quarta-feira, 19 de março de 2008

A utilidade da arte literária


Gosto muito de pensar (e de sentir) que as melhores coisas da vida não servem para nada (e nem precisam). Mas também sinto a necessidade (essa é a palavra, necessidade) de pensar na utilidade de algumas coisas. Sim, a utilidade da escola, a utilidade da minha disciplina, a utilidade do meu ser nesse contexto, nessa sociedade, nesse mundo. Posso até amar que as diversas formas de arte sejam vistas como coisas-sem-serventia num mundo consumista e utilitarista em que se vive hoje em dia, mas também preciso pensar a arte como sendo útil, pois para mim ela tem uma utilidade maravilhosa, que é a de me permitir sonhar, crer em algo, desejar ardentemente mudar o mundo, começando por mudar a mim mesmo. E, se em mim a arte provocou uma mudança no meu modo de ser/pensar/agir, eu preciso crer que o contato com ela poderá também provocar mudanças em outras pessoas, e aí eu me deparo com o útil que posso encontrar nela, e o aceito.
Nessa contextualização é que me permito também indagar a importância e a utilidade da disciplina (literatura) dentro da escola. Sinto-me instigado a pensar nela como essencial. Não de uma maneira grosseira e prepotente, não, mas sim como uma convicção, uma segurança de que ela pode contribuir, e muito, no processo de formação dos sujeitos-alunos. E é essa segurança sobre a disciplina que me levará a um outro pensar, próximo desse: qual a finalidade daquilo que eu faço? A que (quem) se destina? Para que trabalhar a literatura?
A literatura é a arte da palavra escrita. É a manifestação do real e do imaginário através da palavra escrita. Pode-se existir a leitura para além da palavra, leitura de imagens, de gestos, de movimentos, mas não pode existir a literatura sem a palavra, o que significa afirmar que a literatura envolve, impreterivelmente, o ato de ler, uma prática de leitura.
A leitura pode ser apontada como o meio mais eficiente para se alcançar o senso crítico. É ela quem pode fazer surgir no ser humano a consciência da qual ele necessita para situar-se no mundo e se perceber como um cidadão crítico importante e atuante em uma sociedade. É através dela que o sujeito pode passar a observar com um novo olhar as situações que vive, tornando-se mais questionador, mais ativo e menos passivo em relação aos fatos com os quais se depara em seu dia-a-dia. O ato de ler – independentemente do como e do o que se lê – está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, dentro da qual ele possui direitos e deveres a cumprir, como também ao desenvolvimento do ser humano enquanto sujeito, enquanto um ser histórico, subjetivo, singular.
De acordo com Zotz, é a leitura quem desenvolve a reflexão e o espírito crítico no ser humano. É através dela que o ser humano pode aprimorar seu raciocínio, sua forma de pensar. É, ainda, a leitura, para Zotz (2005, pp. 19-20), “(...) fonte inesgotável de assuntos para melhor compreender a si e ao mundo. Propicia o crescimento interior. Leva-nos a viver as mais diferentes emoções, possibilitando a formação de parâmetros individuais para medir e codificar nossos próprios sentimentos”.
Se a literatura é o trabalho desenvolvido com a prática da leitura do texto escrito (não só, mas principalmente), e se a leitura é condição sinequanom para a formação e o desenvolvimento do ser humano como um sujeito-social, a finalidade da literatura é a de contribuir, através de uma prática constante do ato de ler, para essa formação social e subjetiva do sujeito-aluno (a quem ela é primeiramente destinada na escola).
Para que trabalhar literatura? Ana Maria Machado expõe os calafrios que sente quando indagada sobre a importância da literatura (e da leitura, de qualquer material escrito) para o desenvolvimento do ser humano. Para ela, é o fim quando pessoas ligadas à educação, inclusive professores, perguntam-se (e a ela principalmente) por que é importante que as crianças leiam, e ainda questionam se há espaço para ela – leitura – hoje em dia. Segundo Machado (2007, p. 153), “a leitura é importante, e isso deveria ser tão evidente que dispensasse questionamentos. Não é só um hospital da alma, é também uma escola do espírito”.
A autora ainda destaca a importância da literatura, aumentando o entendimento que o ser humano pode, através dela, ter de si mesmo e dos outros, sentindo-se capacitado para enfrentar as situações desconhecidas, “graças a essa multiplicação de vidas obtida com a intensidade emocional e imaginativa que apenas a palavra permite, quando autor e leitor compartem um texto” (MACHADO, 2007, p. 160). Na opinião dela, as pessoas que se perguntam sobre importância da leitura e da literatura não sabem do que estão falando pelo simples fato de que não são leitores na prática.
Utilizando uma fala desta autora é que apresento minha justificativa do por que a disciplina de literatura é importante no contexto escolar, e do por que é imprescindível que as pessoas (aqui não só os sujeitos-alunos, mas os sujeitos-sociais de uma forma geral) mantenham um contato muito forte com a prática da leitura literária:
"As obras literárias nos convidam a um exercício de liberdade de interpretação e de respeito pelas diferenças. Colocam diante de nós o desafio de enveredar por um discurso que oferece diversos planos de leitura, numa linguagem rica em potencialidade inesperadas, cheia de ambigüidades. Como a vida. Num mundo em que cada vez mais se compreende como é vão ter a ilusão de uma educação que transmita respostas prontas, o contato com a arte em geral (e com as narrativas históricas e de ficção, em particular) nos obriga a lidar com a falta de certezas, nos relembra que não há apenas um significado único para as coisas e nos desperta para a formulação de nossas próprias idéias. Pode ser uma ferramenta preciosa para a consolidação da consciência coletiva e para a formulação de novas perguntas individuais, em nossa eterna busca de algum sentido que faça de nossa dor ou nossa perplexidade uma esperança de um futuro melhor"(MACHADO, 2007, pp. 62-63).
Í.ta** - com o pensamento constante na literatura

13 comentários:

Anônimo disse...

