quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

o ler 1

"Apaixonar-se por leitura é conhecer novos escritores por meio das suas obras e, caso veja nele coisas que o encantem ou que lhe fale mais diretamente da existência, devorar, curtindo, tudo aquilo que ele escreveu. Ou, caso não dê tempo para ler ‘tudo’, estar consciente de que você é um apaixonado por esses escritores, reservando tempo e energia para saborear as suas obras ao longo da vida.
(...)
Ler, como a ação do vento, é ser gostosamente levado, rasgado e ensinado. Some a essa gostosura a liberdade de todo o processo mesmo porque, interpretando, nada mais fazemos que movimentar e relacionar recordações que são sempre propriedades exclusivamente nossas".
(Ezequiel Theodoro da Silva. Leitura em curso, 2003, p. 27. Ed. Autores Associados. Coleção Linguagem e sociedade).
Í.ta**

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O consumismo em mim


Se há algo que faz disparar meu lado consumista são livros, cd´s e dvd´s (necessariamente nesta ordem), então que o zelo que tenho por estes objetos traz consigo ares de chatice, típico de quem se apega a algum bem material e passa a ter com e por ele uma identificação que às vezes permite ultrapassar a barreira do bom senso (seja lá o que quer que defina esse bom senso).
Costumo cometer alguns “crimes” de vez em quando. Tenho que me policiar constantemente ao andar pelas ruas da cidade. Entrar em livrarias, lojas de cd´s e dvd´s, ou em sebus, é um assassinato ao meu sempre tão controlado bolso. O mais inesperado acontece. Entre tantos e tantos livros, por exemplo, que coincidência, o olho é puxado para aquele que “ah, não, esse eu não posso deixar passar. Procuro há tanto tempo!”.
Ainda que o apego a esses objetos se dê muito mais em função do caráter cultural e sem-sentido (porque as melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam) que eles trazem consigo, do que propriamente da mera satisfação de tê-los nas estantes espalhadas pela casa, visíveis não só aos próprios olhos, mas, arrisco dizer, principalmente aos olhos alheios, apesar disso, esse apego contém em si um olhar muito cuidadoso na forma como os livros, cd´s e dvd´s são acomodados pela casa, e uma organização rígida no que diz respeito ao empréstimo que é feito deles para os mais próximos (sim, pois é algo fora de cogitação colocá-los em mãos que não inspiram a mínima confiança necessária para tal também dolorosa ação).
Roupas, calçados, decorações para a casa, perfumes, xampus ou sabonetes, o que vier está bom. Não vou atrás para tê-los. Entrar em uma loja para comprar alguma peça de roupa, só em casos extremos, quando não tenho, realmente, o que vestir de tal peça (fato que aconteceu em minha vida apenas duas vezes, para comprar duas calças-jeans). No máximo causa-me um bem-estar ir a brechós atrás de boinas e camisas de flanela. É a forma com a qual me sinto bem utilizando o dinheiro que ganho mensalmente.
Numa aula da pós-graduação, o professor de Educação Inclusiva trouxe-nos um maravilhoso resgate da exclusão social existente desde a idade antiga, com os gregos e romanos, passando pela idade média e a influência exercida pela igreja católica, até a idade moderna, com o advento do capitalismo e as diversas formas de exclusão conseqüentes do consumismo desenfreado. Foi uma conversa muito boa, muito franca e aberta, sem falsas ideologias, que me levou a construir estas linhas. Senti-me muito bem. Indignar-me diante dos caminhos tortuosos em que o humano faz girar o mundo é inerente ao meu ser. Desde que me conheço por gente não sou ligado ao ato de comprar, de ter cada vez mais um pouco de tudo, de estar numa pseudo-moda mundial, de exibir artigos de luxo-reveladores-do-lixo-interno. No máximo desenvolvi em mim o gosto em possuir livros, cd´s e dvd´s. Bastam para mim. Comida e saúde não entram no caso. São elementos externos ao consumismo desenfreado que atinge a maior parcela da população mundial.
Ainda alimento o desejo de ler nos noticiários policiais mais “crimes” e “assassinatos” como os que eu cometo periodicamente.


