domingo, 30 de novembro de 2008

de repente, um oi (quarta e última semana)

4ª semana.

Vim me esconder mais longe. Cá em cima, ainda mais ao canto inferior de um mito-imbecil. Lugar em que o silêncio fala por si só. É disso que preciso. Nem a respiração emite qualquer som passível de audição. É o princípio de um novo fim, sinto.
í.ta**

sábado, 29 de novembro de 2008

de repente, um oi (terceira semana)

3ª semana.

Fazia calor, lembro-me. O silêncio ocupava o espaço. Paralelepípedos soltos. Telhados limpos, janelas fechadas, jornais nas calçadas. Cães com sede, deitados sob um pedaço de sombra na brita. Varais ausentes de roupa, repletos de grampos. Tudo estava tão real. Não havia mais como entrar em contato, descobri. Jogado para longe, incomunicável tornei-me, a todos, inclusive a ela. Deitado sob minhas próprias pernas, assim permaneci um dia inteiro. O silêncio significou, naquele momento, todo meu corpo.
Dormi tensos dias e noites enquanto soube que ela fumava mais um cigarro sob a mesma sacada na qual tudo tivera início. Pedaço de papel rasgado. Carta abandonada. Destinatário não encontrado, remetente falecido. Resolvi ligar.
Rabisquei letras soltas, sem propósito algum. Desejei mudar: ação desprezível. Lágrimas de sal cicatrizaram minha face. Em vidros quebrados de uma antiga janela pinguei as gotas que de meus olhos escorreram, acompanhado de um contínuo fluxo de sangue, a sair-me do nariz. Vaga lembrança de vida própria. Tremeram-me os dedos e a língua. A fala não saiu. O vento gelado do outono batizou-me o peito e desalinhou os poucos fios de cabelo que ainda me sobravam. Resgatei frases, princípios antigos, filosofias (inúteis, ali percebi) de vida

"só me deixe aqui quieto
isso passa
amanhã é um outro dia
não é?".
í.ta**

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

de repente, um oi (segunda semana)

2ª semana.
Escrever não mais é suficiente. As palavras não são capazes de traduzir tudo o que sinto ou penso. Será que um dia traduzirão? Não sei. Sinto-me escrava delas. Como a Martha Medeiro escreve: “quanto mais escrava / mais escrevo”. Sinto-me impotente diante delas. A quantidade de espaços em branco no papel diminui e o tudo escrito resume-se ao nada presente em mim. Então para quê aquele oi, ainda pergunto-me.
Para insistir. Para manter-me vivo. É isso. Apaixonar-se é adiar a própria morte. Eu sei, eu li As intermitências da morte, do Saramago. Eu queria uma morte como aquela. Ah, eu quero, sim. Se eu pudesse, pegava-a no colo e fazia-a dormir, em paz. A morte em paz. É lindo isso. Eu acho.
Aqui passo mais uma noite acordado. Escrevo não sei para quem. Ou sei. Há um leitor, que no momento sou eu. Mas qual eu é este? Desejo que estes escritos venham a ter outros leitores. Outras vidas. Questão de observar por novos ângulos: triângulos. É difícil me sentir melhor assim. Acostumo, mas não me acomodo. Não quero a definição e a explicação de tudo. Quero, apenas, sentir. Se possível, isolado do pensar. Vivo, ainda, no fazer da utopia uma realidade. A esperança que lateja.
Também, sinto que algo em mim sumiu desde o acontecido. Algo desapareceu. Procurei um esconderijo, o colo. Desejei apenas compartilhar da felicidade. Sinto alguma mudança. Ou não? Ou é algo que desejo e não acontece? Tem sido difícil me acostumar à montanha-russa na qual, com medo de altura, brinco sem parar. Posso optar por algum outro brinquedo, posso optar por novos lugares, posso me dispor a trocar de roupas, ou até mesmo de cabelo. Mas não. Opto por permitir-me um tempo ao desejo que não sei qual é. Sinto tudo ser uma questão de tempo, e ação, por conseguinte. Mas também pode ser que novamente eu esteja me enganando. Falta sintonia e sobram rachaduras. Processo de reconstrução.
Amei-a, sim. Sem que ela soubesse (pelo menos até o momento em que um oi se transformou em palavras mais sérias). A distância era grande, mas não impedia. Gostaria, agora, de voltar no tempo. Pará-lo. Estar ao lado dela. É reconfortante pensar assim. Um futuro juntos? Seria legal. Numa mesma casa? Também seria legal. Num mesmo quarto, numa mesma cama? Às vezes, quem sabe, afastando-se um pouco. A distância, curta, creio que faria-nos bem. Duas vidas distintas, isoladas em si mesmas. Dois sujeitos distintos, isolados em si mesmos. Completávamos-nos. Eu pelo menos acho isso. Gostaria de deitar e sentir o colo dela, os seios, a boca, o cabelo, as mãos a me acariciar. O mundo poderia ser menor, as distâncias menores, as facilidades para estarem juntos maiores.
Preciso agir. Preciso consertar o que fiz. Era um simples oi, como sempre. Não foi. Agora é cômodo demais deixar que o tempo ajeite as coisas.
í.ta**

terça-feira, 25 de novembro de 2008

de repente, um oi

1ª semana.

