sábado, 27 de dezembro de 2008

A palavra, quando vibra


O corpo conjuga o verbo palavra
(Viviane Mosé, Toda palavra, p. 30).
Encarei outro livro de Viviane Mosé. Toda palavra. Mais um soco. Na boca. Na boca por onde sai a palavra. De onde ela sai esmagada, estrangulada. Não degustada, mas remoída: “Palavra nasce no corpo. / (...) Palavra precisa de adubo de passarinho”. Conforme o dito na orelha do livro, por Chacal, "Viviane tem um caso com as palavras, na medida do impossível, um caso muito bem resolvido".
E, ao lê-la, quem acaba estreitando um caso mais profundo com as palavras, é o leitor. Se bem ou mal resolvido esse caso, depende de cada leitor. No meu caso, na medida do possível, mal resolvido. Ou melhor, nunca resolvido.
Pensar a palavra nunca deverá ser solução para algo. Estrangular a palavra é saída. É fuga. Fazê-la vibrar dentro de nós é o que nos resta. Sentir a vida através dela. Para daí sentir nossa própria vida. Não há mais o que se fazer.
E é isso que Viviane desanda a fazer em Toda palavra. Com a epígrafe de Arthur Bispo do Rosário, “Eu preciso dessas palavras. Escrita”, tem início o livro. A partir daí, há todo um desenrolar de palavras em linhas curvas. Em linhas com desníveis. Em linhas entrecortadas por facas: “O adubo de palavras mortas prepara palavras novas / (...) Uma palavra limpa é uma palavra possível”. É preciso lavar a palavra suja. Sem esquecer de que “Palavra não serve pra escrever cartas de amor. / Nem pra falar ao telefone. / Palavra não serve pra chorar. / Palavra só serve pra fazer poemas”.
Viviane diz procurar “uma palavra que me salve”. Eu também. Achá-la? Prefiro que não. Para em nenhum momento deixar de continuar procurando-a. Porque procurar por uma palavra que salve é alimento diário. É fuga e é sustentação. É contradição. É vida. Para isso, versa Viviane, “Toda palavra deve ser anunciada e ouvida”.
“Quem escreve escava / O que o silêncio palavra”. O silêncio palavra, sim. Palavra é verbo também: “Os verbos são duros por isso o abraço ao samba”. Palavrar é unir o distante: “Amor são palavras cruzadas”. É aproximar o que não se bica. É recriar sentidos. É vida, outra vez: “De todas as palavras que trago gravadas na pele / Amor é a que me assalta de madrugada. / O amor tem fome, muita fome. / Meu corpo são bocas abertas. / A madrugada me atravessa”.
Porém, ressalta Viviane, “(...) a palavra não sabe o que diz / (...) A verdade é que a palavra, ela mesma, em si própria, não diz nada. / Quem diz é o acordo estabelecido entre quem fala / e quem ouve”. A palavra é roupa que vestimos. E com quais palavras nos despimos, pergunta a autora?
Eu, assim como Viviane, “Escorro entre palavras, como quem navega um barco / sem remo. Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio”. Não me basta. Nunca me bastará. Mas não vivo sem. Sentar na calçada e virar a vida do avesso: “A vida ao avesso não tem fundo nem fim”.
í.ta**

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

palavra (um)

Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o 'de', o 'aliás',
o 'o', o 'porém' e o 'que', esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Autora: Adélia Prado,
Livro: Bagagem,
Ano: 2007
p. 20
Editora Record.

í.ta**

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

esvaziar a palavra, desatá-la


Não havia lido nada de Viviane Mosé até aportar por uns dias no apê da Regininha . Tenho dela Pensamento chão e Toda palavra, mas, por acúmulo de outras leituras, ainda não os pude folhear. E, fuçando os livros da Rê, resolvi pegar Desato para ler antes de dormir. Resolvi encarar a escrita de Viviane, há tanto tempo adiada. Livro fininho, escrito em versos. Não foi surpresa contentar-me tanto com o que li.
Como o livro não é meu, fiz um esforço danado para não sublinhá-lo, para não interagir com ele dessa forma. Consegui. Mas foi difícil.
Deparei-me, nos versos de Desato, com uma escrita muito próxima a um fluxo de consciência em torno de barcos e rios, do corpo, de palavras e de coisas; de vida. Ficam nas linhas abaixo um pouco de versos que não servem para nada. É a insignificância deles que me atrai.
Coisas: "Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas/ (...) Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas". Eu também. De livros e de nomes, como há no texto. De corpos também. "Queria escrever pessoas inteiras. Mas não hão". Sim. Porque "Pessoas são embarcações sujeitas a afundamentos".
Palavras: "As palavras ainda não ditas são as únicas coisas / Que têm mais consistência do que uma xícara de café quente / (...) palavras derramam das mãos". Neste momento me escorrem. "A palavra quando escrita ela se firma. / Quando dita ela sem som. / Quando pensada ela sem corpo". "As palavras em gestação escolhem as bocas / e mãos por onde dizer. // Ando à procura das minhas palavras". Ando mesmo. Perdido. Sempre. Por isso continuo. "Acho que a palavra nasce de mim agora como água / Brotando pelas unhas. Há um rio nas letras. Na junção delas. / Na música que fazem. Há um rio". "Palavras insistem como vespas em meus ouvidos. / E eu sou toda ouvidos. Daquilo que não tem corpo. / Nem precisa ter. // Palavras são pedaços de tempo. / Falar é soltar instantes pela boca. // Escrevo. As letras caminham sobre suas próprias perdas. / A palavra cala consigo mesma. A palavra consente. / A mim a palavra consente". A mim não sei.
Vida: "Viver é um exercício de contenção. // A vida é uma pausa do jorro. Um instante de duração". "Vida é corrente sanguínea pulsando no corpo como um rio. / E pele envolvendo tudo em contornos". "Viver não é só ser comido pelo tempo. Viver é também comer / Com os olhos, com a boca, com o corpo todo, com as mãos. / Eu como a vida e ela me come". Eu sinto prazer nisso.
Barcos e pessoas: "Barcos podem flutuar sobre as águas. // Pessoas são barcos que se confundem com as águas / Quando choram". São.
Não servir: "Eu não sei pra que servem aquários, guarda-chuvas, aviões, / Mas eu gosto. / (...) Eu gosto de não saber pra que servem tantas coisas / Como escorpiões e baratas / (...) Mesmo sem saber eu gosto / Do sem saber eu gosto". Por não saber eu vivo.
Poema: "Poema é o estado em que as palavras falam sozinhas. / (...) O poema é a música do pensamento / E as asas". E o corpo, eu digo. "Vou pegar poemas distraídos, pensei. / Poemas em banhos de sol e mar. / Poemas descansando ou nadando. / Poemas dormindo. / Quero pegar poemas sambando". "Estou começando a estar aprisionada de poemas / E poemas gostam de vibrações. Não de emoções". Porque a vida vibra. "Depois de escrever poemas eu melhoro pras coisas. / Mas não sei mais o que é poema e o que não".
Mar: "Queria me mudar para bem perto do mar. Pensei. / Mas o mar é aqui. Queria me mudar para bem perto daqui". "Um rio transborda de mim como uma fonte no mar / Me amar agora eu poderia". Belo e traiçoeiro, eis o mar. Eis o humano.
Escrever: "Se pudesse saber o certo não escreveria. / Escrevo pra descrever o que não cabe em lugar nenhum. // Escrevo palavras em vez de sentidos. Escrevo letras. // As letras têm sua morada própria e ninguém / Consegue saber onde". "Escrevo é uma palavra que se impõe em meus princípios". Persegue-me.
Dor: "Dor é uma contração da vida. / Uma retração, um encolhimento. / Algumas dores chegam a se constituir como um nó / Que o corpo faz com ele mesmo".
Para fechar, a necessidade: "Mais uma vez na dor encontrei a palavra. A alegria me cala. / Ela é o descanso das letras. Mas eu não vivo pra letras / Eu vivo pra vida. // (...) Eu preciso morrer pra encontrar palavra eu preciso perder / Eu preciso Palavra".



í.ta **
_______________________
Autora: Viviane Mosé
Livro: Desato
Editora: Record
Ano: 2006
98p.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

o livro 5

“Você já pôde folheá-lo um momento na livraria. Ou não pôde, porque ele estava envolvido em sua embalagem de celofane? Você está no ônibus, de pé entre as pessoas, segurando-se à barra de apoio com uma das mãos, enquanto com a outra tenta desfazer o embrulho, um pouco como um símio, um símio que quer descascar uma banana sem se soltar do galho ao qual está suspenso. Cuidado com suas cotoveladas; peça desculpas, ao menos.
Talvez na livraria não tenham embrulhado o livro e apenas o tenham posto em uma sacola. O que simplifica as coisas. Você está no carro, parado no sinal vermelho: tira o livro, rasga o invólucro transparente, lê as primeiras linhas. Uma tempestade de buzinas se desencadeia; o sinal está aberto, você bloqueia o tráfego.
Você está sentado à sua mesa de trabalho, o livro posto como por acaso entre seus papéis; levanta um dossiê e se apercebe dele; abre-o distraidamente, com os cotovelos apoiados na mesa, os punhas nas têmporas, podia-se dizer que está mergulhado no exame de um caso, e eis que se encontra a percorrer as primeiras páginas do romance. Você se apóia suavemente no encosto da cadeira, levanta o livro à altura do nariz e, com o assento bem equilibrado sobre os pés traseiros, pousa os seus em uma gaveta lateral da escrivaninha, aberta inteiramente – a posição dos pés durante a leitura é da maior importância. Ou melhor, estica as pernas por cima da mesa, no meio dos dossiês em pauta”.

Autor: Italo Calvino
Livro: Se um viajante numa noite de inverno
Ano: 1979
pp. 12-13.

