quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Pra você ver como é a vida

Quando tinha 17 anos, encerrando meu ensino médio, escrevi um texto (nem o chamo de crônica para não soar algo que não se é) que até hoje deixa em mim marcas precisas do que significou, e do momento que envolveu sua produção.
Recordo-me bem, estavámos na escola organizando os últimos detalhes da nossa formatura do terceirão, que dali a poucos dias aconteceria. Eu estava encarregado de tocar duas músicas no violão ("Como nossos pais" e uma outra, do Milton Nascimento, da qual não tenho lembrança do nome), que seriam cantadas por duas colegas de turma. E lá eu me encontrava, pasmem, junto a uma comissão organizadora do evento (coisa pomposa, não?!), algo com o qual nunca senti vontade de me envolver. Fiquei por lá, dedilhando meu violão, esperando o momento para ensaiar com as meninas as duas músicas.
Então, após uma espera tranqüila e um ensaio satisfatórios aos olhos e ouvidos da tal comissão, as pessoas presentes foram se retirando, e eu ainda fiquei ali sentado, dedilhando um pouco mais, esperando o tumulto passar e o silêncio reinar outra vez na sala. Mas manti-me atento às tagarelices habituais de um momento como esse, e foi aí que peguei uma frase lançada despretensiosamente ao ar por uma das meninas da comissão organizadora, que acendeu a faísca do texto ao qual me refiro aqui, transcrito mais abaixo.
Lá mesmo na sala de aula, já sozinho e com o silêncio de que precisava, rascunhei o texto de uma vez só, deixando vir à tona algumas das emoções que envolviam o momento já referenciado. Depois é que fui melhor organizá-lo, e ficou, então, de uma forma que até hoje permanece a mesma.
Recuso-me a mexer nele, a mudá-lo em sua estrutura, em suas frases, em seus possíveis deslizes literários. É o texto que melhor retrata meus 17 anos, meu início de produção escrita, minhas primeiras idéias-um-pouco-conscientes-de-mundo.
A maior surpresa que tive com este texto aconteceu poucos meses depois, com a publicação dele na coluna do escritor Pablo Morreno, num jornal da cidade de Passo Fundo(RS), onde reside o Pablo, e de onde ele escreve suas maravilhosas crônicas, algumas já publicadas em livro.
Deixo aqui postadas as palavras do Pablo quando publicou meu texto, e o próprio texto na seqüência.
Momentos que nos marcam, aos quais de vez em quando é sempre bom voltar.
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RE - PARTIR
Eu nunca imaginei que um livro tivesse tantos caudais. Às vésperas da segunda edição de "Por que os homens não voam?", quero prestar um tributo especial aos milhares de adolescentes e jovens com os quais conversei. Nas escolas, onde meu livro foi adotado, eles o transmutaram em desenho, painel, poema, teatro, vida. De repente, eu, que antes enviava meus textos para escritores conhecidos pedindo uma gota de atenção, comecei a receber textos de jovens preocupados em transformar em linguagem sua reflexão do mundo. Não interessa se o que escrevem é ou não literatura, isso precisa de exercício e tempo. O que vale é o modo de olhar e sentir a dor das coisas. Vez em quando repartirei com meus leitores alguns textos recebidos. Quero re-partir e com-partir.

PARA VOCÊ VER COMO É A VIDA
Quando eu era criança, queria uma bicicleta, queria andar, andar e somente andar com minha bicicleta...
Quando eu era criança, minha vida era a rua. Meu dia era planejado todinho em brincadeiras com os colegas, nos campos de futebol, rios e trilhas...
Eram caixas d'água, escaladas, matagais explorados, dedões esfolados... Brigas e rixas com os amigos, a vontade de ser o melhor, de namorar a menina mais bonita da sala, de dormir na casa de alguém, de ficar acordado até meia-noite e poder dizer: "Fui dormir tarde pra caramba!"...
Quando criança, contava os segundos para chegar a hora do recreio e ir brincar de pega-pega... Depois,aguardava de modo impaciente o último sinal do dia...Trim!!! Era hora de correr pra casa, jogar a bolsa em qualquer canto e rumar para aquela partida de futebol de rua.
Quando criança, dormia tranqüilo, sem medo, pois estava seguro com meus pais em casa... Dormia bem, acordava disposto e alegre, pronto para um novo dia e novas aventuras.
Aventuras...
A vergonha no primeiro dia de aula, aquele "presente, professora" quase inaudível; o esconderijo no rabo da saia da mãe e no colo do papai, (o meu herói)...O sentimento de glória e júbilo quando eu sentava no colo do papai e imaginava estar dirigindo o carro...O primeiro beijo, a primeira namoradinha, as primeiras descobertas.
Quando criança, eu rezava! Pedia a papai do céu uma boa noite, proteção para meu pai, minha mãe e meu irmão, com quem eu brigava bastante, mas não sabia viver sem ele... Agradecia pelo dia que estava chegando ao seu final e pedia, bem baixinho, um dinheirinho para comprar figurinhas ou chicletes.
Hoje, já adolescente, quase entrando na fase adulta, me recordo com nostalgia do meu eu, da minha infância. Como eu era feliz! Como eu era verdadeiro!
Luto para conquistar meu espaço e redobro minhas forças para me manter lá quando consiga... Não sou mais tão puro e não vejo o mundo como aquilo que papai do céu construiu... Finjo, minto, com o objetivo de passar aos outros uma boa impressão, tudo para conquistar amigos e garotas...
Sinto que somente ao fortalecer-me internamente terei a confiança e a vontade. Somadas à alegria hão de realizar meu maior sonho:
- Ser eu verdadeiramente! Amado e seguro de mim mesmo!
Ítalo Puccini, 17 anos, Jaraguá do Sul - SC
Í.ta**

4 comentários:

Cris disse...

Me intrometi aqui porque li um texto seu no blog da Regininha, que, já deu pra perceber, é sua fã de carteirinha. Muito bons seus textos. Esse dos 17 anos tá bem legal, lembrei que eu também pedia dinheiro pro papai do céu, ahahaha. Mas pedia pra Ele não contar pra ninguém, ehehe.

Pablo disse...

Ita,
fico feliz em ver hoje vc na faculdade, fazendo pesquisas de leitura, amadurecendo a escrita e a vida.
Mas o melhor de tudo, é que vc não tem esse deslumbramento inconseqüente de muitos jovens que me mandam textos. Se eu fizer apenas uma pequena observação, ficam melindrados.
Por isso, ultimamente, não comento mais os textos recebidos. Nem publico, porque uns ficam com ciúmes dos outros.
Apenas escrevo: muito obrigado pelo texto.
Vc sempre foi muito humilde, e isso te possibilitou crescer.
Parabéns, e me convida para a formatura.
abç

Pedro disse...

Texto de descoberta na redescoberta de pequenas coisas infantis e outras já nem tanto =]

Muito bom. Um excelente começo para alguém promissor nesse ofício!

Abraço.

Anônimo disse...

Esse é o Ítalo? Adorei esse guri
do dedão esfolado!!!
Os meninos nesta idade são mesmo
apaixonantes. Boto fé nesta sua capacidade escrevinhadora.
Parabéns! Abraço da Ma. de Fatima
Barreto Michels - LAGUNA/SC