sábado, 15 de dezembro de 2007

O escrever 3

"Pessoas felizes não são escritores. O homem que está na felicidade completa não vê necessidade em escrever". (Carlos Heitor Cony. by http://www.thebluewriters.blogspot.com/)

Í.ta**

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O escrever 2



"Tenho de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidade do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo". (Clarice Lispector)
a todos que rabiscam por esse mundo, e que por aqui passam os olhos.
Í.ta**

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

o escrever 1


"Não escrevemos 'para colocar algo para fora': escrevemos para nos deparar com um nada, um vazio, um silêncio. E, quanto mais escrevemos, mais silêncio há" (Alberto Andrés Heller).
Í.ta**

domingo, 2 de dezembro de 2007

A leitura e suas práticas

A leitura apresenta-se como elemento imprescindível para a formação do ser humano como cidadão, possibilitando-lhe o viver em sociedade, na compreensão do passado e do presente, e na oportunidade de transformação futura (SILVA, 1997).
Cultua-se, desde os primórdios da prática da leitura, que o ato de ler está estritamente relacionado ao livro, enquanto objeto. Mais ainda, a um livro literário (em casos mais extremos, a um livro de literatura clássica). Algumas interpretações, menos radicais, relacionam o ler à leitura também de revistas e de jornais. Entretanto, faz-se necessária uma nova maneira de se observar – e de se praticar – a leitura.
Quando se afirma que através da leitura o ser humano pode se desenvolver enquanto um cidadão social, inserido em uma sociedade com direitos e deveres, e enquanto um sujeito, com sua individualidade e essência, de maneira nenhuma se pode estreitar essa prática de leitura à leitura somente de livros, de revistas ou de jornais, com isso correndo-se o risco, presente ainda, de diminuir-se as práticas de leituras e interpretações, tanto quanto o de leitores, existentes.
Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é enxergar além do campo de visão que um olhar abrange. Ler é transbordar pelas páginas e amolecer a dureza que as palavras contêm quando isoladas, quando não sentidas – lidas. Ler é alcançar um porto antes nunca alcançado por alguém. É criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É manter-se firme e seguro num terreno tortuoso, ora belo, ora traiçoeiro. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido. Ler comporta diversas práticas, milhares de significados, diferentes estados de espírito.
Manguel, em seu livro “Uma história da leitura” (Companhia das Letras, 1997), apresenta vários exemplos de leitores existentes, que pouco se pára pra pensar que são também leitores, como, por exemplo, o astrônomo que lê um mapa de estrelas, o jogador que lê os gestos do parceiro antes de jogar a carta, o público que lê os movimentos da dançarina no palco, e o amante que lê cegamente o corpo amado.
A leitura, como é possível de se observar com os exemplos acima, abrange diversos horizontes, práticas e sujeitos. Ela jamais pode ser limitada ao texto escrito, muito menos a um só significado existente em cada frase, imagem, fala ou expressão. Existem diversas maneiras de se ler e de ser leitor. Conforme as palavras de Manguel, “lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial”.
Ítalo Puccini - Acadêmico da 6a fase do Curso de Letras Licenciatura do Centro Universitário de Jaraguá do Sul/SC - UNERJ.

(artigo publicado no jornal ANotícia de 01-12, pág. 3.)

Í.ta**

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Forças contrárias

O delírio mergulhado no que chamam de real
Ou o contrário

Sou o filho do tempo
Logo mais o filho será meu tempo

Preocupo-me
Meus disfarces são agora poucos
Penso, penso e escolho o mesmo
Que sem graça!

Í.ta**
(de vez em quando arriscando alguns versos. o caminho é looongo, sim, sem dúvida. mas sempre vale tentar e rabiscar mais)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

primeiros rabiscos em livro

"Agora inútil. O tempo ou ele? O morro ou as antenas? A pessoa ou esforço? Tudo em vão. Ele inútil perante o mundo; mundo útil sem ele. Será? Apenas mais um, zumbi pelas ruas, trôpego entre os canteiros, fantasma à cerração que já esconde a cidade. Assim localizada, entre morros, não precisa muito para que fique encoberta pelo ar parado, rijo, condensado. E quem para contestá-lo? Já se fora. A fuga ocorrida no dia anterior, naquela rodoviária que conhecera nos seus primeiros anos de vida, quando para lá se mudara com a mãe. Aquela rodoviária que agora não mais quer em sua memória, mas para aonde se dirige. Sem perceber, ou sem querer perceber. Lado direito. Lado esquerdo. Vê sua cabeça descer o morro-da-antena. Eu a observá-lo, tão somente".