í.ta**

domingo, 7 de dezembro de 2008

peças íntimas


pessoas!

sintam-se todas convidadas para
prestigiar o lançamento do livro
"peças íntimas",
no SESC, na próxima terça-feira,
09.12.08, às 19h30.

um livro com textos de onze
autores aqui de jaraguá do sul.

faço-me presente entre eles =)

acesso gratuito.
í.ta**

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Um texto de cada vez


Vivo o presente presente com um pé no presente futuro. Os fatos passados em mim não se fixam feito tatuagens. São elementos formadores, e não delimitadores, do que sou hoje. Também, não aguardo com ansiedade o que está por acontecer, mas sim planejo alguns possíveis acontecimentos futuros. Ora ocorrem, ora outros interrompem o programado. Sem crise. Viver é estar sujeito ao imprevisto.
(É importante que em nenhum momento deste texto as afirmações nele expressadas sejam generalizadas. Escrever sobre si mesmo nunca é um acerto. Fatos são devidamente guardados, outros levemente alterados, e alguns – poucos, talvez – apresentados com certa veracidade. Escrever é um ato de fuga).
Há duas práticas que me acompanham há um tempo ainda recente, mas que, creio eu, continuarão a me fazer companhia, pelo bem que em mim provocam. Refiro-me à leitura e à escrita, pois se hoje me afirmo pouco ansioso e tranqüilo no viver o presente presente é em função das leituras e dos escritos que já fiz e faço.
Alguns livros e escritos próprios muito representam quem já fui e quem sou. Há uma pausa presente no ato de ler e de escrever que causam em mim uma sensação de segurança muito gostosa. Sinto necessidade de sentir isto. A rotina diária consome todos, e minha fuga significa estas duas práticas. Cada leitura provocando um sentimento – ou amenizando-o –, cada texto escancarando marcas. Um texto de cada vez. Cada coisa ao seu tempo.
A conotação de tempo está, para mim, diretamente ligada à produção leitora e escrita que faço. São fugas, e são encontros comigo mesmo. Justificam muito bem a afirmação primeira deste texto. A inutilidade me atrai. Minhas ações não prescindem de resultados imediatos. As melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam.
í.ta**

domingo, 30 de novembro de 2008

de repente, um oi (quarta e última semana)

4ª semana.

Vim me esconder mais longe. Cá em cima, ainda mais ao canto inferior de um mito-imbecil. Lugar em que o silêncio fala por si só. É disso que preciso. Nem a respiração emite qualquer som passível de audição. É o princípio de um novo fim, sinto.
í.ta**

sábado, 29 de novembro de 2008

de repente, um oi (terceira semana)

3ª semana.

Fazia calor, lembro-me. O silêncio ocupava o espaço. Paralelepípedos soltos. Telhados limpos, janelas fechadas, jornais nas calçadas. Cães com sede, deitados sob um pedaço de sombra na brita. Varais ausentes de roupa, repletos de grampos. Tudo estava tão real. Não havia mais como entrar em contato, descobri. Jogado para longe, incomunicável tornei-me, a todos, inclusive a ela. Deitado sob minhas próprias pernas, assim permaneci um dia inteiro. O silêncio significou, naquele momento, todo meu corpo.
Dormi tensos dias e noites enquanto soube que ela fumava mais um cigarro sob a mesma sacada na qual tudo tivera início. Pedaço de papel rasgado. Carta abandonada. Destinatário não encontrado, remetente falecido. Resolvi ligar.
Rabisquei letras soltas, sem propósito algum. Desejei mudar: ação desprezível. Lágrimas de sal cicatrizaram minha face. Em vidros quebrados de uma antiga janela pinguei as gotas que de meus olhos escorreram, acompanhado de um contínuo fluxo de sangue, a sair-me do nariz. Vaga lembrança de vida própria. Tremeram-me os dedos e a língua. A fala não saiu. O vento gelado do outono batizou-me o peito e desalinhou os poucos fios de cabelo que ainda me sobravam. Resgatei frases, princípios antigos, filosofias (inúteis, ali percebi) de vida

"só me deixe aqui quieto
isso passa
amanhã é um outro dia
não é?".
í.ta**

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

de repente, um oi (segunda semana)

2ª semana.
Escrever não mais é suficiente. As palavras não são capazes de traduzir tudo o que sinto ou penso. Será que um dia traduzirão? Não sei. Sinto-me escrava delas. Como a Martha Medeiro escreve: “quanto mais escrava / mais escrevo”. Sinto-me impotente diante delas. A quantidade de espaços em branco no papel diminui e o tudo escrito resume-se ao nada presente em mim. Então para quê aquele oi, ainda pergunto-me.
Para insistir. Para manter-me vivo. É isso. Apaixonar-se é adiar a própria morte. Eu sei, eu li As intermitências da morte, do Saramago. Eu queria uma morte como aquela. Ah, eu quero, sim. Se eu pudesse, pegava-a no colo e fazia-a dormir, em paz. A morte em paz. É lindo isso. Eu acho.
Aqui passo mais uma noite acordado. Escrevo não sei para quem. Ou sei. Há um leitor, que no momento sou eu. Mas qual eu é este? Desejo que estes escritos venham a ter outros leitores. Outras vidas. Questão de observar por novos ângulos: triângulos. É difícil me sentir melhor assim. Acostumo, mas não me acomodo. Não quero a definição e a explicação de tudo. Quero, apenas, sentir. Se possível, isolado do pensar. Vivo, ainda, no fazer da utopia uma realidade. A esperança que lateja.
Também, sinto que algo em mim sumiu desde o acontecido. Algo desapareceu. Procurei um esconderijo, o colo. Desejei apenas compartilhar da felicidade. Sinto alguma mudança. Ou não? Ou é algo que desejo e não acontece? Tem sido difícil me acostumar à montanha-russa na qual, com medo de altura, brinco sem parar. Posso optar por algum outro brinquedo, posso optar por novos lugares, posso me dispor a trocar de roupas, ou até mesmo de cabelo. Mas não. Opto por permitir-me um tempo ao desejo que não sei qual é. Sinto tudo ser uma questão de tempo, e ação, por conseguinte. Mas também pode ser que novamente eu esteja me enganando. Falta sintonia e sobram rachaduras. Processo de reconstrução.
Amei-a, sim. Sem que ela soubesse (pelo menos até o momento em que um oi se transformou em palavras mais sérias). A distância era grande, mas não impedia. Gostaria, agora, de voltar no tempo. Pará-lo. Estar ao lado dela. É reconfortante pensar assim. Um futuro juntos? Seria legal. Numa mesma casa? Também seria legal. Num mesmo quarto, numa mesma cama? Às vezes, quem sabe, afastando-se um pouco. A distância, curta, creio que faria-nos bem. Duas vidas distintas, isoladas em si mesmas. Dois sujeitos distintos, isolados em si mesmos. Completávamos-nos. Eu pelo menos acho isso. Gostaria de deitar e sentir o colo dela, os seios, a boca, o cabelo, as mãos a me acariciar. O mundo poderia ser menor, as distâncias menores, as facilidades para estarem juntos maiores.
Preciso agir. Preciso consertar o que fiz. Era um simples oi, como sempre. Não foi. Agora é cômodo demais deixar que o tempo ajeite as coisas.
í.ta**

terça-feira, 25 de novembro de 2008

de repente, um oi

1ª semana.

Toda noite era mesma rotina. Um oi discreto, tímido. Não, melhor, um oi com medo. Medo de ser rejeitado. Medo da perda, mesmo que posse nenhuma eu tivesse sobre algo. Chegava apressado da rua, respirava de modo ofegante, não me trocava, não ia me lavar, não. Tinha bem claro o que eu desejava fazer. Um oi.
O tempo se encarregara de fincar em mim vivências há pouca sentidas. Cicatrizes no corpo. Marcas de um passado-ainda-presente.
í.ta**

domingo, 16 de novembro de 2008

O livro 4


"Um livro traz sua própria história ao leitor.
(...) os livros infligem a seus leitores um simbolismo muito mais complexo do que o de um mero utensílio. A simples posse de livros implica uma posição social e uma certa riqueza intelectual.
(...) sei que algo morre quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a eles com uma nostalgia pesarosa.
(...) os livros davam-me um lar permanente, e um lar que eu podia habitar exatamente como queria, a qualquer momento, por mais estranho que fosse o quarto em que tivesse de dormir. (...) Cada livro era um mundo em si mesmo e nele eu me refugiava.
(...) o mundo que se revelava no livro e o próprio livro jamais poderiam ser, de forma alguma, separados".

Autor: Alberto Manguel
Livro: Uma história da leitura
Ano: 1997
p. 30.Editora: Companhia das letras
________
Í.ta**

sábado, 8 de novembro de 2008

A subversão culpada


Já afirmara o escritor argentino Alberto Manguel, em Uma história da leitura, que Um livro traz sua própria história ao leitor. É este o sentimento que fica ao término da leitura das dez narrativas presentes em A culpa é do livro (Design Editora, 2008), do escritor, também argentino, Gabriel Gómez. Um sentimento já expressado por Marisa Lajolo, de que Cada leitor, na individualidade de sua vida, vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que, ao longo da história de um texto, este foi acumulando. Cada leitor tem a história de suas leituras, cada texto, a história das suas.
Dez narrativas. Abrindo cada narrativa, uma epígrafe escolhida a dedo, cuidadosamente, que seduz o leitor para aquilo que virá nas próximas páginas, as dez personagens-leitoras. Cada uma com uma história muito própria com relação a algum livro. A culpa é sempre do livro. A culpa pelo bilhete perdido, pelo desejo incomum de devorar os livros cheirando-os, pela solidão e loucura provocadas por uma ausência de livros. A culpa pela busca do nada. A culpa pela exaltação da inutilidade. As melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam. Construir junto a algum livro uma história própria é algo maravilhosamente inútil feito por cada personagem-leitora do livro de Gómez.
Inutilidade esta representadora de um ato subversivo. Talvez o ato mais subversivo dos dias de hoje. Mergulhar na história de um livro, abraçar este livro, torná-lo algo inerente a si, e, principalmente, deixar claro o desligamento das coisas mundanas no momento em que se lê tal livro, são ações que assustam e que incomodam muito a quem não as vivencia. É o sujeito-leitor, hoje em dia, o maior revolucionário, aquele que se incorpora a um livro para engendrar-se na vida.
Livros, sozinhos, não fazem ruídos. Acumulam pó. Livros são exigentes. Para movê-los, para extrair deles algum som possível, exige-se grande esforço. Ser leitor é colocar-se à disposição deste esforço. É o leitor o ingrediente fundamental de uma história. Um leitor perspicaz, sensível ao que existe ao seu redor. Um leitor que trata a leitura como interação com o mundo e consigo mesmo. Um leitor corajoso, que a todo o momento se vê diante de escolhas a fazer, que vive sempre uma batalha em busca de algum sentido. Um leitor de livros errantes, que sente demais o medo de passar um livro para a frente.
Estes sujeitos-leitores presentes em A culpa é do livro representam também o leitor trazido por Piglia, em O último leitor. O leitor extremo, sempre apaixonado e compulsivo; viciado, que não consegue deixar de ler, insone, sempre desperto, para quem a leitura é uma forma de vida, para quem a literatura dá um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica. São, estes sujeitos-leitores, os últimos leitores, aqueles leitores em busca do sentido experiência perdida, que dão à literatura uma utilidade inimaginável. Que dão ao livro uma vida transformadora.