Li sua crônica hoje: “O que se fora” ela me pertence, não a tomei para mim. Ela foi escrita para e/ou sobre mim. E não poderia perder a oportunidade de contar ao autor o quanto sua obra faz parte de mim. Morro das antenas, foi onde eu e meu amor nos beijamos pela primeira vez, fizemos o percurso a pé e assistimos o pôr-do-sol. E hoje meu amor não é mais meu, nos separamos e ao ler sua crônica me senti como se o narrador visse a mim lembrando do que foi. É assombroso o quanto eu estou nela...
Se há utilidade na literatura não sei, mas que ela é capaz de abalar corações (e não é o que importa?)mais uma vez houve uma leitura que abalou o meu.

www.chuvazul.blogspot.com

Lorreine Beatrice disse...

Oi, Ítalo!
Muito pertinente esse seu questionamento como professor/leitor/escritor.
Não duvido mais da capacidade da literatura mexer com pessoas.
E toda a vez que isso acontece é como se houvesse uma mudança no jeito dela ver e interagir com o mundo.

Sobre o livro: posso enviar um pra você. O seu endereço não é o mesmo da época das cartas, né? [Devo ter algumas guardadas]
Me passe por email, então: lorreinebeatrice@gmail.com

Abraços

Lorreine Beatrice disse...
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Adri.n disse...

Diante de seu carisma sinto-me na obrigação de retribuir. Confesso que entrei aqui apenas para dividir minha experiência, não pude me conter (não é toda obra que nos toca que ainda temos a oportunidade de fazer isso, na verdade quase nunca...) e acabei vasculhando muitos de seus escritos e senti-me contagiada com algumas afinidades. Como ainda não conversamos sobre essas coisas? Que espécie de mundo é esse que precisamos de máquinas para nos descobrirmos “semelhantes”(não é bem essa palavra mas a qual eu procurava já fora retirada do frasco)?! Com quantas pessoas cruzamos todos os dias sem imaginar que elas têm muitos de nós e nós delas... Angustia-me pensar que jamais saberemos. Perdemos as trocas, as amizades, em meio à correria e ao caos moderno... Meu mundo constantemente em construção não dá conta de tudo. Mas não pára, e que graça tem as coisas prontas?! Nenhuma. É como dizem: importante é o caminho. O fim do livro nunca tem o sabor do começo, quando acaba fica um vazio que só é preenchido porque conseguimos “liga-lo” com outro ou com nós mesmos. E nunca deixamos de falar dele.
E por falar em livro, me apaixonei pela citação do mestre Saramago sobre ler e as margens do(s) rio(s). Tenho que ler, mas fiquei sem saber qual é. Socorro!

Gardagami disse...
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Regina disse...

Bom ver alguém compartilhando preocupações e pensamentos, e embarcar também nessa luta.
Sou tua fã, guri!
bj

Suzana Mafra disse...

Um sentir complementa o outro, claro

Obrigada pela visita ao Borboletras

Gostei do artigo. Li uma citação sobre leitura (do Harold Bloom) no blog 1 crônica por dia que instigou-me a pensar, deixei um comentário, gostaria de ver uma opinião tua por lá.

Abraços

TOOP disse...

Adoooooro literatura1 o mundo das palavras me encanta muito!
Mas de nada me serve tantas letrinhas, se eu não pude usa-las para expressar oq sinto!
;)

Rubens da Cunha disse...

apesar de eu ser da turma do Wilde, e prezar bastante a inutilidade, concordo também em muito com teus argumentos :))
abraços

guianafrancesa2005 disse...

Certa vez vi uma entrevista com Ziraldo e ele disse(e eu concordo) que o governo deveria incluir na cesta básica, um livro.

E por que não?????

Sim!!!!!! Nem que fosse apenas para as pessoas olharem e não lerem, mas um dia alguém pegará este livro e lerá!!!!!

Literatura é a alma da aprendizagem.

Amo!!!!

bj.,Gisele

www.inventandoagentesai.blogspot.com

barb michelen disse...
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Adri.n disse...

E mais uma vez volto para agradecer...
Essas tecnologias ainda são confusas para mim (nem ao menos sei em qual blog devo responder-lhe), mas estão se revelando uma boa experiência de trocas (ou será de receber?!).
O meu anjo do sonho é realmente muito generoso comigo, há duas semanas que sonhei com você e ao acordar lembrei-me do “Jaraguá em crônicas”, e agora penso que talvez não era para ler seu conto, mas para entrarmos em contato (ao menos uma alma que tem coisas maravilhosas para me ensinar ele me permitiu conhecer).
Obrigada pelas palavras de carinho com minha paixão literária e minhas frágeis tentativas de fazer parte, ao menos um pouquinho, desta arte. E que pensamento lindo esse seu, fez chover em meus olhos...

Obrigada!

Anônimo disse...

Thanks :)
--
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