Í.ta**

arte e vida



"A arte existe porque a vida não basta".
(Ferreia Gullar. In: Ana Maria Machado, "Balaio: livros e leituras", p. 163, 2007).
do cacete!!
Í.ta**

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Meme (onde você estava em...)

Rubens da Cunha perguntou a mim:

1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?
É uma boa pergunta!! Uma regressão me ajudaria a respondê-la.

2. E em 1983, há 25?
Arrisco dizer que me preparando para "vir à tona" em quatro anos.

3. O que você estava fazendo em 1988?
Aprendendo a engatinhar, alegre e feliz, inconsciente do que é viver.

4. E em 1993?
Pedalando pela calçada de casa e arriscando uns dribles no meu irmão mais novo (covardia, eu sei).

5. O que estava fazendo há 10 anos?
Jogando futebol de rua, indo atrás de pés de goiaba, e furando a orelha.

6. E há cinco?
Lendo, lendo, lendo. Pensando que as melhores coisas da vida não servem para nada. E nem precisam.

Seguem as mesmas perguntas para:

Guilherme
Regininha
CC
Pedro

Í.ta**





quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Nostalgia (parte II) - poesia

Prisioneiro
penso e repenso,
sob medos-mudos
mundanos,
a veste preciosa
sólida e reluzente
– banhada a ouro e
sóis –
que receberá
a razão de minha angústia,
dor e desejo:
P – A – L – A – V – R – A:
Amante
de tragédias
e utopias,
de crepúsculos
e versos.

um cálice de
água salgada
a purificar
uma possível alma existente,
engasgada entre sonhos imagens e delírios.
a fazer respirar
órgãos corroídos
pelos ponteiros
de uma bússola
que insiste
em não parar,
revidar,
[girar-me, jogar-me, lavar-me, secar-me]

desgastado
pela dor e morte
de um coração
não recuperado,
regozijo entre os
labirintos de um par de olhos,
lábios e seios,
por onde a cruz
enraizou laços
desejos e passos,
à qual pregas
[amor paixão

felicidade palavra]

amarraram-me
e sobre mim
identificaram:
HUMANO INCOMPREENDIDO.

Assim fiz história.
Assim fizeram-me ser a história.
Assim alimentaram-me.
Assim definiram-me.
Assim ditaram minha história.
Assim criaram-me em estória:
palavras soltas em papéis preto e branco.
Í.ta**
(escrita já faz um longo tempo. recuperei-a entre outros escritos antigos)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Pra você ver como é a vida

