sábado, 29 de novembro de 2008

de repente, um oi (terceira semana)

3ª semana.

Fazia calor, lembro-me. O silêncio ocupava o espaço. Paralelepípedos soltos. Telhados limpos, janelas fechadas, jornais nas calçadas. Cães com sede, deitados sob um pedaço de sombra na brita. Varais ausentes de roupa, repletos de grampos. Tudo estava tão real. Não havia mais como entrar em contato, descobri. Jogado para longe, incomunicável tornei-me, a todos, inclusive a ela. Deitado sob minhas próprias pernas, assim permaneci um dia inteiro. O silêncio significou, naquele momento, todo meu corpo.
Dormi tensos dias e noites enquanto soube que ela fumava mais um cigarro sob a mesma sacada na qual tudo tivera início. Pedaço de papel rasgado. Carta abandonada. Destinatário não encontrado, remetente falecido. Resolvi ligar.
Rabisquei letras soltas, sem propósito algum. Desejei mudar: ação desprezível. Lágrimas de sal cicatrizaram minha face. Em vidros quebrados de uma antiga janela pinguei as gotas que de meus olhos escorreram, acompanhado de um contínuo fluxo de sangue, a sair-me do nariz. Vaga lembrança de vida própria. Tremeram-me os dedos e a língua. A fala não saiu. O vento gelado do outono batizou-me o peito e desalinhou os poucos fios de cabelo que ainda me sobravam. Resgatei frases, princípios antigos, filosofias (inúteis, ali percebi) de vida

"só me deixe aqui quieto
isso passa
amanhã é um outro dia
não é?".
í.ta**

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