sábado, 30 de junho de 2007

sobre a necessidade de escrever



"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.
(...)
Ou não sou um escritor? Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto".
(Clarice Lispector - A hora da estrela - pp. 21-23)
aos meu amigos escritores Rubens da Cunha e Pedro, os quais imagino conhecer pelas suas escritas.
Í.ta**

sábado, 23 de junho de 2007

Consciência

"Tudo o que vive no Universo está movido por uma mesma e única fonte de energia. Em âmbito menor, também o homem conta dentro de si com essa mesma fonte, que se ativa ao pôr-se em contato com a vida universal. Essa fonte de energia é a consciência, única capaz de mover todo o mecanismo psicológico humano e, com isso, os canais do sentimento, que torna os homens grandes, abnegados e nobres".
(Revista "Logosofia", n. 11, p. 3).
Í.ta**

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Aniversário

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,De ser inteligente para entre a família,E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,O que fui de coração e parentesco.O que fui de serões de meia-província,O que fui de amarem-me e eu ser menino,O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...A que distância!...(Nem o acho... )O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,Pondo grelado nas paredes...O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),O que eu sou hoje é terem vendido a casa,É terem morrido todos,É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,Por uma viagem metafísica e carnal,Com uma dualidade de eu para mim...Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .Pára, meu coração!Não penses! Deixa o pensar na cabeça!Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!Hoje já não faço anos.Duro.Somam-se-me dias.Serei velho quando o for.Mais nada.Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..." - Álvaro de Campos

terça-feira, 5 de junho de 2007

Cidadania crítica

Criticidade e consciência não se separam. O sujeito que tem a consciência de si mesmo e da sociedade na qual atua é um sujeito crítico. E justamente é um sujeito crítico por ter a consciência de que através de seu grau de criticidade ele entende a si mesmo e ao mundo à sua maneira, e, a partir desse seu entendimento, faz acontecer nesse próprio mundo. É uma relação em que os elementos são inseparáveis. É o despertar da consciência que faz nascer e se desenvolver numa pessoa o senso crítico. E é o senso crítico que desenvolve nessa pessoa a consciência de si mesma e do mundo no qual ela atua.

Ser cidadão crítico quer significar, primeiramente, uma pessoa ciente de si e do mundo no qual vive. Uma pessoa que sente a si mesma dentre tantos bilhões de pessoas. Uma pessoa ciente de suas responsabilidades, de seu papel atuante em uma sociedade, não só para consigo mesmo, mas, mais importante ainda, para com as outras pessoas com as quais convive. Uma pessoa consciente de que é alguém no mundo, e um alguém que faz a diferença através de sua ação – ação esta que não ocorre senão precedida por um pensamento, este que deveria fazer pesar em balanças diferentes o que de positivo e de negativo pode acarretar tal ação. É a consciência que no ser humano age. É aquele que não aceita somente um ponto de vista, que sabe da existência de variáveis para tudo o que se afirma absoluto, sensível o suficiente para respeitar as diferenças culturais existentes. É aquele que crê na relatividade de tudo o que acontece.

A leitura – esta que, segundo as palavras de Silva (2001), “pode servir como um instrumento que liberta o homem da alienação e abre sua cabeça para enxergar as ideologias que estão por trás das coisas que o cercam” – pode ser apontada como o meio mais eficiente para se alcançar o senso crítico. É ela quem pode fazer surgir no ser humano a consciência da qual ele necessita para situar-se no mundo e se perceber como um cidadão crítico importante e atuante em uma sociedade. O ato de ler – independentemente do como e do o que se lê – está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, dentro da qual ele possui direitos e deveres a cumprir, como também ao desenvolvimento do ser que cria uma ideologia, esta que o faz pensar e agir.

O ser humano, ao fazer uso constante da leitura, passa, com o tempo de prática, a desenvolver em si virtudes e aptidões anteriormente “apagadas”, tudo isso pelo fato de que, ao adotar a leitura como atividade de prática constante em sua vida, ele, ser humano, passa a melhor conhecer-se e a compreender-se, assim como a compreender o mundo e o que realmente quer significar esse ato de ler que ele pratica. Compreensão é fruto de leitura, assim como consciência crítica. Elementos indissociáveis; alimentos do espírito para o humano.
Ítalo Puccini*

* Estudante da 5ª fase do Curso de Letras Licenciatura do Centro Universitário de Jaraguá do Sul – UNERJ.

(publicado no jornal ANotícia de sábado, 02/06/2007, p. 3).