Quando tinha 17 anos, encerrando meu ensino médio, escrevi um texto (nem o chamo de crônica para não soar algo que não se é) que até hoje deixa em mim marcas precisas do que significou, e do momento que envolveu sua produção.
Recordo-me bem, estavámos na escola organizando os últimos detalhes da nossa formatura do terceirão, que dali a poucos dias aconteceria. Eu estava encarregado de tocar duas músicas no violão ("Como nossos pais" e uma outra, do Milton Nascimento, da qual não tenho lembrança do nome), que seriam cantadas por duas colegas de turma. E lá eu me encontrava, pasmem, junto a uma comissão organizadora do evento (coisa pomposa, não?!), algo com o qual nunca senti vontade de me envolver. Fiquei por lá, dedilhando meu violão, esperando o momento para ensaiar com as meninas as duas músicas.
Então, após uma espera tranqüila e um ensaio satisfatórios aos olhos e ouvidos da tal comissão, as pessoas presentes foram se retirando, e eu ainda fiquei ali sentado, dedilhando um pouco mais, esperando o tumulto passar e o silêncio reinar outra vez na sala. Mas manti-me atento às tagarelices habituais de um momento como esse, e foi aí que peguei uma frase lançada despretensiosamente ao ar por uma das meninas da comissão organizadora, que acendeu a faísca do texto ao qual me refiro aqui, transcrito mais abaixo.
Lá mesmo na sala de aula, já sozinho e com o silêncio de que precisava, rascunhei o texto de uma vez só, deixando vir à tona algumas das emoções que envolviam o momento já referenciado. Depois é que fui melhor organizá-lo, e ficou, então, de uma forma que até hoje permanece a mesma.
Recuso-me a mexer nele, a mudá-lo em sua estrutura, em suas frases, em seus possíveis deslizes literários. É o texto que melhor retrata meus 17 anos, meu início de produção escrita, minhas primeiras idéias-um-pouco-conscientes-de-mundo.
A maior surpresa que tive com este texto aconteceu poucos meses depois, com a publicação dele na coluna do escritor Pablo Morreno, num jornal da cidade de Passo Fundo(RS), onde reside o Pablo, e de onde ele escreve suas maravilhosas crônicas, algumas já publicadas em livro.
Deixo aqui postadas as palavras do Pablo quando publicou meu texto, e o próprio texto na seqüência.
Momentos que nos marcam, aos quais de vez em quando é sempre bom voltar.
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RE - PARTIR
Eu nunca imaginei que um livro tivesse tantos caudais. Às vésperas da segunda edição de "Por que os homens não voam?", quero prestar um tributo especial aos milhares de adolescentes e jovens com os quais conversei. Nas escolas, onde meu livro foi adotado, eles o transmutaram em desenho, painel, poema, teatro, vida. De repente, eu, que antes enviava meus textos para escritores conhecidos pedindo uma gota de atenção, comecei a receber textos de jovens preocupados em transformar em linguagem sua reflexão do mundo. Não interessa se o que escrevem é ou não literatura, isso precisa de exercício e tempo. O que vale é o modo de olhar e sentir a dor das coisas. Vez em quando repartirei com meus leitores alguns textos recebidos. Quero re-partir e com-partir.

PARA VOCÊ VER COMO É A VIDA
Quando eu era criança, queria uma bicicleta, queria andar, andar e somente andar com minha bicicleta...
Quando eu era criança, minha vida era a rua. Meu dia era planejado todinho em brincadeiras com os colegas, nos campos de futebol, rios e trilhas...
Eram caixas d'água, escaladas, matagais explorados, dedões esfolados... Brigas e rixas com os amigos, a vontade de ser o melhor, de namorar a menina mais bonita da sala, de dormir na casa de alguém, de ficar acordado até meia-noite e poder dizer: "Fui dormir tarde pra caramba!"...
Quando criança, contava os segundos para chegar a hora do recreio e ir brincar de pega-pega... Depois,aguardava de modo impaciente o último sinal do dia...Trim!!! Era hora de correr pra casa, jogar a bolsa em qualquer canto e rumar para aquela partida de futebol de rua.
Quando criança, dormia tranqüilo, sem medo, pois estava seguro com meus pais em casa... Dormia bem, acordava disposto e alegre, pronto para um novo dia e novas aventuras.
Aventuras...
A vergonha no primeiro dia de aula, aquele "presente, professora" quase inaudível; o esconderijo no rabo da saia da mãe e no colo do papai, (o meu herói)...O sentimento de glória e júbilo quando eu sentava no colo do papai e imaginava estar dirigindo o carro...O primeiro beijo, a primeira namoradinha, as primeiras descobertas.
Quando criança, eu rezava! Pedia a papai do céu uma boa noite, proteção para meu pai, minha mãe e meu irmão, com quem eu brigava bastante, mas não sabia viver sem ele... Agradecia pelo dia que estava chegando ao seu final e pedia, bem baixinho, um dinheirinho para comprar figurinhas ou chicletes.
Hoje, já adolescente, quase entrando na fase adulta, me recordo com nostalgia do meu eu, da minha infância. Como eu era feliz! Como eu era verdadeiro!
Luto para conquistar meu espaço e redobro minhas forças para me manter lá quando consiga... Não sou mais tão puro e não vejo o mundo como aquilo que papai do céu construiu... Finjo, minto, com o objetivo de passar aos outros uma boa impressão, tudo para conquistar amigos e garotas...
Sinto que somente ao fortalecer-me internamente terei a confiança e a vontade. Somadas à alegria hão de realizar meu maior sonho:
- Ser eu verdadeiramente! Amado e seguro de mim mesmo!
Ítalo Puccini, 17 anos, Jaraguá do Sul - SC
Í.ta**