(trecho da crônica "O que se fora", de minha autoria, publicada no livro "Jaraguá em crônicas", Design Editora, 2007, pp. 51-52. 46 crônicas de 46 autores. 46 diferentes olhares para a cidade de Jaraguá do Sul/SC).

Í.ta**

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Página 161

Rubens da Cunha propôs a minha seguir a corrente já iniciada:

1) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2) Abrir na página 161;
3) Procurar a 5ª frase completa;
4) Postar essa frase em seu blog;
5) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6) Repassar para outros 5 blogs.

Eis meu acaso:

"- Eu... eu vim saber da menininha, balbuciou".

(Pollyana, de Eleanor H. Porter. Ed. Nacional, 1992).

A proposta segue para: Guilherme P. Mendes, Pedro, CC, Carmem Luísa, Pablo Morenno.

Í.ta**

O que é o amor?

"se perguntar o que é o amor pra mim
não sei responder
não sei explicar
mas sei que o amor nasceu dentro de mim
me fez renascer
me fez despertar

me disseram uma vez
que o danado do amor pode ser fatal
dor sem ter remédio pra curar
me disseram também
que o amor faz bem
e que vence o mal
e até hoje ninguém conseguiu definir
o que é o amor

quando a gente ama brilha mais que o sol
é muita luz
é emoção
(o amor)
quando a gente ama é o clarão do luar
que vem abençoar o nosso amor"

(música: Arlindo Cruz, Maurição, Fred Camacho.
voz: Maria Rita. cd: Samba meu, 2007).

à menina da lua,
com o amor que não se define.

Í.ta**

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

"A taça do mundo é nossa"

"A grande farsa

São lamentáveis os "homens" que só cresceram no tamanho, são os que chamo de estultos... e são tantos... o assunto, leitora, eu o ia deixar passar. Mas não posso deixá-lo passar em brancas nuvens, como se dizia no Bar São Jorge, na Rua do Acampamento, em Santa Maria.Deixar em brancas nuvens seria de certo modo um ato de indiferença ou covardia: é a tal de Copa do Mundo no Brasil. Antes de mais nada, Copa do Mundo é diversão de bobão, de homem que cresceu no tamanho, mas vá lá, que seja, Copa do Mundo...O que me irrita, leitor, sim, leitor, é que começo a ouvir o que sempre quis ouvir e nunca ouvi, gente metida a sebo, políticos, frívolos de todo o tipo, falando em "modernizar" o Brasil para a distante Copa de 2014. Os frívolos e os do "governico" de Brasília dizendo que vão construir estádios, modernizar muitos deles, melhorar a rede hospitalar, investir em segurança pública, hotéis, tudo. E por que não fizeram isso até agora, por que só estão pensando nessa falcatrua agora com a futura sede da Copa por aqui? Será que o povo não sabe que o Pan-Americano foi um fiasco, que o Brasil só ganhou medalhas de segunda, que os americanos não vieram com sua força, será que ninguém sabe que o tal PAN foi orçado em R$ 800 milhões e "eles", os de sempre, gastaram R$ 3 bilhões e tanto...? E ninguém pediu CPI. Ou então eles que viessem desmentir as cifras citadas pelos jornais, que viessem mostrar as "notas fiscais", todas em originais e sem dúvidas de desvios ou mau uso.E agora essa, a tal Copa. Já ouvi idiotas falando em construir trem bala no Brasil, tudo para a Copa. Não temos ônibus que preste e os caras falam em trem bala, nem sabem o que é isso, trens que andam a 500 quilômetros por hora... Isso é para o Japão, que já resolveu seus problemas sociais.Será que durante essa maldita e distante copa os brasileiros pobres vão ser atendidos nos hospitais ou a turma do governico vai deixá-los continuar morrendo nas calçadas, mas garantindo leitos especiais para turistas e com isso enganar o mundo? Será que desta vez vão mesmo despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas como prometeram, e não cumpriram, antes do Pan-Americano?Estão prometendo um Brasil que os brasileiros operários sempre mereceram e nunca tiveram, agora o prometem para o mundo frívolo do futebol local e internacional. E esses caras vão ficar impunes, prometendo até 2014. E ninguém reage. Queremos o Brasil das promessas futuras hoje, não para o futuro remoto e do futebol. Abaixo os levianos. Abaixo o governico".

