segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

esvaziar a palavra, desatá-la


Não havia lido nada de Viviane Mosé até aportar por uns dias no apê da Regininha . Tenho dela Pensamento chão e Toda palavra, mas, por acúmulo de outras leituras, ainda não os pude folhear. E, fuçando os livros da Rê, resolvi pegar Desato para ler antes de dormir. Resolvi encarar a escrita de Viviane, há tanto tempo adiada. Livro fininho, escrito em versos. Não foi surpresa contentar-me tanto com o que li.
Como o livro não é meu, fiz um esforço danado para não sublinhá-lo, para não interagir com ele dessa forma. Consegui. Mas foi difícil.
Deparei-me, nos versos de Desato, com uma escrita muito próxima a um fluxo de consciência em torno de barcos e rios, do corpo, de palavras e de coisas; de vida. Ficam nas linhas abaixo um pouco de versos que não servem para nada. É a insignificância deles que me atrai.
Coisas: "Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas/ (...) Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas". Eu também. De livros e de nomes, como há no texto. De corpos também. "Queria escrever pessoas inteiras. Mas não hão". Sim. Porque "Pessoas são embarcações sujeitas a afundamentos".
Palavras: "As palavras ainda não ditas são as únicas coisas / Que têm mais consistência do que uma xícara de café quente / (...) palavras derramam das mãos". Neste momento me escorrem. "A palavra quando escrita ela se firma. / Quando dita ela sem som. / Quando pensada ela sem corpo". "As palavras em gestação escolhem as bocas / e mãos por onde dizer. // Ando à procura das minhas palavras". Ando mesmo. Perdido. Sempre. Por isso continuo. "Acho que a palavra nasce de mim agora como água / Brotando pelas unhas. Há um rio nas letras. Na junção delas. / Na música que fazem. Há um rio". "Palavras insistem como vespas em meus ouvidos. / E eu sou toda ouvidos. Daquilo que não tem corpo. / Nem precisa ter. // Palavras são pedaços de tempo. / Falar é soltar instantes pela boca. // Escrevo. As letras caminham sobre suas próprias perdas. / A palavra cala consigo mesma. A palavra consente. / A mim a palavra consente". A mim não sei.
Vida: "Viver é um exercício de contenção. // A vida é uma pausa do jorro. Um instante de duração". "Vida é corrente sanguínea pulsando no corpo como um rio. / E pele envolvendo tudo em contornos". "Viver não é só ser comido pelo tempo. Viver é também comer / Com os olhos, com a boca, com o corpo todo, com as mãos. / Eu como a vida e ela me come". Eu sinto prazer nisso.
Barcos e pessoas: "Barcos podem flutuar sobre as águas. // Pessoas são barcos que se confundem com as águas / Quando choram". São.
Não servir: "Eu não sei pra que servem aquários, guarda-chuvas, aviões, / Mas eu gosto. / (...) Eu gosto de não saber pra que servem tantas coisas / Como escorpiões e baratas / (...) Mesmo sem saber eu gosto / Do sem saber eu gosto". Por não saber eu vivo.
Poema: "Poema é o estado em que as palavras falam sozinhas. / (...) O poema é a música do pensamento / E as asas". E o corpo, eu digo. "Vou pegar poemas distraídos, pensei. / Poemas em banhos de sol e mar. / Poemas descansando ou nadando. / Poemas dormindo. / Quero pegar poemas sambando". "Estou começando a estar aprisionada de poemas / E poemas gostam de vibrações. Não de emoções". Porque a vida vibra. "Depois de escrever poemas eu melhoro pras coisas. / Mas não sei mais o que é poema e o que não".
Mar: "Queria me mudar para bem perto do mar. Pensei. / Mas o mar é aqui. Queria me mudar para bem perto daqui". "Um rio transborda de mim como uma fonte no mar / Me amar agora eu poderia". Belo e traiçoeiro, eis o mar. Eis o humano.
Escrever: "Se pudesse saber o certo não escreveria. / Escrevo pra descrever o que não cabe em lugar nenhum. // Escrevo palavras em vez de sentidos. Escrevo letras. // As letras têm sua morada própria e ninguém / Consegue saber onde". "Escrevo é uma palavra que se impõe em meus princípios". Persegue-me.
Dor: "Dor é uma contração da vida. / Uma retração, um encolhimento. / Algumas dores chegam a se constituir como um nó / Que o corpo faz com ele mesmo".
Para fechar, a necessidade: "Mais uma vez na dor encontrei a palavra. A alegria me cala. / Ela é o descanso das letras. Mas eu não vivo pra letras / Eu vivo pra vida. // (...) Eu preciso morrer pra encontrar palavra eu preciso perder / Eu preciso Palavra".



í.ta **
_______________________
Autora: Viviane Mosé
Livro: Desato
Editora: Record
Ano: 2006
98p.

2 comentários:

regina disse...

uxa, parceirinho, que bom ver que estás te divertindo com meus livros, e que eles não estão tão solitários...Viviane é boa demax, né?
beijinho pra ti e pra Nice... e pros dois anônimos que aproveitam meu apê. Espero que Floripa esteja sendo legal procês!
beijão da RÊ nordestina

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Deu vontade de ler...

Te indiquei ao Prêmio Dardos.

Grande abraço,

*CC*