segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Quando penso nos outros

Não consigo explicar porque gosto tanto de ler. Fica vago eu aqui justificar coisas do tipo “porque a leitura faz bem ao desenvolvimento do ser humano”, algo que tanto falo nas vezes em que apresento minhas pesquisas sobre leitura. Há algo a mais que extrapola, também, a idéia de, através da leitura, paradoxalmente, abstrair-se do mundo para nele encontrar algum sentido (apesar de eu gostar muito dessa idéia do Daniel Pennac).

Terminei a leitura de “Pena de ganso”, da Nilma Lacerda, e, no durante, percebi uma possibilidade de entender este meu gostar da leitura. Não digo que alcancei uma resposta, mas percebi algo que ainda não havia percebido.

Há um sentimento em mim, quando leio, de pensar nos outros. Muito. Não sou um ser humano dos mais altruístas. Há uma individualidade em mim muito grande e forte. E me dei conta de que penso demais nas pessoas (próximas a mim ou não, independe) ao ler. Cresce em mim uma vontade de presentear alguém, ou de simplesmente sinalizar algumas poucas palavras: “lembrei-me de você ao ler tal coisa. Acho que gostará”.
Com música também, só que com menos freqüência, porque eu leio mais do que ouço. E com a leitura é algo mais puro, sinto. E algo mais constante. Sei lá, faz-me bem sentir isto, esse pensar no outro, mesmo que em função de algo específico. Chega de “algos”. É isto. Ler também é se conhecer, alguém já disse. Concordo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

senhas

"Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem".

(Adriana Calcanhoto
disco: senhas,
1992)

í.ta**

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O leitor que move a utilidade literária

A relação de afeto que a literatura demanda por parte do sujeito-leitor, daquele que se encoraja ao desconforto e a despir-se em uma relação íntima com o texto, maravilhosamente apresentada por Artur de Vargas Giorgi no DC Cultura de 14/06/2008, evocaram neste sujeito-leitor aqui um (re) pensar duas condições, a meu ver, inerentes à literatura: sua (in) utilidade no contexto escolar, e a condição de ser leitor desta literatura.
Gosto muito de pensar e de sentir que as melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam disso. Mas também sinto a necessidade de pensar na utilidade de algumas coisas, como, por exemplo a utilidade da escola e a utilidade da literatura enquanto disciplina escolar. Posso até amar que as diversas formas de arte sejam vistas como coisas-sem-serventia neste mundo consumista e utilitarista em que se vive hoje em dia, mas também preciso pensar a arte como sendo útil, pois para mim ela tem uma utilidade maravilhosa, que é a de me permitir sonhar, crer em algo, encontrar algum sentido para o viver. E, se em mim a arte provocou uma mudança no meu modo de ser/pensar/agir, eu preciso crer que o contato com ela poderá também provocar mudanças em outras pessoas, e aí eu me deparo com o útil que posso encontrar nela, e o aceito.
Nessa contextualização é que vejo como possível indagar a importância e a utilidade da disciplina literatura dentro da escola. Sinto-me instigado a pensar nela como essencial. Não de uma maneira grosseira e prepotente, mas sim como uma convicção, uma segurança de que ela pode contribuir, e muito, no processo de formação dos sujeitos-alunos.
A literatura é a arte da palavra escrita. É a manifestação do real e do imaginário através da palavra escrita. A literatura envolve, impreterivelmente, o ato de ler, uma prática de leitura. A leitura pode ser apontada como o meio mais eficiente para se alcançar o senso crítico. O ato de ler – independentemente do como e do o que se lê – está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, dentro da qual ele possui direitos e deveres a cumprir, como também ao desenvolvimento do ser humano enquanto sujeito, enquanto um ser histórico, subjetivo, singular.
Se a literatura é o trabalho desenvolvido com a prática da leitura do texto escrito (não só, mas principalmente), e se a leitura é condição sinequanom para a formação e o desenvolvimento do ser humano como um sujeito-social, a finalidade da literatura é a de contribuir, através de uma prática constante do ato de ler, para essa formação social e subjetiva do sujeito-aluno (a quem ela é primeiramente destinada na escola).
Diante disso, qualquer indagação do porquê de se trabalhar a literatura na escola perde o sentido. Conforme as palavras apresentadas por Ana Maria Machado em seu Balaio: livros e leituras, As obras literárias nos convidam a um exercício de liberdade de interpretação e de respeito pelas diferenças. Colocam diante de nós o desafio de enveredar por um discurso que oferece diversos planos de leitura, numa linguagem rica em potencialidade inesperadas, cheia de ambigüidades. Como a vida.
Neste quadro da utilidade da literatura há, então, um sujeito-leitor, proposto pelo filósofo e lingüista Umberto Eco em seus Seis passeios pelo bosque da ficção como um ingrediente fundamental não só do processo de contar uma história, como também da própria história.
Um leitor perspicaz, sensível ao que existe ao seu redor, que constrói junto ao texto um sentido próprio, este que traz imbricadas em si dimensões de ler, de viver, e de estar no mundo deste sujeito-leitor. Um leitor que trata a leitura como interação com o mundo e consigo mesmo. Um leitor corajoso, que a todo o momento se vê diante de escolhas a fazer, que vive a batalha em busca do sentido apresentada por Marta Morais da Costa em seu Mapa do mundo: crônicas sobre leitura, na qual escritor e leitor, irmanados lutam a mesma luta vã, derrotados pela força da palavra, vingam-se espalhando seus sentidos em muitas e múltiplas interpretações.
Este sujeito-leitor aqui discutido também pode ser o leitor trazido por Piglia, em O último leitor. O leitor extremo, sempre apaixonado e compulsivo; viciado, que não consegue deixar de ler, insone, sempre desperto, para quem a leitura é uma forma de vida, para quem a literatura dá um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica.
Assim, o leitor dessa literatura útil é o leitor que interage com o texto, que cria e recria sentidos, que relaciona o texto a outros já lidos, a situações já vividas, que compreende as ideologias presentes em cada texto, e o fato de um texto nunca apresentar sentidos completos. É o leitor que Manguel, em Uma história da leitura, defende como aquele que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo.
É o último leitor, aquele leitor em busca do sentido experiência perdida, que dá à literatura uma utilidade inimaginável.