandou e-mail com uma pequena entrevista-conversa, por escrito, que o escritor carlos augusto lima fez com ele.
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lanço aqui a conversa. ou as falas. ou somente nada.
é sobre a poesia. e a vida. eu acho.
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é para ser lida. ou não.
mas não é para ser concordada ou discordada.
isso não.
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Uma conversa: poesia número 7
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Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com o desequilíbrio. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Poeta é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas.
Com esta conversa poesia, a de número 7, encerro cá um ciclo, um estiramento de papo com alguns bons poetas de cá, ou de cá ao longe, este melhor lugar de ficar. Sete conversas que me deixaram feliz, escolhas certeiras, precisas, inteligentes. Que outras venham, de outra forma, outros lugares do saber e conhecer. Ou que seja apenas silêncio, quem sabe.
Para este último papo, convido Manoel Ricardo de Lima, que nasceu no Piauí, mas é cearense, e anda nos longes de uma ilha, fincando lastros, conexões, conversas das mais variadas, que esticam o dedo de prosa para além da literatura (por ela mesma), e prefere criar um território de saber, contemporâneo, sem mesmo a ideia de território, como você vai ler e verá. Manoel é uma das vozes críticas mais contundentes e espertas da literatura contemporânea brasileira. Voz aguda, diversa, filosófica, de mil referências e saberes atuais que tanto o empolgam. Entre tantas e outras coisas, Manoel Ricardo foi articulista deste jornal, é doutor em Literatura e Textualidades Contemporâneas, pensando Joaquim Cardozo, pela UFSC, e retomou a escrita do poema no seu mais recente livro "Quando todos os acidentes acontecem" (Editora 7 Letras, 2009). Com vocês, Manoel. Que esteja presente.
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1) Por que escrever poesia, essa insistência?
Ontem assisti a um documentário simples, O equilibrista, sobre o cara que andou entre as torres do WTC, Philippe Petit, não pelo filme, nada pelo filme, mas pelo ato poético, este ato que não tem porquê. 45 minutos num cabo, pra lá e pra cá, entre os terraços das torres, solto no tempo e com um imenso sorriso aliviado no rosto. Então é óbvio que Petit se irrite com a pergunta que todos lhe fazem: "mas por que você fez isso?", e se irrita porque defende o gesto de uma vida mais perto do perigo, uma vida que possa provocar uma rebelião. Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com isso, com o desequilíbrio do corpo lançado sobre um fio de vida alegre. Poesia, acredito, é lançamento. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Esta insistência passa um pouco por aí, por uma certa ética para o fanciullo, para a imaginação, para o amor, para o acidente que é o amor (descontrole, fúria, rasgo, acesso, distração, comum etc, e o que mais você quiser incluir aí, acho que cabe). E este ato não tem a ver com a palavra, apenas, isto me parece pobre e muito cristão, mas tem a ver com os modos de uso dos corpos com a vida, das operações do corpo e seus gestos políticos mais tensos. Quando escrevo, escrevo assim, como uma responsabilidade para nada, como "um território de luta", uma recusa e um lance com uma história aberta. E tenho tido cada vez mais vontade de escrever pra nada, num caráter insustentável do sentido.
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2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?
Poeta é o que está expulso, Carlos, mas é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas. E estas mesmas coisas, me parece, de fato, todas elas, sem exceção, não tem mais saber histórico, não tem história, mas apenas um ajuste de emergência para o progresso. Uma história pré-fabricada, a que chamamos de poder, é a lei única e definitiva. O que nos sobra, a angústia? Esta pergunta é a marca feita com água a partir de uns versos de Alexandre Barbalho, "só o que me salva é a / angústia"; versos que vem como afirmativa, inclusive. A questão para o poeta agora, imagino, ainda pode ser retomar a utopia como um campo desejante, um campo para o desejo. Sempre com uma imprecisão interrogativa: como furar o campo da necessidade, que é o da política, com um poema, para armar um estado de utopia? Eu insisto nisso do poema porque preciso de um sonho, Carlos, ao menos um. Fazer a flor que posso ou tocar com a ponta do meu nariz num ponto furo de alguma ou qualquer imagem do mundo.
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3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado?
Se eu começar a pensar em Fortaleza só como este lugar que tem nome de forte, posso começar a me sentir como Julio Cesar Chaves e desferir uns ganchos de esquerda, quase sem desperdício. Você deve lembrar que em 1990 Chaves ficou mais célebre ainda depois de derrubar Meldrick Taylor no último round, quando perdia por pontos, e mandou a frase: "Luta se ganha no ringue, não enquanto se discute." A frase é boba, de efeito, mas aponta pro chão, aponta pra onde o ato se constrói, pra onde é a queda, pra onde não tem porquê. Eu abandonei a discussão, Carlos, tenho me enchido de cansaço porque ela anda simplista, fora de prumo, atrás de significados e sem impertinência, e aí tanto faz se em Fortaleza ou em qualquer outro canto. Mas não abro mão de minha postura, do meu lugar político como poeta, por isso tenho a impressão de que não larguei o chão enquanto faço um pouco de silêncio e ando mais devagar, mas é só um pouco.
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í.ta**