Trecho do livro:

“Quando voltei a ler a frase daquele poema, lembrei-me, surpreso, que existia um bilhete dentro de algum livro da minha biblioteca, guardado propositadamente para que eu pudesse ler, muito tempo depois. Minha mente tinha aparentemente criado um bloqueio em relação àquele pedaço de papel e, após todos estes anos em que nem sequer me lembrava de sua existência, fiquei curioso pelo seu conteúdo. Mal sabia onde poderia estar escondido, depois de anos, e nem o que ele dizia.
Talvez algumas pessoas saibam a minha idade, aparência e profissão (muitas vezes tentei não mentir!), mas todos esses dados não me descreveriam por completo. Os livros, eles sim, conseguem me expor como um espelho sem máscaras, embora com algumas vírgulas e reticências. E pelo que lembrei agora, também por alguma ou outra história incompleta contada em algum bilhete esquecido entre suas páginas.
Minha biblioteca abriga diversos volumes, de várias gerações. É verdade que ela já não é tão completa, mas ainda restam aqueles de amor secreto. Não sei quantos deles só abri para folhear e quantos li, de fato. Cultivei o ato da leitura sabendo que nenhum livro é o primeiro, e nenhum é o último. Sempre percebi que formar uma biblioteca é um ato de criação; assim, como considero livros o principal instrumento da imaginação, não os leio tentando aprisionar o superficial. Todos esses livros são, para mim, companheiros vivos, que sorriem, choram, abusam, formam, acalentam, respiram. Minha surrada colcha de retalhos literários. Convivem pacificamente entre novos e velhos, lidos e esquecidos, clássicos e anônimos e valem pela satisfação que provocam em quem os têm nas mãos. Eu os sinto todos ligados a mim por laços invisíveis e remotos”. (do conto O bilhete perdido, pp. 24-25).
Í.ta**

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Quando penso nos outros

Não consigo explicar porque gosto tanto de ler. Fica vago eu aqui justificar coisas do tipo “porque a leitura faz bem ao desenvolvimento do ser humano”, algo que tanto falo nas vezes em que apresento minhas pesquisas sobre leitura. Há algo a mais que extrapola, também, a idéia de, através da leitura, paradoxalmente, abstrair-se do mundo para nele encontrar algum sentido (apesar de eu gostar muito dessa idéia do Daniel Pennac).

Terminei a leitura de “Pena de ganso”, da Nilma Lacerda, e, no durante, percebi uma possibilidade de entender este meu gostar da leitura. Não digo que alcancei uma resposta, mas percebi algo que ainda não havia percebido.

Há um sentimento em mim, quando leio, de pensar nos outros. Muito. Não sou um ser humano dos mais altruístas. Há uma individualidade em mim muito grande e forte. E me dei conta de que penso demais nas pessoas (próximas a mim ou não, independe) ao ler. Cresce em mim uma vontade de presentear alguém, ou de simplesmente sinalizar algumas poucas palavras: “lembrei-me de você ao ler tal coisa. Acho que gostará”.
Com música também, só que com menos freqüência, porque eu leio mais do que ouço. E com a leitura é algo mais puro, sinto. E algo mais constante. Sei lá, faz-me bem sentir isto, esse pensar no outro, mesmo que em função de algo específico. Chega de “algos”. É isto. Ler também é se conhecer, alguém já disse. Concordo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

senhas

"Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem".

(Adriana Calcanhoto
disco: senhas,
1992)

í.ta**

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O leitor que move a utilidade literária

A relação de afeto que a literatura demanda por parte do sujeito-leitor, daquele que se encoraja ao desconforto e a despir-se em uma relação íntima com o texto, maravilhosamente apresentada por Artur de Vargas Giorgi no DC Cultura de 14/06/2008, evocaram neste sujeito-leitor aqui um (re) pensar duas condições, a meu ver, inerentes à literatura: sua (in) utilidade no contexto escolar, e a condição de ser leitor desta literatura.
Gosto muito de pensar e de sentir que as melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam disso. Mas também sinto a necessidade de pensar na utilidade de algumas coisas, como, por exemplo a utilidade da escola e a utilidade da literatura enquanto disciplina escolar. Posso até amar que as diversas formas de arte sejam vistas como coisas-sem-serventia neste mundo consumista e utilitarista em que se vive hoje em dia, mas também preciso pensar a arte como sendo útil, pois para mim ela tem uma utilidade maravilhosa, que é a de me permitir sonhar, crer em algo, encontrar algum sentido para o viver. E, se em mim a arte provocou uma mudança no meu modo de ser/pensar/agir, eu preciso crer que o contato com ela poderá também provocar mudanças em outras pessoas, e aí eu me deparo com o útil que posso encontrar nela, e o aceito.
Nessa contextualização é que vejo como possível indagar a importância e a utilidade da disciplina literatura dentro da escola. Sinto-me instigado a pensar nela como essencial. Não de uma maneira grosseira e prepotente, mas sim como uma convicção, uma segurança de que ela pode contribuir, e muito, no processo de formação dos sujeitos-alunos.
A literatura é a arte da palavra escrita. É a manifestação do real e do imaginário através da palavra escrita. A literatura envolve, impreterivelmente, o ato de ler, uma prática de leitura. A leitura pode ser apontada como o meio mais eficiente para se alcançar o senso crítico. O ato de ler – independentemente do como e do o que se lê – está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, dentro da qual ele possui direitos e deveres a cumprir, como também ao desenvolvimento do ser humano enquanto sujeito, enquanto um ser histórico, subjetivo, singular.
Se a literatura é o trabalho desenvolvido com a prática da leitura do texto escrito (não só, mas principalmente), e se a leitura é condição sinequanom para a formação e o desenvolvimento do ser humano como um sujeito-social, a finalidade da literatura é a de contribuir, através de uma prática constante do ato de ler, para essa formação social e subjetiva do sujeito-aluno (a quem ela é primeiramente destinada na escola).
Diante disso, qualquer indagação do porquê de se trabalhar a literatura na escola perde o sentido. Conforme as palavras apresentadas por Ana Maria Machado em seu Balaio: livros e leituras, As obras literárias nos convidam a um exercício de liberdade de interpretação e de respeito pelas diferenças. Colocam diante de nós o desafio de enveredar por um discurso que oferece diversos planos de leitura, numa linguagem rica em potencialidade inesperadas, cheia de ambigüidades. Como a vida.
Neste quadro da utilidade da literatura há, então, um sujeito-leitor, proposto pelo filósofo e lingüista Umberto Eco em seus Seis passeios pelo bosque da ficção como um ingrediente fundamental não só do processo de contar uma história, como também da própria história.
Um leitor perspicaz, sensível ao que existe ao seu redor, que constrói junto ao texto um sentido próprio, este que traz imbricadas em si dimensões de ler, de viver, e de estar no mundo deste sujeito-leitor. Um leitor que trata a leitura como interação com o mundo e consigo mesmo. Um leitor corajoso, que a todo o momento se vê diante de escolhas a fazer, que vive a batalha em busca do sentido apresentada por Marta Morais da Costa em seu Mapa do mundo: crônicas sobre leitura, na qual escritor e leitor, irmanados lutam a mesma luta vã, derrotados pela força da palavra, vingam-se espalhando seus sentidos em muitas e múltiplas interpretações.
Este sujeito-leitor aqui discutido também pode ser o leitor trazido por Piglia, em O último leitor. O leitor extremo, sempre apaixonado e compulsivo; viciado, que não consegue deixar de ler, insone, sempre desperto, para quem a leitura é uma forma de vida, para quem a literatura dá um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica.
Assim, o leitor dessa literatura útil é o leitor que interage com o texto, que cria e recria sentidos, que relaciona o texto a outros já lidos, a situações já vividas, que compreende as ideologias presentes em cada texto, e o fato de um texto nunca apresentar sentidos completos. É o leitor que Manguel, em Uma história da leitura, defende como aquele que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo.
É o último leitor, aquele leitor em busca do sentido experiência perdida, que dá à literatura uma utilidade inimaginável.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

primavera


ciclos



em meio à primavera
tem um outono
no branco do papel

a lapiseira
rabisca a garatuja
da palavra que não brota


Autor: Clotilde Zingali
Livro: Bricolagens para geladeira
Ano: 2006
p. 27.
Editora: Nova Letra


Í.ta**

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

o livro 3

"(...) tenho amigos cuja companhia me é extremamente agradável: são de todas as idades e vêm de todos os países. Eles se distinguiram tanto nos escritórios quanto nos campos, e obtiveram altas honrarias por seu conhecimento nas ciências. É fácil ter acesso a eles: estão sempre à disposição, e eu os admito em minha companhia, e os despeço, quando bem entendo. Nunca dão problemas, e respondem prontamente a cada pergunta que faço. Alguns me contam histórias de eras passadas, enquanto outros me revelam os segredos da natureza. Alguns, pela sua vivacidade, levam embora minhas preocupações e estimulam meu espírito, enquanto outros fortificam minha mente e me ensinam a importante lição de refrear meus desejos e de depender só de mim. Eles abrem, em resumo, as várias avenidas de todas as artes e ciências, e eu confio em suas informações inteiramente, em todas as emergências. Em troca de todos esses serviços, apenas pedem que eu os acomode em algum canto de minha humilde morada, onde possam repousar em paz – pois esses amigos deleitam-se mais com a tranqüilidade da solidão do que com os tumultos da sociedade".

