terça-feira, 11 de março de 2008

Começo

"Plagiando" a Regininha, que trouxe no seu blog alguns começos marcantes de livros, apresento aqui os primeiros marcantes parágrafos de Se um viajante numa noite de inverno, do Italo que não é Puccini, muito menos cabeludo. É Calvino, e era um pouco calvo. Mas formado em Letras também, dizem os biógrafos...
Achei estupendo! Contagiante! Hilário!

"Você vai começar o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Pare. Concentre-se. Afaste qualquer outro pensamento. Deixe o mundo que o cerca se esfumar no vago. A porta, será melhor fechá-la; do outro lado, a televisão está sempre ligada. Diga imediatamente aos outros: 'Não, eu não quero ver televisão!' Fale mais alto, se eles não o ouvirem: 'Estou lendo! Não quero ser perturbado!' Com toda essa barulhada, pode ser que não o tenham escutado: fale mais alto, grite: 'Estou começando o novo romance de Italo Calvino"' Ou, se preferir, não diga nada; esperemos que eles o deixem em paz.
Tome a posição mais confortável: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado ou de bruços. Em uma poltrona, um sofá, uma cadeira de balanço, uma espreguiçadeira, um pufe. Ou em uma rede, se acaso tiver uma. Em sua cama, naturalmente, ou sob ela. Também poderá ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Segurando o livro ao contrário, evidentemente.
Não é fácil encontrar a posição ideal para ler, é verdade. Outrora, lia-se de pé diante de um facistol. Era hábito manter-se de pé. As pessoas repousavam dessa forma quando se casavam de andar a cavalo. Ninguém teve jamais a idéia de ler a cavalo; e, entretanto, ler bem ereto sobre os estribos, o livro posto sobre a crina do cavalo ou mesmo fixado a suas orelhas por um arreio especial, essa idéia lhe parece agradável. Seria necessário estar muito confortável para ler com os pés nos estribos; ter os pés levantados é a primeira condição para se apreciar bem um livro.
Bem, o que espera? Estique as pernas, ponhas os pés em uma almofada, ou duas almofadas, no braço do sofá, nas orelhas da poltrona, na mesa de chá, na escrivaninha, no piano, no mapa-múndi. Mas, antes de tudo, tire os sapatos, se quiser ficar com os pés para cima; senão, calce-os de novo. Mas não fique assim, com os sapatos em uma das mãos, o livor na outra.
Regule a luz para não cansar a vista. Faça isso tudo desde já, pois, uma vez mergulhado na leitura, não haverá meio de mudar de lugar. Providencie para que a página não fique na sombra: um aglomerado de letras negras sobre fundo cinza, uniforme como um exército de ratos; mas cuide bem para que não venha de cima uma luz forte demais que, refletindo-se na brancura crua do papel, aí corroa a negrura dos caracteres como, em uma parede, a luz solar do sul, ao meio-dia. Tente providenciar desde agora tudo o que possa interromper sua leitura. Se fuma: os cigarros e o cinzeiro ao alcance da mão. O que falta ainda? Tem vontade de fazer xixi? Fique à vontade.
Não que você espere alguma coisa em particular deste livro particular. Você é uma pessoa que, por princípio, não espera nada de nada. Há tanta gente, mais jovem, menos jovem que você, cuja vida se passa na expectativa de experiências extraordinárias! Dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, de tudo o que o futuro possa reservar. Você, não. Sabe que o melhor a esperar é evitar o pior. Essa a conclusão a que chegou, tanto em sua vida privada como com respeito a problemas mais gerais, mesmo problemas mundiais. E quanto aos livros? Justamente: como já renunciou a todos os outros domínios, você julga que poderá se permitir o prazer juvenil da expectativa ao menos em um setor bem circunscrito, como este dos livros. A você, os riscos e os perigos: a desventura não há de ser grave".

(CALVINO, Italo. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Nova Fronteira, 1979. pp. 9-10).

Í.ta**

4 comentários:

Regina disse...

Tinha me esquecido disso, hehehe...
Vou lá rever!(e conferir, tax pensando o quê!)
Além disso, fez bem pro meu ego (nada modesto, diga-se de passagem) ser citada, assim de início...
bj

Suzana Mafra disse...

Ítalo Calvino escreve bem, li outros livros dele, inclusive o Cidades invisíveis. Adorei conhecer o início, dá vontade de ler o livro inteiro e de ler o texto com os "começos" selecionados por Regina.

a propósito do encontro de cronistas, acabo de comentar no blog da Regininha, claro, no espaço da linda crônica que ela me dedicou.

obrigada pela visita ao borboletras.

bjos

Suzana feliz

Fenrisar disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Rubens da Cunha disse...

o melhor começo que eu conheço é de Hilda Hilst em Rutilo Nada: "os sentimentos vastos não tem nome" e depois seguem algumas páginas de perfeição :) valeu a publicação da resenha. Os 10% seguem logo :)