quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O ler 3


"Os leitores de livros, uma família em que eu estava entrando sem saber (...), ampliam ou concentram uma função comum a todos nós. Ler as letras de uma página é apenas um de seus muitos disfarces. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais; o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa, de modo a protegê-la das forças malignas; o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta; o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora; a dançarina lendo as notações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco; o tecelão lendo o desenho intrincado de um tapete sendo tecido; o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página; os pais lendo no rosto do bebê sinais de alegria, medo ou admiração; o adivinho chinês lendo as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante lendo cegamente o corpo amado à noite, sob os lençóis; o psiquiatra ajudando os pacientes a ler seus sonhos perturbadores; o pescador havaiano lendo as correntes do oceano ao mergulhar a mão na água; o agricultor lendo o tempo no céu – todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos.
(...) Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial".

(Alberto Manguel, Uma história da leitura, 1997, pp. 19-20).

Í.ta**

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Professor: leitor ou não-leitor

Ana Maria Machado, em artigo presente no livro Balaio: livros e leituras (2007), apresenta a importância fundamental da leitura na formação do professor, destacando o agravante de que há um medo por parte do professor de entrar em contato com os livros, “Um objeto estranho e com tal carga simbólica que o ameaça”, conseqüência de sua má-formação, cada vez mais longe da leitura livresca.
Esta afirmativa abre caminho para uma reflexão sobre o professor enquanto um sujeito-leitor, ou não-leitor.
Relevando o contato diário com diferentes materiais de leitura (livros didáticos, trabalhos dos alunos, comunicados escolares), pode-se classificar o professor como um leitor. No entanto, se o professor não sentir a leitura como uma necessidade para si – e não só como uma exigência burocrático-profissional – ele não passará de um leitor-por-obrigação, e pouco conseguirá contribuir para a formação de novos sujeitos-leitores. Logo, a caracterização do professor como leitor ou não-leitor está relacionada à significância que o próprio professor concerne às atividades que realiza como docente.
Segundo Batista (1998), antes de simplesmente inquirir ao professor um julgamento de leitura, há necessidade de descrevê-lo e compreendê-lo em suas práticas, analisando em que situações ele se forma como um sujeito-leitor. O mesmo defendido por Brito (1998), que traz a impossibilidade de se afirmar que o professor é um leitor, muito menos, pela sua atividade intelectual, que ele é um não-leitor. Segundo ele, “mais que ser leitor ou não-leitor, o professor é um leitor interditado”.
É também importante ressaltar as questões que envolvem as condições de acesso e de produção de leitura dos professores. A formação de um sujeito leitor é tão determinada pelas condições sociais nas quais ele se encontra, quanto pela própria tomada de iniciativa do mesmo em prol de tal formação. Daí sendo muito relevante analisar o que é que o professor lê, quantos livros ele tem condições de adquirir para seu aperfeiçoamento pessoal e profissional, e que tempo sobra para que ele busque a leitura de textos variados.Vale ressaltar ainda que a definição de um professor leitor ou não-leitor passa, primeiramente, por outra definição: o que é ler ou não-ler? E, levando em conta que o ato de ler engloba diversas outras práticas e modos além de somente a leitura livresca (caracterização burguesa do que é ler), o professor, é, sim, um sujeito-leitor. A variedade aqui está no como o professor lê, ou seja, que sentido ele dá/constrói à própria prática da leitura.

artigo publicado no jornal ANotícia de 21-02-08, p. 3 (http://www.an.com.br/2008/fev/21/0opi.jsp)

Í.ta**

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O mundo que transborda de si

