quinta-feira, 19 de julho de 2007

"Sonho Eterno"

"De longe do Brasil tudo toma outro tamanho. Estou em Roma há uma semana, até por isso não consegui escrever na semana passada. Cidade linda, caótica sob alguns aspectos, sua lógica parece estar presente justamente na sua ausência de ordem. Assimétrica, justapõe eras e assim o tempo se desfaz e trai a contagem ordinária e ortodoxa. Daqui assisti a vitória do Brasil sobre a Argentina – acachapante, soberana, incontestável. Vi o jogo na casa de novos amigos, gente gentil e italiana, acolhedora e curiosa sobre as nossas maneiras. Paolo, Cláudio, Ângelo, Fulvio e Francesco; e também os brasileiros Alfredo e André. Os modos são diferentes, a começar pela narração. Não se grita gol, não há a catarse apoteótica do locutor com as veias inflamadas sustentando a nota contínua do grito que celebra o cume atingido. Bola na rede é por si a própria euforia. Tanto impacto visual na paisagem talvez interfira na pouca necessidade da palavra para a descrição do que pode ser visto. O impacto da imagem não precisa da linearidade da frase dita e repetida. Mas a música faz falta. Narracão de futebol é melodia frenética.
Daqui não sei direito mais quem eu era antes de vir pra cá. Tudo mudou, um novo azul o céu coloriu. Diante da possibilidade e do desejo de alcançar a dádiva da transformação pessoal, uma nova paisagem sempre traz às pálpebras resolutas a abertura da incompreensão e a ajuda da fragilidade de ficar em branco perante o desconhecido. Coragem que vem para enfrentar o medo. Ser o mesmo num lugar diferente pode fazer com que a gente encontre dentro da gente aquilo que o tempo encarquilhou e escondeu. E diante do mosaico dos relevos inconstantes, o que antes era pedra, vira pó e o vento sopra e leva adiante. Voa pelo céu que agora não é mais do mesmo azul que era antes. Nenhum azul é igual; muda o olho através do novo olhar.
A necessidade de nos atualizarmos com a nossa própria dúvida, é de importância capital e vital para quem pretende ter o coração permanentemente aquecido. Receber a novidade de um outro paladar, alimenta as papilas gustativas e deixa mais sensual os lábios para a própria boca; respirar a suavidade de um outro perfume refaz o olfato diante dos elos que conectam o cheiro ao cérebro; tocar a pele aveludada com a palma da mão que carrega os dedos calejados pelas seis cordas do violão, toca a alma e na alma nasce o toque do som; ouvir as palavras não ditas através da escrita da respiração que invade & distrai & acalanta & cala o próprio ouvido, transforma a mão numa civilização; ver alguém que se quer bem e sentir o baque do batuque opaco e oco da palpitação, traz aos olhos a certeza de que a imagem quebra o lacre da miséria deserta da solidão quando entram os raios ensolarados da beleza que rasga as frestas da veneziana e aquece o nosso corpo estirado no colchão. Sou feliz e devo isso à ela.
Diante de tantas coisas grandes e graves, coisas leves que despencam pesadas, diante da profundeza que há no mistério da paixão; diante d a força do impacto da arquitetura morta escavada nas pedras, da irrelevância da grossura da tecnologia moderna; diante do medo que surge com o pensamento da falta de movimento que haveria no testamento do sono eterno, e do movimento lento que só o invento do pensamento absurdo e abstrato que é fruto do sonho eterno; diante dela, ajoelhado e deitado em seu colo eu termino: as vezes a vida não precisa mesmo de futebol".

(texto de Nando Reis)

A sensibilidade que me atinge feito luz no escuro. não penso.
para sentir, unicamente.

Í.ta**

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Literatura: representação da vida

A Literatura é vida


Ítalo Puccini - Acadêmico do Centro Universitário de Jaraguá do Sul (Unerj)/italopuccini@yahoo.com.br

O ensino da literatura e de qualquer outra disciplina escolar pressupõe a reflexão, por parte do professor, de sua própria prática educativa, capaz de transferir conceitos e atitudes junto ao leitor, seu educando. Com isso, torna o ensino mais dinâmico e produtivo. Literatura é arte e, como arte, é a manifestação do real e/ou do imaginário, que pode advir ou transformar-se em algo real.
Literatura é vida. É expressão do pensar através da escrita. É criação de sentidos. Todo sentido pede, antes que seja construído, o ato de decifrar o que se tem escrito.Criar sentido para um objeto simbólico significa ler. O leitor que não cria seu sentido próprio não realiza propriamente uma leitura, não passa da decifração de códigos escritos. É com o auxílio do professor que o leitor-aluno poderá ultrapassar o estágio de decifração, vindo a construir seus próprios significados junto aos textos literários com os quais se depara.
Ser leitor é, entre outras ações, falar com o texto, criar e recriar sentidos, relacionar o texto a outros já lidos e a situações vividas (intertextualidade). Ser leitor é também compreender as ideologias presentes em cada texto e o fato de um texto nunca apresentar sentidos completos (incompletude). Para Sartre, sem um leitor, o texto nada mais é do que sinais soltos no papel, uma vez que, conforme Manguel (1997), “é o leitor que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo”.
Logo, formar leitores significa trabalhar para a conscientização do aluno como um sujeito/cidadão crítico, ciente de sua capacidade de dialogar com os textos, crente na relatividade das coisas do mundo, na sua liberdade de interpretação de todo e qualquer objeto simbólico com o qual venha a ter contato.
Nessa perspectiva, o ensino da literatura enseja que o professor tenha consigo uma concepção clara do que seja aprendizagem, e da importância que se dá à linguagem nesse processo, enquanto elemento de mediação da compreensão que se desenvolve com o mundo e consigo mesmo. Esse mesmo ensino abrange diferentes tipos de textos e variadas metodologias, que devem sempre oportunizar ao aluno o direito de falar, de expor sua opinião, de discordar e de concordar, de relacionar as leituras que faz à realidade em que vive, de perceber que não há sentido único e fechado para qualquer texto e, com isso, de que é também produtor de textos, baseado em sua ideologia, constituída socialmente. Dessa forma, pode-se encorajar o aluno-leitor a expandir suas leituras, construindo uma relação mais íntima, curiosa e de encantamento junto aos livros.
Artigo publicado no jornal ANotícia - circulação estadual - de 14/07/2007, p. 3
Í.ta**