Autor: Francesco Petrarca
Texto: Meus amigos
Livro: A paixão pelos livros
Ano: 2004
p. 51.
Editora: Casa da palavra
Í.ta**

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

o corpo nosso de cada dia

"Nesse início de século 21, o padrão estético de corpo caracteriza-se pelo biotipo longilíneo e magro, como aqueles de modelos vistos em campanhas televisivas, na mídia escrita e em outdoors. O corpo, para ser bonito na atualidade, deve seguir a regra do padrão estético culturalmente difundido e disseminado. Ou seja, é fabricado um padrão visual e estético pré-estabelecido que deve ser buscado e consumido pela sociedade.
Os dispositivos de poder utilizam os meios de comunicação de massa para captar e administrar os desejos, pensamentos e ações dos corpos, transformando-os em necessidades adquiridas. "Um quilinho a mais" faz muita diferença, sim. Para perdê-lo, não se poupam esforços.
Esse corpo-padrão transforma-se em objeto de consumo no momento em que se idealiza um padrão estético na massa e cria-se toda uma intenção de adquirir ou até mesmo de comprar este corpo ideal. Por trás disso surge todo um mercado que traz em suas prateleiras opções como próteses de silicone, operações de lipoescultura, lipoaspiração, retirada de costelas (para afinar a cintura) e sessões de bronzeamento artificial.
Só nos reconhecemos como "belos" se nossos corpos se refletirem no espelho social do signo de beleza. No dia-a-dia, percebemos um grande número de pessoas com dificuldades de lidar com o próprio corpo. Não são raras as pessoas que se envergonham com sua auto-imagem corporal: o obeso, o baixinho, o não-bronzeado, a mulher com celulite, o portador de deficiência e tantas outras, todas vítimas da ridicularização de companheiros e estranhos, passando, muitas vezes, pela rejeição dentro do seu próprio grupo.
Estar fora dos padrões da estética é uma realidade muito árdua, uma vez que a ditadura da beleza humilha a quem não se dobra a seus padrões. Um exemplo é a senhora/mulher que entra na academia porque quer enrijecer o seio flácido pela idade, pois não consegue mais amar o marido de luzes acesas por vergonha. Essa mulher é um sujeito envenenado pela cultura do corpo belo. A jovem que vai a óbito por anorexia morreu de objetivação da mesma cultura: sentiu na "carne".
Em nossa cultura somática, a aparência virou essência. Hoje somos o que aparentamos. Estamos, portanto, expostos ao olhar do outro, sem lugar para se esconder, se refugiar. Estamos totalmente à mercê do outro, já que o que existe está à mostra. Somos vulneráveis ao olhar do outro, mas, ao mesmo tempo, precisamos desse olhar, de sermos percebidos; caso contrário, não existimos. O olhar do outro serve, assim, como uma espécie de referência sobre o nosso próprio corpo, sobre nossa estética, sobre os modos de nos vestirmos.
É o momento de criarmos um contra-cultura com relação a essa padronização burra do corpo, a fim de que existam novas lentes para se olhar esse corpo. A estética não pode mais estar acorrentada a padrões impossíveis de se chegar. Ao olhar para o espelho, é preciso que nos eduquemos para encontrar em nosso corpo o sorriso e a saúde, não mais uma celulite ou quantos centímetros temos de diminuir no abdômen. Precisamos começar a utilizar o espelho para ressaltar a verdadeira beleza e não mais a beleza comprada em magazines estéticos. Precisamos procurar as academias em prol da qualidade de vida e não mais em prol de um glúteo rígido".
escrito por Fábio Zóboli (Doutor em educação e professor da Faculdade de Brusque (Unifebe)), com a colaboração de Carlos Eduardo Raimundo da Silva, acadêmico de educação física da Unifebe, e Ítalo Puccini, acadêmico de letras da Univille.
publicado no jornal ANotícia de 20 de agosto de 2008, p. 10.
flores e tomates, à vontade.
í.ta**

domingo, 17 de agosto de 2008

alguma coisa de muito diferente


a literatura é um troço louco. algo nela me encanta de uma maneira difícil de explicar. escrevo, escrevo, escrevo e leio sobre, mas, ainda bem, jamais conseguirei defini-la, muito menos expressar com uma mínima proximidade o que ela provoca em mim.
fiz a leitura de De repente, nas profundezas do bosque, do escritor israelense Amós Oz, e, novamente, durante e após a leitura, o sentimento de que a literatura provoca no ser humano algo que foge de sua compreensão me invadiu. é uma sensação muito boa, alguma coisa de muito diferente de todo o resto. ainda bem que não consigo mais viver sem sentir isto. um livro após o outro. um sentimento que complementa o outro.
uma fábula muito gostosa, sem maiores enrolações, escrita com leveza. os capítulos são, em sua maioria, curtos. não são todos os capítulos que terminam fazendo alguma ponte direta com o próximo. não há essa necessidade.
em uma aldeia pacata não há bicho algum. o que seria um mistério, é tratado com certo descaso pelos adultos. não por algumas crianças. poucas. três ou nove. o mergulho delas em tal mistério é o fio condutor da narrativa. elas sentem que há algo a mais naquele bosque. seus olhos imploram por novas imagens. elas não recuam. e... (é fazer a leitura e descobrir o que elas descobrem; ou não).
nunca havia lido nada do escritor israelense. se a primeira impressão é a que fica, esta é muito boa. é um livro infanto-juvenil. desconheço se o único do autor para essa faixa etária. independentemente desta categorização, é um livro para todos aqueles que se dispõem a se aventurar por entre árvores e personagens, mergulhando no mistério da solidão humana e animal.
í.ta**

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

três leituras. três sentires.






Três recentíssimas leituras que, por motivos diferentes, me fizeram parar de respirar por maravilhosos dias.


O quieto animal da esquina (João Gilberto Noll)


Narrativa de prender o fôlego. Uma narrativa toda centrada no personagem (este sem nome, o que encanta ainda mais). Acompanhá-lo é senti-lo na pele. Tão empolgado que fiquei, do Noll ainda li "Hotel Atlântico" (também de prender o fôlego), e "Canoas e Marolas".


Kafka e a boneca viajente (Jordi Sierra i Fabra)


A força da palavra. O poder da literatura. O encantamento que as duas proporcionam. Kafka como personagem. Um personagem que se torna autor de cartas de uma boneca para a menina que perdera tal boneca. Cartas estas que fazem a menina acreditar na vida e no amor de viver. História linda por demais. Sensibilíssima.


Renato Russo - o trovador solitário (Arthur Dapieve)


Depois de assistir por duas vezes à peça "Renato Russo - o trovador solitário", mergulhei fundo na biografia de um artista que tanto admiro. Li pela segunda vez a biografia, e novamente terminei ela com a sensação de que o cara foi alguém que vai além de nossa vã tentativa de tentar compreendê-lo. Ouvir suas músicas é o que nos resta. E tentar com elas ter o mínimo de sensibilidade que elas passam. Foi de arrepiar também.
Í.ta**

quinta-feira, 31 de julho de 2008

o livro 2

"Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós".

Autor: Franz Kafka


Citado em: Alberto Manguel
Livro: Uma história da leitura
Ano: 1997
p. 113.

Editora: Companhia das letras

Í.ta**

terça-feira, 22 de julho de 2008

o livro 1


“Na vitrine da livraria, logo reparou na capa e no título que procurava. No trajeto de sua mirada, abriu caminho na loja sob o nutrido fogo de barragem dos livros-que-você-não-leu que, das mesas e das prateleiras, lançavam-lhe olhares ameaçadores, para intimidá-lo. Por hectares e hectares se estendem os livros-que-você-pode-passar-sem-ler, os livros-feitos-para-outros-usos-que-não-a-leitura, os livros-já-lidos-sem-que-haja-necessidade-de-abri-los – porque-já-pertencem-à-categoria-dos-já-lidos-mesmo-antes-de-ser-escritos. Você transpõe então a primeira fileira de muralhas; mas eis que lhe tomba em cima a infantaria dos livros-que-você-leria-voluntariamente-se-tivesse-várias-vidas-para-viver-mais-infelizmente-são-só-estes-os-dias-que-lhe-restam. Você os escala rapidamente e atravessa a falange dos livros-que-você-tem-a-intenção-de-ler-mas-seria-necessário-primeiro-ler-outros, livros-caros-demais-que-pretende-comprar-quando-baixarem-à-metade-do-preço, livros-idem-acima-quando-saírem-em-edição-de-bolso, livros-que-você-poderia-pedir-emprestados-a-alguém, livros-que-todo-mundo-já-leu-e-é-então-como-se-você-também-os-tivesse-lido. Esquivando-se de seus assaltos, você se encontra enfim sob as torres do fortim, expostos aos esforços de interceptação dos
livros-que-há-muito-tempo-você-tem-intenção-de-ler,
livros-que-procurou-durante-anos-sem-encontrar,
livros-que-tratam-exatamente-do-assunto-que-o-interessa-neste-momento,
livros-que-você-quer-ter-a-seu-lado-em-qualquer-circunstância,
livros-que-você-poderia-separar-para-ler-talvez-no-próximo-verão,
livros-que-você-tem-necessidade-de-alinhar-com-outros-na-mesma-estante,
livros-que-lhe-inspiram-de-repente-uma-curiosidade-frenética-e-pouco-justificável”.
Obra: Se um viajante numa noite de inverno
Autor: Italo Calvino
pp: 10-11
Í.ta**

terça-feira, 8 de julho de 2008

julho

check up


tem sempre um julho, no curso da vida, que deixa a sensação de fragmento, de corte de faca afiada na pedra – um sentimento de que inexistem estações depois do inverno, de que a vida inverte termômetros.
(Clotilde Zingali: “Bricolagens para geladeira”: 2006, p. 75. Ed: Nova Letra).
í.ta**

terça-feira, 1 de julho de 2008

1° de julho

Eu vejo que aprendi
O quanto te ensinei
E nos teus braços que ele vai saber
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que guardei pra ti.

Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta um compromisso
Vale mais o coração
Já que não me entendes, não me julgues
Não me tente
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim.

Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua Deusa, meu amor.

Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração.

Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava ao teu lado então.

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa, meu amor.

O que fazes por sonhar
É o mundo que virá, pra ti
e para mim.

Vamos descobrir o mundo juntos, baby
Quero aprender com o teu pequeno grande coração
Meu amor, meu amor.

composição: Renato Russo

í.ta**

quinta-feira, 26 de junho de 2008

literatura: novidade e impessoalidade

"Querer escrever algo 'novo' é uma estupidez; resta-nos escrever sobre nós, sobre nossas obsessões, angústias, temas recorrentes – a escritura é pessoal, é corporal –, e se meu texto se parece com o de outros escritores, tanto faz: parece que temos algo em comum, e isso me aproxima deles, e é bom. Querer escrever algo próprio, meu, cujos temas e provocações são sempre os mesmos, é uma desculpa para não tentar algo novo, outro texto, outro trabalho, e corro o risco de, por preguiça, não escrever nada mais sério, mais trabalhado do que as coisas que escrevo agora.
Dizer que a literatura não deve ser 'pessoal' é falso. A literatura é inteiramente pessoal, mas como não posso sentar com alguém num bar e, de repente, começar a conversar sobre o tempo e a morte, escrevo, e alguém vai ler, e vai pensar sobre o tempo e a morte. A literatura é uma contradição: não falo com ninguém sobre o tempo e a morte, escrevo sobre isso, e reclamo depois que, por não ser lido, não consigo discutir sobre esses temas com ninguém".
retirado do site do Renato Tapado, há muito, muito tempo.
Í.ta**

quarta-feira, 11 de junho de 2008

o frio


Tem frio
um frio muito fino

(Adília Lopes. Antologia. 7 Letras; Cosac & Naify. p. 130. 2002)

Í.ta**

quinta-feira, 5 de junho de 2008

palavra-vidro

Silêncio.

Ruas vazias; azuis. Nas paredes a sombra da vertigem. Vizinhos ausentes. O silêncio ocupado pelo vento irrequieto: reflexo de si. Ou ele do vento. Paralelepípedos em comunhão, flores dançando para um mesmo lado, telhados limpos, janelas fechadas, jornais nas calçadas. Cães com sede, deitados sob um pedaço de sol na brita. Varais ausentes de roupa, repletos de grampos. Tudo tão real. No canto de um prédio abandonado, o medo. Dias assim, na ausência de luz. Chegara a pensar que o sol fora castigado, que a lua havia esquecido de voltar ao seu lugar de origem após o eclipse. Dormia e acordava, então, sem nada sentir. O que o agoniava mais ainda: a si mesmo pouco sentia além da angústia da fraqueza interna.
Era seu o corpo que ia daqui para lá, depois um pouco mais para o lado, então, voltava ao local de antes. Esperava que as horas passassem, assim como os vagões dos intermináveis trens que dali podia ver, e ouvir. Imaginava melodias com o barulho daquelas rodas de ferro girando na medida sob a ponte também de ferro segurada por madeiras. O corpo reagia a tudo isso. Dores intermináveis, agudas. Gotas de tristeza a inundar cidades-corações: resposta imediata ao descaso para com a própria vida já inexistente no próprio corpo.
Sentia saudades, muitas. Tentara, em vão, contato. De repente, apenas três ou nove palavras: "Ah, sim, tudo bem". "Tudo bem mesmo?" "Sim, sim". Agora sozinho, novamente. Livro à mão, aberto, na última página. História conturbada, cabeça embaralhada. O interruptor ainda não encontrara. A chave também não. Na realidade, nem procurara. Apenas deixara-se guiar por seus pés. As costas doíam, desde o início do dia. O chão era macio em demasia, parecia nuvem. Desejava ser ouvido, desejava gritar. A inquietação era cada dia mais profunda. Procurava, silenciava, parava, pensava, andava, rolava, dormia, sorria, chorava, gritava, enraivecia, dormia, se entregava: e não o porquê. De repente aquela luz. Claridade, também, em demasia. Corpo ainda rígido, coração ainda intranqüilo, medo sempre-ainda presente. Quem sabe agora algo poderia mudar. Dependeria dele mesmo. Mas achava melhor não arriscar.
Insignificante. Tudo o que pudera ser dito perdera-se em meros segundos, todos os gestos apagaram-se e substituídos foram por um só: o fechar de dois pares de olhos. E a lembrança agora é mortal. Escuro-azul. Mãos em frente, tocaram-se. Destocaram-se. Não queriam mais, não adiantava. A atração agora inexistia. Livros e cigarros não mais compartilhados. Deuses e discussões de lado. Sob o travesseiro, uma proteção. Sob o piso gelado, outra. Tão longe, tão perto. O amor, que um dia existira, fora guardado.
Eis o fato: os lábios desgrudaram-se, a boca abriu-se, a língua lá dentro mexeu-se para o alto, para o baixo, para um lado, para o outro. Os dentes permaneceram onde estiveram; a palavra mesmo assim saiu: fuga.
A flecha corta o ar frio, rompe as nuvens, perfura o vento, amolece o sol. Ele tinha pressa. Precisava impedir essa palavra de encontrar-se e agarrar-se ao seu alvo. O ferimento causado por ela seria profundo e doloroso. A cicatriz seria eterna, colorida pela mágoa, enfeitada pela dor. Os ouvidos seriam, ao final, os que menos a sentiriam, entrando, estando, cruel; apenas abririam suas portas e diriam: "não o estrague mais ainda". A velocidade, já lá dentro, não deixaria dúvidas: "desculpe, mas a realidade, nua e crua, traz consigo o estado de quase-morte, o desmaio, o frio, o pânico. Submeter-se a ela é lutar; você versus palavra. E a hegemonia jamais será quebrada. Tudo porque enquanto o inconsciente não tornar-se consciência e enquanto o eu não alojar-se no ser humano, a traição será uma constância, as flechas continuarão lançadas, com ou sem alvo, propositadamente ou por deslize, mero deslize, desatenção, e a palavra permanecerá engasgando/enganando o próprio dono, mais forte, mais viva, mais ciente, maior causadora de conflitos, não de soluções. Tudo porque ela é o inconsciente humano em si mesmo”.
Ele não conseguira vencê-la e o resultado era esta quase-morte.
Í.ta**

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O sabor do saber

Dois artigos publicados recentemente por "A Notícia" colocam uma importante reflexão sobre a forma como nós, seres humanos, temos vivido em sociedade nesse início de século 21. A influência midiática sobre a vida e o comportamento humano, proposta pela acadêmica Marilene Anacleto ("Big Brother da vida real", 18/4, página 10), e o ritmo de vida apressado que levamos, exposto pelo articulista Apolinário Ternes ("No lugar da pressa", 18/4, página 11), oportunizam um pensar mais atento ao humano que existe em cada um de nós e à forma como somos levados a nos comportar diariamente.
Tudo é tão rápido e dura tão pouco. Vomitam-se lançamentos de produtos, seja de qual linha, estilo ou utilidade for. Um detalhezinho altera o preço do produto e joga o recém-lançado na vala do ultrapassado. Consome-se muito em tempo recorde. Não se digere nada.Tem-se não para usufruto próprio, mas para apreciação coletiva. A imagem vista aos olhos de outrem é a mais importante de se preservar. O interno perde espaço para o externo. A vida particular escancara as portas para o "grande irmão" sempre presente. Não se pode ficar fora do padrão social: beleza, pertences, saberes.
Vivemos em uma sociedade anoréxica. Não é só a comida regurgitada visando a um padrão de beleza. Regurgitam-se sentimentos e notícias. Ficamos com um aqui, com um outro ali. Um morre aqui e é anunciado no jornal, o outro é preso com drogas no bolso e amanhã ninguém mais se lembra de nada. Já temos novos "ficantes", novos mortos para não fazer diferença, novos presos para serem soltos.
O saber é regurgitado também. Não tem sabor este saber do qual fingimos fazer uso. Não há como bem fazer uso dele. Em tão poucos minutos já está defasado. Tudo é simplificado para rápida absorção. Saber podre. Saber que, digerido, torna-se rapidamente escasso.Há necessidade de se sentir o sabor do saber.
Há necessidade de se degustar cada palavra apreendida, cada significado incorporado, cada sentimento correndo a pele. Caso contrário, a fugacidade do viver continuará ditando seu impiedoso ritmo, comprometendo, com isso, nossa rara sensibilidade e nossa capacidade de apreender.
Saborear o saber aos poucos, eis o caminho nessa falsa fome de cultura. Um livro pode oferecer isso. Um poema também pode. Uma imagem, mais ainda, uma vez que as cores atraem muito mais do que o preto-e-branco das palavras e do papel. O ato de ler, independentemente do que se lê, é um caminho frutífero em possibilidades para esse enriquecimento gustativo e cultural.
O ser humano, ao fazer uso constante da leitura, passa, com o tempo de prática, a desenvolver em si virtudes e aptidões conscientes, tudo isso pelo fato de que, ao adotar a leitura como atividade de prática constante em sua vida, ele, ser humano, passa a melhor conhecer-se e a compreender-se, assim como a compreender o mundo e o que realmente quer significar esse ato de ler que ele pratica. Compreensão é fruto de leitura, assim como consciência crítica. Elementos indissociáveis; alimentos do espírito para o humano.
Bom apetite para nós.
_____________
Artigo publicado no jornal A Notícia de 22-05-08, p. 11
Í.ta**

terça-feira, 13 de maio de 2008

arriscando mais uma vez

etapas

silenciei escuros
em quartos de dor.

cruzei pernas, braços e dedos
em ritual
desconhecido
cruzei espinhos no peito.

cruzaram-me o olhar;
prenderam-me numa cruz:
estado de coma.

ainda apresento seqüelas.