(Luiz Carlos Prates, DC 02 de novembro de 2007).

**Nada contra a Copa do Mundo de Futebol no país (ou tudo), mas é revoltante perceber que somente em função disso - e dos estrangeiros, que aqui passarão no máximo um mês - o Brasil passará por uma grandiosa reforma em sua estrutura física e, por que não, social. Mais um exemplo de descaso político para com o próprio povo, que, sem perceber tal enganação, demonstrará novamente um patriotismo falso sustentado em bases igualmente falsas e frágeis, com prazo de validade de trinta dias.

Í.ta**

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

ler, somente isso, ler


"Vivi, olhei, li, senti, Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou tão certa, Terás então de ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar, [...]" (SARAMAGO, 2000, p. 77).
sem palavras.
Í.ta**

domingo, 9 de setembro de 2007

Língua e gramática

A língua portuguesa deve passar por algumas alterações em sua estrutura a partir de 2008, caso Portugal ratifique o acordo feito entre Brasil e Cabo Verde em 1994. Este fato propicia uma reflexão sobre o atual ensino da língua portuguesa nas escolas, uma vez que o ensino voltado somente às regras gramaticais que formam a norma culta acabou por tornar-se mais um fator de preconceito e de exclusão social do que um método eficaz de aprendizado.
Acontece de a criança entrar na escola sabendo falar uma língua e, anos depois, sair da escola dizendo que não sabe falar nem escrever. Cada vez mais cabe aos professores a tarefa de mediar junto aos alunos uma reflexão sobre o uso que ambos fazem da própria língua, apresentando-lhes variáveis no falar e no escrever utilizados socialmente. Deve ser relevado o aspecto situacional que caracteriza os momentos de comunicação nos quais interagem os sujeitos falantes de uma língua, também não esquecendo de valorizar o falar natural que cada um traz consigo.
Necessário se faz que aos alunos seja proposta e colocada em prática uma reflexão sobre a diferença que há em saber efetivamente falar uma língua e saber um punhado de regras gramaticais. Deve ser questionada a crença de que aprender uma língua significa somente aprender regras gramaticais (Madeira, 2005). A língua é sinônimo de comunicação, todos os indivíduos possuidores de uma língua conseguem se expressar, seja por meio da escrita, de sinais ou da fala. Segundo Possenti (1996), “todos os que falam sabem falar”, e diferentes formas de se falar não podem significar erros de português.
Imbricada à desconstrução de certos padrões do ensino e do uso da gramática normativa está a valorização por parte do professor ao conhecimento de gramática e de língua que o aluno traz. Enterrar a perspectiva do erro ao falar ou ao escrever também é uma importante atitude por parte do professor, levando o aluno a sentir-se mais seguro do próprio uso da língua e aproveitando para mediar com ele a conscientização de que a maneira como ele (aluno) fala ou escreve não está errada nem supercorreta, que está adequada para determinada situação de comunicação, mas que outras situações de comunicação exigem diferentes formas de se expressar, nem melhor nem pior do que aquela utilizada pelo aluno.
O que se defende é a necessidade de que o aluno aprenda a diferenciar e a produzir um bom texto, coeso e com idéias coerentes. Não um texto correto gramaticalmente, mas precário em sua estrutura de significação.
(texto publicado na edição de 08 de setembro de 2007, pág. 3, do jornal ANotícia - circulação estadual - http://www.an.com.br/2007/set/08/0opi.jsp)
Í.ta**

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

À noite

Outra noite em claro
Sob a lúgubre e misteriosa voz
de um nada.
A cantar pássaros e nuvens carregadas de ódio e solidão.
chuva fina a
acariciar-lhe os dedos
[solitáriA em seu íntimo desejo].

Gélido vento
a entrar pela soleira da porta.
reação instantânea com ela: escuridão sem fim.
Ao amor dera aDeus
A si própriO a sentença
À vida a indiferença
[muito prazer à febre doentia de tudo o que se é].

Queira-se que não seja
Ou se for que seja falsA:
arranhe-lhe o dedo
queime-lhe o coração
não O deixe encontrar a felicidade
no lindo sexo de uma fada
[magia colorida de um sonho eterno]

Ao pé, montanha de algodão.
Ele finge sorrir,
amarelado reflexo de um sol
enjoado;
mera reflexão de uma utopia amorosa.
Visualiza olhos olhares dentes sorrisos
[faces de deus em uma rosa transparente-espinhosa].

