quinta-feira, 5 de junho de 2008

palavra-vidro

Silêncio.

Ruas vazias; azuis. Nas paredes a sombra da vertigem. Vizinhos ausentes. O silêncio ocupado pelo vento irrequieto: reflexo de si. Ou ele do vento. Paralelepípedos em comunhão, flores dançando para um mesmo lado, telhados limpos, janelas fechadas, jornais nas calçadas. Cães com sede, deitados sob um pedaço de sol na brita. Varais ausentes de roupa, repletos de grampos. Tudo tão real. No canto de um prédio abandonado, o medo. Dias assim, na ausência de luz. Chegara a pensar que o sol fora castigado, que a lua havia esquecido de voltar ao seu lugar de origem após o eclipse. Dormia e acordava, então, sem nada sentir. O que o agoniava mais ainda: a si mesmo pouco sentia além da angústia da fraqueza interna.
Era seu o corpo que ia daqui para lá, depois um pouco mais para o lado, então, voltava ao local de antes. Esperava que as horas passassem, assim como os vagões dos intermináveis trens que dali podia ver, e ouvir. Imaginava melodias com o barulho daquelas rodas de ferro girando na medida sob a ponte também de ferro segurada por madeiras. O corpo reagia a tudo isso. Dores intermináveis, agudas. Gotas de tristeza a inundar cidades-corações: resposta imediata ao descaso para com a própria vida já inexistente no próprio corpo.
Sentia saudades, muitas. Tentara, em vão, contato. De repente, apenas três ou nove palavras: "Ah, sim, tudo bem". "Tudo bem mesmo?" "Sim, sim". Agora sozinho, novamente. Livro à mão, aberto, na última página. História conturbada, cabeça embaralhada. O interruptor ainda não encontrara. A chave também não. Na realidade, nem procurara. Apenas deixara-se guiar por seus pés. As costas doíam, desde o início do dia. O chão era macio em demasia, parecia nuvem. Desejava ser ouvido, desejava gritar. A inquietação era cada dia mais profunda. Procurava, silenciava, parava, pensava, andava, rolava, dormia, sorria, chorava, gritava, enraivecia, dormia, se entregava: e não o porquê. De repente aquela luz. Claridade, também, em demasia. Corpo ainda rígido, coração ainda intranqüilo, medo sempre-ainda presente. Quem sabe agora algo poderia mudar. Dependeria dele mesmo. Mas achava melhor não arriscar.
Insignificante. Tudo o que pudera ser dito perdera-se em meros segundos, todos os gestos apagaram-se e substituídos foram por um só: o fechar de dois pares de olhos. E a lembrança agora é mortal. Escuro-azul. Mãos em frente, tocaram-se. Destocaram-se. Não queriam mais, não adiantava. A atração agora inexistia. Livros e cigarros não mais compartilhados. Deuses e discussões de lado. Sob o travesseiro, uma proteção. Sob o piso gelado, outra. Tão longe, tão perto. O amor, que um dia existira, fora guardado.
Eis o fato: os lábios desgrudaram-se, a boca abriu-se, a língua lá dentro mexeu-se para o alto, para o baixo, para um lado, para o outro. Os dentes permaneceram onde estiveram; a palavra mesmo assim saiu: fuga.
A flecha corta o ar frio, rompe as nuvens, perfura o vento, amolece o sol. Ele tinha pressa. Precisava impedir essa palavra de encontrar-se e agarrar-se ao seu alvo. O ferimento causado por ela seria profundo e doloroso. A cicatriz seria eterna, colorida pela mágoa, enfeitada pela dor. Os ouvidos seriam, ao final, os que menos a sentiriam, entrando, estando, cruel; apenas abririam suas portas e diriam: "não o estrague mais ainda". A velocidade, já lá dentro, não deixaria dúvidas: "desculpe, mas a realidade, nua e crua, traz consigo o estado de quase-morte, o desmaio, o frio, o pânico. Submeter-se a ela é lutar; você versus palavra. E a hegemonia jamais será quebrada. Tudo porque enquanto o inconsciente não tornar-se consciência e enquanto o eu não alojar-se no ser humano, a traição será uma constância, as flechas continuarão lançadas, com ou sem alvo, propositadamente ou por deslize, mero deslize, desatenção, e a palavra permanecerá engasgando/enganando o próprio dono, mais forte, mais viva, mais ciente, maior causadora de conflitos, não de soluções. Tudo porque ela é o inconsciente humano em si mesmo”.
Ele não conseguira vencê-la e o resultado era esta quase-morte.
Í.ta**

4 comentários:

Í.ta** disse...

duro. este texto é duro. assim eu o sinto. assim eu o leio. assim eu o escrevi.

foi produzido para o curso de formação de escritores do sesc, ministrado pelo Manoel Ricardo de Lima.

não consegui melhorá-lo. continua duro. continua faltando algo. ou não. tudo depende de quem o lê e do como ele é lido.

pode ser que ele tenha que ser mesmo duro dessa forma. pode ser que assim ele signifique muito a algum leitor. pode ser que mais maleavel ele perdesse o que de bom tem (sim, porque eu gosto de acreditar que ele tem algo de bom. não muita coisa, pode ser, mas tem).

é isto. arriscando mais uma vez. dando a cara a tapa.

os dois textos para o livro do curso do sesc ficaram mais soltos, de melhor leitura. mas tudo é relativo nesse sentido. ou não, claro.

boa leitura,
í.ta**

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Cara, o texto é muito bom. Duro, sim, mas muito bom.



Grande abraço,

*CC*

Adri.n disse...

Escrever também é provocar...
Cada pessoa tem sua visão e a maneira que reagimos a elas é o que nos torna o que somos. Nada melhor que estar aberto - dar a cara a tapa...
Sem essas opiniões, não há reação e também não há crescimento, alguém que conheço costuma dizer que o bom é discordar he he
Do meu lado continuo a afirmar que amo tanto os dias iluminados quando os tempestuosos, também na literatura. Gostei do texto (gosto das imagens que ele produz, do tempo parado, das imagens congeladas, que tambem é o estado da angustia )É seu, ame-o !
E nada melhor que amar o tomates também, assim nossos corações permanecem leves, livres, sempre! e podemos ser nós mesmos sem culpa (^^).

Boa viagem! :p
Adri

Diego Viana disse...

O texto é duro mesmo, mas é daqueles que prendem a atenção e deixam o leitor nervoso. Não dá pra ficar indiferente, e essa é uma qualidade muito melhor do que ser solto.