Í.ta**

domingo, 11 de maio de 2008

para esses dias...

... em que o silêncio toma conta.
e nada mais resta a fazer.

"A linguagem não espera

que eu me compreenda.

Falar é ateu".


(Carlos Besen. In: Oco Hálito, de Clotilde Zingali. Editora Nova Letra, 2007. p. 103).

Í.ta**


quinta-feira, 24 de abril de 2008

O ler: por e para mim

A prática da leitura, o contato vivo com as letras, palavras, sons e imagens e os significados e sentidos construídos a partir desse contato, assim como o gosto pela leitura desenvolveram-se em minha vida quando eu cursava o primeiro ano do Ensino Médio. Antes dessa época eu também lia, porém inconsciente de que lia e do que a leitura provocava em mim. Sobretudo, era uma leitura em menor quantidade e entusiasmo, e apenas a leitura impressa: livros, revistas e jornais.
Objetivando meu aperfeiçoamento, junto com o desejo de me sentir tocado pela leitura, passei da leitura das páginas de esporte dos jornais, e das revistas que tratavam sobre futebol, à leitura do jornal quase que em seu todo, depois para revistas, semanais e mensais, que tratavam de política, história, religião, entre outros assuntos. Um livro passou a me acompanhar a todos os lugares em que eu ia.
Hoje, no mínimo um livro continua me acompanhando por aonde vou – para filas em repartições públicas ou agências bancárias, por exemplo, não há, a meu ver, melhor solução. Minhas leituras hoje também são mais variadas, envolvendo gêneros literários (romances, coletâneas de crônicas e contos, poemas), publicações mais específicas das áreas de Letras e de Psicopedagogia, e jornais, diariamente. Espanto-me ao constatar o quanto o ato de ler se incorporou ao meu ser de uma maneira em que hoje não consigo me imaginar sem a presença do mesmo guiando-me diariamente.
Posso afirmar que estes anos iniciais como sujeito-leitor me propiciaram um amadurecimento bastante considerável no que tange ao ato de ler em si. Tenho um senso de organização que me permite ler materiais de gêneros diferentes e também realizar leituras de modos diferentes.
Leio, por exemplo, por prazer e por necessidade. Duas formas de prazer, e duas formas de necessidade. O prazer do conhecimento elaborado a partir da junção das palavras – esta possuidora de um quê de sedução e aprisionamento –, e o prazer de simplesmente ler, de nada mais fazer a não ser ler, de rir e ignorar comentários do tipo: “levanta daí e vai fazer alguma coisa”. A necessidade que minhas próprias escolhas me impõem (leituras voltadas aos cursos de graduação e de pós-graduação; leituras voltadas à minha atividade como professor de Literatura; leitura voltada às pesquisas às quais me proponho realizar anualmente), e a necessidade que incorporei a mim de sempre estar lendo algum material escrito.
Não concebo um dia proveitoso sem a leitura de algo escrito. O hábito que deixou de significar apenas algo a ser feito quando nada mais tinha a se fazer se tornou o vício de primeiro destinar quais as leituras serão feitas no dia, para depois se pensar no que fazer após tais leituras. Por imodéstia (contextualizando-me num país em que a prática da leitura anual por habitante não chega a dois livros), e aproveitando-me do título de um dos discos do Belchior, sinto tal vício como um “vício elegante”, do qual de forma alguma penso em me livrar, uma vez que seus resultados atestam um saldo pra lá de positivo.
O ato de ler está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, e que o influencia na maneira de pensar e agir.
Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é enxergar além do campo de visão que um olhar abrange. Ler é transbordar pelas páginas e amolecer a dureza que as palavras contêm quando isoladas, quando não sentidas – lidas. Ler é alcançar um porto antes nunca alcançado por alguém. É criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É manter-se firme e seguro num terreno tortuoso, ora belo, ora traiçoeiro. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido.
Ler comporta diversas práticas, milhares de significados, diferentes estados de espírito.
Í.ta** - inspirado em todas as citações anteriores sobre O ler

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Vento no litoral

O retrato da dor causada por uma partida repentina, para o sempre. O fim de um relacionamento. O desequilíbrio emocional de Renato Russo. De repente, Robert Scott, a grande paixão (ou amor seria melhor?) da vida de Renato, vai embora do Rio de Janeiro, do apartamento em que ambos moravam, para nunca mais voltar. Sem justificar-se de nada. Apenas a ação de ir. E no líder da Legião Urbana fica um profundo corte a perfurar-lhe o coração, o corpo e a alma, chamado perda.
Renato sabia que nesse mundo ninguém é dono de ninguém (ao menos não deve ser). Não se considerava dono de Scott – rapaz a quem conhecera em uma de suas passagens por Nova Yorque – nem se via como servo do mesmo. A perda sentida não era de Scott, enquanto corpo, enquanto homem. A dor relacionava-se ao amor interrompido bruscamente, aos sentimentos únicos vividos entre os dois, nos rápidos dois anos em que viveram juntos no RJ. A dilacerante perda era de duas almas que longe uma da outra pouco provável sobreviveriam; Renato sentia isso.
Será Scott não se considerava merecedor de um amor tão intenso e profundo quanto o que Renato sentia por ele? Será Scott não sentia poder contribuir a tanto amor? Não sentir com a mesma intensidade? E por isso preferiu partir, como forma de respeito ao sentimento puro de Renato? Será havia se esgotado em Scott aquela paixão que os unira? Nada se sabe. Apenas ficou o registro do quanto esse sentimento chamado saudade, aliado à dor, tomou conta do ser de Renato Russo, dilacerando-o com rapidez, num mesmo passo em que ele sentiu que deveria erguer-se e aprender a viver com essa faca pontuda dentro de si, fazendo o possível para não se deixar ferir demais por ela.
É o que fica claro nos versos de Vento no litoral. O desejo de deixar-se ir, “Eu deixo a onda me acertar / E o vento vai levando tudo embora”, e a sapiência de que se deve ficar: “Quando vejo o mar / Existe algo que diz: / - A vida continua e se entregar é uma bobagem”. A dor da perda de tudo o que se viveu e planejou junto, a ciência de que aquele sentimento não mais seria vivido, e o quanto seria doloroso seguir em frente somente com a lembrança do que um dia sentiu-se na prática, Renato demonstra ao cantar “Dos nossos planos é que tenho mais saudade / Quando olhávamos juntos na mesma direção (...) Agimos certo sem querer / Foi só o tempo que errou / Vai ser difícil sem você”.
O poeta apresenta o quanto o sentimento por Scott permaneceria consigo até o último dia de sua vida, e que jamais seria possível apagar as marcas que ficaram no seu ser. Canta ele “Aonde está você agora / Além de aqui dentro de mim? (...) Porque você está comigo o tempo todo”. Ao mesmo tempo sabia que se erguer era fundamental. Seguir em frente por si e por quem, segundo o mesmo dizia, era a verdadeira Legião Urbana: o público, os fãs. A consciência de que, apesar de toda a dor a cortar-lhe a alma a fundo, ele teria que, a partir daquela ruptura brusca, viver por si mesmo, sentir-se bem consigo mesmo, está expressa nos versos: “Já que você não está aqui / O que posso fazer é cuidar de mim / Quero ser feliz ao menos / Lembra que o plano era ficarmos bem?”.
Renato parecia saber que através da escrita de seus versos e das composições das músicas da banda ele poderia ajudar-se a superar tal perda. É o que demonstra ao cantar “Sei que faço isso pra esquecer”, este isso em referência ao processo de produção dos versos e da música, momento em que o poeta sentia que valeria a pena seguir em frente.
Vento no litoral é uma das mais belas músicas escritas e cantadas por Renato Russo. Pouco mais de cinco minutos de duração que levam um ouvinte sensível a sentir-se sob as pedras lisas de um mar agitado, sendo levado pelas ondas, acompanhado pela ajuda do vento, tirando de si as marcas indeléveis que uma paixão interrompida causara. Num mesmo instante em que se pode visualizar o movimento das ondas trazendo de volta à beira da praia o mesmo ser anteriormente engolido, agora já mais leve, sem tal faca cortante dentro de si chamada saudade, e pronto para seguir em frente por si mesmo, relembrando com carinho e respeito o que um dia tornara-se amor vivido na prática.
Na versão ao vivo da música, no disco Como É Que Se Diz Eu Te Amo, Renato diz: "Eu cheguei à conclusão de que se o amor é verdadeiro não existe sofrimento, senão fica um cara doente como o cara dessa música agora", e começa a cantar os versos de Vento no litoral. A consciência do estado no qual ele ficara com a partida para sempre de Scott. O reflexo principal do fim desse amor, no autor dos versos dessa música, é o ceticismo que passou a tomar conta dele no que se refere a um possível amor verdadeiro nessa vida terrena.
Uma obra prima de alguém que sempre deixará nos seus eternos admiradores esse mesmo sentimento que o consumiu por certo tempo: saudade.

Í.ta**

quinta-feira, 10 de abril de 2008

o novo "rebento"

Os filhos aos poucos vão crescendo e se desenvolvendo...

Novo como sou, tenho como filhos meus ainda poucos textos publicados. E hoje pude sentir a emoção de mais um nascimento, após dolorida gestação.

Meu artigo "O modernismo português e Fernando Pessoa" está presente na 9° edição da RevistaMafuá. O link para acessar o texto é este: http://www.nupill.org/mafua/index.php?option=com_content&task=view&id=18&Itemid=37

flores e tomates após a leitura do mesmo,
por favor,
à vontade.

Í.ta**

segunda-feira, 31 de março de 2008

O ler 5


"- Ler - diz ele - é sempre isso: uma coisa está aí, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material, que não pode ser mudado; através dessa coisa entra-se em contato com alguma outra, que não está presente, alguma coisa que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas pensável, ou imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é coisa passada, desaparecida, inacessível, perdida no reino dos mortos...

