quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

o livro 5

“Você já pôde folheá-lo um momento na livraria. Ou não pôde, porque ele estava envolvido em sua embalagem de celofane? Você está no ônibus, de pé entre as pessoas, segurando-se à barra de apoio com uma das mãos, enquanto com a outra tenta desfazer o embrulho, um pouco como um símio, um símio que quer descascar uma banana sem se soltar do galho ao qual está suspenso. Cuidado com suas cotoveladas; peça desculpas, ao menos.
Talvez na livraria não tenham embrulhado o livro e apenas o tenham posto em uma sacola. O que simplifica as coisas. Você está no carro, parado no sinal vermelho: tira o livro, rasga o invólucro transparente, lê as primeiras linhas. Uma tempestade de buzinas se desencadeia; o sinal está aberto, você bloqueia o tráfego.
Você está sentado à sua mesa de trabalho, o livro posto como por acaso entre seus papéis; levanta um dossiê e se apercebe dele; abre-o distraidamente, com os cotovelos apoiados na mesa, os punhas nas têmporas, podia-se dizer que está mergulhado no exame de um caso, e eis que se encontra a percorrer as primeiras páginas do romance. Você se apóia suavemente no encosto da cadeira, levanta o livro à altura do nariz e, com o assento bem equilibrado sobre os pés traseiros, pousa os seus em uma gaveta lateral da escrivaninha, aberta inteiramente – a posição dos pés durante a leitura é da maior importância. Ou melhor, estica as pernas por cima da mesa, no meio dos dossiês em pauta”.

Autor: Italo Calvino
Livro: Se um viajante numa noite de inverno
Ano: 1979
pp. 12-13.

í.ta**

Um comentário:

Anônimo disse...

Ui.
Quando se compra um livro para ler na viagem e o esquece na mala, de onde não pode pegá-lo.
Rafael