segunda-feira, 31 de março de 2008

O ler 5


"- Ler - diz ele - é sempre isso: uma coisa está aí, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material, que não pode ser mudado; através dessa coisa entra-se em contato com alguma outra, que não está presente, alguma coisa que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas pensável, ou imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é coisa passada, desaparecida, inacessível, perdida no reino dos mortos...

- Ou talvez porque ela não exista ainda, alguma coisa que é o objeto de um desejo, um temor, possível ou impossível - é Ludmilla quem fala: ler é ir ao encontro de uma coisa que vai existir mas que ninguém ainda sabe o que será... - Subitamente, você vê a Leitura debruçada para a frente, perscrutando, além da borda da página impressa, a aparição no horizonte de navios vindos como salvadores ou conquistadores, tempestades... - O livro que eu gostaria de ler agora é um romance onde se narraria a história ainda por vir como um trovão ainda confuso, a história com um H maiúsculo misturada ao destino das personagens, um romance que desse a impressão de que se está a ponto de viver uma confusão que não tem ainda forma nem nome...".


(Italo Calvino. Se um viajante numa noite de inverno. Ed: Círculo do livro, 1979. p. 71).


Í.ta**

quarta-feira, 19 de março de 2008

A utilidade da arte literária


Gosto muito de pensar (e de sentir) que as melhores coisas da vida não servem para nada (e nem precisam). Mas também sinto a necessidade (essa é a palavra, necessidade) de pensar na utilidade de algumas coisas. Sim, a utilidade da escola, a utilidade da minha disciplina, a utilidade do meu ser nesse contexto, nessa sociedade, nesse mundo. Posso até amar que as diversas formas de arte sejam vistas como coisas-sem-serventia num mundo consumista e utilitarista em que se vive hoje em dia, mas também preciso pensar a arte como sendo útil, pois para mim ela tem uma utilidade maravilhosa, que é a de me permitir sonhar, crer em algo, desejar ardentemente mudar o mundo, começando por mudar a mim mesmo. E, se em mim a arte provocou uma mudança no meu modo de ser/pensar/agir, eu preciso crer que o contato com ela poderá também provocar mudanças em outras pessoas, e aí eu me deparo com o útil que posso encontrar nela, e o aceito.
Nessa contextualização é que me permito também indagar a importância e a utilidade da disciplina (literatura) dentro da escola. Sinto-me instigado a pensar nela como essencial. Não de uma maneira grosseira e prepotente, não, mas sim como uma convicção, uma segurança de que ela pode contribuir, e muito, no processo de formação dos sujeitos-alunos. E é essa segurança sobre a disciplina que me levará a um outro pensar, próximo desse: qual a finalidade daquilo que eu faço? A que (quem) se destina? Para que trabalhar a literatura?
A literatura é a arte da palavra escrita. É a manifestação do real e do imaginário através da palavra escrita. Pode-se existir a leitura para além da palavra, leitura de imagens, de gestos, de movimentos, mas não pode existir a literatura sem a palavra, o que significa afirmar que a literatura envolve, impreterivelmente, o ato de ler, uma prática de leitura.
A leitura pode ser apontada como o meio mais eficiente para se alcançar o senso crítico. É ela quem pode fazer surgir no ser humano a consciência da qual ele necessita para situar-se no mundo e se perceber como um cidadão crítico importante e atuante em uma sociedade. É através dela que o sujeito pode passar a observar com um novo olhar as situações que vive, tornando-se mais questionador, mais ativo e menos passivo em relação aos fatos com os quais se depara em seu dia-a-dia. O ato de ler – independentemente do como e do o que se lê – está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, dentro da qual ele possui direitos e deveres a cumprir, como também ao desenvolvimento do ser humano enquanto sujeito, enquanto um ser histórico, subjetivo, singular.