- Ou talvez porque ela não exista ainda, alguma coisa que é o objeto de um desejo, um temor, possível ou impossível - é Ludmilla quem fala: ler é ir ao encontro de uma coisa que vai existir mas que ninguém ainda sabe o que será... - Subitamente, você vê a Leitura debruçada para a frente, perscrutando, além da borda da página impressa, a aparição no horizonte de navios vindos como salvadores ou conquistadores, tempestades... - O livro que eu gostaria de ler agora é um romance onde se narraria a história ainda por vir como um trovão ainda confuso, a história com um H maiúsculo misturada ao destino das personagens, um romance que desse a impressão de que se está a ponto de viver uma confusão que não tem ainda forma nem nome...".


(Italo Calvino. Se um viajante numa noite de inverno. Ed: Círculo do livro, 1979. p. 71).


Í.ta**

quarta-feira, 19 de março de 2008

A utilidade da arte literária


Gosto muito de pensar (e de sentir) que as melhores coisas da vida não servem para nada (e nem precisam). Mas também sinto a necessidade (essa é a palavra, necessidade) de pensar na utilidade de algumas coisas. Sim, a utilidade da escola, a utilidade da minha disciplina, a utilidade do meu ser nesse contexto, nessa sociedade, nesse mundo. Posso até amar que as diversas formas de arte sejam vistas como coisas-sem-serventia num mundo consumista e utilitarista em que se vive hoje em dia, mas também preciso pensar a arte como sendo útil, pois para mim ela tem uma utilidade maravilhosa, que é a de me permitir sonhar, crer em algo, desejar ardentemente mudar o mundo, começando por mudar a mim mesmo. E, se em mim a arte provocou uma mudança no meu modo de ser/pensar/agir, eu preciso crer que o contato com ela poderá também provocar mudanças em outras pessoas, e aí eu me deparo com o útil que posso encontrar nela, e o aceito.
Nessa contextualização é que me permito também indagar a importância e a utilidade da disciplina (literatura) dentro da escola. Sinto-me instigado a pensar nela como essencial. Não de uma maneira grosseira e prepotente, não, mas sim como uma convicção, uma segurança de que ela pode contribuir, e muito, no processo de formação dos sujeitos-alunos. E é essa segurança sobre a disciplina que me levará a um outro pensar, próximo desse: qual a finalidade daquilo que eu faço? A que (quem) se destina? Para que trabalhar a literatura?
A literatura é a arte da palavra escrita. É a manifestação do real e do imaginário através da palavra escrita. Pode-se existir a leitura para além da palavra, leitura de imagens, de gestos, de movimentos, mas não pode existir a literatura sem a palavra, o que significa afirmar que a literatura envolve, impreterivelmente, o ato de ler, uma prática de leitura.
A leitura pode ser apontada como o meio mais eficiente para se alcançar o senso crítico. É ela quem pode fazer surgir no ser humano a consciência da qual ele necessita para situar-se no mundo e se perceber como um cidadão crítico importante e atuante em uma sociedade. É através dela que o sujeito pode passar a observar com um novo olhar as situações que vive, tornando-se mais questionador, mais ativo e menos passivo em relação aos fatos com os quais se depara em seu dia-a-dia. O ato de ler – independentemente do como e do o que se lê – está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, dentro da qual ele possui direitos e deveres a cumprir, como também ao desenvolvimento do ser humano enquanto sujeito, enquanto um ser histórico, subjetivo, singular.
De acordo com Zotz, é a leitura quem desenvolve a reflexão e o espírito crítico no ser humano. É através dela que o ser humano pode aprimorar seu raciocínio, sua forma de pensar. É, ainda, a leitura, para Zotz (2005, pp. 19-20), “(...) fonte inesgotável de assuntos para melhor compreender a si e ao mundo. Propicia o crescimento interior. Leva-nos a viver as mais diferentes emoções, possibilitando a formação de parâmetros individuais para medir e codificar nossos próprios sentimentos”.
Se a literatura é o trabalho desenvolvido com a prática da leitura do texto escrito (não só, mas principalmente), e se a leitura é condição sinequanom para a formação e o desenvolvimento do ser humano como um sujeito-social, a finalidade da literatura é a de contribuir, através de uma prática constante do ato de ler, para essa formação social e subjetiva do sujeito-aluno (a quem ela é primeiramente destinada na escola).
Para que trabalhar literatura? Ana Maria Machado expõe os calafrios que sente quando indagada sobre a importância da literatura (e da leitura, de qualquer material escrito) para o desenvolvimento do ser humano. Para ela, é o fim quando pessoas ligadas à educação, inclusive professores, perguntam-se (e a ela principalmente) por que é importante que as crianças leiam, e ainda questionam se há espaço para ela – leitura – hoje em dia. Segundo Machado (2007, p. 153), “a leitura é importante, e isso deveria ser tão evidente que dispensasse questionamentos. Não é só um hospital da alma, é também uma escola do espírito”.
A autora ainda destaca a importância da literatura, aumentando o entendimento que o ser humano pode, através dela, ter de si mesmo e dos outros, sentindo-se capacitado para enfrentar as situações desconhecidas, “graças a essa multiplicação de vidas obtida com a intensidade emocional e imaginativa que apenas a palavra permite, quando autor e leitor compartem um texto” (MACHADO, 2007, p. 160). Na opinião dela, as pessoas que se perguntam sobre importância da leitura e da literatura não sabem do que estão falando pelo simples fato de que não são leitores na prática.
Utilizando uma fala desta autora é que apresento minha justificativa do por que a disciplina de literatura é importante no contexto escolar, e do por que é imprescindível que as pessoas (aqui não só os sujeitos-alunos, mas os sujeitos-sociais de uma forma geral) mantenham um contato muito forte com a prática da leitura literária:
"As obras literárias nos convidam a um exercício de liberdade de interpretação e de respeito pelas diferenças. Colocam diante de nós o desafio de enveredar por um discurso que oferece diversos planos de leitura, numa linguagem rica em potencialidade inesperadas, cheia de ambigüidades. Como a vida. Num mundo em que cada vez mais se compreende como é vão ter a ilusão de uma educação que transmita respostas prontas, o contato com a arte em geral (e com as narrativas históricas e de ficção, em particular) nos obriga a lidar com a falta de certezas, nos relembra que não há apenas um significado único para as coisas e nos desperta para a formulação de nossas próprias idéias. Pode ser uma ferramenta preciosa para a consolidação da consciência coletiva e para a formulação de novas perguntas individuais, em nossa eterna busca de algum sentido que faça de nossa dor ou nossa perplexidade uma esperança de um futuro melhor"(MACHADO, 2007, pp. 62-63).
Í.ta** - com o pensamento constante na literatura

sábado, 15 de março de 2008

O mundo que transborda de si II


Meu texto sobre o livro "Aço e nada", do Rubens, foi publicado na edição de março da revista de literatura e arte GerminaLiteratura.

Segue o link para o texto http://www.germinaliteratura.com.br/2008/livros_olharesatentos_por_ipuccini.htm
Esta versão é mais abrangente da publicada no caderno Idéias do AN, mês passado.

Í.ta**

terça-feira, 11 de março de 2008

Começo

"Plagiando" a Regininha, que trouxe no seu blog alguns começos marcantes de livros, apresento aqui os primeiros marcantes parágrafos de Se um viajante numa noite de inverno, do Italo que não é Puccini, muito menos cabeludo. É Calvino, e era um pouco calvo. Mas formado em Letras também, dizem os biógrafos...
Achei estupendo! Contagiante! Hilário!

"Você vai começar o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Pare. Concentre-se. Afaste qualquer outro pensamento. Deixe o mundo que o cerca se esfumar no vago. A porta, será melhor fechá-la; do outro lado, a televisão está sempre ligada. Diga imediatamente aos outros: 'Não, eu não quero ver televisão!' Fale mais alto, se eles não o ouvirem: 'Estou lendo! Não quero ser perturbado!' Com toda essa barulhada, pode ser que não o tenham escutado: fale mais alto, grite: 'Estou começando o novo romance de Italo Calvino"' Ou, se preferir, não diga nada; esperemos que eles o deixem em paz.
Tome a posição mais confortável: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado ou de bruços. Em uma poltrona, um sofá, uma cadeira de balanço, uma espreguiçadeira, um pufe. Ou em uma rede, se acaso tiver uma. Em sua cama, naturalmente, ou sob ela. Também poderá ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Segurando o livro ao contrário, evidentemente.
Não é fácil encontrar a posição ideal para ler, é verdade. Outrora, lia-se de pé diante de um facistol. Era hábito manter-se de pé. As pessoas repousavam dessa forma quando se casavam de andar a cavalo. Ninguém teve jamais a idéia de ler a cavalo; e, entretanto, ler bem ereto sobre os estribos, o livro posto sobre a crina do cavalo ou mesmo fixado a suas orelhas por um arreio especial, essa idéia lhe parece agradável. Seria necessário estar muito confortável para ler com os pés nos estribos; ter os pés levantados é a primeira condição para se apreciar bem um livro.
Bem, o que espera? Estique as pernas, ponhas os pés em uma almofada, ou duas almofadas, no braço do sofá, nas orelhas da poltrona, na mesa de chá, na escrivaninha, no piano, no mapa-múndi. Mas, antes de tudo, tire os sapatos, se quiser ficar com os pés para cima; senão, calce-os de novo. Mas não fique assim, com os sapatos em uma das mãos, o livor na outra.
Regule a luz para não cansar a vista. Faça isso tudo desde já, pois, uma vez mergulhado na leitura, não haverá meio de mudar de lugar. Providencie para que a página não fique na sombra: um aglomerado de letras negras sobre fundo cinza, uniforme como um exército de ratos; mas cuide bem para que não venha de cima uma luz forte demais que, refletindo-se na brancura crua do papel, aí corroa a negrura dos caracteres como, em uma parede, a luz solar do sul, ao meio-dia. Tente providenciar desde agora tudo o que possa interromper sua leitura. Se fuma: os cigarros e o cinzeiro ao alcance da mão. O que falta ainda? Tem vontade de fazer xixi? Fique à vontade.
Não que você espere alguma coisa em particular deste livro particular. Você é uma pessoa que, por princípio, não espera nada de nada. Há tanta gente, mais jovem, menos jovem que você, cuja vida se passa na expectativa de experiências extraordinárias! Dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, de tudo o que o futuro possa reservar. Você, não. Sabe que o melhor a esperar é evitar o pior. Essa a conclusão a que chegou, tanto em sua vida privada como com respeito a problemas mais gerais, mesmo problemas mundiais. E quanto aos livros? Justamente: como já renunciou a todos os outros domínios, você julga que poderá se permitir o prazer juvenil da expectativa ao menos em um setor bem circunscrito, como este dos livros. A você, os riscos e os perigos: a desventura não há de ser grave".

