quinta-feira, 26 de junho de 2008

literatura: novidade e impessoalidade

"Querer escrever algo 'novo' é uma estupidez; resta-nos escrever sobre nós, sobre nossas obsessões, angústias, temas recorrentes – a escritura é pessoal, é corporal –, e se meu texto se parece com o de outros escritores, tanto faz: parece que temos algo em comum, e isso me aproxima deles, e é bom. Querer escrever algo próprio, meu, cujos temas e provocações são sempre os mesmos, é uma desculpa para não tentar algo novo, outro texto, outro trabalho, e corro o risco de, por preguiça, não escrever nada mais sério, mais trabalhado do que as coisas que escrevo agora.
Dizer que a literatura não deve ser 'pessoal' é falso. A literatura é inteiramente pessoal, mas como não posso sentar com alguém num bar e, de repente, começar a conversar sobre o tempo e a morte, escrevo, e alguém vai ler, e vai pensar sobre o tempo e a morte. A literatura é uma contradição: não falo com ninguém sobre o tempo e a morte, escrevo sobre isso, e reclamo depois que, por não ser lido, não consigo discutir sobre esses temas com ninguém".
retirado do site do Renato Tapado, há muito, muito tempo.
Í.ta**

quarta-feira, 11 de junho de 2008

o frio


Tem frio
um frio muito fino

(Adília Lopes. Antologia. 7 Letras; Cosac & Naify. p. 130. 2002)

Í.ta**

quinta-feira, 5 de junho de 2008

palavra-vidro

Silêncio.

Ruas vazias; azuis. Nas paredes a sombra da vertigem. Vizinhos ausentes. O silêncio ocupado pelo vento irrequieto: reflexo de si. Ou ele do vento. Paralelepípedos em comunhão, flores dançando para um mesmo lado, telhados limpos, janelas fechadas, jornais nas calçadas. Cães com sede, deitados sob um pedaço de sol na brita. Varais ausentes de roupa, repletos de grampos. Tudo tão real. No canto de um prédio abandonado, o medo. Dias assim, na ausência de luz. Chegara a pensar que o sol fora castigado, que a lua havia esquecido de voltar ao seu lugar de origem após o eclipse. Dormia e acordava, então, sem nada sentir. O que o agoniava mais ainda: a si mesmo pouco sentia além da angústia da fraqueza interna.
Era seu o corpo que ia daqui para lá, depois um pouco mais para o lado, então, voltava ao local de antes. Esperava que as horas passassem, assim como os vagões dos intermináveis trens que dali podia ver, e ouvir. Imaginava melodias com o barulho daquelas rodas de ferro girando na medida sob a ponte também de ferro segurada por madeiras. O corpo reagia a tudo isso. Dores intermináveis, agudas. Gotas de tristeza a inundar cidades-corações: resposta imediata ao descaso para com a própria vida já inexistente no próprio corpo.
Sentia saudades, muitas. Tentara, em vão, contato. De repente, apenas três ou nove palavras: "Ah, sim, tudo bem". "Tudo bem mesmo?" "Sim, sim". Agora sozinho, novamente. Livro à mão, aberto, na última página. História conturbada, cabeça embaralhada. O interruptor ainda não encontrara. A chave também não. Na realidade, nem procurara. Apenas deixara-se guiar por seus pés. As costas doíam, desde o início do dia. O chão era macio em demasia, parecia nuvem. Desejava ser ouvido, desejava gritar. A inquietação era cada dia mais profunda. Procurava, silenciava, parava, pensava, andava, rolava, dormia, sorria, chorava, gritava, enraivecia, dormia, se entregava: e não o porquê. De repente aquela luz. Claridade, também, em demasia. Corpo ainda rígido, coração ainda intranqüilo, medo sempre-ainda presente. Quem sabe agora algo poderia mudar. Dependeria dele mesmo. Mas achava melhor não arriscar.
Insignificante. Tudo o que pudera ser dito perdera-se em meros segundos, todos os gestos apagaram-se e substituídos foram por um só: o fechar de dois pares de olhos. E a lembrança agora é mortal. Escuro-azul. Mãos em frente, tocaram-se. Destocaram-se. Não queriam mais, não adiantava. A atração agora inexistia. Livros e cigarros não mais compartilhados. Deuses e discussões de lado. Sob o travesseiro, uma proteção. Sob o piso gelado, outra. Tão longe, tão perto. O amor, que um dia existira, fora guardado.
Eis o fato: os lábios desgrudaram-se, a boca abriu-se, a língua lá dentro mexeu-se para o alto, para o baixo, para um lado, para o outro. Os dentes permaneceram onde estiveram; a palavra mesmo assim saiu: fuga.
A flecha corta o ar frio, rompe as nuvens, perfura o vento, amolece o sol. Ele tinha pressa. Precisava impedir essa palavra de encontrar-se e agarrar-se ao seu alvo. O ferimento causado por ela seria profundo e doloroso. A cicatriz seria eterna, colorida pela mágoa, enfeitada pela dor. Os ouvidos seriam, ao final, os que menos a sentiriam, entrando, estando, cruel; apenas abririam suas portas e diriam: "não o estrague mais ainda". A velocidade, já lá dentro, não deixaria dúvidas: "desculpe, mas a realidade, nua e crua, traz consigo o estado de quase-morte, o desmaio, o frio, o pânico. Submeter-se a ela é lutar; você versus palavra. E a hegemonia jamais será quebrada. Tudo porque enquanto o inconsciente não tornar-se consciência e enquanto o eu não alojar-se no ser humano, a traição será uma constância, as flechas continuarão lançadas, com ou sem alvo, propositadamente ou por deslize, mero deslize, desatenção, e a palavra permanecerá engasgando/enganando o próprio dono, mais forte, mais viva, mais ciente, maior causadora de conflitos, não de soluções. Tudo porque ela é o inconsciente humano em si mesmo”.
Ele não conseguira vencê-la e o resultado era esta quase-morte.
Í.ta**