quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Professor: leitor ou não-leitor

Ana Maria Machado, em artigo presente no livro Balaio: livros e leituras (2007), apresenta a importância fundamental da leitura na formação do professor, destacando o agravante de que há um medo por parte do professor de entrar em contato com os livros, “Um objeto estranho e com tal carga simbólica que o ameaça”, conseqüência de sua má-formação, cada vez mais longe da leitura livresca.
Esta afirmativa abre caminho para uma reflexão sobre o professor enquanto um sujeito-leitor, ou não-leitor.
Relevando o contato diário com diferentes materiais de leitura (livros didáticos, trabalhos dos alunos, comunicados escolares), pode-se classificar o professor como um leitor. No entanto, se o professor não sentir a leitura como uma necessidade para si – e não só como uma exigência burocrático-profissional – ele não passará de um leitor-por-obrigação, e pouco conseguirá contribuir para a formação de novos sujeitos-leitores. Logo, a caracterização do professor como leitor ou não-leitor está relacionada à significância que o próprio professor concerne às atividades que realiza como docente.
Segundo Batista (1998), antes de simplesmente inquirir ao professor um julgamento de leitura, há necessidade de descrevê-lo e compreendê-lo em suas práticas, analisando em que situações ele se forma como um sujeito-leitor. O mesmo defendido por Brito (1998), que traz a impossibilidade de se afirmar que o professor é um leitor, muito menos, pela sua atividade intelectual, que ele é um não-leitor. Segundo ele, “mais que ser leitor ou não-leitor, o professor é um leitor interditado”.
É também importante ressaltar as questões que envolvem as condições de acesso e de produção de leitura dos professores. A formação de um sujeito leitor é tão determinada pelas condições sociais nas quais ele se encontra, quanto pela própria tomada de iniciativa do mesmo em prol de tal formação. Daí sendo muito relevante analisar o que é que o professor lê, quantos livros ele tem condições de adquirir para seu aperfeiçoamento pessoal e profissional, e que tempo sobra para que ele busque a leitura de textos variados.Vale ressaltar ainda que a definição de um professor leitor ou não-leitor passa, primeiramente, por outra definição: o que é ler ou não-ler? E, levando em conta que o ato de ler engloba diversas outras práticas e modos além de somente a leitura livresca (caracterização burguesa do que é ler), o professor, é, sim, um sujeito-leitor. A variedade aqui está no como o professor lê, ou seja, que sentido ele dá/constrói à própria prática da leitura.

artigo publicado no jornal ANotícia de 21-02-08, p. 3 (http://www.an.com.br/2008/fev/21/0opi.jsp)

Í.ta**

10 comentários:

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Ítalo!

Precisamos de professores LEDORES, para a formação de alunos LEDORES.
Leitores, mal ou bem, todos somos.

anjo disse...

CC, ajude-me a entender essa palavra "ledores".

Não creio que todos sejamos leitores, não. No meu ver, ser leitor é ter consciência de que se pode ser leitor a todo o momento (lendo não só o que é texto escrito, mas sim o que vai além disto: imagens, expressões, o mundo, o viver). Há tantos e tantos que deixam de ser leitores pelo fato de não sentirem a leitura como inerente ao ser humano. Limitam-se ao texto escrito (ainda mais, ao livro), e acomodam-se num discurso vitimado (bendita falta de tempo!).

abraço grande,
Í.ta**

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Ledor: o que lê por prazer.
Leitor: o que apenas sabe ler.

Nem sempre o que sabe ler, consegue apreender o que está lendo. Falta-lhe o gosto. Falta-lhe ser LEDOR.

Regina disse...

Nem preciso dizer nada: é isso aí!
Vocês já disseram!
bj.

Anônimo disse...

Ítalo gostei muito do texto porque
a palavra PROFESSOR no título é importante para atrair este leitor
e ledor (ehehehe) chamado fessor.
Já trabalhei como professora na rede pública vários anos (aposentei-me lá). Fico muito feliz ao ver um moço nesta
profissão e com tanta coisa boa na bagagem! O mais importante: disposto a repartir com seus alunos e colegas sem sonegar o conhecimento. Parabéns com abraço da tia Fatima que hoje está ocupadíssima fotografando com o tema: SEMENTES, aqui em Laguna.

Suzana Mafra disse...

Obrigada pela visita ao Borboletras.

Meu comentário foi por e-mail.

Bom compartilhar.

Abraço!

Ilaine disse...

Ítalo, concordo com você... Professor deve LER o que o cerca, deve sentir o seu espaço social. Leitura ampla, infinita, constantemente nova - uma vez que vivemos num mundo em contínua transformação. Depois, provocará leitura em seus alunos.Que maravilhoso ler.

Abraço

Ru disse...

Italo,
Obrigada por ter passado pelos meus pequenos escritos. Vê-se que não o tenho por muito tempo, o blog, mas aos poucos vou aprimorando-o. Tanto o blog quanto os escritos. Obrigada pelos elogios, tenha a certeza de estou aprendendo muito contigo e todos os que estão conosco nessa oficina.

Gostei dos seus. Suas frases, sua maneira enriquecida de colocar as idéias.

Quanto aos professores, mais do que ser um "ledor", aproveitando a especificação, o professor deve mostrar que o é. Até hoje nos meus anos de escola e principalmente no ensino fundamental - o momento mais propicio para o ato de ler despertar prazer no joven - foram poucas as "cenas de leitura" que vi. E essas poucas ocorreram com professores da língua. Aí está o um dos grandes problemas dos professores não atualizados, e mal intruídos que, eu creio, ainda representam grande parte do ensino público. Se eu tivesse visto meus professores de matemática com livros de literatura, por exemplo, creio que teria me interessado mais cedo pela leitura, principalmente pelo fato de gostar da disciplina e vê-los como um exemplo pra mim. Enfim, é só uma constatação. Algo que aconteceu comigo e com muitos e que sei que poderia ter sido diferente.

Espero passar mais vezes por aqui e boas leituras pra voce também!
Ruana.

Guilan disse...

é fácil de entender a palavra 'ledor'

eu quando pequeno costumava irritar meu pai falando que tal pessoa era muito "ledora", porque lia muito. Uma forma um pouco estranha da palavra leitor, aparentemente inventada por mim, mas vejo que há outras pessoas "ledoras" andando por aí.

ou também pode significar uma conjunção de ler+dor... vai saber.

abraços, e ótimo texto, Íta!

Rubens da Cunha disse...

Plagiando-me (que Clarice não me ouça) ler é difícil. Uma coisa eu sei: o professor, leitor ou ledor, torna a vida do aluno mais fácil pois lhe aponta caminhos para além das notas, obrigações, burocracias inerentes a escola...