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Estante


Mexer em livros, para mim, é mergulhar dentro do que sou e de como me construo, e por lá me perder.
Quando vou a sebus e/ou livrarias, empilho em minhas duas mãos tudo o que considero interessante levar para casa, seja para uma leitura imediata, seja para uma leitura futura. E por lá fico, estante por estante, livro por livro, sumindo por trás de suas formas, cores e palavras, até o momento em que encerro minha visita. É quando relembro tudo o que peguei, folheio cada livro para melhor conhecê-lo, equilibro o pensamento entre a necessidade, o desejo e a exceção (além dos recursos financeiros que me acompanham no momento), e faço uma dolorida triagem, acabando por levar sempre menos da metade do que gostaria. Nas primeiras vezes esse momento era mais difícil. Agora me resigno a ele, ajudando-me para isso a memória, trazendo à mente os livros que ainda me esperam em casa, saudosos de um contato mais próximo com minhas mãos e com meus olhos.
Dor foi o que senti ao organizar meus livros em casa, espalhados que estavam pela prateleira que tenho sobre a cabeça aqui onde escrevo e pela cama que sobra em meu quarto, útil justamente para acomodar meus materiais de pesquisa e de leitura. Mas foi uma dor gostosa de sentir, e aqui o paradoxo é proposital por refletir o que foi sentido.
No dia anterior mexi e remexi em meus cd´s e dvd´s. Todos organizados por aproximação, no que diz respeito aos estilos musicais. E, empolgado pelos momentos ali vividos, encarei uma reorganização dos livros, já ciente de que a entrega emocional seria mais intensa.
Gosto de olhar para meus livros. Gosto de senti-los pelo tato. Gosto de folheá-los e de relembrar o exato momento em que foram lidos ou comprados, sendo que de alguns ainda não conheço seus interiores, seus poros de vida, os espaços entre palavras – e as próprias palavras – que os fazem ser o que são, para as quais construo os significados que me tornam quem sou.
Nessa breve atividade de fim de tarde (ainda não tenho tantas estantes e tantos livros espalhados pela casa) voltei aos meus 14 anos, com a leitura que fiz de “O rádio, o futebol e a vida”, de Flávio Araújo, e de “Zico, 50 anos de futebol”, num mês de julho, na praia de Itaguaçu, durante as férias escolares de meio de ano, durante manhãs e tardes chuvosas e frias, enrolado entre cobertas e travesseiros, numa época em que eu respirava futebol.
Memórias mais recentes também resgatei. Ao passar o pano em “O inventor da solidão”, de Paul Auster, comprado despretensiosamente numa feira do livro de Joinville; ao reler algumas crônicas sensíveis e marcantes de “Por que os homens não voam?”, do sensível e marcante Pablo Morenno; e ao encaixar “Uma história da leitura”, de Alberto Manguel, sempre tão recorrente aos meus textos sobre leitura, num novo lugar na estante, rodeados por novos livros sobre práticas de leitura, e com um espaço ainda disponível aos que no momento leio para o término de minha atual pesquisa, que daqui a pouco rumarão aos seus novos lares em meu quarto.
Costumo dar aos livros, em meus escritos e falas, tratamento de como se tivessem personalidades e vidas próprias, pois acredito muito em que eles tenham, sim, suas vidas próprias, suas personalidades que os caracterizam como livros (sem contar as especificidades de gênero às quais eles dão vida e das quais recebem vida). Mais vivos ainda eles se tornam quando em contato com os olhos, a boca, os ouvidos, o tato, e todos os sentidos do ser humano, que a eles dá novos significados, que a partir deles forma-se enquanto ser humano e cidadão social, que sem eles e seus registros (ficcionais ou não) não existiria.
Nessa breve atividade de fim de tarde ainda fiz uma pilha da qual irei me desfazer. Sem choro, sem lamentações. Livros espíritas, romances água-com-açucar, receitas de auto-ajuda. Já tiveram sua importância. Já encerraram seus ciclos por aqui. Agora seguirão adiante, conhecendo novos donos, novas prateleiras, sentindo novos cheiros, oportunizando novos aprendizados. Assim ocorre conosco, pessoas de carne, osso e cérebro. Assim ocorre com os livros, alimentos da mente humana.
Até a próxima reorganização livresca, as biografias abrirão os espaços (ou a falta dos mesmos) na estante, seguidas pelos de filosofia, anteriores aos de educação/leitura, que abrem caminho para as crônicas e os contos, tendo como seqüência as poesias e os infanto-juvenis, seguidos pelos romances e pelos de literatura brasileira, que encerram a prateleira e levam à porta do armário, no qual dormem tranqüilos os best-sellers e mais alguns romances.