De acordo com Zotz, é a leitura quem desenvolve a reflexão e o espírito crítico no ser humano. É através dela que o ser humano pode aprimorar seu raciocínio, sua forma de pensar. É, ainda, a leitura, para Zotz (2005, pp. 19-20), “(...) fonte inesgotável de assuntos para melhor compreender a si e ao mundo. Propicia o crescimento interior. Leva-nos a viver as mais diferentes emoções, possibilitando a formação de parâmetros individuais para medir e codificar nossos próprios sentimentos”.
Se a literatura é o trabalho desenvolvido com a prática da leitura do texto escrito (não só, mas principalmente), e se a leitura é condição sinequanom para a formação e o desenvolvimento do ser humano como um sujeito-social, a finalidade da literatura é a de contribuir, através de uma prática constante do ato de ler, para essa formação social e subjetiva do sujeito-aluno (a quem ela é primeiramente destinada na escola).
Para que trabalhar literatura? Ana Maria Machado expõe os calafrios que sente quando indagada sobre a importância da literatura (e da leitura, de qualquer material escrito) para o desenvolvimento do ser humano. Para ela, é o fim quando pessoas ligadas à educação, inclusive professores, perguntam-se (e a ela principalmente) por que é importante que as crianças leiam, e ainda questionam se há espaço para ela – leitura – hoje em dia. Segundo Machado (2007, p. 153), “a leitura é importante, e isso deveria ser tão evidente que dispensasse questionamentos. Não é só um hospital da alma, é também uma escola do espírito”.
A autora ainda destaca a importância da literatura, aumentando o entendimento que o ser humano pode, através dela, ter de si mesmo e dos outros, sentindo-se capacitado para enfrentar as situações desconhecidas, “graças a essa multiplicação de vidas obtida com a intensidade emocional e imaginativa que apenas a palavra permite, quando autor e leitor compartem um texto” (MACHADO, 2007, p. 160). Na opinião dela, as pessoas que se perguntam sobre importância da leitura e da literatura não sabem do que estão falando pelo simples fato de que não são leitores na prática.
Utilizando uma fala desta autora é que apresento minha justificativa do por que a disciplina de literatura é importante no contexto escolar, e do por que é imprescindível que as pessoas (aqui não só os sujeitos-alunos, mas os sujeitos-sociais de uma forma geral) mantenham um contato muito forte com a prática da leitura literária:
"As obras literárias nos convidam a um exercício de liberdade de interpretação e de respeito pelas diferenças. Colocam diante de nós o desafio de enveredar por um discurso que oferece diversos planos de leitura, numa linguagem rica em potencialidade inesperadas, cheia de ambigüidades. Como a vida. Num mundo em que cada vez mais se compreende como é vão ter a ilusão de uma educação que transmita respostas prontas, o contato com a arte em geral (e com as narrativas históricas e de ficção, em particular) nos obriga a lidar com a falta de certezas, nos relembra que não há apenas um significado único para as coisas e nos desperta para a formulação de nossas próprias idéias. Pode ser uma ferramenta preciosa para a consolidação da consciência coletiva e para a formulação de novas perguntas individuais, em nossa eterna busca de algum sentido que faça de nossa dor ou nossa perplexidade uma esperança de um futuro melhor"(MACHADO, 2007, pp. 62-63).
Í.ta** - com o pensamento constante na literatura