Í.ta**
(na talvez vã tentativa de bem escrever uma poesia)

quinta-feira, 19 de julho de 2007

"Sonho Eterno"

"De longe do Brasil tudo toma outro tamanho. Estou em Roma há uma semana, até por isso não consegui escrever na semana passada. Cidade linda, caótica sob alguns aspectos, sua lógica parece estar presente justamente na sua ausência de ordem. Assimétrica, justapõe eras e assim o tempo se desfaz e trai a contagem ordinária e ortodoxa. Daqui assisti a vitória do Brasil sobre a Argentina – acachapante, soberana, incontestável. Vi o jogo na casa de novos amigos, gente gentil e italiana, acolhedora e curiosa sobre as nossas maneiras. Paolo, Cláudio, Ângelo, Fulvio e Francesco; e também os brasileiros Alfredo e André. Os modos são diferentes, a começar pela narração. Não se grita gol, não há a catarse apoteótica do locutor com as veias inflamadas sustentando a nota contínua do grito que celebra o cume atingido. Bola na rede é por si a própria euforia. Tanto impacto visual na paisagem talvez interfira na pouca necessidade da palavra para a descrição do que pode ser visto. O impacto da imagem não precisa da linearidade da frase dita e repetida. Mas a música faz falta. Narracão de futebol é melodia frenética.
Daqui não sei direito mais quem eu era antes de vir pra cá. Tudo mudou, um novo azul o céu coloriu. Diante da possibilidade e do desejo de alcançar a dádiva da transformação pessoal, uma nova paisagem sempre traz às pálpebras resolutas a abertura da incompreensão e a ajuda da fragilidade de ficar em branco perante o desconhecido. Coragem que vem para enfrentar o medo. Ser o mesmo num lugar diferente pode fazer com que a gente encontre dentro da gente aquilo que o tempo encarquilhou e escondeu. E diante do mosaico dos relevos inconstantes, o que antes era pedra, vira pó e o vento sopra e leva adiante. Voa pelo céu que agora não é mais do mesmo azul que era antes. Nenhum azul é igual; muda o olho através do novo olhar.
A necessidade de nos atualizarmos com a nossa própria dúvida, é de importância capital e vital para quem pretende ter o coração permanentemente aquecido. Receber a novidade de um outro paladar, alimenta as papilas gustativas e deixa mais sensual os lábios para a própria boca; respirar a suavidade de um outro perfume refaz o olfato diante dos elos que conectam o cheiro ao cérebro; tocar a pele aveludada com a palma da mão que carrega os dedos calejados pelas seis cordas do violão, toca a alma e na alma nasce o toque do som; ouvir as palavras não ditas através da escrita da respiração que invade & distrai & acalanta & cala o próprio ouvido, transforma a mão numa civilização; ver alguém que se quer bem e sentir o baque do batuque opaco e oco da palpitação, traz aos olhos a certeza de que a imagem quebra o lacre da miséria deserta da solidão quando entram os raios ensolarados da beleza que rasga as frestas da veneziana e aquece o nosso corpo estirado no colchão. Sou feliz e devo isso à ela.
Diante de tantas coisas grandes e graves, coisas leves que despencam pesadas, diante da profundeza que há no mistério da paixão; diante d a força do impacto da arquitetura morta escavada nas pedras, da irrelevância da grossura da tecnologia moderna; diante do medo que surge com o pensamento da falta de movimento que haveria no testamento do sono eterno, e do movimento lento que só o invento do pensamento absurdo e abstrato que é fruto do sonho eterno; diante dela, ajoelhado e deitado em seu colo eu termino: as vezes a vida não precisa mesmo de futebol".

(texto de Nando Reis)

A sensibilidade que me atinge feito luz no escuro. não penso.
para sentir, unicamente.

Í.ta**

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Literatura: representação da vida

A Literatura é vida


Ítalo Puccini - Acadêmico do Centro Universitário de Jaraguá do Sul (Unerj)/italopuccini@yahoo.com.br