Í.ta**

sábado, 12 de janeiro de 2008

O escrever: por e para mim

Escrever é dar a cara à tapa.

E se hoje (elemento dêitico temporal para especificar o momento dessas observações) escrevo é por timidez, porque meu ser me impede de expressar através da fala, com um mínimo de desenvoltura, o que penso e sinto.
Hoje escrevo porque, de tanto e tanto ler tantas e tantas coisas maravilhosas (e quantas ainda por vir!), desenvolvi em mim a pretensão de achar que através de minhas palavras as pessoas também poderiam se sentir tocadas, seja se encontrando em meus rabiscos, seja desenvolvendo uma antipatia pelos mesmos (e conseqüentemente por mim).
Hoje escrevo porque entre desenhos, informática, números, jogar bola, ou qualquer outra coisa, nada me agrada mais do que escrever (com exceção de ler).
E também porque todo o processo de início de um texto, de uma frase, ou a escolha de uma palavra, fascina-me. O trabalho de penso inserido nessa prática alimenta-me.
Escrevo porque dói, e porque essa dor é minha fuga. Escrevo para me contradizer e porque ainda não encontrei melhor forma de solidão.

Escrever é enfiar as mãos em um fundo escuro, por ora quieto, com agulhas bem posicionadas em pontos estratégicos. É confrontar esse escuro-quieto-tranquilo com uma claridade imensamente forte e voraz, denominada realidade, oposta à ilusão de se imaginar o que não se é.

Í.ta** (inspirado nas citações anteriores)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O escrever 5

"Escrevo por prazer: meu e das letras deleitosas.
(...) Escrevo para que o sangue corra seus abismos como se fosse águia e pela águia, pois ela faz poemas melhores que os meus quando voa.
(...) Escrevo para que a alma retorne ao corpo. A dor também é motivo.
(...) Escrevo para gozar e porque tenho bom vocabulário. E pelo poder de ser escritor. (...) Escrevo pelas máscaras que nos colocam.
(...) Escrevo para que o caçador em mim tenha mais cabeças de rinocerontes pregadas na parede. Por maldade. Por instinto. Por aquilo que não explico quando olham para meu texto e dizem que eu escrevo difícil. Escrevo porque é fácil ser difícil. A simplicidade é para os gênios. Eu não sou gênio. Sou mais um cego teimoso.
(...) É necessário inventar a vida. Por isso escrevo: eis meu lance de dados.
Escrevo porque ainda não pediram para eu parar. E é a melhor forma que eu conheço de mandar mensagens subliminares. Por covardia. Por alegria. (...) Escrevo por estar preso nesse cárcere e porque aprendi desde cedo a mentir".

(Rubens da Cunha, p. 162, livro: Aço e Nada. Ed: Design Editora, 2007)

A crônica na íntegra é de se ler em um fôlego só. Estupenda!
Leio-a e releio-a sem cansar.

