terça-feira, 1 de janeiro de 2008

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Meus primeiros fazeres desse novo ano foram muito satisfatórios, posso afirmar. Creio que viver é sinônimo de fazer. Um verbo não vive sem o outro. Por mais que tanto se queira não fazer nada o máximo de tempo possível, não se consegue. O simples fato de não fazer nada significa que se faz algo. Portanto, chegou 2008 (diz-se que é esse o ano em que agora vivemos) e em suas primeiras horas fiz algumas coisinhas que muito me satisfizeram.
Antes de tudo, a companhia daqueles com quem estive junto. Amigos presentes o ano inteiro. A família, sempre tão mais presente e confortante. As conversas ininterruptas e maravilhosas com a amada N!ce.
Após os tradicionais abraços e desejos de “feliz ano novo” e a dispensa da tradicional bebida desse momento (o não gostar dela e alguns copos de cuba já me faziam sentir bem o suficiente), sentei-me no sofá da casa onde estávamos (querida Si) e re-assisti ao show da Ana Carolina com o Seu Jorge. Duas vozes de arrepiar! Batidas de violões e baixos arrepiantes! Letras (puta-que-o-pariu) precisas!
Empanturrei-me tanto no jantar, que cometi o crime de dispensar a sobremesa, e até um banho de piscina. Sem problemas. Sentia-me sublime ouvindo e vendo aqueles dois artistas que tanto admiro elevarem seus maravilhosos tons de voz. A magia que a música tem é algo até hoje inexplicável. Arriscaria dizer eternamente inexplicável. (Rubens da Cunha diz, em uma crônica sua: "A música sustenta a alma. Não o sustentar de alimento, mas o sustentar que está nos pilares das pontes, nos caibros sob o telhado, nas patas dos antílopes. A música é a agüentadora do mundo. O nosso Altas"). Ali me encontrava, acompanhando cada palavra, cada frase, criando inúmeros sentidos para cada música, para cada batida nos instrumentos, para cada letra.
Assim que o dvd chegou ao fim, coloquei outro já na seqüência. As pessoas permaneciam na área de festa da casa. O silêncio acompanhava-me naquele sofá (às vezes algumas pessoas vinham, paravam, assistiam um pouquinho e logo saíam. Eu ali permanecia. Embasbacado. Feliz por demais. Flutuando).
A batida das músicas cantadas por Gabriel, o Pensador, mantiveram-me nesse estado de embriaguez musical. Sem contar as letras desse Pensador! Sou chato, gosto de música muito mais pela letra do que pela melodia (sem generalizar, é claro). Ouvir, nas primeiras horas de um novo ano letras tão críticas, opiniões com as quais tanto compactuo, foram-me de uma satisfação antes nunca sentida nas viradas anuais. Lembrei-me muito, ao ver o Gabriel cantando, do meu amigo Andruz. Fiz a relação entre os dois pelo aspecto físico (barba) e pelo aspecto mental (inteligências únicas).
Ainda, quando nos minutos pré e pós-virada de ano, indagava-me da disparidade existente nesse momento tido como um dos mais felizes de nossas breves vidas. Aí me lembrei do que Regininha havia-me dito na última conversa que tivéramos aqui em Xarraguá, e novamente concordei com ela. Tantos tipos de calendários existentes, tantos anos diferentes num mesmo momento, tantas datas sem sintonia quando o instante é o mesmo. Pensava: para quantos esse agora não é nada diferente dos outros agoras vividos. Então por que toda essa áurea de consumismo, de extravagância, de promessas-jamais-cumpridas? É um dia como outro. É uma noite como outra. É uma hora como outra. Em que se fazem inúmeras coisas também feitas em outros dias, em outras horas. “Ah, mas é um ano que fica para trás, e um novo que surge”. E daí? Não é certo que os anos são todos diferentes para as diferentes crenças presentes num mesmo mundo? (o mesmo valendo para o natal, mais um mito tão cultuado mundialmente). Talvez seja demais para tanta gente pensar. Apenas mais uma forma de “organizar” o viver-mundano. Soltar fogos e prometer ser uma nova pessoa é tão mais fácil.
Resolvi deixar para lá esse pensar. Inútil para o momento. Sem possibilidade de reparti-lo. Fui aos shows.
Encerrei mais essa madrugada acompanhado da leitura de um livro. Os primeiros contos de Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu. Para dormir delirante de prazer! Já que fora dessa “organização” não dá (ainda) para viver (a consciência é um dos obstáculos. Ser ignorante às vezes é tão bom!), nada como conseguir aproveitar para satisfazer-se dentro dela.

Í.ta**

3 comentários:

anjo disse...

Escrever é dar a cara à tapa.

elenice disse...

Lindoo neni!!
realmente a voz da Ana e a do Seu Jorge são de arrepiar...
E nem vou comentar nada sobre as letras do Grabriel (como diz o Seu Jorge "Puta-que -pariu")

Como sempre tudo maravilhosamente perfeito ao seu lado

Amo-te

Regininha disse...

Que bom que achei um igual!
Faço pesquisa em MPB, mas sempre acho a letra mais importante,hehehe...
Obrigadinha, cara!
bj.