O ensino da literatura e de qualquer outra disciplina escolar pressupõe a reflexão, por parte do professor, de sua própria prática educativa, capaz de transferir conceitos e atitudes junto ao leitor, seu educando. Com isso, torna o ensino mais dinâmico e produtivo. Literatura é arte e, como arte, é a manifestação do real e/ou do imaginário, que pode advir ou transformar-se em algo real.
Literatura é vida. É expressão do pensar através da escrita. É criação de sentidos. Todo sentido pede, antes que seja construído, o ato de decifrar o que se tem escrito.Criar sentido para um objeto simbólico significa ler. O leitor que não cria seu sentido próprio não realiza propriamente uma leitura, não passa da decifração de códigos escritos. É com o auxílio do professor que o leitor-aluno poderá ultrapassar o estágio de decifração, vindo a construir seus próprios significados junto aos textos literários com os quais se depara.
Ser leitor é, entre outras ações, falar com o texto, criar e recriar sentidos, relacionar o texto a outros já lidos e a situações vividas (intertextualidade). Ser leitor é também compreender as ideologias presentes em cada texto e o fato de um texto nunca apresentar sentidos completos (incompletude). Para Sartre, sem um leitor, o texto nada mais é do que sinais soltos no papel, uma vez que, conforme Manguel (1997), “é o leitor que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo”.
Logo, formar leitores significa trabalhar para a conscientização do aluno como um sujeito/cidadão crítico, ciente de sua capacidade de dialogar com os textos, crente na relatividade das coisas do mundo, na sua liberdade de interpretação de todo e qualquer objeto simbólico com o qual venha a ter contato.
Nessa perspectiva, o ensino da literatura enseja que o professor tenha consigo uma concepção clara do que seja aprendizagem, e da importância que se dá à linguagem nesse processo, enquanto elemento de mediação da compreensão que se desenvolve com o mundo e consigo mesmo. Esse mesmo ensino abrange diferentes tipos de textos e variadas metodologias, que devem sempre oportunizar ao aluno o direito de falar, de expor sua opinião, de discordar e de concordar, de relacionar as leituras que faz à realidade em que vive, de perceber que não há sentido único e fechado para qualquer texto e, com isso, de que é também produtor de textos, baseado em sua ideologia, constituída socialmente. Dessa forma, pode-se encorajar o aluno-leitor a expandir suas leituras, construindo uma relação mais íntima, curiosa e de encantamento junto aos livros.
Artigo publicado no jornal ANotícia - circulação estadual - de 14/07/2007, p. 3
Í.ta**

sábado, 30 de junho de 2007

sobre a necessidade de escrever



"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.
(...)
Ou não sou um escritor? Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto".
(Clarice Lispector - A hora da estrela - pp. 21-23)
aos meu amigos escritores Rubens da Cunha e Pedro, os quais imagino conhecer pelas suas escritas.
Í.ta**

sábado, 23 de junho de 2007

Consciência

"Tudo o que vive no Universo está movido por uma mesma e única fonte de energia. Em âmbito menor, também o homem conta dentro de si com essa mesma fonte, que se ativa ao pôr-se em contato com a vida universal. Essa fonte de energia é a consciência, única capaz de mover todo o mecanismo psicológico humano e, com isso, os canais do sentimento, que torna os homens grandes, abnegados e nobres".
(Revista "Logosofia", n. 11, p. 3).
Í.ta**

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Aniversário

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,De ser inteligente para entre a família,E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,O que fui de coração e parentesco.O que fui de serões de meia-província,O que fui de amarem-me e eu ser menino,O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...A que distância!...(Nem o acho... )O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,Pondo grelado nas paredes...O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),O que eu sou hoje é terem vendido a casa,É terem morrido todos,É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,Por uma viagem metafísica e carnal,Com uma dualidade de eu para mim...Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .Pára, meu coração!Não penses! Deixa o pensar na cabeça!Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!Hoje já não faço anos.Duro.Somam-se-me dias.Serei velho quando o for.Mais nada.Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..." - Álvaro de Campos

terça-feira, 5 de junho de 2007

Cidadania crítica

Criticidade e consciência não se separam. O sujeito que tem a consciência de si mesmo e da sociedade na qual atua é um sujeito crítico. E justamente é um sujeito crítico por ter a consciência de que através de seu grau de criticidade ele entende a si mesmo e ao mundo à sua maneira, e, a partir desse seu entendimento, faz acontecer nesse próprio mundo. É uma relação em que os elementos são inseparáveis. É o despertar da consciência que faz nascer e se desenvolver numa pessoa o senso crítico. E é o senso crítico que desenvolve nessa pessoa a consciência de si mesma e do mundo no qual ela atua.