(CALVINO, Italo. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Nova Fronteira, 1979. pp. 9-10).

Í.ta**

sexta-feira, 7 de março de 2008

O ler 4


"Ler é gestação. Esperar que se desvele o signo. Clarividência. Ver o mundo no texto, ver-se na inteireza do corpo. Ler é traduzir-se em palavra. Ir contra o barulho das televisões. Optar pelo silêncio.
(...) Ler de verdade ainda é resistir. Recolher-se na utopia de que a literatura salvará o mundo. De que a poesia retornará a seu rio primeiro: ser o fio condutor das gerações. Ocupar o papel da história. Ler é abrir-se: leque arrefecendo o rosto da liberdade. Quem lê renasce sempre melhor, amplo nas decisões, mais largo nos caminhos. Quem não lê ouve e segue: cordeiro.
(...) ler é um ato de luta contra as imagens prontas. Tudo se apresenta mastigado, condensado. Ler é o trabalho de construir imagens. Árduo. São suores por sobre a alma. Ler é combater. É recomeçar, mesmo ferido, mesmo estilhaçado pelo cotidiano, pela falta de tempo. Ler é cavar nas horas um buraco e lá plantar-se.
(...) A leitura nos propõe o trabalho dos sentidos: gratuito, militante, voluntário, por vezes quase escravo. Ler é doar-se em solidariedade consigo mesmo. Ler é difícil".

(Rubens da Cunha, A leitura: poeticidades e sonhos, presente no livro "Aço e Nada", 2007, p. 166).

Í.ta**

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O ler 3


"Os leitores de livros, uma família em que eu estava entrando sem saber (...), ampliam ou concentram uma função comum a todos nós. Ler as letras de uma página é apenas um de seus muitos disfarces. O astrônomo lendo um mapa de estrelas que não existem mais; o arquiteto japonês lendo a terra sobre a qual será erguida uma casa, de modo a protegê-la das forças malignas; o zoólogo lendo os rastros de animais na floresta; o jogador lendo os gestos do parceiro antes de jogar a carta vencedora; a dançarina lendo as notações do coreógrafo e o público lendo os movimentos da dançarina no palco; o tecelão lendo o desenho intrincado de um tapete sendo tecido; o organista lendo várias linhas musicais simultâneas orquestradas na página; os pais lendo no rosto do bebê sinais de alegria, medo ou admiração; o adivinho chinês lendo as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante lendo cegamente o corpo amado à noite, sob os lençóis; o psiquiatra ajudando os pacientes a ler seus sonhos perturbadores; o pescador havaiano lendo as correntes do oceano ao mergulhar a mão na água; o agricultor lendo o tempo no céu – todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de decifrar e traduzir signos.
(...) Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial".

(Alberto Manguel, Uma história da leitura, 1997, pp. 19-20).

Í.ta**

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Professor: leitor ou não-leitor

Ana Maria Machado, em artigo presente no livro Balaio: livros e leituras (2007), apresenta a importância fundamental da leitura na formação do professor, destacando o agravante de que há um medo por parte do professor de entrar em contato com os livros, “Um objeto estranho e com tal carga simbólica que o ameaça”, conseqüência de sua má-formação, cada vez mais longe da leitura livresca.
Esta afirmativa abre caminho para uma reflexão sobre o professor enquanto um sujeito-leitor, ou não-leitor.
Relevando o contato diário com diferentes materiais de leitura (livros didáticos, trabalhos dos alunos, comunicados escolares), pode-se classificar o professor como um leitor. No entanto, se o professor não sentir a leitura como uma necessidade para si – e não só como uma exigência burocrático-profissional – ele não passará de um leitor-por-obrigação, e pouco conseguirá contribuir para a formação de novos sujeitos-leitores. Logo, a caracterização do professor como leitor ou não-leitor está relacionada à significância que o próprio professor concerne às atividades que realiza como docente.
Segundo Batista (1998), antes de simplesmente inquirir ao professor um julgamento de leitura, há necessidade de descrevê-lo e compreendê-lo em suas práticas, analisando em que situações ele se forma como um sujeito-leitor. O mesmo defendido por Brito (1998), que traz a impossibilidade de se afirmar que o professor é um leitor, muito menos, pela sua atividade intelectual, que ele é um não-leitor. Segundo ele, “mais que ser leitor ou não-leitor, o professor é um leitor interditado”.
É também importante ressaltar as questões que envolvem as condições de acesso e de produção de leitura dos professores. A formação de um sujeito leitor é tão determinada pelas condições sociais nas quais ele se encontra, quanto pela própria tomada de iniciativa do mesmo em prol de tal formação. Daí sendo muito relevante analisar o que é que o professor lê, quantos livros ele tem condições de adquirir para seu aperfeiçoamento pessoal e profissional, e que tempo sobra para que ele busque a leitura de textos variados.Vale ressaltar ainda que a definição de um professor leitor ou não-leitor passa, primeiramente, por outra definição: o que é ler ou não-ler? E, levando em conta que o ato de ler engloba diversas outras práticas e modos além de somente a leitura livresca (caracterização burguesa do que é ler), o professor, é, sim, um sujeito-leitor. A variedade aqui está no como o professor lê, ou seja, que sentido ele dá/constrói à própria prática da leitura.

artigo publicado no jornal ANotícia de 21-02-08, p. 3 (http://www.an.com.br/2008/fev/21/0opi.jsp)

Í.ta**

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O mundo que transborda de si

A sensibilidade e a força de “Aço e Nada”, de Rubens da Cunha

Ítalo Puccini / Jaraguá do Sul

No livro que mandou a mim, o poeta e cronista do Anexo Rubens da Cunha agradeceu minhas leituras sempre atentas para seus olhares sobre o mundo. Olhares tão bem registrados pelas palavras. Retratos da consciência, que em seus escritos Rubens demonstra ter, de ser um sujeito imerso numa realidade mundano-social aprisionadora do próprio ser humano, da qual tenta ao máximo extrair algo que o alimente, que se junte aos alimentos diários da leitura e da escrita ou que sirva de alimento para um desses dois “vícios” que apresenta ter. O escritor de “Aço e Nada”, livro lançado pela Design Editora, de Jaraguá do Sul, é um sujeito dividido em diversos modos de ser/pensar/agir, presentes em diferentes crônicas-quase-contos do livro, que se complementam num só.
Para mim, e creio que para muitos outros leitores, são releituras a se fazer das crônicas presentes no livro. Ora mais densas, ora mais suaves, ora críticas, ora não, ora mais poéticas, ora mais objetivas em determinados assuntos, ora também quase-contos. Transbordando sensibilidade e poesia, as crônicas foram separadas no livro em quatro diferentes partes, com as últimas crônicas de cada parte dando nome à mesma correspondente: “Os Animais Dentro”, “Olho Vigiador”, “O Corpo da Gratidão”, “O Morador das Palavras”, que bem estariam encaixadas se não houvesse divisão, uma vez que a escrita em si do autor apresenta um traço muito bem caracterizado, sendo possível reconhecê-la à distância, encontrá-la, por exemplo, nos poemas-aço que formam sua “Casa de Paragens”: nos cômodos da sua casa-corpo, nos mínimos detalhes da natureza, e nos animais-moradores-de-seu-corpo: na dor corpórea da alma; na fragilidade de ser.
Um olhar sempre constante nas crônicas do livro (e também nos poemas do “Casa”) dirige-se aos animais. Estão eles dentro do escritor Rubens, ao redor, nos olhares, nos sonhos, na memória: “São imagens recorrentes, já que ainda não descobri elemento mais poético na natureza e mais propício às buscas metafóricas que pratico”. As crônicas de “Os Animais Dentro” trazem um pouco dessa relação, além de apresentar ao leitor outros modos de ser animal, com o ser humano e suas formas de pensar, sentir e agir.
Nas crônicas de “Olho Vigiador”, Rubens apresenta seus olhares atentos para os habitantes e para a sua, até o momento, casa de paragem, cidade na qual nasceu e em que vive, por onde o Rubens cronista busca o assunto para suas crônicas semanais. O corpo da gratidão é a mãe, é a noite, é um poço de contrários, “é uma inutilidade feita apenas para aguentar o peso do mundo: um poema perdido entre os cadernos; flores nos beirais das casas; fotografias”. É o fluxo inexorável do cotidiano, passando por cima do tempo e do espaço, de amizades antes fortalecidas; é o sentir que animaliza o humano; é a natureza, recoberta de poesia, que, “sem avisar, põe sobre a cidade um lençol branco”.
Rubens da Cunha é o escritor morador da palavra exílio (ou seria apenas mais um dos personagens marcantes no livro?). Escritor por prazer, por sentir o sangue correr em seus abismos. Escritor pela dor: “O papel me dá seus ouvidos e demais buracos gratuitamente. O papel é uma prostituta apaixonada. Escrevo para gozar e porque tenho bom vocabulário”. Pelo poder de ser escritor, pelas máscaras que colocam sob os escritores. Escritor por maldade, por instinto, por covardia, por alegria, “por estar preso nesse cárcere e porque aprendi a mentir desde cedo”. A escrita de Rubens nos leva a desejar mais mentirosos assim.

“Aço e Nada” – Design Editora, 176 páginas, R$ 15,00 (preço médio). Mais informações: atendimento@designeditora.com.br.

Ítalo Puccini, acadêmico de letras e professor de literatura em Jaraguá do Sul
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Texto publicado no caderno Idéias do jornal A Notícia de domingo (10-02).
Link http://www.an.com.br/anexo/2008/fev/10/0ide.jsp

Í.ta**