quinta-feira, 24 de abril de 2008

O ler: por e para mim

A prática da leitura, o contato vivo com as letras, palavras, sons e imagens e os significados e sentidos construídos a partir desse contato, assim como o gosto pela leitura desenvolveram-se em minha vida quando eu cursava o primeiro ano do Ensino Médio. Antes dessa época eu também lia, porém inconsciente de que lia e do que a leitura provocava em mim. Sobretudo, era uma leitura em menor quantidade e entusiasmo, e apenas a leitura impressa: livros, revistas e jornais.
Objetivando meu aperfeiçoamento, junto com o desejo de me sentir tocado pela leitura, passei da leitura das páginas de esporte dos jornais, e das revistas que tratavam sobre futebol, à leitura do jornal quase que em seu todo, depois para revistas, semanais e mensais, que tratavam de política, história, religião, entre outros assuntos. Um livro passou a me acompanhar a todos os lugares em que eu ia.
Hoje, no mínimo um livro continua me acompanhando por aonde vou – para filas em repartições públicas ou agências bancárias, por exemplo, não há, a meu ver, melhor solução. Minhas leituras hoje também são mais variadas, envolvendo gêneros literários (romances, coletâneas de crônicas e contos, poemas), publicações mais específicas das áreas de Letras e de Psicopedagogia, e jornais, diariamente. Espanto-me ao constatar o quanto o ato de ler se incorporou ao meu ser de uma maneira em que hoje não consigo me imaginar sem a presença do mesmo guiando-me diariamente.
Posso afirmar que estes anos iniciais como sujeito-leitor me propiciaram um amadurecimento bastante considerável no que tange ao ato de ler em si. Tenho um senso de organização que me permite ler materiais de gêneros diferentes e também realizar leituras de modos diferentes.
Leio, por exemplo, por prazer e por necessidade. Duas formas de prazer, e duas formas de necessidade. O prazer do conhecimento elaborado a partir da junção das palavras – esta possuidora de um quê de sedução e aprisionamento –, e o prazer de simplesmente ler, de nada mais fazer a não ser ler, de rir e ignorar comentários do tipo: “levanta daí e vai fazer alguma coisa”. A necessidade que minhas próprias escolhas me impõem (leituras voltadas aos cursos de graduação e de pós-graduação; leituras voltadas à minha atividade como professor de Literatura; leitura voltada às pesquisas às quais me proponho realizar anualmente), e a necessidade que incorporei a mim de sempre estar lendo algum material escrito.
Não concebo um dia proveitoso sem a leitura de algo escrito. O hábito que deixou de significar apenas algo a ser feito quando nada mais tinha a se fazer se tornou o vício de primeiro destinar quais as leituras serão feitas no dia, para depois se pensar no que fazer após tais leituras. Por imodéstia (contextualizando-me num país em que a prática da leitura anual por habitante não chega a dois livros), e aproveitando-me do título de um dos discos do Belchior, sinto tal vício como um “vício elegante”, do qual de forma alguma penso em me livrar, uma vez que seus resultados atestam um saldo pra lá de positivo.
O ato de ler está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, e que o influencia na maneira de pensar e agir.
Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é enxergar além do campo de visão que um olhar abrange. Ler é transbordar pelas páginas e amolecer a dureza que as palavras contêm quando isoladas, quando não sentidas – lidas. Ler é alcançar um porto antes nunca alcançado por alguém. É criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É manter-se firme e seguro num terreno tortuoso, ora belo, ora traiçoeiro. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido.
Ler comporta diversas práticas, milhares de significados, diferentes estados de espírito.
Í.ta** - inspirado em todas as citações anteriores sobre O ler