Ser cidadão crítico quer significar, primeiramente, uma pessoa ciente de si e do mundo no qual vive. Uma pessoa que sente a si mesma dentre tantos bilhões de pessoas. Uma pessoa ciente de suas responsabilidades, de seu papel atuante em uma sociedade, não só para consigo mesmo, mas, mais importante ainda, para com as outras pessoas com as quais convive. Uma pessoa consciente de que é alguém no mundo, e um alguém que faz a diferença através de sua ação – ação esta que não ocorre senão precedida por um pensamento, este que deveria fazer pesar em balanças diferentes o que de positivo e de negativo pode acarretar tal ação. É a consciência que no ser humano age. É aquele que não aceita somente um ponto de vista, que sabe da existência de variáveis para tudo o que se afirma absoluto, sensível o suficiente para respeitar as diferenças culturais existentes. É aquele que crê na relatividade de tudo o que acontece.

A leitura – esta que, segundo as palavras de Silva (2001), “pode servir como um instrumento que liberta o homem da alienação e abre sua cabeça para enxergar as ideologias que estão por trás das coisas que o cercam” – pode ser apontada como o meio mais eficiente para se alcançar o senso crítico. É ela quem pode fazer surgir no ser humano a consciência da qual ele necessita para situar-se no mundo e se perceber como um cidadão crítico importante e atuante em uma sociedade. O ato de ler – independentemente do como e do o que se lê – está diretamente relacionado ao desenvolvimento da consciência do ser humano como cidadão participante de uma sociedade, dentro da qual ele possui direitos e deveres a cumprir, como também ao desenvolvimento do ser que cria uma ideologia, esta que o faz pensar e agir.

O ser humano, ao fazer uso constante da leitura, passa, com o tempo de prática, a desenvolver em si virtudes e aptidões anteriormente “apagadas”, tudo isso pelo fato de que, ao adotar a leitura como atividade de prática constante em sua vida, ele, ser humano, passa a melhor conhecer-se e a compreender-se, assim como a compreender o mundo e o que realmente quer significar esse ato de ler que ele pratica. Compreensão é fruto de leitura, assim como consciência crítica. Elementos indissociáveis; alimentos do espírito para o humano.
Ítalo Puccini*

* Estudante da 5ª fase do Curso de Letras Licenciatura do Centro Universitário de Jaraguá do Sul – UNERJ.

(publicado no jornal ANotícia de sábado, 02/06/2007, p. 3).

domingo, 20 de maio de 2007

terça-feira, 15 de maio de 2007

domingo, 22 de abril de 2007

memória


"na parede da memória
essa lembrança é o quadro que dói mais".

(Como nossos pais - Belchior.
Na voz de Elis).


Í.ta**

segunda-feira, 2 de abril de 2007

O Jogo do Curinga

“Brigue de prata afunda em mar bravo. Marujo é jogado em ilha que não pára de crescer. Bolso do paletó oculta baralho que iria secar ao sol. Cinqüenta e três cartas fazem companhia durante anos para filho do mestre-vidreiro.
Antes de as cartas perderem a cor, cinqüenta e três anões são forjados na imaginação do marujo solitário. Figuras estranhas dançam na cabeça do Mestre. Quando o Mestre adormece, os anões ganham vida. Numa bela manhã, rei e valete escapam do cárcere da consciência.
Criaturas da imaginação saltam do espaço que cria para o espaço criado. Mágico tira figuras da manga do paletó e elas descobrem que têm vida própria. Criaturas são belas, mas todas perderam a razão, exceto uma. Só o curinga do jogo não se deixa iludir.
Bebida cintilante bloqueia sentidos do Curinga. Curinga cospe bebida cintilante. Sem o soro da mentira, pequeno bobo da corte consegue pensar com clareza. Cinqüenta e dois anos depois, neto do náufrago chega ao povoado.
Verdade está nas cartas. Filho do mestre-vidreiro é logrado pelas criaturas que ele mesmo inventou. Criaturas se rebelam contra o Mestre. Mestre não tarda a morrer pelas mãos dos anões.
Princesa do sol encontra caminho para o mar. Ilha mágica é destruída de dentro para fora. Anões têm cartas ruins. Filho do padeiro foge, antes de o castelo de cartas ruir.
Bobo da corte desaparece entre armazéns sujos. Filho do padeiro foge para as montanhas e se refugia em povoado distante. Padeiro oculta tesouros da ilha mágica. Nas cartas está o que vai acontecer.
Povoado acolhe menino abandonado, que perdeu mãe, vítima de doença. Padeiro lhe oferece bebida cintilante e lhe mostra seus lindos peixes. Menino envelhece e ganha cabelos brancos, mas antes de sua morte aparece soldado infeliz vindo de um país do Norte. Soldado guarda segredo da ilha mágica.
Soldado não sabe que mulher de cabeça raspada ganha um lindo menino. Menino precisa ir para o mar, porque é filho do inimigo. Marujo se casa com bela mulher, que ganha um menino antes de ir para país no Sul a fim de se encontrar. Pai e filho procuram bela mulher, que não consegue se encontrar.
Anão de mãos frias mostra caminho para povoado distante e dá ao menino do país do Norte uma lupa para a viagem. A lupa se encaixa no pedaço de vidro que falta no aquário. Peixinho não revela segredo da ilha, mas pãozinho sim. Homem do pãozinho é soldado do país do Norte.
Verdade sobre avô está nas cartas. O destino é uma cobra faminta que engole a si mesma. O que está dentro da caixa revela o que está fora e o que está fora da caixa revela o que está dentro. O destino é uma couve-flor, que cresce por igual em todas as direções.
Menino entende que homem do pãozinho é seu avô e homem do pãozinho entende que menino do país do Norte é seu neto. Homem do pãozinho fala no tubo mágico e sua voz alcança centenas de milhas. Marujo cospe bebida forte. Bela mulher, que não se encontrou, encontra seu filho querido.
A paciência é uma maldição de família. Há sempre um curinga que não se deixa iludir. Geração se sucedem, mas um bobo da corte, que a engrenagem do tempo é incapaz de engolir, perambula pelo mundo. Quem quer entender o destino, tem de sobreviver a ele”.
Í.ta**
a todos que foram envolvidos por essa história fantástica...