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

a leitura como mediação

artigo publicado por mim, hoje, no jornal "hoje", que circula por jaraguá do sul e região.
o título do post é o título do artigo.
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A leitura como mediação___Ítalo Puccini*_____É do Daniel Pennac, escritor francês, estudioso das práticas de leitura e do que significa, ou pode significar, o ato de ler, a afirmação de que “O verbo ler não suporta o imperativo”. É com essa frase que ele inicia seu livro “Como um romance”, um livro de ensaios sobre a leitura e suas (im)possibilidades, escrito de uma forma muito íntima e segura, cativante para o leitor.
Em toda a primeira parte do livro, chamada de “Nascimento do alquimista”, Pennac discorre sobre a formação do sujeito-leitor, deixando claro que o contato inicial com a leitura ocorre primeiramente na forma da leitura ouvida, no momento da contação de uma história.
E é aí que faz sentido a afirmação inicial de Pennac. O contato inicial de um sujeito com a prática da leitura não pode comportar o imperativo: leia. Ao contrário. Esse contato precisa ser mediado e cuidado com atenção por alguém que já tenha afinidade com tal prática. A leitura deve significar segurança ao sujeito que a está conhecendo, uma vez que se encontra na voz dessa pessoa mediadora a entonação que demarca o real e o ficcional no que é lido, preparando, dessa forma, um leitor que será capaz de uma leitura “entrelinhas”, que é a verdadeira leitura.
É de se perguntar o que será que acontece para que uma criança que antes pedia a alguém para lhe contar determinadas histórias, e que buscava desvendar mistérios de personagens e cenários, ao aprender a ler e ao se ver diante de obrigações de leituras, torna inverso seu sentimento por aquele ato? E aí o autor francês propõe pensares que levam a refletir sobre tal situação: talvez porque ela não tenha aprendido o ato em si, mas somente o gesto do ato. Talvez porque a leitura tenha, de fato, se tornado dogmática: é necessário ler, e pronto. Ou seja, talvez porque esta criança tenha sido abandonada quando mais precisava de alguém para auxiliá-la a compreender por que aquele ato, outrora encantador, tornou-se obrigatório e enfadonho.
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* Escritor e professor de Literatura
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í.ta**

sábado, 10 de outubro de 2009

poetas e poemas



a
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li dois livrinhos de poemas de dois autores dos quais não havia lido nada: wilson bueno e antonio cicero.
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do wilson bueno li o livro “pequeno tratado de brinquedos”, da coleção catatau, da editora iluminuras. um livro repleto de tankans. (tankam é um estilo de escrita japonesa. dizem que o tankam é o pai do kaihai, uma vez que este são os três primeiros versos daquele. o tankam, então, é composto por cinco versos, três na primeira estrofe, e dois na segunda. e, assim como o haikai, explora a construção de imagens nos poucos versos, e exige esforço do leitor numa possível construção de sentidos para os versos-imagéticos).
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achei alguns tankans difíceis de compreender. outros mais acessíveis. mas isso vai da bagagem leitora do leitor. percebi que a minha ainda não é compatível com o cara, não. aliás, com nenhum dos dois autores.
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mesmo assim, pesquei algumas coisinhas muito, muito bem feitas, olha só:
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“indiscrição
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lua na vidraça
espia dentro do quarto
o corpo da moça
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o corpo dentro do corpo
o quarto dentro do quarto”
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“vigília
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anda a noite longa
daqui até o alvorecer
uma lua tonta
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depois fica só um som
no algodão dessa manhã”
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“modigliani
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quantos homens longos
moram num homem apenas?
- só o homem e um poema
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sob paletós derrotados
os dúbios cabides choram”
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_ _ _ _ _e do antonio cícero eu li o livro “a cidade e os livros”. peguei-o pelo título mesmo. e são poemas muitíssimo bem escritos. de uma construção formal e poética primorosa. e também repleto de significâncias (neologismo proposital):
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começa com um poeminha de epígrafe, escrito por rose ausländer, que diz assim:
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“Espaço
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Ainda há espaço
para um poema
_________Ainda é o poema
um espaço
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Onde se pode
respirar".
_ _ _ _ _ _e daí, do cícero, encontrei coisas belas assim:
___“lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm”,
(do poema homônimo ao livro).
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“Merde de Poete
________Quem gosta de poesia ‘visceral’,
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda”.
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______í.ta**