quinta-feira, 22 de maio de 2008

O sabor do saber

Dois artigos publicados recentemente por "A Notícia" colocam uma importante reflexão sobre a forma como nós, seres humanos, temos vivido em sociedade nesse início de século 21. A influência midiática sobre a vida e o comportamento humano, proposta pela acadêmica Marilene Anacleto ("Big Brother da vida real", 18/4, página 10), e o ritmo de vida apressado que levamos, exposto pelo articulista Apolinário Ternes ("No lugar da pressa", 18/4, página 11), oportunizam um pensar mais atento ao humano que existe em cada um de nós e à forma como somos levados a nos comportar diariamente.
Tudo é tão rápido e dura tão pouco. Vomitam-se lançamentos de produtos, seja de qual linha, estilo ou utilidade for. Um detalhezinho altera o preço do produto e joga o recém-lançado na vala do ultrapassado. Consome-se muito em tempo recorde. Não se digere nada.Tem-se não para usufruto próprio, mas para apreciação coletiva. A imagem vista aos olhos de outrem é a mais importante de se preservar. O interno perde espaço para o externo. A vida particular escancara as portas para o "grande irmão" sempre presente. Não se pode ficar fora do padrão social: beleza, pertences, saberes.
Vivemos em uma sociedade anoréxica. Não é só a comida regurgitada visando a um padrão de beleza. Regurgitam-se sentimentos e notícias. Ficamos com um aqui, com um outro ali. Um morre aqui e é anunciado no jornal, o outro é preso com drogas no bolso e amanhã ninguém mais se lembra de nada. Já temos novos "ficantes", novos mortos para não fazer diferença, novos presos para serem soltos.
O saber é regurgitado também. Não tem sabor este saber do qual fingimos fazer uso. Não há como bem fazer uso dele. Em tão poucos minutos já está defasado. Tudo é simplificado para rápida absorção. Saber podre. Saber que, digerido, torna-se rapidamente escasso.Há necessidade de se sentir o sabor do saber.
Há necessidade de se degustar cada palavra apreendida, cada significado incorporado, cada sentimento correndo a pele. Caso contrário, a fugacidade do viver continuará ditando seu impiedoso ritmo, comprometendo, com isso, nossa rara sensibilidade e nossa capacidade de apreender.
Saborear o saber aos poucos, eis o caminho nessa falsa fome de cultura. Um livro pode oferecer isso. Um poema também pode. Uma imagem, mais ainda, uma vez que as cores atraem muito mais do que o preto-e-branco das palavras e do papel. O ato de ler, independentemente do que se lê, é um caminho frutífero em possibilidades para esse enriquecimento gustativo e cultural.
O ser humano, ao fazer uso constante da leitura, passa, com o tempo de prática, a desenvolver em si virtudes e aptidões conscientes, tudo isso pelo fato de que, ao adotar a leitura como atividade de prática constante em sua vida, ele, ser humano, passa a melhor conhecer-se e a compreender-se, assim como a compreender o mundo e o que realmente quer significar esse ato de ler que ele pratica. Compreensão é fruto de leitura, assim como consciência crítica. Elementos indissociáveis; alimentos do espírito para o humano.
Bom apetite para nós.
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Artigo publicado no jornal A Notícia de 22-05-08, p. 11
Í.ta**

terça-feira, 13 de maio de 2008

arriscando mais uma vez

etapas

silenciei escuros
em quartos de dor.

cruzei pernas, braços e dedos
em ritual
desconhecido
cruzei espinhos no peito.

cruzaram-me o olhar;
prenderam-me numa cruz:
estado de coma.

ainda apresento seqüelas.

Í.ta**

domingo, 11 de maio de 2008

para esses dias...

... em que o silêncio toma conta.
e nada mais resta a fazer.

"A linguagem não espera

que eu me compreenda.

Falar é ateu".


(Carlos Besen. In: Oco Hálito, de Clotilde Zingali. Editora Nova Letra, 2007. p. 103).

Í.ta**