domingo, 25 de março de 2007

"Curinga"



"Há sempre um curinga que não se deixa iludir".

"No caso do curinga é diferente, pois ele veio ao mundo com o defeito de ver coisas demais e de ver todas elas em profundidade!".

("O dia do curinga" - Jostein Gaarder)

Í.ta**

quinta-feira, 22 de março de 2007

Com(s)ciência





"Numa bela manhã, rei e valete escapam do cárcere da consciência".


("O dia do curinga" - Jostein Gaarder)
Í.ta**

segunda-feira, 19 de março de 2007

silêncio


Se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos.


"Se você não se atrasar demais, posso te esperar por toda a minha vida" - Oscar Wilde.
Í.ta**
à lua, com carinho...

domingo, 11 de março de 2007

quinta-feira, 1 de março de 2007

Livros


Livros
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação e um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

(Caetano Veloso 2004, pp. 49-50).
Í.ta**

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

intuir


"Intuindo perguntas irrespondíveis ou respostas imperguntáveis, pressinto e sinto, não imagino, não penso, não faço a menor idéia do que estou vendo na clara evidência da clarividência. E, no entanto, estou vendo para além das idéias e da imaginação. Pois intuir é ver o invísivel".

(Gabriel Perissé. A leitura observada. 2006)


A leitura propicia a intuição – esse algo 'puro risco'. O leitor, ao intuir, passa a caminhar por um novo caminho, ainda não explorado, ainda não imaginado – ainda não intuído por alguém. Passa a andar para trás, indo de encontro a alguma possível razão absoluta pré-determinada. E justamente por andar de costas acabará, esse leitor, esbarrando no que deixou de ver, no que antes ninguém havia visto, por estarem todos andando de frente, sem intuição. Conforme deixou claro Perissé,


"A intuição abre acessos novos e diretos a níveis da realidade que pareciam inexistir (afinal, estávamos de costas para eles!). Ao caminharmos de forma não-costumeira, subitamente podemos sentir o sentido da vida. Não só o meu sentido da vida, ou o sentido da vida do autor, mas o sentido da vida do próprio ser humano. Começamos a tocar aquilo que ainda não alcançamos, porque estávamos nos distanciando dele, na ilusão de que seguíamos na direção correta, no caminhar sempre em frente, considerando o único verdadeiro caminhar progressivo" (2006, p. 16).
Í.ta**

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

um livro...


"Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito".

(PAWEL, apud MANGUEL 1997, p. 113).

Í.ta**
eu também creio nisso.
e sinto isso.

é
tudo
uma questão
de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranquilo.

e eu consigo?


Í.ta**
ao palhaço-Argus (com saudade).

domingo, 4 de fevereiro de 2007

"Vambora"


"ainda tem o seu perfume pela casa
ainda tem você na sala
porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro
dentro de um livro
nas cinzas das horas".