Toda noite era mesma rotina. Um oi discreto, tímido. Não, melhor, um oi com medo. Medo de ser rejeitado. Medo da perda, mesmo que posse nenhuma eu tivesse sobre algo. Chegava apressado da rua, respirava de modo ofegante, não me trocava, não ia me lavar, não. Tinha bem claro o que eu desejava fazer. Um oi.
O tempo se encarregara de fincar em mim vivências há pouca sentidas. Cicatrizes no corpo. Marcas de um passado-ainda-presente.
í.ta**

domingo, 16 de novembro de 2008

O livro 4


"Um livro traz sua própria história ao leitor.
(...) os livros infligem a seus leitores um simbolismo muito mais complexo do que o de um mero utensílio. A simples posse de livros implica uma posição social e uma certa riqueza intelectual.
(...) sei que algo morre quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a eles com uma nostalgia pesarosa.
(...) os livros davam-me um lar permanente, e um lar que eu podia habitar exatamente como queria, a qualquer momento, por mais estranho que fosse o quarto em que tivesse de dormir. (...) Cada livro era um mundo em si mesmo e nele eu me refugiava.
(...) o mundo que se revelava no livro e o próprio livro jamais poderiam ser, de forma alguma, separados".

Autor: Alberto Manguel
Livro: Uma história da leitura
Ano: 1997
p. 30.Editora: Companhia das letras
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Í.ta**

sábado, 8 de novembro de 2008

A subversão culpada


Já afirmara o escritor argentino Alberto Manguel, em Uma história da leitura, que Um livro traz sua própria história ao leitor. É este o sentimento que fica ao término da leitura das dez narrativas presentes em A culpa é do livro (Design Editora, 2008), do escritor, também argentino, Gabriel Gómez. Um sentimento já expressado por Marisa Lajolo, de que Cada leitor, na individualidade de sua vida, vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que, ao longo da história de um texto, este foi acumulando. Cada leitor tem a história de suas leituras, cada texto, a história das suas.
Dez narrativas. Abrindo cada narrativa, uma epígrafe escolhida a dedo, cuidadosamente, que seduz o leitor para aquilo que virá nas próximas páginas, as dez personagens-leitoras. Cada uma com uma história muito própria com relação a algum livro. A culpa é sempre do livro. A culpa pelo bilhete perdido, pelo desejo incomum de devorar os livros cheirando-os, pela solidão e loucura provocadas por uma ausência de livros. A culpa pela busca do nada. A culpa pela exaltação da inutilidade. As melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam. Construir junto a algum livro uma história própria é algo maravilhosamente inútil feito por cada personagem-leitora do livro de Gómez.
Inutilidade esta representadora de um ato subversivo. Talvez o ato mais subversivo dos dias de hoje. Mergulhar na história de um livro, abraçar este livro, torná-lo algo inerente a si, e, principalmente, deixar claro o desligamento das coisas mundanas no momento em que se lê tal livro, são ações que assustam e que incomodam muito a quem não as vivencia. É o sujeito-leitor, hoje em dia, o maior revolucionário, aquele que se incorpora a um livro para engendrar-se na vida.
Livros, sozinhos, não fazem ruídos. Acumulam pó. Livros são exigentes. Para movê-los, para extrair deles algum som possível, exige-se grande esforço. Ser leitor é colocar-se à disposição deste esforço. É o leitor o ingrediente fundamental de uma história. Um leitor perspicaz, sensível ao que existe ao seu redor. Um leitor que trata a leitura como interação com o mundo e consigo mesmo. Um leitor corajoso, que a todo o momento se vê diante de escolhas a fazer, que vive sempre uma batalha em busca de algum sentido. Um leitor de livros errantes, que sente demais o medo de passar um livro para a frente.
Estes sujeitos-leitores presentes em A culpa é do livro representam também o leitor trazido por Piglia, em O último leitor. O leitor extremo, sempre apaixonado e compulsivo; viciado, que não consegue deixar de ler, insone, sempre desperto, para quem a leitura é uma forma de vida, para quem a literatura dá um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica. São, estes sujeitos-leitores, os últimos leitores, aqueles leitores em busca do sentido experiência perdida, que dão à literatura uma utilidade inimaginável. Que dão ao livro uma vida transformadora.

Trecho do livro:

“Quando voltei a ler a frase daquele poema, lembrei-me, surpreso, que existia um bilhete dentro de algum livro da minha biblioteca, guardado propositadamente para que eu pudesse ler, muito tempo depois. Minha mente tinha aparentemente criado um bloqueio em relação àquele pedaço de papel e, após todos estes anos em que nem sequer me lembrava de sua existência, fiquei curioso pelo seu conteúdo. Mal sabia onde poderia estar escondido, depois de anos, e nem o que ele dizia.
Talvez algumas pessoas saibam a minha idade, aparência e profissão (muitas vezes tentei não mentir!), mas todos esses dados não me descreveriam por completo. Os livros, eles sim, conseguem me expor como um espelho sem máscaras, embora com algumas vírgulas e reticências. E pelo que lembrei agora, também por alguma ou outra história incompleta contada em algum bilhete esquecido entre suas páginas.
Minha biblioteca abriga diversos volumes, de várias gerações. É verdade que ela já não é tão completa, mas ainda restam aqueles de amor secreto. Não sei quantos deles só abri para folhear e quantos li, de fato. Cultivei o ato da leitura sabendo que nenhum livro é o primeiro, e nenhum é o último. Sempre percebi que formar uma biblioteca é um ato de criação; assim, como considero livros o principal instrumento da imaginação, não os leio tentando aprisionar o superficial. Todos esses livros são, para mim, companheiros vivos, que sorriem, choram, abusam, formam, acalentam, respiram. Minha surrada colcha de retalhos literários. Convivem pacificamente entre novos e velhos, lidos e esquecidos, clássicos e anônimos e valem pela satisfação que provocam em quem os têm nas mãos. Eu os sinto todos ligados a mim por laços invisíveis e remotos”. (do conto O bilhete perdido, pp. 24-25).
Í.ta**