quinta-feira, 27 de novembro de 2008

de repente, um oi (segunda semana)

2ª semana.
Escrever não mais é suficiente. As palavras não são capazes de traduzir tudo o que sinto ou penso. Será que um dia traduzirão? Não sei. Sinto-me escrava delas. Como a Martha Medeiro escreve: “quanto mais escrava / mais escrevo”. Sinto-me impotente diante delas. A quantidade de espaços em branco no papel diminui e o tudo escrito resume-se ao nada presente em mim. Então para quê aquele oi, ainda pergunto-me.
Para insistir. Para manter-me vivo. É isso. Apaixonar-se é adiar a própria morte. Eu sei, eu li As intermitências da morte, do Saramago. Eu queria uma morte como aquela. Ah, eu quero, sim. Se eu pudesse, pegava-a no colo e fazia-a dormir, em paz. A morte em paz. É lindo isso. Eu acho.
Aqui passo mais uma noite acordado. Escrevo não sei para quem. Ou sei. Há um leitor, que no momento sou eu. Mas qual eu é este? Desejo que estes escritos venham a ter outros leitores. Outras vidas. Questão de observar por novos ângulos: triângulos. É difícil me sentir melhor assim. Acostumo, mas não me acomodo. Não quero a definição e a explicação de tudo. Quero, apenas, sentir. Se possível, isolado do pensar. Vivo, ainda, no fazer da utopia uma realidade. A esperança que lateja.
Também, sinto que algo em mim sumiu desde o acontecido. Algo desapareceu. Procurei um esconderijo, o colo. Desejei apenas compartilhar da felicidade. Sinto alguma mudança. Ou não? Ou é algo que desejo e não acontece? Tem sido difícil me acostumar à montanha-russa na qual, com medo de altura, brinco sem parar. Posso optar por algum outro brinquedo, posso optar por novos lugares, posso me dispor a trocar de roupas, ou até mesmo de cabelo. Mas não. Opto por permitir-me um tempo ao desejo que não sei qual é. Sinto tudo ser uma questão de tempo, e ação, por conseguinte. Mas também pode ser que novamente eu esteja me enganando. Falta sintonia e sobram rachaduras. Processo de reconstrução.
Amei-a, sim. Sem que ela soubesse (pelo menos até o momento em que um oi se transformou em palavras mais sérias). A distância era grande, mas não impedia. Gostaria, agora, de voltar no tempo. Pará-lo. Estar ao lado dela. É reconfortante pensar assim. Um futuro juntos? Seria legal. Numa mesma casa? Também seria legal. Num mesmo quarto, numa mesma cama? Às vezes, quem sabe, afastando-se um pouco. A distância, curta, creio que faria-nos bem. Duas vidas distintas, isoladas em si mesmas. Dois sujeitos distintos, isolados em si mesmos. Completávamos-nos. Eu pelo menos acho isso. Gostaria de deitar e sentir o colo dela, os seios, a boca, o cabelo, as mãos a me acariciar. O mundo poderia ser menor, as distâncias menores, as facilidades para estarem juntos maiores.
Preciso agir. Preciso consertar o que fiz. Era um simples oi, como sempre. Não foi. Agora é cômodo demais deixar que o tempo ajeite as coisas.
í.ta**

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