(Adriana Calcanhoto)

Í.ta**
à lua

domingo, 28 de janeiro de 2007

Tempo perdido III


"Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas -
agora.

O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguem prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão jovens
Tão jovens".
(R.Russo)

Í.ta**

sábado, 27 de janeiro de 2007

Tempo perdido II


"Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos.
Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo".
(R.Russo)

Í.ta**

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Tempo perdido I


"Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo
.

Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder.

Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem
E selvagem
E selvagem".
(R.Russo)

Í.ta**

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

rabiscos


o sentido da vida é o próprio sentir: o azul, a grama, o vento, o SER, o lençol, a lágrima, o riso. explicar o sentir, quanto mais o sentido da vida, é ofensa à própria vida e ao próprio sentimento. pois nada mais puro que o sentir do calor de um beijo, do frio de um "adeus"; nada mais rígido e incompreensível que o EXPLICAR do SENTIR.
(...)
como lâmina a beijar-lhe a face, a mão dela. como ácido com gosto de líquido açucarado, o beijo dela. ilusões tortas-torcidas-tortuosas.
(...)
sentira, durante todo o longo dia, vontade de esvaziar ainda mais seu Ser. tentara chorar: lutara em vão contra si mesmo. isolado pensara. isolado sentira. isolado isolara-se. e sozinho falara. e abraçara a si mesmo. beijara o próprio corpo. amara e gozara sob si. sentira-se: um ato de Ser e sentir. o quanto dali restara até hoje é mistério em um coração puro. apenas, sentira. e sentindo deixara de pensar, e não pensando aceitara o que sentia. dara voltas em si mesmo, mas, sem a pretensão do céu, encontrara-se, a cada volta, renovado. a pureza da alma encobrindo-lhe do frio e da dor, ganhando externamente seu Ser, abrigando-o numa singela rede de um abrigo: o amor.

Í.ta**

corpos

"os lábios se tocaram ásperos
em beijos de tirar o fôlego
tímidos tranzaram trôpegos
e ávidos gozaram rápido".

("formato mínimo")

Í.ta**
à lua.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

surpresa

ele chegou junto ao ouvido dela
e disse -
num suspiro que a arrepiou
TODA:

- o que eu mais quero é ficar COM VOCÊ.

Í.ta**
à lua

domingo, 14 de janeiro de 2007

Amor

"Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é". - Martha Medeiros.

(trecho extraído da crônica "As razões que o amor desconhece" (1998), presente no livro "Trem-bala", 2006. p. 100).

Í.ta**

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Formato mínimo

"Começou de súbito
A festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima.

Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo.

Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido.

Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida.

O medo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito
Desenhou-se a história trágica.

Ele, enfim, dormiu apático
Na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida
Feita do desejo, a vítima.

Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico
Transformado em jogo cínico.

Para ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico
Da triste solidão, a rúbrica".

(Composição: Samuel Rosa - Rodrigo F. Leão)

**somente ouvindo-a para senti-la intensamente.
Atenção à última palavra de cada verso.
A paixão pode-se revelar nos mínimos detalhes.
Quando menos se espera - e se quer - ela golpeia.

Í.ta**

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Ilusão


"Só uma ironia muito negra pretenderia fazer crer que alguém é realmente bem-vindo a este mundo, o que não contradiz a evidência de alguns se acharem bem instalados nele".

(José Saramago - História do Cerco de Lisboa)

Í.ta**

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

SER

Não me obrigo a ser
NINGUÉM
Além daquele que sou:
SER ilusório;
Visão precipitada: precipício
de uma própria vida.

Às vezes me entrego ao desejo
de ser corpo.
Às vezes refugio-me em meu
espírito
Sou a companhia
da alma que me grita.

Crio raízes em pântanos-terra
Na lama tomo meu banho
Entre espinhos me escondo
Sinto-me perdido em palavras traiçoeiras.

Cuspo versos que me clamam liberdade
Contradição:
São eles quem me sufocam
São eles quem me aliviam (mesmo que fugazmente).

Atropelo tempo, calendário e buracos-negros
Me engasga a solidão que me torna presa
- de minha própria MENTE
Nos escombros deparo-me com pedaços que são meus.

Í.ta**

(Nada te cura senão tu mesmo - Nietzsche).

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Pais e filhos



"Sou uma gota d'água.

Sou um grão de areia.

Você me diz que seus
pais não entendem
Mas você não entende
seus pais".

(R.Russo)

Í.ta**