domingo, 9 de setembro de 2007

Língua e gramática

A língua portuguesa deve passar por algumas alterações em sua estrutura a partir de 2008, caso Portugal ratifique o acordo feito entre Brasil e Cabo Verde em 1994. Este fato propicia uma reflexão sobre o atual ensino da língua portuguesa nas escolas, uma vez que o ensino voltado somente às regras gramaticais que formam a norma culta acabou por tornar-se mais um fator de preconceito e de exclusão social do que um método eficaz de aprendizado.
Acontece de a criança entrar na escola sabendo falar uma língua e, anos depois, sair da escola dizendo que não sabe falar nem escrever. Cada vez mais cabe aos professores a tarefa de mediar junto aos alunos uma reflexão sobre o uso que ambos fazem da própria língua, apresentando-lhes variáveis no falar e no escrever utilizados socialmente. Deve ser relevado o aspecto situacional que caracteriza os momentos de comunicação nos quais interagem os sujeitos falantes de uma língua, também não esquecendo de valorizar o falar natural que cada um traz consigo.
Necessário se faz que aos alunos seja proposta e colocada em prática uma reflexão sobre a diferença que há em saber efetivamente falar uma língua e saber um punhado de regras gramaticais. Deve ser questionada a crença de que aprender uma língua significa somente aprender regras gramaticais (Madeira, 2005). A língua é sinônimo de comunicação, todos os indivíduos possuidores de uma língua conseguem se expressar, seja por meio da escrita, de sinais ou da fala. Segundo Possenti (1996), “todos os que falam sabem falar”, e diferentes formas de se falar não podem significar erros de português.
Imbricada à desconstrução de certos padrões do ensino e do uso da gramática normativa está a valorização por parte do professor ao conhecimento de gramática e de língua que o aluno traz. Enterrar a perspectiva do erro ao falar ou ao escrever também é uma importante atitude por parte do professor, levando o aluno a sentir-se mais seguro do próprio uso da língua e aproveitando para mediar com ele a conscientização de que a maneira como ele (aluno) fala ou escreve não está errada nem supercorreta, que está adequada para determinada situação de comunicação, mas que outras situações de comunicação exigem diferentes formas de se expressar, nem melhor nem pior do que aquela utilizada pelo aluno.
O que se defende é a necessidade de que o aluno aprenda a diferenciar e a produzir um bom texto, coeso e com idéias coerentes. Não um texto correto gramaticalmente, mas precário em sua estrutura de significação.
(texto publicado na edição de 08 de setembro de 2007, pág. 3, do jornal ANotícia - circulação estadual - http://www.an.com.br/2007/set/08/0opi.jsp)
Í.ta**