Í.ta**

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Entrada

Meus primeiros fazeres desse novo ano foram muito satisfatórios, posso afirmar. Creio que viver é sinônimo de fazer. Um verbo não vive sem o outro. Por mais que tanto se queira não fazer nada o máximo de tempo possível, não se consegue. O simples fato de não fazer nada significa que se faz algo. Portanto, chegou 2008 (diz-se que é esse o ano em que agora vivemos) e em suas primeiras horas fiz algumas coisinhas que muito me satisfizeram.
Antes de tudo, a companhia daqueles com quem estive junto. Amigos presentes o ano inteiro. A família, sempre tão mais presente e confortante. As conversas ininterruptas e maravilhosas com a amada N!ce.
Após os tradicionais abraços e desejos de “feliz ano novo” e a dispensa da tradicional bebida desse momento (o não gostar dela e alguns copos de cuba já me faziam sentir bem o suficiente), sentei-me no sofá da casa onde estávamos (querida Si) e re-assisti ao show da Ana Carolina com o Seu Jorge. Duas vozes de arrepiar! Batidas de violões e baixos arrepiantes! Letras (puta-que-o-pariu) precisas!
Empanturrei-me tanto no jantar, que cometi o crime de dispensar a sobremesa, e até um banho de piscina. Sem problemas. Sentia-me sublime ouvindo e vendo aqueles dois artistas que tanto admiro elevarem seus maravilhosos tons de voz. A magia que a música tem é algo até hoje inexplicável. Arriscaria dizer eternamente inexplicável. (Rubens da Cunha diz, em uma crônica sua: "A música sustenta a alma. Não o sustentar de alimento, mas o sustentar que está nos pilares das pontes, nos caibros sob o telhado, nas patas dos antílopes. A música é a agüentadora do mundo. O nosso Altas"). Ali me encontrava, acompanhando cada palavra, cada frase, criando inúmeros sentidos para cada música, para cada batida nos instrumentos, para cada letra.
Assim que o dvd chegou ao fim, coloquei outro já na seqüência. As pessoas permaneciam na área de festa da casa. O silêncio acompanhava-me naquele sofá (às vezes algumas pessoas vinham, paravam, assistiam um pouquinho e logo saíam. Eu ali permanecia. Embasbacado. Feliz por demais. Flutuando).
A batida das músicas cantadas por Gabriel, o Pensador, mantiveram-me nesse estado de embriaguez musical. Sem contar as letras desse Pensador! Sou chato, gosto de música muito mais pela letra do que pela melodia (sem generalizar, é claro). Ouvir, nas primeiras horas de um novo ano letras tão críticas, opiniões com as quais tanto compactuo, foram-me de uma satisfação antes nunca sentida nas viradas anuais. Lembrei-me muito, ao ver o Gabriel cantando, do meu amigo Andruz. Fiz a relação entre os dois pelo aspecto físico (barba) e pelo aspecto mental (inteligências únicas).
Ainda, quando nos minutos pré e pós-virada de ano, indagava-me da disparidade existente nesse momento tido como um dos mais felizes de nossas breves vidas. Aí me lembrei do que Regininha havia-me dito na última conversa que tivéramos aqui em Xarraguá, e novamente concordei com ela. Tantos tipos de calendários existentes, tantos anos diferentes num mesmo momento, tantas datas sem sintonia quando o instante é o mesmo. Pensava: para quantos esse agora não é nada diferente dos outros agoras vividos. Então por que toda essa áurea de consumismo, de extravagância, de promessas-jamais-cumpridas? É um dia como outro. É uma noite como outra. É uma hora como outra. Em que se fazem inúmeras coisas também feitas em outros dias, em outras horas. “Ah, mas é um ano que fica para trás, e um novo que surge”. E daí? Não é certo que os anos são todos diferentes para as diferentes crenças presentes num mesmo mundo? (o mesmo valendo para o natal, mais um mito tão cultuado mundialmente). Talvez seja demais para tanta gente pensar. Apenas mais uma forma de “organizar” o viver-mundano. Soltar fogos e prometer ser uma nova pessoa é tão mais fácil.
Resolvi deixar para lá esse pensar. Inútil para o momento. Sem possibilidade de reparti-lo. Fui aos shows.
Encerrei mais essa madrugada acompanhado da leitura de um livro. Os primeiros contos de Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu. Para dormir delirante de prazer! Já que fora dessa “organização” não dá (ainda) para viver (a consciência é um dos obstáculos. Ser ignorante às vezes é tão bom!), nada como conseguir aproveitar para satisfazer-se dentro dela.

Í.ta**

O escrever 4


"Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados".

(Osman Lins: Guerra sem testemunhas. In: Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, p. 19, 2005. Ed. Agir).

paulada.
Í.ta**