A sensibilidade e a força de “Aço e Nada”, de Rubens da Cunha

Ítalo Puccini / Jaraguá do Sul

No livro que mandou a mim, o poeta e cronista do Anexo Rubens da Cunha agradeceu minhas leituras sempre atentas para seus olhares sobre o mundo. Olhares tão bem registrados pelas palavras. Retratos da consciência, que em seus escritos Rubens demonstra ter, de ser um sujeito imerso numa realidade mundano-social aprisionadora do próprio ser humano, da qual tenta ao máximo extrair algo que o alimente, que se junte aos alimentos diários da leitura e da escrita ou que sirva de alimento para um desses dois “vícios” que apresenta ter. O escritor de “Aço e Nada”, livro lançado pela Design Editora, de Jaraguá do Sul, é um sujeito dividido em diversos modos de ser/pensar/agir, presentes em diferentes crônicas-quase-contos do livro, que se complementam num só.
Para mim, e creio que para muitos outros leitores, são releituras a se fazer das crônicas presentes no livro. Ora mais densas, ora mais suaves, ora críticas, ora não, ora mais poéticas, ora mais objetivas em determinados assuntos, ora também quase-contos. Transbordando sensibilidade e poesia, as crônicas foram separadas no livro em quatro diferentes partes, com as últimas crônicas de cada parte dando nome à mesma correspondente: “Os Animais Dentro”, “Olho Vigiador”, “O Corpo da Gratidão”, “O Morador das Palavras”, que bem estariam encaixadas se não houvesse divisão, uma vez que a escrita em si do autor apresenta um traço muito bem caracterizado, sendo possível reconhecê-la à distância, encontrá-la, por exemplo, nos poemas-aço que formam sua “Casa de Paragens”: nos cômodos da sua casa-corpo, nos mínimos detalhes da natureza, e nos animais-moradores-de-seu-corpo: na dor corpórea da alma; na fragilidade de ser.
Um olhar sempre constante nas crônicas do livro (e também nos poemas do “Casa”) dirige-se aos animais. Estão eles dentro do escritor Rubens, ao redor, nos olhares, nos sonhos, na memória: “São imagens recorrentes, já que ainda não descobri elemento mais poético na natureza e mais propício às buscas metafóricas que pratico”. As crônicas de “Os Animais Dentro” trazem um pouco dessa relação, além de apresentar ao leitor outros modos de ser animal, com o ser humano e suas formas de pensar, sentir e agir.
Nas crônicas de “Olho Vigiador”, Rubens apresenta seus olhares atentos para os habitantes e para a sua, até o momento, casa de paragem, cidade na qual nasceu e em que vive, por onde o Rubens cronista busca o assunto para suas crônicas semanais. O corpo da gratidão é a mãe, é a noite, é um poço de contrários, “é uma inutilidade feita apenas para aguentar o peso do mundo: um poema perdido entre os cadernos; flores nos beirais das casas; fotografias”. É o fluxo inexorável do cotidiano, passando por cima do tempo e do espaço, de amizades antes fortalecidas; é o sentir que animaliza o humano; é a natureza, recoberta de poesia, que, “sem avisar, põe sobre a cidade um lençol branco”.
Rubens da Cunha é o escritor morador da palavra exílio (ou seria apenas mais um dos personagens marcantes no livro?). Escritor por prazer, por sentir o sangue correr em seus abismos. Escritor pela dor: “O papel me dá seus ouvidos e demais buracos gratuitamente. O papel é uma prostituta apaixonada. Escrevo para gozar e porque tenho bom vocabulário”. Pelo poder de ser escritor, pelas máscaras que colocam sob os escritores. Escritor por maldade, por instinto, por covardia, por alegria, “por estar preso nesse cárcere e porque aprendi a mentir desde cedo”. A escrita de Rubens nos leva a desejar mais mentirosos assim.

“Aço e Nada” – Design Editora, 176 páginas, R$ 15,00 (preço médio). Mais informações: atendimento@designeditora.com.br.

Ítalo Puccini, acadêmico de letras e professor de literatura em Jaraguá do Sul
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Texto publicado no caderno Idéias do jornal A Notícia de domingo (10-02).
Link http://www.an.com.br/anexo/2008/fev/10/0ide.jsp

Í.ta**

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

o ler 2 (ser leitor)


“Sempre existe algo de inquietante, ao mesmo tempo estranho e familiar, na imagem concentrada de alguém que lê, uma misteriosa intensidade que a literatura fixou inúmeras vezes. O sujeito se isolou, parece separado do real" (p. 25).
(...)
“O leitor, entendido como um decifrador, como intérprete, muitas vezes foi uma sinédoque ou uma alegoria do intelectual. A figura do sujeito que lê faz parte da construção da figura do intelectual no sentido moderno. Não só como letrado, mas como alguém que enfrenta o mundo numa relação que em princípio é mediada por um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção do sentido. A indecisão do intelectual é sempre a incerteza quanto à interpretação, quanto às múltiplas possibilidades de leitura” (p. 98).
(...)
“(...) o leitor é aquele que está em busca do sentido da experiência perdida” (p. 100).

(Ricardo Piglia, O último leitor, Companhia das letras: 2006)

Í.ta**