sexta-feira, 22 de agosto de 2008

o corpo nosso de cada dia

"Nesse início de século 21, o padrão estético de corpo caracteriza-se pelo biotipo longilíneo e magro, como aqueles de modelos vistos em campanhas televisivas, na mídia escrita e em outdoors. O corpo, para ser bonito na atualidade, deve seguir a regra do padrão estético culturalmente difundido e disseminado. Ou seja, é fabricado um padrão visual e estético pré-estabelecido que deve ser buscado e consumido pela sociedade.
Os dispositivos de poder utilizam os meios de comunicação de massa para captar e administrar os desejos, pensamentos e ações dos corpos, transformando-os em necessidades adquiridas. "Um quilinho a mais" faz muita diferença, sim. Para perdê-lo, não se poupam esforços.
Esse corpo-padrão transforma-se em objeto de consumo no momento em que se idealiza um padrão estético na massa e cria-se toda uma intenção de adquirir ou até mesmo de comprar este corpo ideal. Por trás disso surge todo um mercado que traz em suas prateleiras opções como próteses de silicone, operações de lipoescultura, lipoaspiração, retirada de costelas (para afinar a cintura) e sessões de bronzeamento artificial.
Só nos reconhecemos como "belos" se nossos corpos se refletirem no espelho social do signo de beleza. No dia-a-dia, percebemos um grande número de pessoas com dificuldades de lidar com o próprio corpo. Não são raras as pessoas que se envergonham com sua auto-imagem corporal: o obeso, o baixinho, o não-bronzeado, a mulher com celulite, o portador de deficiência e tantas outras, todas vítimas da ridicularização de companheiros e estranhos, passando, muitas vezes, pela rejeição dentro do seu próprio grupo.
Estar fora dos padrões da estética é uma realidade muito árdua, uma vez que a ditadura da beleza humilha a quem não se dobra a seus padrões. Um exemplo é a senhora/mulher que entra na academia porque quer enrijecer o seio flácido pela idade, pois não consegue mais amar o marido de luzes acesas por vergonha. Essa mulher é um sujeito envenenado pela cultura do corpo belo. A jovem que vai a óbito por anorexia morreu de objetivação da mesma cultura: sentiu na "carne".
Em nossa cultura somática, a aparência virou essência. Hoje somos o que aparentamos. Estamos, portanto, expostos ao olhar do outro, sem lugar para se esconder, se refugiar. Estamos totalmente à mercê do outro, já que o que existe está à mostra. Somos vulneráveis ao olhar do outro, mas, ao mesmo tempo, precisamos desse olhar, de sermos percebidos; caso contrário, não existimos. O olhar do outro serve, assim, como uma espécie de referência sobre o nosso próprio corpo, sobre nossa estética, sobre os modos de nos vestirmos.
É o momento de criarmos um contra-cultura com relação a essa padronização burra do corpo, a fim de que existam novas lentes para se olhar esse corpo. A estética não pode mais estar acorrentada a padrões impossíveis de se chegar. Ao olhar para o espelho, é preciso que nos eduquemos para encontrar em nosso corpo o sorriso e a saúde, não mais uma celulite ou quantos centímetros temos de diminuir no abdômen. Precisamos começar a utilizar o espelho para ressaltar a verdadeira beleza e não mais a beleza comprada em magazines estéticos. Precisamos procurar as academias em prol da qualidade de vida e não mais em prol de um glúteo rígido".
escrito por Fábio Zóboli (Doutor em educação e professor da Faculdade de Brusque (Unifebe)), com a colaboração de Carlos Eduardo Raimundo da Silva, acadêmico de educação física da Unifebe, e Ítalo Puccini, acadêmico de letras da Univille.
publicado no jornal ANotícia de 20 de agosto de 2008, p. 10.
flores e tomates, à vontade.
í.ta**

domingo, 17 de agosto de 2008

alguma coisa de muito diferente


a literatura é um troço louco. algo nela me encanta de uma maneira difícil de explicar. escrevo, escrevo, escrevo e leio sobre, mas, ainda bem, jamais conseguirei defini-la, muito menos expressar com uma mínima proximidade o que ela provoca em mim.
fiz a leitura de De repente, nas profundezas do bosque, do escritor israelense Amós Oz, e, novamente, durante e após a leitura, o sentimento de que a literatura provoca no ser humano algo que foge de sua compreensão me invadiu. é uma sensação muito boa, alguma coisa de muito diferente de todo o resto. ainda bem que não consigo mais viver sem sentir isto. um livro após o outro. um sentimento que complementa o outro.
uma fábula muito gostosa, sem maiores enrolações, escrita com leveza. os capítulos são, em sua maioria, curtos. não são todos os capítulos que terminam fazendo alguma ponte direta com o próximo. não há essa necessidade.
em uma aldeia pacata não há bicho algum. o que seria um mistério, é tratado com certo descaso pelos adultos. não por algumas crianças. poucas. três ou nove. o mergulho delas em tal mistério é o fio condutor da narrativa. elas sentem que há algo a mais naquele bosque. seus olhos imploram por novas imagens. elas não recuam. e... (é fazer a leitura e descobrir o que elas descobrem; ou não).
nunca havia lido nada do escritor israelense. se a primeira impressão é a que fica, esta é muito boa. é um livro infanto-juvenil. desconheço se o único do autor para essa faixa etária. independentemente desta categorização, é um livro para todos aqueles que se dispõem a se aventurar por entre árvores e personagens, mergulhando no mistério da solidão humana e animal.
í.ta**

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

três leituras. três sentires.






Três recentíssimas leituras que, por motivos diferentes, me fizeram parar de respirar por maravilhosos dias.


O quieto animal da esquina (João Gilberto Noll)


Narrativa de prender o fôlego. Uma narrativa toda centrada no personagem (este sem nome, o que encanta ainda mais). Acompanhá-lo é senti-lo na pele. Tão empolgado que fiquei, do Noll ainda li "Hotel Atlântico" (também de prender o fôlego), e "Canoas e Marolas".


Kafka e a boneca viajente (Jordi Sierra i Fabra)


A força da palavra. O poder da literatura. O encantamento que as duas proporcionam. Kafka como personagem. Um personagem que se torna autor de cartas de uma boneca para a menina que perdera tal boneca. Cartas estas que fazem a menina acreditar na vida e no amor de viver. História linda por demais. Sensibilíssima.


Renato Russo - o trovador solitário (Arthur Dapieve)


Depois de assistir por duas vezes à peça "Renato Russo - o trovador solitário", mergulhei fundo na biografia de um artista que tanto admiro. Li pela segunda vez a biografia, e novamente terminei ela com a sensação de que o cara foi alguém que vai além de nossa vã tentativa de tentar compreendê-lo. Ouvir suas músicas é o que nos resta. E tentar com elas ter o mínimo de sensibilidade que elas passam. Foi de arrepiar também.
Í.ta**