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Vento no litoral

O retrato da dor causada por uma partida repentina, para o sempre. O fim de um relacionamento. O desequilíbrio emocional de Renato Russo. De repente, Robert Scott, a grande paixão (ou amor seria melhor?) da vida de Renato, vai embora do Rio de Janeiro, do apartamento em que ambos moravam, para nunca mais voltar. Sem justificar-se de nada. Apenas a ação de ir. E no líder da Legião Urbana fica um profundo corte a perfurar-lhe o coração, o corpo e a alma, chamado perda.
Renato sabia que nesse mundo ninguém é dono de ninguém (ao menos não deve ser). Não se considerava dono de Scott – rapaz a quem conhecera em uma de suas passagens por Nova Yorque – nem se via como servo do mesmo. A perda sentida não era de Scott, enquanto corpo, enquanto homem. A dor relacionava-se ao amor interrompido bruscamente, aos sentimentos únicos vividos entre os dois, nos rápidos dois anos em que viveram juntos no RJ. A dilacerante perda era de duas almas que longe uma da outra pouco provável sobreviveriam; Renato sentia isso.
Será Scott não se considerava merecedor de um amor tão intenso e profundo quanto o que Renato sentia por ele? Será Scott não sentia poder contribuir a tanto amor? Não sentir com a mesma intensidade? E por isso preferiu partir, como forma de respeito ao sentimento puro de Renato? Será havia se esgotado em Scott aquela paixão que os unira? Nada se sabe. Apenas ficou o registro do quanto esse sentimento chamado saudade, aliado à dor, tomou conta do ser de Renato Russo, dilacerando-o com rapidez, num mesmo passo em que ele sentiu que deveria erguer-se e aprender a viver com essa faca pontuda dentro de si, fazendo o possível para não se deixar ferir demais por ela.
É o que fica claro nos versos de Vento no litoral. O desejo de deixar-se ir, “Eu deixo a onda me acertar / E o vento vai levando tudo embora”, e a sapiência de que se deve ficar: “Quando vejo o mar / Existe algo que diz: / - A vida continua e se entregar é uma bobagem”. A dor da perda de tudo o que se viveu e planejou junto, a ciência de que aquele sentimento não mais seria vivido, e o quanto seria doloroso seguir em frente somente com a lembrança do que um dia sentiu-se na prática, Renato demonstra ao cantar “Dos nossos planos é que tenho mais saudade / Quando olhávamos juntos na mesma direção (...) Agimos certo sem querer / Foi só o tempo que errou / Vai ser difícil sem você”.
O poeta apresenta o quanto o sentimento por Scott permaneceria consigo até o último dia de sua vida, e que jamais seria possível apagar as marcas que ficaram no seu ser. Canta ele “Aonde está você agora / Além de aqui dentro de mim? (...) Porque você está comigo o tempo todo”. Ao mesmo tempo sabia que se erguer era fundamental. Seguir em frente por si e por quem, segundo o mesmo dizia, era a verdadeira Legião Urbana: o público, os fãs. A consciência de que, apesar de toda a dor a cortar-lhe a alma a fundo, ele teria que, a partir daquela ruptura brusca, viver por si mesmo, sentir-se bem consigo mesmo, está expressa nos versos: “Já que você não está aqui / O que posso fazer é cuidar de mim / Quero ser feliz ao menos / Lembra que o plano era ficarmos bem?”.
Renato parecia saber que através da escrita de seus versos e das composições das músicas da banda ele poderia ajudar-se a superar tal perda. É o que demonstra ao cantar “Sei que faço isso pra esquecer”, este isso em referência ao processo de produção dos versos e da música, momento em que o poeta sentia que valeria a pena seguir em frente.
Vento no litoral é uma das mais belas músicas escritas e cantadas por Renato Russo. Pouco mais de cinco minutos de duração que levam um ouvinte sensível a sentir-se sob as pedras lisas de um mar agitado, sendo levado pelas ondas, acompanhado pela ajuda do vento, tirando de si as marcas indeléveis que uma paixão interrompida causara. Num mesmo instante em que se pode visualizar o movimento das ondas trazendo de volta à beira da praia o mesmo ser anteriormente engolido, agora já mais leve, sem tal faca cortante dentro de si chamada saudade, e pronto para seguir em frente por si mesmo, relembrando com carinho e respeito o que um dia tornara-se amor vivido na prática.
Na versão ao vivo da música, no disco Como É Que Se Diz Eu Te Amo, Renato diz: "Eu cheguei à conclusão de que se o amor é verdadeiro não existe sofrimento, senão fica um cara doente como o cara dessa música agora", e começa a cantar os versos de Vento no litoral. A consciência do estado no qual ele ficara com a partida para sempre de Scott. O reflexo principal do fim desse amor, no autor dos versos dessa música, é o ceticismo que passou a tomar conta dele no que se refere a um possível amor verdadeiro nessa vida terrena.
Uma obra prima de alguém que sempre deixará nos seus eternos admiradores esse mesmo sentimento que o consumiu por certo tempo: saudade.

Í.ta**

quinta-feira, 10 de abril de 2008

o novo "rebento"

Os filhos aos poucos vão crescendo e se desenvolvendo...

Novo como sou, tenho como filhos meus ainda poucos textos publicados. E hoje pude sentir a emoção de mais um nascimento, após dolorida gestação.

Meu artigo "O modernismo português e Fernando Pessoa" está presente na 9° edição da RevistaMafuá. O link para acessar o texto é este: http://www.nupill.org/mafua/index.php?option=com_content&task=view&id=18&Itemid=37

flores e tomates após a leitura do mesmo,
por favor,
à vontade.

Í.ta**