sábado, 15 de março de 2008

O mundo que transborda de si II


Meu texto sobre o livro "Aço e nada", do Rubens, foi publicado na edição de março da revista de literatura e arte GerminaLiteratura.

Segue o link para o texto http://www.germinaliteratura.com.br/2008/livros_olharesatentos_por_ipuccini.htm
Esta versão é mais abrangente da publicada no caderno Idéias do AN, mês passado.

Í.ta**

terça-feira, 11 de março de 2008

Começo

"Plagiando" a Regininha, que trouxe no seu blog alguns começos marcantes de livros, apresento aqui os primeiros marcantes parágrafos de Se um viajante numa noite de inverno, do Italo que não é Puccini, muito menos cabeludo. É Calvino, e era um pouco calvo. Mas formado em Letras também, dizem os biógrafos...
Achei estupendo! Contagiante! Hilário!

"Você vai começar o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Pare. Concentre-se. Afaste qualquer outro pensamento. Deixe o mundo que o cerca se esfumar no vago. A porta, será melhor fechá-la; do outro lado, a televisão está sempre ligada. Diga imediatamente aos outros: 'Não, eu não quero ver televisão!' Fale mais alto, se eles não o ouvirem: 'Estou lendo! Não quero ser perturbado!' Com toda essa barulhada, pode ser que não o tenham escutado: fale mais alto, grite: 'Estou começando o novo romance de Italo Calvino"' Ou, se preferir, não diga nada; esperemos que eles o deixem em paz.
Tome a posição mais confortável: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado ou de bruços. Em uma poltrona, um sofá, uma cadeira de balanço, uma espreguiçadeira, um pufe. Ou em uma rede, se acaso tiver uma. Em sua cama, naturalmente, ou sob ela. Também poderá ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Segurando o livro ao contrário, evidentemente.
Não é fácil encontrar a posição ideal para ler, é verdade. Outrora, lia-se de pé diante de um facistol. Era hábito manter-se de pé. As pessoas repousavam dessa forma quando se casavam de andar a cavalo. Ninguém teve jamais a idéia de ler a cavalo; e, entretanto, ler bem ereto sobre os estribos, o livro posto sobre a crina do cavalo ou mesmo fixado a suas orelhas por um arreio especial, essa idéia lhe parece agradável. Seria necessário estar muito confortável para ler com os pés nos estribos; ter os pés levantados é a primeira condição para se apreciar bem um livro.
Bem, o que espera? Estique as pernas, ponhas os pés em uma almofada, ou duas almofadas, no braço do sofá, nas orelhas da poltrona, na mesa de chá, na escrivaninha, no piano, no mapa-múndi. Mas, antes de tudo, tire os sapatos, se quiser ficar com os pés para cima; senão, calce-os de novo. Mas não fique assim, com os sapatos em uma das mãos, o livor na outra.
Regule a luz para não cansar a vista. Faça isso tudo desde já, pois, uma vez mergulhado na leitura, não haverá meio de mudar de lugar. Providencie para que a página não fique na sombra: um aglomerado de letras negras sobre fundo cinza, uniforme como um exército de ratos; mas cuide bem para que não venha de cima uma luz forte demais que, refletindo-se na brancura crua do papel, aí corroa a negrura dos caracteres como, em uma parede, a luz solar do sul, ao meio-dia. Tente providenciar desde agora tudo o que possa interromper sua leitura. Se fuma: os cigarros e o cinzeiro ao alcance da mão. O que falta ainda? Tem vontade de fazer xixi? Fique à vontade.
Não que você espere alguma coisa em particular deste livro particular. Você é uma pessoa que, por princípio, não espera nada de nada. Há tanta gente, mais jovem, menos jovem que você, cuja vida se passa na expectativa de experiências extraordinárias! Dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, de tudo o que o futuro possa reservar. Você, não. Sabe que o melhor a esperar é evitar o pior. Essa a conclusão a que chegou, tanto em sua vida privada como com respeito a problemas mais gerais, mesmo problemas mundiais. E quanto aos livros? Justamente: como já renunciou a todos os outros domínios, você julga que poderá se permitir o prazer juvenil da expectativa ao menos em um setor bem circunscrito, como este dos livros. A você, os riscos e os perigos: a desventura não há de ser grave".

(CALVINO, Italo. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Nova Fronteira, 1979. pp. 9-10).

Í.ta**

sexta-feira, 7 de março de 2008

O ler 4


"Ler é gestação. Esperar que se desvele o signo. Clarividência. Ver o mundo no texto, ver-se na inteireza do corpo. Ler é traduzir-se em palavra. Ir contra o barulho das televisões. Optar pelo silêncio.
(...) Ler de verdade ainda é resistir. Recolher-se na utopia de que a literatura salvará o mundo. De que a poesia retornará a seu rio primeiro: ser o fio condutor das gerações. Ocupar o papel da história. Ler é abrir-se: leque arrefecendo o rosto da liberdade. Quem lê renasce sempre melhor, amplo nas decisões, mais largo nos caminhos. Quem não lê ouve e segue: cordeiro.
(...) ler é um ato de luta contra as imagens prontas. Tudo se apresenta mastigado, condensado. Ler é o trabalho de construir imagens. Árduo. São suores por sobre a alma. Ler é combater. É recomeçar, mesmo ferido, mesmo estilhaçado pelo cotidiano, pela falta de tempo. Ler é cavar nas horas um buraco e lá plantar-se.
(...) A leitura nos propõe o trabalho dos sentidos: gratuito, militante, voluntário, por vezes quase escravo. Ler é doar-se em solidariedade consigo mesmo. Ler é difícil".

(Rubens da Cunha, A leitura: poeticidades e sonhos, presente no livro "Aço e Nada", 2007, p. 166).

Í.ta**